Independentemente do que você esteja pensando agora, por trás desse pensamento tem uma musiquinha, não tem? De pano de fundo, como quem não quer nada. Às vezes uma, depois outra. Tem dias em que rola uma faixa só, teimosamente. Você até quer passar pra outra, mas o cérebro não deixa. O programador da Sinapse FM resolveu que aquele é o dia daquela música, e não há jabá que o faça mudar de idéia.
Ocorre também da música não ter nada a ver com você, muito menos com seu estado de espírito naquela hora. Mas gruda como chiclete nos neurônios. É quando você se pega cantarolando o prefixo do Programa da Xuxa, sem saber por que cargas d’água, no meio de uma reunião da firma.
Meu DJ mental é um cara eclético, mas acima de tudo beatlemaníaco. Assumido e incorrigível. Colocar Beatles no aparelho de som pra mim é redundância - as mais de duzentas músicas deles eu assovio o tempo todo. É o que se pode chamar de original soundtrack biológico, você escuta uma vez e a coisa passa a fazer parte do seu DNA. Tocou na entrada do meu casamento e quero que toque no meu enterro, mesmo não estando mais lá pra escutar.
Acontece algo que me deixa feliz e a Rádio Miolo ataca de “I want to hold your hand”. Se falta coragem não falta “Hey Jude”, a fabulosa injeção de ânimo que o velho Macca fez para o filho do John. Um momento de reflexão e tiro da cachola “Julia”, “Because”, “Across the Universe”. Se quero meditar, a lavra do George Harrison é um mantra só, do começo ao fim. Pronto pra levar à Índia numa sentada, de preferência em posição de lótus.
Porém nem tudo é Beatles, embora quase tudo seja. E de repente se abre o inesgotável baú dos mineiros. Só de Beto Guedes tem pelo menos umas 20 músicas no hit parade pessoal: “Tesouro da Juventude”, “Noite sem Luar”, “Sol de Primavera”, “Maria Solidária”, não há o que ainda possa ser dito dessas coisas, são os profetas do Aleijadinho em forma musical. Valem todo o ouro das Gerais.
Chico é a próxima parada do dial. “Meus Caros Amigos”, com “O que será” e “Mulheres de Atenas”, ou aquele outro disco com um Buarque pra lá do terceiro uísque, fotografado à frente de uma samambaia, que tem “Cálice” e “Trocando em miúdos”. Em outra estação, mas na mesma freqüência, Caetano e o eterno espanto de “Bicho”, “Jóia”, “Muito”, de um “Cinema Transcendental” que transcende “Qualquer Coisa”. Trilhas de uma época em que não se falava de música de trabalho, exposição à mídia, shows privê no Golden Room do Copa, interesses multinacionais.
Vamos aos clássicos. A Quarta balada de Chopin, alguns trechos de Tristão e Isolda, os Brandenburgos de Bach, o concerto para piano de Rachmaninov. Tudo isso em deliciosa ciranda no toca-discos interno. Vira e mexe esses monumentos reaparecem, virando e mexendo com a gente, tocando sem que seja preciso levantar da cadeira, caçar o disco na estante e ligar o player.
O que acaba acontecendo é que eu coloco pra tocar só os mais novos. O tido e havido como “diferente”, que vai surgindo. E ouço a fim, muito a fim de ser pego de surpresa, arrebatado com algo demolidor. É pena, mas essa primeira audição quase sempre acaba sendo a última.
Então volto ao meu flash-back. Som na caixa craniana, graves e agudos equalizados. No repertório, só as dez mais de todos os tempos. Sem correr o risco de incomodar o vizinho e economizando energia elétrica.
Sunday, May 21, 2006
Saturday, May 20, 2006
O CESSAR DAS SESSÕES
Fiz análise durante um certo tempo, por motivo que não vem ao caso expor aqui. Esse certo tempo na verdade não chegou a 3 meses, o suficiente para que eu me desse alta – embora estivesse pior que no início das sessões. Bem pior, descrente da panacéia freudiana e de mim mesmo, me achando um caso perdido.
Era uma sessão semanal, às sextas e após o trabalho. Rua tranqüila, lugar gostoso, consultório aconchegante. A iluminação indireta, só um abajur com uma lâmpada fraquinha. Sentia-me confortável com o chenile do divã e com a perspectiva de 50 longos minutos para um trato nos miolos. O único problema era justamente esse – os tais 50 minutos cravados eram longos demais. O que para os outros pacientes passava voando, para mim parecia todo o período paleozóico.
O analista seguia a linha ortodoxa, freudiano até a medula. E como todo discípulo empedernido do velho Sigmund, se agarrava aos sonhos, lapsos e associações livres pra ir formando o quebra-cabeças. Nesse caso, o monta-cabeças... Tudo poderia e deveria ser usado como fio de meada para os labirintos insondáveis do inconsciente.
Mas o fato é que o homem não abria a boca. Se havia uma análise em curso naquelas quatro paredes só ele sabia, porque absolutamente não compartilhava com a outra parte interessada. Com receio de perguntar, eu também ficava quieto.
Tenho relativa facilidade de não pensar em nada, quando me é possível desfrutar dessa benção. Tanto que no começo achava bom ficar ali, como um acéfalo, os olhos pregados no teto. Só que tudo tem limite. O tempo passando, o taxímetro correndo e eu olhando aqueles certificados todos na parede. As letras góticas com o nome do doutor. A diferença de desenho do D de um diploma para o D de outro. Um em tinta dourada, outro em nanquim, o de graduação de 1972, o de especialização de 1977, o de mestrado de 1979...
Tomei a iniciativa:
- O senhor não vai dizer nada?
- Quem tem de falar é você.
- Mas vou falar o quê?
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
Dizer que eu estava pensando na letra gótica do diploma era demais. Ou de menos. Nem a mais fútil das dondocas poderia se entreter com tamanha banalidade. Mas era a verdade, caramba. Eu pagando uma senhora grana para ficar viajando nas firulas e arabescos de um diploma.
Fechava os olhos e nada. Do nada branco passava para um nada negro e sem saída. E o analista impassível, virado de costas pra mim, cruzando e descruzando as pernas. Aquele silêncio era uma goteira dentro da solitária, uma furadeira de impacto me perfurando os tímpanos.
Outro pensamento recorrente, mas inconfessável naquelas circunstâncias: o que ele, analista, estaria pensando? Conjectura sobre o meu silêncio? Fica ali, caraminholando, empenhado em me livrar de minhas neuroses, ou não vê a hora de dar o tempo regulamentar pra pegar seu cineminha?
Me dei conta de que, além de estar pensando no que estava pensando, estava começando a pensar no que o analista estava pensando de mim. Racionalizava o processo, filtrava, censurava, estragava tudo.
E assim foi, não sei quantas vezes. Os brancos eram cada vez maiores. Vinte, trinta, quarenta minutos sem falar nada. O último deve ter durado uns quarenta e sete, porque logo depois ele me mandou embora.
Se bem me lembro, os três minutos finais foram mais ou menos assim:
- Fala alguma coisa, doutor. Não agüento mais esse silêncio.
Pela enésima vez, ele argumentou:
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
- Estava pensando na música que tocava no rádio enquanto vinha pra cá.
- E você gosta dessa música?
- Detesto.
- Certo. Que mais?
- Sei lá... o que me ocorre agora é que vou ter que comer um hambúrguer pra matar a fome quando sair daqui.
- Hum. Sei, sei.
E sentenciou, depois de longa pausa:
- Talvez o que você encontre aqui não lhe soe bem aos ouvidos, nem lhe caia bem no estômago.
Acertou na mosca. Pra mim bastava, meus fantasmas não eram tão assustadores assim. Encontraria formas mais econômicas de praticar meditação.
- Seus 50 minutos acabaram. Até sexta que vem.
- Até, doutor.
Tá lá me esperando, desde 1992.
Era uma sessão semanal, às sextas e após o trabalho. Rua tranqüila, lugar gostoso, consultório aconchegante. A iluminação indireta, só um abajur com uma lâmpada fraquinha. Sentia-me confortável com o chenile do divã e com a perspectiva de 50 longos minutos para um trato nos miolos. O único problema era justamente esse – os tais 50 minutos cravados eram longos demais. O que para os outros pacientes passava voando, para mim parecia todo o período paleozóico.
O analista seguia a linha ortodoxa, freudiano até a medula. E como todo discípulo empedernido do velho Sigmund, se agarrava aos sonhos, lapsos e associações livres pra ir formando o quebra-cabeças. Nesse caso, o monta-cabeças... Tudo poderia e deveria ser usado como fio de meada para os labirintos insondáveis do inconsciente.
Mas o fato é que o homem não abria a boca. Se havia uma análise em curso naquelas quatro paredes só ele sabia, porque absolutamente não compartilhava com a outra parte interessada. Com receio de perguntar, eu também ficava quieto.
Tenho relativa facilidade de não pensar em nada, quando me é possível desfrutar dessa benção. Tanto que no começo achava bom ficar ali, como um acéfalo, os olhos pregados no teto. Só que tudo tem limite. O tempo passando, o taxímetro correndo e eu olhando aqueles certificados todos na parede. As letras góticas com o nome do doutor. A diferença de desenho do D de um diploma para o D de outro. Um em tinta dourada, outro em nanquim, o de graduação de 1972, o de especialização de 1977, o de mestrado de 1979...
Tomei a iniciativa:
- O senhor não vai dizer nada?
- Quem tem de falar é você.
- Mas vou falar o quê?
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
Dizer que eu estava pensando na letra gótica do diploma era demais. Ou de menos. Nem a mais fútil das dondocas poderia se entreter com tamanha banalidade. Mas era a verdade, caramba. Eu pagando uma senhora grana para ficar viajando nas firulas e arabescos de um diploma.
Fechava os olhos e nada. Do nada branco passava para um nada negro e sem saída. E o analista impassível, virado de costas pra mim, cruzando e descruzando as pernas. Aquele silêncio era uma goteira dentro da solitária, uma furadeira de impacto me perfurando os tímpanos.
Outro pensamento recorrente, mas inconfessável naquelas circunstâncias: o que ele, analista, estaria pensando? Conjectura sobre o meu silêncio? Fica ali, caraminholando, empenhado em me livrar de minhas neuroses, ou não vê a hora de dar o tempo regulamentar pra pegar seu cineminha?
Me dei conta de que, além de estar pensando no que estava pensando, estava começando a pensar no que o analista estava pensando de mim. Racionalizava o processo, filtrava, censurava, estragava tudo.
E assim foi, não sei quantas vezes. Os brancos eram cada vez maiores. Vinte, trinta, quarenta minutos sem falar nada. O último deve ter durado uns quarenta e sete, porque logo depois ele me mandou embora.
Se bem me lembro, os três minutos finais foram mais ou menos assim:
- Fala alguma coisa, doutor. Não agüento mais esse silêncio.
Pela enésima vez, ele argumentou:
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
- Estava pensando na música que tocava no rádio enquanto vinha pra cá.
- E você gosta dessa música?
- Detesto.
- Certo. Que mais?
- Sei lá... o que me ocorre agora é que vou ter que comer um hambúrguer pra matar a fome quando sair daqui.
- Hum. Sei, sei.
E sentenciou, depois de longa pausa:
- Talvez o que você encontre aqui não lhe soe bem aos ouvidos, nem lhe caia bem no estômago.
Acertou na mosca. Pra mim bastava, meus fantasmas não eram tão assustadores assim. Encontraria formas mais econômicas de praticar meditação.
- Seus 50 minutos acabaram. Até sexta que vem.
- Até, doutor.
Tá lá me esperando, desde 1992.
Monday, May 01, 2006
TESTAMENTO DE HYPÓLITO RUFINO PEIXOTO
Eu, Hypólito Rufino Peixoto, no gozo de meus direitos e de minhas plenas faculdades mentais, com o intuito de coibir litígios e desavenças acerca do meu espólio, venho de livre e espontânea vontade, por meio deste instrumento, deixar disposta a partilha a meu gosto, conforme abaixo descrito.
À Justina, companheira abnegada e fiel em minha longa enfermidade, deixo uma imensa gratidão, todo o meu afeto, o São Francisco de gesso que fica no corredor, o monóculo com a Nossa Senhora Aparecida, a certidão de casamento e o retrato da lua-de-mel em Poços de Caldas.
Ao meu cunhado Leléu, tido e havido nesta terra como um burro pronto e acabado, deixo minha sela e respectivo arreio, que lhe cairão bem sobre o lombo. À minha irmã Cinira, que gastou a vida a serviço desse viciado em truco, lego rédea e um par de esporas, já que um burro com livre arbítrio é a pior das ameaças à sociedade organizada.
À minha sogra, junto a quem tenho tantas dívidas morais e espirituais, transmito também as dívidas materiais – as já vencidas, as presentes e as que doravante venham a surgir em meu nome, seja como compromissário ou como avalista.
Não abandonarei à própria sorte aqueles que as más línguas chamam de “frutos de união carnal espúria”, ou seja, os bastardinhos que espalhei por essas plagas. Saibam todos que o seu genitor não lhes negará o amparo e o devido quinhão, ainda que hipotecado, na forma de um alqueire e meio de capim-napiê (Pennisetum purpureum), cultivados no sítio.
O celular pré-pago, juntamente com os R$ 4,36 de crédito remanescente, fica para meu capataz Onofre. Uma liberalidade de minha parte para recompensá-lo pelos valorosos préstimos ao longo de 38 anos. Ele que ouviu de mim tantos desaforos, xingamentos intempestivos e acusações levianas, agora merece falar um pouco.
Quanto ao aquário da sala, alvo certo de acirrada disputa, proponho aos herdeiros que amigavelmente se dêem mútua quitação da seguinte forma: Justina fica com os peixes ornamentais, Cinira com a bombinha de ar, Onofre com o filtro, Leléu com o recipiente de vidro e os bastardos com os pedriscos que ficam no fundo.
OUTROS BENS E HAVERES
Suínos e bovinos
Três gomos de lingüiça (de procedência insuspeita e com carimbo do SIF), dois quilos e meio de carne de segunda e mais meia panela de coxão duro duplamente moído, que estão no gavetão de baixo do freezer. Façam disso o melhor e mais rápido proveito que puderem.
Aplicações
Inseticidas, fungicidas e fertilizantes devem continuar sendo aplicados na minha hortinha de almeirão e couve, à proporção de 1:1000. O pulverizador encontra-se na tulha, e não compõe este testamento por estar com a tampa do tanque girando em falso.
Ações
Tanto a ação de despejo, da qual minha família será vítima devido aos aluguéis atrasados, quanto as ações trabalhistas, provavelmente a serem movidas pelo Onofre e seus subordinados, deverão ser administradas pelo meu advogado – que para tanto será regiamente remunerado pela providência divina, em encarnação vindoura.
Grãos estocados em minha propriedade
Uma embalagem de milho para pipoca da marca Yoki, com prazo de validade a esgotar-se em 25 do corrente.
Um tupperware rachado transversalmente, acondicionado em geladeira, contendo feijão preparado na véspera da elaboração deste documento.
Ambos os bens serão partilhados igualmente entre meus herdeiros, legítimos e ilegítimos, em frações ideais de 1/35 (um trinta e cinco avos) para cada um, com escritura definitiva lavrada e registrada em cartório.
Coleções
Todos os meus gibis, do Carlos Zéfiro e do Cebolinha, as Seleções do Reader’s Digest de 1945 a 1961 e os Almanaques do Biotônico Fontoura deverão ser catalogados por bibliotecário habilitado e experiente. Em seguida, esse rico acervo deverá compor a “Fundação Hypólito Rufino Peixoto”, entidade que terá como missão o fomento cultural em nossa região.
Por fim, meu último porém não menos valioso bem: Edileuza, enteada do Zózimo da botica. Teúda e manteúda desde as quartas-de-final da Copa de 70, com casa montada e conta no armazém, não pode ficar à míngua de uma hora para outra. Todos os meus demais pertences, aqui não arrolados, passam com o meu falecimento às suas mãos.
Perdão, Justina, pela fabulosa e imerecida galharia que fiz brotar em sua cabeça, mas não soube refrear os meus instintos frente a tão roliça criatura. Agora está tudo às claras, não há mais nada a esconder. Mas assim como não se chuta cachorro morto, também não se estapeia defunto, Justina. Releve e viva em paz o resto dos seus dias.
À Justina, companheira abnegada e fiel em minha longa enfermidade, deixo uma imensa gratidão, todo o meu afeto, o São Francisco de gesso que fica no corredor, o monóculo com a Nossa Senhora Aparecida, a certidão de casamento e o retrato da lua-de-mel em Poços de Caldas.
Ao meu cunhado Leléu, tido e havido nesta terra como um burro pronto e acabado, deixo minha sela e respectivo arreio, que lhe cairão bem sobre o lombo. À minha irmã Cinira, que gastou a vida a serviço desse viciado em truco, lego rédea e um par de esporas, já que um burro com livre arbítrio é a pior das ameaças à sociedade organizada.
À minha sogra, junto a quem tenho tantas dívidas morais e espirituais, transmito também as dívidas materiais – as já vencidas, as presentes e as que doravante venham a surgir em meu nome, seja como compromissário ou como avalista.
Não abandonarei à própria sorte aqueles que as más línguas chamam de “frutos de união carnal espúria”, ou seja, os bastardinhos que espalhei por essas plagas. Saibam todos que o seu genitor não lhes negará o amparo e o devido quinhão, ainda que hipotecado, na forma de um alqueire e meio de capim-napiê (Pennisetum purpureum), cultivados no sítio.
O celular pré-pago, juntamente com os R$ 4,36 de crédito remanescente, fica para meu capataz Onofre. Uma liberalidade de minha parte para recompensá-lo pelos valorosos préstimos ao longo de 38 anos. Ele que ouviu de mim tantos desaforos, xingamentos intempestivos e acusações levianas, agora merece falar um pouco.
Quanto ao aquário da sala, alvo certo de acirrada disputa, proponho aos herdeiros que amigavelmente se dêem mútua quitação da seguinte forma: Justina fica com os peixes ornamentais, Cinira com a bombinha de ar, Onofre com o filtro, Leléu com o recipiente de vidro e os bastardos com os pedriscos que ficam no fundo.
OUTROS BENS E HAVERES
Suínos e bovinos
Três gomos de lingüiça (de procedência insuspeita e com carimbo do SIF), dois quilos e meio de carne de segunda e mais meia panela de coxão duro duplamente moído, que estão no gavetão de baixo do freezer. Façam disso o melhor e mais rápido proveito que puderem.
Aplicações
Inseticidas, fungicidas e fertilizantes devem continuar sendo aplicados na minha hortinha de almeirão e couve, à proporção de 1:1000. O pulverizador encontra-se na tulha, e não compõe este testamento por estar com a tampa do tanque girando em falso.
Ações
Tanto a ação de despejo, da qual minha família será vítima devido aos aluguéis atrasados, quanto as ações trabalhistas, provavelmente a serem movidas pelo Onofre e seus subordinados, deverão ser administradas pelo meu advogado – que para tanto será regiamente remunerado pela providência divina, em encarnação vindoura.
Grãos estocados em minha propriedade
Uma embalagem de milho para pipoca da marca Yoki, com prazo de validade a esgotar-se em 25 do corrente.
Um tupperware rachado transversalmente, acondicionado em geladeira, contendo feijão preparado na véspera da elaboração deste documento.
Ambos os bens serão partilhados igualmente entre meus herdeiros, legítimos e ilegítimos, em frações ideais de 1/35 (um trinta e cinco avos) para cada um, com escritura definitiva lavrada e registrada em cartório.
Coleções
Todos os meus gibis, do Carlos Zéfiro e do Cebolinha, as Seleções do Reader’s Digest de 1945 a 1961 e os Almanaques do Biotônico Fontoura deverão ser catalogados por bibliotecário habilitado e experiente. Em seguida, esse rico acervo deverá compor a “Fundação Hypólito Rufino Peixoto”, entidade que terá como missão o fomento cultural em nossa região.
Por fim, meu último porém não menos valioso bem: Edileuza, enteada do Zózimo da botica. Teúda e manteúda desde as quartas-de-final da Copa de 70, com casa montada e conta no armazém, não pode ficar à míngua de uma hora para outra. Todos os meus demais pertences, aqui não arrolados, passam com o meu falecimento às suas mãos.
Perdão, Justina, pela fabulosa e imerecida galharia que fiz brotar em sua cabeça, mas não soube refrear os meus instintos frente a tão roliça criatura. Agora está tudo às claras, não há mais nada a esconder. Mas assim como não se chuta cachorro morto, também não se estapeia defunto, Justina. Releve e viva em paz o resto dos seus dias.
Sunday, April 23, 2006
PASTORAL
Pasta o verde da fazenda no amendoal dos teus olhos. Lavoro onírico, delírio que toma corpo e afronta o cansaço-cão. O trem da Mogiana vem chegando e descarrila ao topar com teus desvios. Bifurcadora de sinas, segues gestando tornados. O sol a pedir licença pra se pôr em tua figura. Não há átomo no cosmo que, ao pressentir tua passagem, não fique tomado de espanto e seja teu servo devoto.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no meio daquilo tudo que nos aconteceria.
Evoca, da tua parte, esse tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não, não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.
Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te sonhar também.
Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja "sim", começa que eu acompanho.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no meio daquilo tudo que nos aconteceria.
Evoca, da tua parte, esse tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não, não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.
Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te sonhar também.
Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja "sim", começa que eu acompanho.
Saturday, April 22, 2006
SUPERMERCADO VOLTE SEMPRE
Não tarda e chega de novo a hora dela: a compra de supermercado.
Lá vão os dois. No caminho, o marido vai pensando na série interminável de procedimentos à espera: da prateleira para o carrinho, do carrinho para o caixa, do caixa para o carrinho de novo (com tudo já nas sacolinhas), do carrinho para o porta-malas, do porta-malas para o carrinho do prédio, do carrinho do prédio para a despensa de casa. Haja saco e saquinho de supermercado. Aliás, esses sim, resistem a tudo. Se você colocar mais que uma pasta de dente em cada um, a alça arrebenta.
É assim há 20 anos, todo santo dia 15, a melhor data para a fatura do cartão. Multiplicando-se os 20 anos por 12, temos a fantástica cifra de 240 compras de mês no decorrer do período.
Chegaram. É claro que o carrinho deles tem a roda enguiçada, que fica puxando pra um lado. Enquanto está vazio, tudo bem, quase não dá pra notar o incômodo. Mas à medida que o carrinho vai enchendo, o manobrista vai se enchendo junto. Com o peso das compras, é uma ginástica mantê-lo alinhado.
Um carrinho vazio de supermercado nunca está vazio de tudo. Há sempre um raminho de brócolis esmagado, uma etiqueta de sutiã 54 e outras coisinhas do gênero, que podemos chamar de restos mortais da batalha anterior. Às vezes tem também a lista de compras da pessoa que usou o carrinho antes de você. Aquela listinha bem caseira, dobrada em quatro. Os ítens encontrados estão ticados ou riscados. Pode ser o contrário – o que está na lista é o que ainda tem em casa, pra lembrar de não comprar. Uma dica: se você estiver sem sua listinha pessoal, leia a do usuário anterior. Talvez você se lembre de alguma coisa que tinha esquecido.
Exemplo de lista típica, de autor anônimo:
Guardanapo – trazer 4 do + barato.
Pó de café – ñ comprar.
Bolacha de recheio – tem 2
Pipoca de microondas – pegar aquela do palhacinho, ñ lembro a marca.
E por aí vai. São todas mais ou menos assim.
O locutor anuncia uma oferta relâmpago. Ela lembra quando, em 1992, quase testemunhou o soterramento de uma velhinha num quiosque promocional de leite condensado. No empurra-empurra, entornaram a anciã no mar de latinhas, com as pernas pra cima e as anáguas à mostra.
Olha pra um lado, olha pro outro, ninguém está vendo. E ele devolve o Detefon Mata-Tudo na gôndola do grão-de-bico. Quem não faz isso? Mês passado ele encontrou um par de Havaianas tamanho 41 em cima de um filé de merluza, em oferta a 9,90 o quilo.
Por mais unido que seja, há o momento da separação do casal no supermercado, na seção de cosméticos. Ali a mulher vai passar pelo menos 45 minutos. Sabendo o tempo que vai perder, ele vai para aquele corredor perto das rações de cachorro, onde tem broca, estopa, cera automotiva e chave de fenda. É o habitat do macho de bermuda, camiseta regata, chinelão e barba por fazer. Enfim, um “amor” de homem.
Fim das compras, resta pegar a fila do caixa. Todas estão mais ou menos do mesmo tamanho, é preciso escolher uma. Meia hora depois eles percebem que é justamente essa uma que não anda. Todas as filas vão de vento em popa, menos a deles. É quando eles reparam no crachá da funcionária: “Em Treinamento”. Tá explicado. Azar, agora é tarde pra entrar em outra fila.
Enquanto um vai colocando as coisas na esteira, o outro vai embalando. Mas aí a patroa lembra: “Nossa, esqueci o rodo!”
Que legal. Nada mais prático pra embalar e pra enfiar depois dentro do carro. Lá vai o maridão correndo feito um fugitivo da polícia, atrás do rodo esquecido. Chega lá e se depara com 16 tipos de rodos diferentes: com cabo de madeira, sem cabo de madeira, de alumínio, com borracha grande, com borracha pequena, com duplo borrachão, com triplo borrachão e exclusiva fita deslizante. Pega o que parece mais apresentável e nem olha o preço – a fila está parada, esperando por ele.
Mais surpresas. A água sanitária vazou bem em cima da baguete. O coalho do queijo fresco encharcou o sabão em pó. A cartela de danoninho, que estava lá no fundo, foi impiedosamente massacrada por uma PET Xereta de 2 litros. Acionado o fiscal do estabelecimento, o marido explica a história, diz que não foi culpa dele. Em vão. Vai ter que pagar pelo que fez e que não vai comer. E o pior é que deu perda total, não se salvou uma colherinha do iogurte.
Na saída, cadê o carro? A3, C5, B4? Ficam zanzando a esmo pelo labirinto de automóveis. Encontrado o Corcelzinho, guardam as compras e chegam à cancela.
- Benhê, o cartão do estacionamento.
- Ué, pensei que estava com você...
Inspeção no porta-luvas, embaixo dos bancos, no pára-sol, nos bolsos, na bolsa...
Pensa que acabou? Imagina. É como diz o saquinho – “Volte Sempre”. Dia 15 do mês que vem tem mais.
Lá vão os dois. No caminho, o marido vai pensando na série interminável de procedimentos à espera: da prateleira para o carrinho, do carrinho para o caixa, do caixa para o carrinho de novo (com tudo já nas sacolinhas), do carrinho para o porta-malas, do porta-malas para o carrinho do prédio, do carrinho do prédio para a despensa de casa. Haja saco e saquinho de supermercado. Aliás, esses sim, resistem a tudo. Se você colocar mais que uma pasta de dente em cada um, a alça arrebenta.
É assim há 20 anos, todo santo dia 15, a melhor data para a fatura do cartão. Multiplicando-se os 20 anos por 12, temos a fantástica cifra de 240 compras de mês no decorrer do período.
Chegaram. É claro que o carrinho deles tem a roda enguiçada, que fica puxando pra um lado. Enquanto está vazio, tudo bem, quase não dá pra notar o incômodo. Mas à medida que o carrinho vai enchendo, o manobrista vai se enchendo junto. Com o peso das compras, é uma ginástica mantê-lo alinhado.
Um carrinho vazio de supermercado nunca está vazio de tudo. Há sempre um raminho de brócolis esmagado, uma etiqueta de sutiã 54 e outras coisinhas do gênero, que podemos chamar de restos mortais da batalha anterior. Às vezes tem também a lista de compras da pessoa que usou o carrinho antes de você. Aquela listinha bem caseira, dobrada em quatro. Os ítens encontrados estão ticados ou riscados. Pode ser o contrário – o que está na lista é o que ainda tem em casa, pra lembrar de não comprar. Uma dica: se você estiver sem sua listinha pessoal, leia a do usuário anterior. Talvez você se lembre de alguma coisa que tinha esquecido.
Exemplo de lista típica, de autor anônimo:
Guardanapo – trazer 4 do + barato.
Pó de café – ñ comprar.
Bolacha de recheio – tem 2
Pipoca de microondas – pegar aquela do palhacinho, ñ lembro a marca.
E por aí vai. São todas mais ou menos assim.
O locutor anuncia uma oferta relâmpago. Ela lembra quando, em 1992, quase testemunhou o soterramento de uma velhinha num quiosque promocional de leite condensado. No empurra-empurra, entornaram a anciã no mar de latinhas, com as pernas pra cima e as anáguas à mostra.
Olha pra um lado, olha pro outro, ninguém está vendo. E ele devolve o Detefon Mata-Tudo na gôndola do grão-de-bico. Quem não faz isso? Mês passado ele encontrou um par de Havaianas tamanho 41 em cima de um filé de merluza, em oferta a 9,90 o quilo.
Por mais unido que seja, há o momento da separação do casal no supermercado, na seção de cosméticos. Ali a mulher vai passar pelo menos 45 minutos. Sabendo o tempo que vai perder, ele vai para aquele corredor perto das rações de cachorro, onde tem broca, estopa, cera automotiva e chave de fenda. É o habitat do macho de bermuda, camiseta regata, chinelão e barba por fazer. Enfim, um “amor” de homem.
Fim das compras, resta pegar a fila do caixa. Todas estão mais ou menos do mesmo tamanho, é preciso escolher uma. Meia hora depois eles percebem que é justamente essa uma que não anda. Todas as filas vão de vento em popa, menos a deles. É quando eles reparam no crachá da funcionária: “Em Treinamento”. Tá explicado. Azar, agora é tarde pra entrar em outra fila.
Enquanto um vai colocando as coisas na esteira, o outro vai embalando. Mas aí a patroa lembra: “Nossa, esqueci o rodo!”
Que legal. Nada mais prático pra embalar e pra enfiar depois dentro do carro. Lá vai o maridão correndo feito um fugitivo da polícia, atrás do rodo esquecido. Chega lá e se depara com 16 tipos de rodos diferentes: com cabo de madeira, sem cabo de madeira, de alumínio, com borracha grande, com borracha pequena, com duplo borrachão, com triplo borrachão e exclusiva fita deslizante. Pega o que parece mais apresentável e nem olha o preço – a fila está parada, esperando por ele.
Mais surpresas. A água sanitária vazou bem em cima da baguete. O coalho do queijo fresco encharcou o sabão em pó. A cartela de danoninho, que estava lá no fundo, foi impiedosamente massacrada por uma PET Xereta de 2 litros. Acionado o fiscal do estabelecimento, o marido explica a história, diz que não foi culpa dele. Em vão. Vai ter que pagar pelo que fez e que não vai comer. E o pior é que deu perda total, não se salvou uma colherinha do iogurte.
Na saída, cadê o carro? A3, C5, B4? Ficam zanzando a esmo pelo labirinto de automóveis. Encontrado o Corcelzinho, guardam as compras e chegam à cancela.
- Benhê, o cartão do estacionamento.
- Ué, pensei que estava com você...
Inspeção no porta-luvas, embaixo dos bancos, no pára-sol, nos bolsos, na bolsa...
Pensa que acabou? Imagina. É como diz o saquinho – “Volte Sempre”. Dia 15 do mês que vem tem mais.
Monday, April 10, 2006
MENSAGEM PARA VC, BILL.
Pois é, Bill. Se tem alguém que se DEL bem na vida, esse alguém é VC. Quem diria que ao ABRIR aquele pequeno negócio na garagem da sua HOME você iria chegar aonde chegou - o homem mais rico do mundo, cheio de PROPRIEDADES. É só dar um OUTLOOK em sua mansão pra perceber o UPGRADE. Nada MOUSE... Seu HISTÓRICO é realmente invejável.
Mas francamente, tem hora que dá vontade de jogar seu WINDOWS pela JANELA. Nosso ERRO foi crer que poderíamos confiar cegamente no seu SISTEMA OPERACIONAL. O fato é que estamos com o DISCO CHEIO dessa sua invenção.
O mundo está em suas mãos, Bill. Independente de ideologia: quem é ALINHADO À ESQUERDA, quem é ALINHADO À DIREITA e até mesmo os CENTRALIZADOS. Como JUSTIFICAR então essa FALHA GERAL NO MÓDULO DLL? Com tanto poder, dinheiro e tecnologia, será que não há E-MAIL de MINIMIZAR esse problema?
Você nos prometeu o EXCEL, mas vivemos num inferno. Acreditamos no seu WORD e agora estamos sem palavras. De TABELA, somos obrigados a conviver com uma FONTE inesgotável de ATUALIZAÇÕES. Caso contrário, o computador REINICIA antes mesmo de ligar.
Às vezes tento apelar para o meu Santo PROTETOR DE TELA. Mas ele me deixa ao Deus dará, olhando feito bobo para o PAPEL DE PAREDE. Outras vezes procuro desesperadamente LOCALIZAR aquele ARQUIVO e nada. Nem pedindo AJUDA a São LOGIN para encontrar. Onde estará? Aí a gente dá um tempo e DOWNLOAD pra refrescar a MEMÓRIA. Não tem jeito. O DOCUMENTO está perdido. E perder um documento no Windows, Bill, é mil vezes pior que perder o RG, o CPF e a carteira de habilitação na rua.
Agora responda, Bill: me SALVAR COMO? Fico a ponto de EXECUTAR UMA OPERAÇÃO ILEGAL, utilizando programa pirata só de sacanagem, pra me vingar mesmo. Um amigo meu bem que tentou instalar um XP do camelódromo na máquina dele, mas na hora HDeu pau.
Enquanto isso, aguardamos a próxima aVERSÃO do seu programa. Com a nítida IMPRESSÃO de que ela será apenas um COPIAR e COLAR da versão anterior. A única diferença será o plantel de VÍRUS, que no mínimo deverá triplicar.
Isto posto, despeço-me jurando jamais adicioná-lo aos FAVORITOS. Espero que muito em breve possa lançar você, seus SOFTWARES e seus ASSISTENTES invasivos e imprestáveis à LIXEIRA. Esse sim, um utilitário altamente seguro e confiável.
P.S.: Nem tente me responder, pois estarei OFF-LINE. Pode desistir também de dar BUSCA na internet ou na lista telefônica, pois vou me RENOMEAR. Ou fazer um auto-BACKUP, para confundir e burlar a vigilância de seus controles e sistemas. É, vou dar um BOOT na máquina e pegar um ATALHO pra alguma praia deserta, que não tenha CONEXÃO com nada. Lá estarei em REDE, bebendo uma água de coco.
Mas francamente, tem hora que dá vontade de jogar seu WINDOWS pela JANELA. Nosso ERRO foi crer que poderíamos confiar cegamente no seu SISTEMA OPERACIONAL. O fato é que estamos com o DISCO CHEIO dessa sua invenção.
O mundo está em suas mãos, Bill. Independente de ideologia: quem é ALINHADO À ESQUERDA, quem é ALINHADO À DIREITA e até mesmo os CENTRALIZADOS. Como JUSTIFICAR então essa FALHA GERAL NO MÓDULO DLL? Com tanto poder, dinheiro e tecnologia, será que não há E-MAIL de MINIMIZAR esse problema?
Você nos prometeu o EXCEL, mas vivemos num inferno. Acreditamos no seu WORD e agora estamos sem palavras. De TABELA, somos obrigados a conviver com uma FONTE inesgotável de ATUALIZAÇÕES. Caso contrário, o computador REINICIA antes mesmo de ligar.
Às vezes tento apelar para o meu Santo PROTETOR DE TELA. Mas ele me deixa ao Deus dará, olhando feito bobo para o PAPEL DE PAREDE. Outras vezes procuro desesperadamente LOCALIZAR aquele ARQUIVO e nada. Nem pedindo AJUDA a São LOGIN para encontrar. Onde estará? Aí a gente dá um tempo e DOWNLOAD pra refrescar a MEMÓRIA. Não tem jeito. O DOCUMENTO está perdido. E perder um documento no Windows, Bill, é mil vezes pior que perder o RG, o CPF e a carteira de habilitação na rua.
Agora responda, Bill: me SALVAR COMO? Fico a ponto de EXECUTAR UMA OPERAÇÃO ILEGAL, utilizando programa pirata só de sacanagem, pra me vingar mesmo. Um amigo meu bem que tentou instalar um XP do camelódromo na máquina dele, mas na hora HDeu pau.
Enquanto isso, aguardamos a próxima aVERSÃO do seu programa. Com a nítida IMPRESSÃO de que ela será apenas um COPIAR e COLAR da versão anterior. A única diferença será o plantel de VÍRUS, que no mínimo deverá triplicar.
Isto posto, despeço-me jurando jamais adicioná-lo aos FAVORITOS. Espero que muito em breve possa lançar você, seus SOFTWARES e seus ASSISTENTES invasivos e imprestáveis à LIXEIRA. Esse sim, um utilitário altamente seguro e confiável.
P.S.: Nem tente me responder, pois estarei OFF-LINE. Pode desistir também de dar BUSCA na internet ou na lista telefônica, pois vou me RENOMEAR. Ou fazer um auto-BACKUP, para confundir e burlar a vigilância de seus controles e sistemas. É, vou dar um BOOT na máquina e pegar um ATALHO pra alguma praia deserta, que não tenha CONEXÃO com nada. Lá estarei em REDE, bebendo uma água de coco.
LÚCIA FOI PARA O CÉU
Era uma vez a recatada Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!
E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.
Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.
E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.
Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.
Sunday, March 19, 2006
DESCLASSIFICADOS
KARMAN GHIA ESPIRITUAL
Resolve qualquer tipo de atrapalhação – saúde, trabalho, amor. Desencapetamento de adultos, crianças e velhinhos. Desmancha instantaneamente trabalho e coisa feita. Lê búzios, tarô, mão, Machado de Assis, Paulo Coelho e Sidney Sheldon.
BLAZER AZUL METÁLICO, NA GARANTIA
De veludo, tamanho M, caimento perfeito. Pequena mancha na gola.
CARRO DE MÉDICO
Ambulância com pouco uso. Cor branca, cruz vermelha na traseira, sirene com 15 toques diferentes. Doa-se a quem doer.
RARIDADE
Decavê com trio elétrico. Tratar com Armandinho, Dodô ou Osmar.
MARIDÃO ZERO (À ESQUERDA)
Ano 67, anda em ponto morto. Na hora de trocar o óleo, só pega no tranco. Única dona, IPVA pago, test-drive de uma semana a quem se habilitar.
IMÓVEL NO LITORAL
Castelo de areia, 18 quartos, estilo medieval, em fase de acabamento. Frente para o mar.
CASA VERDE
Na Água Branca. Bela Vista, vale a Penha.
ALUGO VÁRIAS CASINHAS DE VILA
Tratar com Sr. Barriga. Chaves no local.
LOCADORA
Procura inquilino para aventura, romance, drama, comédia, suspense e, havendo afinidade, sexo explícito.
ADEUS, PATRÃO
Ganhe até R$26.000 por mês preenchendo envelopes. Oferecemos ótima oportunidade de carreira. Exigimos sigilo absoluto em relação ao conteúdo dos envelopes.
APRENDA INGLÊS DORMINDO
E lembre-se de tudo quando acordar. Ainda restam 18 leitos vagos para as turmas de conversação, inglês para viagem, business e pré-intermediário. Traga seu travesseiro e assista a uma aula sem compromisso.
LIMPO SEU NOME
Lavagem completa com máquina de alta pressão. Polimento com cera e cristalização. Seis meses de garantia, equipe especializada.
PROCURA-SE BUROCRATA BILÍNGÜE
Para ficar chupando dois lápis ao mesmo tempo no horário de expediente. Obs: necessário dormir no emprego.
GALINHA MORTA
Vende-se inteira ou em partes.
PERCA PESO
Dieta da garapa – método revolucionário. Kit para 15 dias, contendo meio caminhão de cana e uma mini-moenda movida a pilha.
ELIMINAÇÃO DE CUPINS
Sua geladeira está cheia de cupins? Exterminamos todos em 24 horas. Saúde e boa forma para você e toda a família.
EXCURSÃO
5 dias e 4 noites na Faixa de Gaza. Inclui traslado aeroporto-hotel-cemitério, em carro-bomba com ar condicionado.
AGRADEÇO A SANTO HILÁRIO
Pela gracinha alcançada (tinha perdido e a encontrei ontem, debaixo do sofá). Hebe Camargo.
REMÉDIO PARA CALVÍCIE
Em 5x sem entrada. Asseguramos que os pré-datados só caem se o seu cabelo parar de cair.
PLAYBOY EM BRAILE
Coleção completa. Só vendo. Pagamento à vista.
SAUNA GAY
Sem passivo, mais de 500 clientes ativos.
ACOMPANHANTE (VIOLÃO!!!)
22 aninhos, braço lindo, cordas novas, bojo deslumbrante. Acompanha samba, chorinho e bossa-nova. Sigilo absoluto.
ACOMPANHANTE - CAVAQUINHO
Anão fogoso e insaciável. Faz tudo o que você possa imaginar. Para homens, mulheres e casais. At. hot, mot, dom. Taxinha: R$20.
LU PATINADORA - BONECA COMPLETÍSSIMA!
Tenho todos os acessórios. Você manda, eu obedeço.
REALIZE SUAS FANTASIAS
Curso prático de corte e costura. Faça você mesmo suas roupas de marujo, pirata, odalisca, pierrô, colombina, cowboy e sultão.
SEUS PROBLEMAS SE ACABARAM-SE
Aulas de português em domicílio.
FÁBRICA DE GESSO
Com bom estuque.
COMPUTADOR
Na caixa 2, sem nota fiscal.
BARBADA
Mulher com cavanhaque, costeleta, bigode bem formado e ombros estilo Tony Ramos oferece-se como cobaia para pesquisa científica. Solicite tubo de ensaio fotográfico.
CACHORRO PERDIDO
Tem focinho, quatro patas, dois olhos, rabo e um sinal característico: possui pelos por todo o corpo. Criança doente (contraiu raiva do animal). Se alguém encontrá-lo, cuidado.
Resolve qualquer tipo de atrapalhação – saúde, trabalho, amor. Desencapetamento de adultos, crianças e velhinhos. Desmancha instantaneamente trabalho e coisa feita. Lê búzios, tarô, mão, Machado de Assis, Paulo Coelho e Sidney Sheldon.
BLAZER AZUL METÁLICO, NA GARANTIA
De veludo, tamanho M, caimento perfeito. Pequena mancha na gola.
CARRO DE MÉDICO
Ambulância com pouco uso. Cor branca, cruz vermelha na traseira, sirene com 15 toques diferentes. Doa-se a quem doer.
RARIDADE
Decavê com trio elétrico. Tratar com Armandinho, Dodô ou Osmar.
MARIDÃO ZERO (À ESQUERDA)
Ano 67, anda em ponto morto. Na hora de trocar o óleo, só pega no tranco. Única dona, IPVA pago, test-drive de uma semana a quem se habilitar.
IMÓVEL NO LITORAL
Castelo de areia, 18 quartos, estilo medieval, em fase de acabamento. Frente para o mar.
CASA VERDE
Na Água Branca. Bela Vista, vale a Penha.
ALUGO VÁRIAS CASINHAS DE VILA
Tratar com Sr. Barriga. Chaves no local.
LOCADORA
Procura inquilino para aventura, romance, drama, comédia, suspense e, havendo afinidade, sexo explícito.
ADEUS, PATRÃO
Ganhe até R$26.000 por mês preenchendo envelopes. Oferecemos ótima oportunidade de carreira. Exigimos sigilo absoluto em relação ao conteúdo dos envelopes.
APRENDA INGLÊS DORMINDO
E lembre-se de tudo quando acordar. Ainda restam 18 leitos vagos para as turmas de conversação, inglês para viagem, business e pré-intermediário. Traga seu travesseiro e assista a uma aula sem compromisso.
LIMPO SEU NOME
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PROCURA-SE BUROCRATA BILÍNGÜE
Para ficar chupando dois lápis ao mesmo tempo no horário de expediente. Obs: necessário dormir no emprego.
GALINHA MORTA
Vende-se inteira ou em partes.
PERCA PESO
Dieta da garapa – método revolucionário. Kit para 15 dias, contendo meio caminhão de cana e uma mini-moenda movida a pilha.
ELIMINAÇÃO DE CUPINS
Sua geladeira está cheia de cupins? Exterminamos todos em 24 horas. Saúde e boa forma para você e toda a família.
EXCURSÃO
5 dias e 4 noites na Faixa de Gaza. Inclui traslado aeroporto-hotel-cemitério, em carro-bomba com ar condicionado.
AGRADEÇO A SANTO HILÁRIO
Pela gracinha alcançada (tinha perdido e a encontrei ontem, debaixo do sofá). Hebe Camargo.
REMÉDIO PARA CALVÍCIE
Em 5x sem entrada. Asseguramos que os pré-datados só caem se o seu cabelo parar de cair.
PLAYBOY EM BRAILE
Coleção completa. Só vendo. Pagamento à vista.
SAUNA GAY
Sem passivo, mais de 500 clientes ativos.
ACOMPANHANTE (VIOLÃO!!!)
22 aninhos, braço lindo, cordas novas, bojo deslumbrante. Acompanha samba, chorinho e bossa-nova. Sigilo absoluto.
ACOMPANHANTE - CAVAQUINHO
Anão fogoso e insaciável. Faz tudo o que você possa imaginar. Para homens, mulheres e casais. At. hot, mot, dom. Taxinha: R$20.
LU PATINADORA - BONECA COMPLETÍSSIMA!
Tenho todos os acessórios. Você manda, eu obedeço.
REALIZE SUAS FANTASIAS
Curso prático de corte e costura. Faça você mesmo suas roupas de marujo, pirata, odalisca, pierrô, colombina, cowboy e sultão.
SEUS PROBLEMAS SE ACABARAM-SE
Aulas de português em domicílio.
FÁBRICA DE GESSO
Com bom estuque.
COMPUTADOR
Na caixa 2, sem nota fiscal.
BARBADA
Mulher com cavanhaque, costeleta, bigode bem formado e ombros estilo Tony Ramos oferece-se como cobaia para pesquisa científica. Solicite tubo de ensaio fotográfico.
CACHORRO PERDIDO
Tem focinho, quatro patas, dois olhos, rabo e um sinal característico: possui pelos por todo o corpo. Criança doente (contraiu raiva do animal). Se alguém encontrá-lo, cuidado.
HAPPY FAMILY
A casa perfeita da família feliz recebia, de dois em dois anos, uma demão de tinta na parte externa e nos madeiramentos. A cada seis meses, dedetização e limpeza da caixa d’água. De 45 em 45 dias, o jardineiro para aparar a grama. Diariamente, a perua escolar e suas duas buzinadinhas regulamentares para buscar filhinho e filhinha.
Havia pichações por todo o bairro, menos no imenso muro caiado da casa feliz. Nem sinal de sujeira de pomba, fuligem de queimada ou formigueiro. Asséptica e harmônica em suas formas, a casa feliz era quase música, uma figura etérea em meio à feiúra do quarteirão. Tinha chaminé, cerquinha, floreiras nas janelas e o caminhozinho sinuoso que saía da porta em direção à rua.
Como de hábito, após dar lustro à coleção de miniaturas papai colocava os planos familiares em planilhas do Excel. Ali ficava horas com seus cálculos e projeções. Mamãe evocava a proteção divina em preces e cânticos. Depois, recolhia as roupas do varal com altivez de matriarca honesta, realizada por dar conta do seu fardo. No armário, as camisas pólo de filhinho eram empilhadas por cores, em nuances que iam do vermelho vivo ao bege claro. As pretas e as brancas ficavam em gavetas separadas. Papai mantinha a caixa de ferramentas providencialmente organizada, com um sortido estoque de brocas e buchas. Sobre o rack, o controle do som, o controle do vídeo e o controle da vida ao alcance da mão. No lavabo e nos banheiros as toalhas eram rosa, com monogramas bordados.
As fotos da família feliz eram acondicionadas em compartimentos, de acordo com o tipo de comemoração: casamento, batizados, formaturas, aniversários, natais e férias. Ao lado da caixa de retratos, canhotos de talões de cheque acumulados desde 1981, recibos de contas pagas, cópias de declarações de imposto de renda, boletins escolares.
Era com nítido orgulho que filhinho se projetava alistando-se aos 18. Filhinha, por sua vez, gastava folhas e mais folhas de papel vegetal a desenhar grinaldas e buquês de noiva. Na casa perfeita, ao romper da aurora, a família fazia seu desjejum com farinha láctea, mel e mamão papaia. Verduras hidropônicas e legumes sem agrotóxicos faziam as delícias do almoço e do jantar. Mais ou menos por essa época, filhinha foi debutante e filhinho escoteiro.
A felicidade, ali, se alastrava como fogo em mato seco. Vizinho nenhum jamais ouviu um palavrão saído de dentro daquela casa. Nem um “cala a boca”, um “anda logo”, um “caramba” ou coisa assim. O carro estava sempre limpo e a mecânica em ótimo estado. Todas as revisões feitas nas quilometragens e prazos recomendados pelo fabricante. Dizem as más línguas que um dia, em outubro de 1993, papai esqueceu o guarda-chuva em casa. Mas um boy da firma logo apareceu para buscar.
Por volta das três – com margem de tolerância de cinco minutos, para mais ou para menos, filhinha sentava-se ao piano e interpretava com doçura e sentimento uma peça de Clementi. Não constam registros de estouros de champanhe, gritos de gol ou fumaça de churrasco vindos da casa perfeita da família feliz. Eram três, e não mais que três, as ocasiões semanais em que todos saíam juntos: para o culto dominical, para a visita aos pais de mamãe e para divertirem-se a valer vendo os aviões pousando no aeroporto.
No aconchego daquelas quatro paredes, os narizes eram assoados silenciosamente, o piso era encerado com regularidade monástica, os travesseiros exalavam a alfazema mais pura desse mundo. As contas nunca eram pagas na data de vencimento - no mais tardar dois dias antes. Os vestidos de mamãe eram todos 4 dedos abaixo do joelho. Os cachimbos de papai eram escovados e acondicionados em saquinhos de veludo. Filhinho não sabia o que era cotovelo ralado. Filhinha não sabia o que era amasso no portão. Mamãe era professora mas não exercia a profissão. A familia feliz sabia que roupa suja se lava em casa, mas nunca havia roupa suja para se lavar. Papai e mamãe não se esqueciam e se saudavam mutuamente no aniversario de noivado. Com menos entusiasmo que no aniversário de casamento e mais calorosamente que no aniversário de namoro. Por sua conduta exemplar, papai foi várias vezes convocado a compor júri no fórum. Era sócio benemérito do conselho para o bem-estar comunitário. Mamãe colaborava com as obras do berço.
Um belo dia papai reuniu a família feliz, pegou os 20 metros de pisca-pisca natalino guardados numa gaveta da edícula, dividiu-os em 4 partes de 5 metros, distribuiu uma parte para cada um. Foram os quatro encontrados na sala de estar, os corpos dispostos de maneira simétrica e em ordem cronológica decrescente.
Havia pichações por todo o bairro, menos no imenso muro caiado da casa feliz. Nem sinal de sujeira de pomba, fuligem de queimada ou formigueiro. Asséptica e harmônica em suas formas, a casa feliz era quase música, uma figura etérea em meio à feiúra do quarteirão. Tinha chaminé, cerquinha, floreiras nas janelas e o caminhozinho sinuoso que saía da porta em direção à rua.
Como de hábito, após dar lustro à coleção de miniaturas papai colocava os planos familiares em planilhas do Excel. Ali ficava horas com seus cálculos e projeções. Mamãe evocava a proteção divina em preces e cânticos. Depois, recolhia as roupas do varal com altivez de matriarca honesta, realizada por dar conta do seu fardo. No armário, as camisas pólo de filhinho eram empilhadas por cores, em nuances que iam do vermelho vivo ao bege claro. As pretas e as brancas ficavam em gavetas separadas. Papai mantinha a caixa de ferramentas providencialmente organizada, com um sortido estoque de brocas e buchas. Sobre o rack, o controle do som, o controle do vídeo e o controle da vida ao alcance da mão. No lavabo e nos banheiros as toalhas eram rosa, com monogramas bordados.
As fotos da família feliz eram acondicionadas em compartimentos, de acordo com o tipo de comemoração: casamento, batizados, formaturas, aniversários, natais e férias. Ao lado da caixa de retratos, canhotos de talões de cheque acumulados desde 1981, recibos de contas pagas, cópias de declarações de imposto de renda, boletins escolares.
Era com nítido orgulho que filhinho se projetava alistando-se aos 18. Filhinha, por sua vez, gastava folhas e mais folhas de papel vegetal a desenhar grinaldas e buquês de noiva. Na casa perfeita, ao romper da aurora, a família fazia seu desjejum com farinha láctea, mel e mamão papaia. Verduras hidropônicas e legumes sem agrotóxicos faziam as delícias do almoço e do jantar. Mais ou menos por essa época, filhinha foi debutante e filhinho escoteiro.
A felicidade, ali, se alastrava como fogo em mato seco. Vizinho nenhum jamais ouviu um palavrão saído de dentro daquela casa. Nem um “cala a boca”, um “anda logo”, um “caramba” ou coisa assim. O carro estava sempre limpo e a mecânica em ótimo estado. Todas as revisões feitas nas quilometragens e prazos recomendados pelo fabricante. Dizem as más línguas que um dia, em outubro de 1993, papai esqueceu o guarda-chuva em casa. Mas um boy da firma logo apareceu para buscar.
Por volta das três – com margem de tolerância de cinco minutos, para mais ou para menos, filhinha sentava-se ao piano e interpretava com doçura e sentimento uma peça de Clementi. Não constam registros de estouros de champanhe, gritos de gol ou fumaça de churrasco vindos da casa perfeita da família feliz. Eram três, e não mais que três, as ocasiões semanais em que todos saíam juntos: para o culto dominical, para a visita aos pais de mamãe e para divertirem-se a valer vendo os aviões pousando no aeroporto.
No aconchego daquelas quatro paredes, os narizes eram assoados silenciosamente, o piso era encerado com regularidade monástica, os travesseiros exalavam a alfazema mais pura desse mundo. As contas nunca eram pagas na data de vencimento - no mais tardar dois dias antes. Os vestidos de mamãe eram todos 4 dedos abaixo do joelho. Os cachimbos de papai eram escovados e acondicionados em saquinhos de veludo. Filhinho não sabia o que era cotovelo ralado. Filhinha não sabia o que era amasso no portão. Mamãe era professora mas não exercia a profissão. A familia feliz sabia que roupa suja se lava em casa, mas nunca havia roupa suja para se lavar. Papai e mamãe não se esqueciam e se saudavam mutuamente no aniversario de noivado. Com menos entusiasmo que no aniversário de casamento e mais calorosamente que no aniversário de namoro. Por sua conduta exemplar, papai foi várias vezes convocado a compor júri no fórum. Era sócio benemérito do conselho para o bem-estar comunitário. Mamãe colaborava com as obras do berço.
Um belo dia papai reuniu a família feliz, pegou os 20 metros de pisca-pisca natalino guardados numa gaveta da edícula, dividiu-os em 4 partes de 5 metros, distribuiu uma parte para cada um. Foram os quatro encontrados na sala de estar, os corpos dispostos de maneira simétrica e em ordem cronológica decrescente.
Sunday, February 26, 2006
OBITUÁRIO CARNAVALESCO
DIÓGENES CAPISTRANO MATOS
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.
JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).
ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.
CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Deixa marido, filhos, sobrinhos, netos e uma amiga inconsolável, a jardineira.
GENERAL ANTONIO FELISBINO DE ANDRADE
Aos 67, a serviço da pátria. Após combater heroicamente numa batalha de confete, foi encontrado na sarjeta com a boca cheia do produto. Sepultado com honras militares, teve seu caixão envolto por uma bandeira branca.
PEDRO SILVESTRE RONQUIN
Aos 60, mordido por uma serpentina venenosa. Enfermeiros tentaram reanimá-lo com a inalação de um aromatizador de ambientes, sem sucesso.
JOVALDO ROSSETTO (VULGO DUM-DUM)
Aos 28, atropelado por um carro alegórico na dispersão do desfile das escolas do grupo especial. O indivíduo veio a óbito após confusão causada por uma briga feia entre o Rei Momo e a Terça-Feira Gorda.
CHIQUITA BACANA
Aos 66, de tombo. Testemunhas afirmam tê-la visto escorregando numa casca de banana nanica.
ANDRÉ FERREIRA VASQUEZ
Aos 97, queimado. Seu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo! O corpo de bombeiros foi acionado, porém o moribundo não teve tempo de ver a Mangueira entrar.
RUBIÃO VICENTE DE RAMOS VEIGA
Aos 70, vítima de assalto. Ao ouvir o bandido dizer: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, ele teria respondido que não ia dar, não ia dar não. Deu no que deu.
GEORGE BUSH
Aos 61, enforcado em um cordão de foliões. Para decepção dos populares que cercavam o corpo, constatou-se que se tratava de um desconhecido com uma máscara do Bush, comprada na rodoviária. Foi enterrado como indigente.
TATIANA NEVSKY
Aos 4, de inanição, na matinê infantil. A garotinha gritava “Mamãe, eu quero mamar”, mas a genitora, empolgada com o ziriguidum, não conseguia ouvir seus berros.
DENIVALDO GALVÃO DE MORAES ANTIBES
Aos 35, de hemorragia. Foi atingido por um bloco, enquanto sambava próximo a uma obra. Entre os componentes do bloco foram encontrados areia, cimento, pedra e ferro. Detidos para averiguações, todos negaram veementemente qualquer envolvimento com o caso.
JOÃOZINHO
Aos 30, bicado por um beija-flor.
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.
JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).
ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.
CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Deixa marido, filhos, sobrinhos, netos e uma amiga inconsolável, a jardineira.
GENERAL ANTONIO FELISBINO DE ANDRADE
Aos 67, a serviço da pátria. Após combater heroicamente numa batalha de confete, foi encontrado na sarjeta com a boca cheia do produto. Sepultado com honras militares, teve seu caixão envolto por uma bandeira branca.
PEDRO SILVESTRE RONQUIN
Aos 60, mordido por uma serpentina venenosa. Enfermeiros tentaram reanimá-lo com a inalação de um aromatizador de ambientes, sem sucesso.
JOVALDO ROSSETTO (VULGO DUM-DUM)
Aos 28, atropelado por um carro alegórico na dispersão do desfile das escolas do grupo especial. O indivíduo veio a óbito após confusão causada por uma briga feia entre o Rei Momo e a Terça-Feira Gorda.
CHIQUITA BACANA
Aos 66, de tombo. Testemunhas afirmam tê-la visto escorregando numa casca de banana nanica.
ANDRÉ FERREIRA VASQUEZ
Aos 97, queimado. Seu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo! O corpo de bombeiros foi acionado, porém o moribundo não teve tempo de ver a Mangueira entrar.
RUBIÃO VICENTE DE RAMOS VEIGA
Aos 70, vítima de assalto. Ao ouvir o bandido dizer: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, ele teria respondido que não ia dar, não ia dar não. Deu no que deu.
GEORGE BUSH
Aos 61, enforcado em um cordão de foliões. Para decepção dos populares que cercavam o corpo, constatou-se que se tratava de um desconhecido com uma máscara do Bush, comprada na rodoviária. Foi enterrado como indigente.
TATIANA NEVSKY
Aos 4, de inanição, na matinê infantil. A garotinha gritava “Mamãe, eu quero mamar”, mas a genitora, empolgada com o ziriguidum, não conseguia ouvir seus berros.
DENIVALDO GALVÃO DE MORAES ANTIBES
Aos 35, de hemorragia. Foi atingido por um bloco, enquanto sambava próximo a uma obra. Entre os componentes do bloco foram encontrados areia, cimento, pedra e ferro. Detidos para averiguações, todos negaram veementemente qualquer envolvimento com o caso.
JOÃOZINHO
Aos 30, bicado por um beija-flor.
31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)
Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes.
- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranqüilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Que mulher vai aceitar que você passe a virada do milênio com quatro barbados ao invés de ficar com a família? E quatro barbados carecas, porque até lá...
- Bom, por mim, tá feito.
- Eu também topo. Pode redigir uma ata e botar meu nome que eu assino.
Eles cinco, a panelinha inseparável, estavam tramando de se encontrarem à meia noite do dia 31 de dezembro de 1999, na praça do coreto. Passagem de ano, de década, de século e de milênio (não exatamente de século e de milênio, mas a data era emblemática). Dezenove anos depois. Eu não conseguia imaginar aquele reencontro. Era amigo dos cinco, mas não era exatamente da turma. Tanto que eles não me incluíram no pacto.
(Coloque aí na sua telinha um efeito especial de passagem de tempo. Velhas casas de família viram prédios. Os Corcéis, Opalas e Brasílias agora são Vectras, Fiestas e Golfs. A imagem em sépia fica colorida. E aparece aquele texto bem manjado no rodapé do vídeo: “19 anos depois”...)
Por nada nesse mundo eu poderia perder aquela cena. Queria assistir de longe, ver sem ser visto, estava de bicão naquela festa privê. Depois do encontro me juntaria a eles. A hora da virada chegou e me pegou sozinho ali na praça. Meia-noite, nada. Meia-noite e meia, nada. Ninguém apareceu. Só eu, a testemunha intrometida, o que não era pra estar lá. Decidi ficar mais uns cinco minutos, até dar uma da manhã e ter certeza de que não apareceria mesmo ninguém. Era horário de verão. Será que estava valendo o horário antigo? Se fosse assim a coisa tinha acontecido às onze da noite e talvez já tivessem ido embora. Foi quando surgiu um rapazinho, de jeans e camiseta branca, meio ofegante. Sentou-se num dos bancos, olhou para os lados, consultou o relógio, esperou. Os cabelos longos e lisos, os olhos amendoados, as pernas finas. Claro, era o Tavito. Em qualquer lugar do mundo o reconheceria.
Saí do meu posto de observação e fui até ele.
- Tavito!
-
Não era possível, o tempo não tinha passado pra ele. A mesma cara, nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. O Tavito me olhava com um jeito de quem não estava entendendo nada.
- Sou o filho dele. Meu pai morreu quando eu era criança. Deixou uma carta lacrada, que só deveria ser aberta ontem, dizendo que tinha um encontro marcado com seus melhores amigos hoje à meia-noite, aqui nesta praça. Se por algum motivo ele não pudesse vir, eu deveria representá-lo. O senhor deve ser um deles...
Logo ele, o Tavito. Dos cinco, o mais descrente do pacto. O único a honrá-lo, mesmo morto.
- E os outros três, já foram?
Sentei ao seu lado e expliquei a história e minha condição de testemunha. Depois ficamos ali, madrugada adentro, à espera dos quatro ausentes. Uns fogos estouravam ao longe, carros passavam pela pracinha buzinando, grupos de branco iam em direção ao clube. Falei da linha do trem, que antes dele nascer cortava a cidade de fora a fora. Comentei como o pai dele era bom de natação, os campeonatos que ganhou, o sucesso que fazia com a mulherada. Os porres que tomamos, os aventais brancos que vestíamos na escola. Ele me contou do acidente de avião, do trauma da perda, do segundo casamento da mãe. Eu escutava, mas não ouvia. Divagava, vendo em sua boca os lábios do pai dele me sussurrando as respostas da prova de biologia.
- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranqüilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Que mulher vai aceitar que você passe a virada do milênio com quatro barbados ao invés de ficar com a família? E quatro barbados carecas, porque até lá...
- Bom, por mim, tá feito.
- Eu também topo. Pode redigir uma ata e botar meu nome que eu assino.
Eles cinco, a panelinha inseparável, estavam tramando de se encontrarem à meia noite do dia 31 de dezembro de 1999, na praça do coreto. Passagem de ano, de década, de século e de milênio (não exatamente de século e de milênio, mas a data era emblemática). Dezenove anos depois. Eu não conseguia imaginar aquele reencontro. Era amigo dos cinco, mas não era exatamente da turma. Tanto que eles não me incluíram no pacto.
(Coloque aí na sua telinha um efeito especial de passagem de tempo. Velhas casas de família viram prédios. Os Corcéis, Opalas e Brasílias agora são Vectras, Fiestas e Golfs. A imagem em sépia fica colorida. E aparece aquele texto bem manjado no rodapé do vídeo: “19 anos depois”...)
Por nada nesse mundo eu poderia perder aquela cena. Queria assistir de longe, ver sem ser visto, estava de bicão naquela festa privê. Depois do encontro me juntaria a eles. A hora da virada chegou e me pegou sozinho ali na praça. Meia-noite, nada. Meia-noite e meia, nada. Ninguém apareceu. Só eu, a testemunha intrometida, o que não era pra estar lá. Decidi ficar mais uns cinco minutos, até dar uma da manhã e ter certeza de que não apareceria mesmo ninguém. Era horário de verão. Será que estava valendo o horário antigo? Se fosse assim a coisa tinha acontecido às onze da noite e talvez já tivessem ido embora. Foi quando surgiu um rapazinho, de jeans e camiseta branca, meio ofegante. Sentou-se num dos bancos, olhou para os lados, consultou o relógio, esperou. Os cabelos longos e lisos, os olhos amendoados, as pernas finas. Claro, era o Tavito. Em qualquer lugar do mundo o reconheceria.
Saí do meu posto de observação e fui até ele.
- Tavito!
-
Não era possível, o tempo não tinha passado pra ele. A mesma cara, nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. O Tavito me olhava com um jeito de quem não estava entendendo nada.
- Sou o filho dele. Meu pai morreu quando eu era criança. Deixou uma carta lacrada, que só deveria ser aberta ontem, dizendo que tinha um encontro marcado com seus melhores amigos hoje à meia-noite, aqui nesta praça. Se por algum motivo ele não pudesse vir, eu deveria representá-lo. O senhor deve ser um deles...
Logo ele, o Tavito. Dos cinco, o mais descrente do pacto. O único a honrá-lo, mesmo morto.
- E os outros três, já foram?
Sentei ao seu lado e expliquei a história e minha condição de testemunha. Depois ficamos ali, madrugada adentro, à espera dos quatro ausentes. Uns fogos estouravam ao longe, carros passavam pela pracinha buzinando, grupos de branco iam em direção ao clube. Falei da linha do trem, que antes dele nascer cortava a cidade de fora a fora. Comentei como o pai dele era bom de natação, os campeonatos que ganhou, o sucesso que fazia com a mulherada. Os porres que tomamos, os aventais brancos que vestíamos na escola. Ele me contou do acidente de avião, do trauma da perda, do segundo casamento da mãe. Eu escutava, mas não ouvia. Divagava, vendo em sua boca os lábios do pai dele me sussurrando as respostas da prova de biologia.
Friday, February 10, 2006
A FALTA QUE O CELULAR NÃO FAZ
Verdade seja dita, logo de cara: felizes os que não usam telefone celular. São poucos, e dentre eles eu racionalmente me incluo, graças a Deus. Pelo menos por enquanto. Sei que mais cedo ou mais tarde serei obrigado a me render, já que é para ele que aponta a chamada convergência das mídias – voz, MP3, câmera digital, TV, internet e sabe-se lá o que mais. Mas quero adiar esse dia o máximo possível.
Que paranóia insensata essa de estar ligado 24 horas, de prontidão, encontrável e acessível custe o que custar. Prefiro ser eremita, ter paradeiro desconhecido dentro dessa estranha teia de seres chipados. Os dependentes da maquininha costumam dizer: "como eu conseguia viver sem isso?". Ao que eu respondo: como é possível viver com isso?
Quando o celular toca, nunca é aquele cara dizendo que vai pagar a grana que está te devendo. Jamais é aquele amor platônico que, cansado de esperar sua declaração, resolveu tomar a iniciativa. Tampouco é aquela pessoa querida que, desinteressadamente, quer apenas saber como é que você está, se precisa de alguma coisa. Sempre é um chato de galocha te cobrando um trabalho, lembrando prazos e urgências, querendo a mãozinha que você ficou de dar.
Lembro bem dos primeiros modelos. Uma rapadura de meio quilo, que quando em funcionamento parecia uma maquete da pista de dança dos "Embalos de Sábado à noite", com uma luz verde-limão brilhando forte no teclado. Alguns lembravam o telefone-sapato do Agente 86.
Mimo dos abastados, quando surgiu o celular era preso ao cinto, de maneira que ficasse bem à mostra. Como um abcesso exposto de propósito. Era um tal de empinar pra frente a barriga, deixar o paletó aberto, só pra expor a novidade. E o cidadão, ao atender a chamada, nunca ficava quieto. Fazia questão de andar de um lado pro outro, como que frisando o fato do telefone ser móvel. Morram de inveja, pobres de uma figa.
Já hoje acontece o contrário. A rapadura se reduziu a porta-jóias. O recém-celulado faz de tudo pra mostrar a todo mundo o quanto o modelo dele não chama a atenção. Ganha a guerrinha de vaidades quem, a olhos vistos, deixar o seu celular imperceptível.
Dentro desta nova classe de maquininhas que primam pela discrição, destacam-se as que vibram ao invés de tocar. Há poucas semanas conversava com um amigo, num restaurante. Ele foi ao toalete e o seu celular com vibra-call deu sinal de vida. Começou a tremer e a se mover feito uma barata tonta pela mesa, como se estivesse em transe mediúnico. Se não sou eu a barrar sua desnorteada trajetória, ele teria se espatifado (para minha íntima satisfação).
Ai de quem se fiar na autonomia que um telefone celular teoricamente oferece. A despeito da proibição, quase todo mundo o utiliza em trânsito. O usuário está rodando por uma estrada com a coisa na orelha, passa por uma montanha ou uma baixada na pista e é o que basta: já não escuta mais nada, e nada do que ele disser será ouvido. Anda mais um tanto e sai fora da área de cobertura. Além disso tem que falar pouco, se não a bateria acaba. Chegando em casa, o procedimento número 1 é dar mamadeira pro bichinho, ligando o carregador na tomada e o dito cujo no carregador. Se for pré-pago, dá-lhe crédito. Aí sim, está pronto pra ficar de novo ligadinho, a postos para o próximo sobressalto.
O pior é quem tem celular e usa como se fosse telefone fixo. Além de não aproveitar a portabilidade, que é o diferencial do negócio, ainda dá trabalho para os outros.
- Alô, celular do Toninho. Só que não é o Toninho, é o Celso.
- Ô, Toninho. Sou eu, rapaz. Agora deu pra fingir que não é você, é?
- Não, aqui não é o Toninho mesmo, é o amigo dele. Eu só atendi o celular. O Toninho precisou dar uma saída.
- Mas ele não levou o celular?
- Não. Se tivesse levado ele tinha atendido, né. É um problema, quando ele sai sempre esquece o celular aqui na mesa.
- Ah, então por favor, anota o meu telefone e pede pra ele ligar pra mim, pode ser?
E lá vai o trouxa servir de moleque de recado. Fora tudo isso, tem também os ringtones. Chatíssimos, muitos de extremo mau gosto, que imitam espirros, orgasmos femininos e até respiradores de UTI. Outra aporrinhação é o efeito picotado – aquelas perdas de sinal no meio da fala do indivíduo, deixando a mensagem incompreensível. Acrescente os controversos efeitos da radiação e, no meu caso específico, o fato de morar a 50 metros de uma antena de celular – sem alvará de funcionamento e frontalmente em desacordo com a lesgislação de telefonia móvel vigente em Campinas. Deu pra entender agora? Alô? Tá me ouvindo??
Que paranóia insensata essa de estar ligado 24 horas, de prontidão, encontrável e acessível custe o que custar. Prefiro ser eremita, ter paradeiro desconhecido dentro dessa estranha teia de seres chipados. Os dependentes da maquininha costumam dizer: "como eu conseguia viver sem isso?". Ao que eu respondo: como é possível viver com isso?
Quando o celular toca, nunca é aquele cara dizendo que vai pagar a grana que está te devendo. Jamais é aquele amor platônico que, cansado de esperar sua declaração, resolveu tomar a iniciativa. Tampouco é aquela pessoa querida que, desinteressadamente, quer apenas saber como é que você está, se precisa de alguma coisa. Sempre é um chato de galocha te cobrando um trabalho, lembrando prazos e urgências, querendo a mãozinha que você ficou de dar.
Lembro bem dos primeiros modelos. Uma rapadura de meio quilo, que quando em funcionamento parecia uma maquete da pista de dança dos "Embalos de Sábado à noite", com uma luz verde-limão brilhando forte no teclado. Alguns lembravam o telefone-sapato do Agente 86.
Mimo dos abastados, quando surgiu o celular era preso ao cinto, de maneira que ficasse bem à mostra. Como um abcesso exposto de propósito. Era um tal de empinar pra frente a barriga, deixar o paletó aberto, só pra expor a novidade. E o cidadão, ao atender a chamada, nunca ficava quieto. Fazia questão de andar de um lado pro outro, como que frisando o fato do telefone ser móvel. Morram de inveja, pobres de uma figa.
Já hoje acontece o contrário. A rapadura se reduziu a porta-jóias. O recém-celulado faz de tudo pra mostrar a todo mundo o quanto o modelo dele não chama a atenção. Ganha a guerrinha de vaidades quem, a olhos vistos, deixar o seu celular imperceptível.
Dentro desta nova classe de maquininhas que primam pela discrição, destacam-se as que vibram ao invés de tocar. Há poucas semanas conversava com um amigo, num restaurante. Ele foi ao toalete e o seu celular com vibra-call deu sinal de vida. Começou a tremer e a se mover feito uma barata tonta pela mesa, como se estivesse em transe mediúnico. Se não sou eu a barrar sua desnorteada trajetória, ele teria se espatifado (para minha íntima satisfação).
Ai de quem se fiar na autonomia que um telefone celular teoricamente oferece. A despeito da proibição, quase todo mundo o utiliza em trânsito. O usuário está rodando por uma estrada com a coisa na orelha, passa por uma montanha ou uma baixada na pista e é o que basta: já não escuta mais nada, e nada do que ele disser será ouvido. Anda mais um tanto e sai fora da área de cobertura. Além disso tem que falar pouco, se não a bateria acaba. Chegando em casa, o procedimento número 1 é dar mamadeira pro bichinho, ligando o carregador na tomada e o dito cujo no carregador. Se for pré-pago, dá-lhe crédito. Aí sim, está pronto pra ficar de novo ligadinho, a postos para o próximo sobressalto.
O pior é quem tem celular e usa como se fosse telefone fixo. Além de não aproveitar a portabilidade, que é o diferencial do negócio, ainda dá trabalho para os outros.
- Alô, celular do Toninho. Só que não é o Toninho, é o Celso.
- Ô, Toninho. Sou eu, rapaz. Agora deu pra fingir que não é você, é?
- Não, aqui não é o Toninho mesmo, é o amigo dele. Eu só atendi o celular. O Toninho precisou dar uma saída.
- Mas ele não levou o celular?
- Não. Se tivesse levado ele tinha atendido, né. É um problema, quando ele sai sempre esquece o celular aqui na mesa.
- Ah, então por favor, anota o meu telefone e pede pra ele ligar pra mim, pode ser?
E lá vai o trouxa servir de moleque de recado. Fora tudo isso, tem também os ringtones. Chatíssimos, muitos de extremo mau gosto, que imitam espirros, orgasmos femininos e até respiradores de UTI. Outra aporrinhação é o efeito picotado – aquelas perdas de sinal no meio da fala do indivíduo, deixando a mensagem incompreensível. Acrescente os controversos efeitos da radiação e, no meu caso específico, o fato de morar a 50 metros de uma antena de celular – sem alvará de funcionamento e frontalmente em desacordo com a lesgislação de telefonia móvel vigente em Campinas. Deu pra entender agora? Alô? Tá me ouvindo??
Sunday, January 29, 2006
PERGUNTE AO DUÑA
TENHO AS DUAS PERNAS GANGRENADAS, A AORTA ENTUPIDA E APENAS UM PULMÃO (TRIPLAMENTE PERFURADO). E AGORA, DUÑA?
Agora, é bola pra frente. Segundo o Dr. Brown Rutherford, em seu aclamado estudo “Manifestações psicossomáticas no homem caucasiano de meia idade”, o único tratamento possível é a antropotectomia, que consiste em extirpar do paciente o próprio corpo e colocar outro no lugar. Simples.
SAPIENTÍSSIMO MESTRE: O SENHOR É A FAVOR DO DESARMAMENTO?
Depende do porte da arma: pequeno, médio ou grande. As armas de porte pequeno são geralmente inofensivas, o que as torna sem efeito prático, nem mesmo para intimidação psicológica do bandido. Mais envergonham que protegem o proprietário. As de porte médio amedrontam quando muito os ladrões de galinha, geralmente munidos de armas de igual calibre e mais experientes em seu manejo que o cidadão pacato. Já as de grande porte estão todas nas mãos das quadrilhas organizadas, e o fato de possuí-las significa, conseqüentemente, que você é integrante de uma delas.
CARO DUÑA,
ANDO MUITO DESANIMADO NO TRABALHO. QUANTO MAIS ME ESFORÇO, MENOS SOU RECONHECIDO. TODOS DESPREZAM MINHAS OPINIÕES E MEU ASSISTENTE GANHA TRÊS VEZES MAIS DO QUE EU. GOSTARIA DE UM CONSELHO.
Recomendo a leitura do livro “Ossos do Ofício”, biografia do coveiro piauiense Benevides Denófrio Ramos. Em estilo claro e conciso, o autor discorre sobre o dilema de sua profissão à luz da doutrina positivista, de onde o leitor poderá extrair um verdadeiro bálsamo para a solução de seus problemas.
QUAL A IDADE IDEAL PARA CONTRAIR MATRIMÔNIO?
Um pouco depois da idade ideal para contrair patrimônio. Aliás, “contrair” não sei se é bem o termo. Melhor seria o oposto, “expandir patrimônio”. Casar hoje em dia exige estrutura financeira, meu filho.
EXISTE UMA ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA DUÑA?
Não. O que se sabe é que a dinastia Duña é oriunda da Espanha. O ramo da família a imigrar para a América teve como patriarca Hector Duña, meu bisavô. Hector era casado com uma italiana, Filipa Cazzone. Transtornado com o sacolejo do navio que os trazia ao Brasil, meu bisavô morreu de enjôo, cabendo a Filipa a missão de disseminar a filosofia duñesca por essas plagas.
QUAL A ORIGEM DAS EXPRESSÕES “NEM QUE A VACA TUSSA”, “PODE TIRAR O CAVALINHO DA CHUVA”, “QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO” E “UMA ANDORINHA NÃO FAZ VERÃO”?
Macacos me mordam! É evidente que todas elas são de origem animal.
SOFRO MUITO COM MEU COMPLEXO DE INFERIORIDADE. ELE ME ATRAPALHA NAS TAREFAS MAIS CORRIQUEIRAS, COMO IR À QUITANDA OU DAR UM PASSEIO COM MINHA FILHINHA NO GLOBO DA MORTE. QUE FAZER?
Consultando meus alfarrábios, encontrei uma simpatia que talvez ajude no seu caso. Junte 1 e 1/2 colher (das de chá) de canjica dormida na geladeira, duas moléculas de hidrogênio mais uma de oxigênio (ou água pronta, se tiver aí na sua casa) e 3 penas de calopsita. Aqueça em fogo mais ou menos brando, espere esfriar e tome de um gole só.
VENERÁVEL DUÑA,
PASSO PELO MENOS 16 HORAS POR DIA JOGANDO “CARA OU COROA”. TENHO OBSERVADO QUE EM 21% DAS VEZES O RESULTADO É “CARA” E EM 79% “COROA”, O QUE CONTRARIA COMPLETAMENTE A LEI DAS PROBABILIDADES. A QUE POSSO ATRIBUIR ISSO?
A moeda está viciada. Leve-a a uma clínica de recuperação, onde terá a orientação adequada para restabelecer o equilíbrio e se livrar da dependência. De cara, posso garantir que a tentativa será coroada de êxito.
QUAL O SENTIDO DA VIDA?
Não me aborreça. Nem eu nem meus leitores temos tempo a perder com questões menores como esta.
O SENHOR ESTÁ ME EXPULSANDO DAQUI?
Exatamente.
ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?
É. Agora dê o fora, tem mais gente querendo fazer perguntas.
OLÁ, DUÑA. ME DIGA UMA COISA: COMO EU FAÇO PARA ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO?
Mantenha o interruptor de luz à altura de suas mãos.
JÁ TENTEI DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO ACABAR COM MINHA INSÔNIA. O SENHOR TEM ALGUMA SUGESTÃO?
Tudo no universo está em contínua transformação. Olhe ao seu redor e perceberá que tudo muda, menos o papel da bala Chita e o repertório do Cauby Peixoto. Aproveite cada segundo não como se fosse o segundo, mas sim o último. Experimente o seguinte: reserve um tempinho em sua rotina para fazer o que realmente gosta: praticar ioiô, descascar rabanetes ou colecionar abotoaduras, por exemplo. Isso feito, pegue uma enxada e capine mato durante três dias seguidos. Você vai ver se o sono vem ou não vem.
SOU ACOMETIDA FREQÜENTEMENTE POR EPISÓDIOS DE DÉJÀ VU, AQUELA SENSAÇÃO QUE A GENTE TEM DE QUE AQUILO QUE ESTÁ ACONTECENDO JÁ ACONTECEU. ISSO É UMA IMPRESSÃO SUBJETIVA OU É A PROVA DE QUE EXISTE REENCARNAÇÃO?
Nem uma coisa, nem outra. O problema é a sua cabeça mesmo. Já é a 23ª vez que a senhora me faz essa pergunta.
ESTOU ABRINDO UM RESTAURANTE VEGETARIANO. SERÁ QUE O DUÑA PODERIA DAR UMA SUGESTÃO DE NOME?
Que tal “Contra-Filé”?
Faça você também suas perguntas para o Duña. E-mails para msguassabia@yahoo.com.br. Pode escrever que o Duña responde.
Agora, é bola pra frente. Segundo o Dr. Brown Rutherford, em seu aclamado estudo “Manifestações psicossomáticas no homem caucasiano de meia idade”, o único tratamento possível é a antropotectomia, que consiste em extirpar do paciente o próprio corpo e colocar outro no lugar. Simples.
SAPIENTÍSSIMO MESTRE: O SENHOR É A FAVOR DO DESARMAMENTO?
Depende do porte da arma: pequeno, médio ou grande. As armas de porte pequeno são geralmente inofensivas, o que as torna sem efeito prático, nem mesmo para intimidação psicológica do bandido. Mais envergonham que protegem o proprietário. As de porte médio amedrontam quando muito os ladrões de galinha, geralmente munidos de armas de igual calibre e mais experientes em seu manejo que o cidadão pacato. Já as de grande porte estão todas nas mãos das quadrilhas organizadas, e o fato de possuí-las significa, conseqüentemente, que você é integrante de uma delas.
CARO DUÑA,
ANDO MUITO DESANIMADO NO TRABALHO. QUANTO MAIS ME ESFORÇO, MENOS SOU RECONHECIDO. TODOS DESPREZAM MINHAS OPINIÕES E MEU ASSISTENTE GANHA TRÊS VEZES MAIS DO QUE EU. GOSTARIA DE UM CONSELHO.
Recomendo a leitura do livro “Ossos do Ofício”, biografia do coveiro piauiense Benevides Denófrio Ramos. Em estilo claro e conciso, o autor discorre sobre o dilema de sua profissão à luz da doutrina positivista, de onde o leitor poderá extrair um verdadeiro bálsamo para a solução de seus problemas.
QUAL A IDADE IDEAL PARA CONTRAIR MATRIMÔNIO?
Um pouco depois da idade ideal para contrair patrimônio. Aliás, “contrair” não sei se é bem o termo. Melhor seria o oposto, “expandir patrimônio”. Casar hoje em dia exige estrutura financeira, meu filho.
EXISTE UMA ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA DUÑA?
Não. O que se sabe é que a dinastia Duña é oriunda da Espanha. O ramo da família a imigrar para a América teve como patriarca Hector Duña, meu bisavô. Hector era casado com uma italiana, Filipa Cazzone. Transtornado com o sacolejo do navio que os trazia ao Brasil, meu bisavô morreu de enjôo, cabendo a Filipa a missão de disseminar a filosofia duñesca por essas plagas.
QUAL A ORIGEM DAS EXPRESSÕES “NEM QUE A VACA TUSSA”, “PODE TIRAR O CAVALINHO DA CHUVA”, “QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO” E “UMA ANDORINHA NÃO FAZ VERÃO”?
Macacos me mordam! É evidente que todas elas são de origem animal.
SOFRO MUITO COM MEU COMPLEXO DE INFERIORIDADE. ELE ME ATRAPALHA NAS TAREFAS MAIS CORRIQUEIRAS, COMO IR À QUITANDA OU DAR UM PASSEIO COM MINHA FILHINHA NO GLOBO DA MORTE. QUE FAZER?
Consultando meus alfarrábios, encontrei uma simpatia que talvez ajude no seu caso. Junte 1 e 1/2 colher (das de chá) de canjica dormida na geladeira, duas moléculas de hidrogênio mais uma de oxigênio (ou água pronta, se tiver aí na sua casa) e 3 penas de calopsita. Aqueça em fogo mais ou menos brando, espere esfriar e tome de um gole só.
VENERÁVEL DUÑA,
PASSO PELO MENOS 16 HORAS POR DIA JOGANDO “CARA OU COROA”. TENHO OBSERVADO QUE EM 21% DAS VEZES O RESULTADO É “CARA” E EM 79% “COROA”, O QUE CONTRARIA COMPLETAMENTE A LEI DAS PROBABILIDADES. A QUE POSSO ATRIBUIR ISSO?
A moeda está viciada. Leve-a a uma clínica de recuperação, onde terá a orientação adequada para restabelecer o equilíbrio e se livrar da dependência. De cara, posso garantir que a tentativa será coroada de êxito.
QUAL O SENTIDO DA VIDA?
Não me aborreça. Nem eu nem meus leitores temos tempo a perder com questões menores como esta.
O SENHOR ESTÁ ME EXPULSANDO DAQUI?
Exatamente.
ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?
É. Agora dê o fora, tem mais gente querendo fazer perguntas.
OLÁ, DUÑA. ME DIGA UMA COISA: COMO EU FAÇO PARA ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO?
Mantenha o interruptor de luz à altura de suas mãos.
JÁ TENTEI DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO ACABAR COM MINHA INSÔNIA. O SENHOR TEM ALGUMA SUGESTÃO?
Tudo no universo está em contínua transformação. Olhe ao seu redor e perceberá que tudo muda, menos o papel da bala Chita e o repertório do Cauby Peixoto. Aproveite cada segundo não como se fosse o segundo, mas sim o último. Experimente o seguinte: reserve um tempinho em sua rotina para fazer o que realmente gosta: praticar ioiô, descascar rabanetes ou colecionar abotoaduras, por exemplo. Isso feito, pegue uma enxada e capine mato durante três dias seguidos. Você vai ver se o sono vem ou não vem.
SOU ACOMETIDA FREQÜENTEMENTE POR EPISÓDIOS DE DÉJÀ VU, AQUELA SENSAÇÃO QUE A GENTE TEM DE QUE AQUILO QUE ESTÁ ACONTECENDO JÁ ACONTECEU. ISSO É UMA IMPRESSÃO SUBJETIVA OU É A PROVA DE QUE EXISTE REENCARNAÇÃO?
Nem uma coisa, nem outra. O problema é a sua cabeça mesmo. Já é a 23ª vez que a senhora me faz essa pergunta.
ESTOU ABRINDO UM RESTAURANTE VEGETARIANO. SERÁ QUE O DUÑA PODERIA DAR UMA SUGESTÃO DE NOME?
Que tal “Contra-Filé”?
Faça você também suas perguntas para o Duña. E-mails para msguassabia@yahoo.com.br. Pode escrever que o Duña responde.
CINE LUXOR
Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.
Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.
Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.
Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.
Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.
A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.
Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.
Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.
Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.
Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.
A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.
Saturday, January 14, 2006
DIÁRIO DE UM CHEFE (FRAGMENTOS)
Segunda-feira, 29
Depois da janta com o Buch, uma bela buchada de bode para recepcionar o Chaves. Junto com ele, veio toda a comitiva: Chiquinha, sr. Barriga, dona Florinda, sr. Madruga e o Kiko. Rachamo o bico de dar risada e depois assistimo uns filme nacional, no cinema que tem aqui em casa. Quando terminou a seção, o Chaves ficou espetando o retrato do Buch com alfinete e falando: “foi sem querer querendo, foi sem querer querendo”... muito engrassado.
Terça-feira, 30
Dia agitado. Trabalhei até as duas da tarde, depois tive um encontro com o comando de greve das universidade. Ganhei um livro, chama “Caminho Suave”. Tem as letra grande, um monte de figura, mas ainda não deu tempo de começar a ler.
Quarta-feira, 31
Sabe, eu fico muito triste quando vejo na televizão aquelas fila de engenheiro, com MBA em Rafard e doutorado em Artur Nogueira, disputando a tapa uma vaga de lixeiro. Tudo bem, é lamentave. Mas e eu, gente, comigo ninguém se preocupa? E lá no meu sofazão comecei a falar com os botão do meu pijama: caramba, desde que eu tô aqui não pediram minha carteira de trabalho pra assinar, não troussero a papelada de Pis / Pasep, contrato de esperiença, essas coisa. Vai ver que eu tô de informal nessa bodega e não tô sabendo. Nunca me chegou um extrato de FGTS, pra conferir se está tudo direitinho com os depósito. Será que eu tenho que dar nota e me escrever no Simpres? Como diria o finado Joca Tranqueira, pelegão da Volks e meu padrinho de casamento, “é o ó do borogodó”.
Quinta-feira, 1
Não agüento mais esses protocolo na hora do almoço. É colherzinha pra comer estragô, garfo de peixe, garfo de carne, copo de vinho, copo de água, faca disso, faca daquilo... Que saudade do meu tempo de marmita. Era tudo na cuié. Pronto, sem frescura. Tudo eles pega no meu pé, fica tirando retrato que depois sai nos jornal. Outra coisa é esse negócio de avião. Se tem um que fica comigo pra sima e pra baixo, que mal tem aproveitar a viagem e levar uns amigo junto? É até um serviço que eu fasso, já que com isso temos, em bom economêis, uma economia de escala de avião.
Cesta-feira, 2
Nunca fui homem de deixar faltar as coisa dende casa. Mas numa casa destamanho, que nem a gente mora agora, fica difícil o trabalhador manter a despensa abastecida. Tudo bem que todo dia 30 vem a sesta básica. Mas pra quem literalmente se ferra de verde e amarelo, essa sestinha é muito mircha. Lá no sindicato sim, todo mês vinha uma daquelas, bem farta. Fubá, sardinha em lata, maça de tomate, bolacha maria, farinha de rosca e sal. E sal iodado, companheiro. Não era fraco, não. O Joaquinzão, por exempro, que não se meteu nessa enrascada em que eu estou, continua recebendo a dele. E eu, não tenho filho pra criar? Ora, fassame o favor. Não bastace tudo isso, tem a história das pensão como preso político, que eu tenho direito e não resebo. Fui pro xilindró não sei quantas vez. A minha língua, coitada, continua presa até hoje. E os meus inimigo, que tem a língua solta, vive jogando na minha cara que essa mamata eu não vou conseguir.
Sábado, 3
Reunião de cúpula com a patroa.
Domingo, 4
Continuassão da reunião de cúpula.
Segunda-feira, 5
Pacei hoje o dia inteiro no ofurô, pensando no povão. O Projeto “Pois é” é um bom exempro do que pode ser feito pro brasileiro melhorar de vida. Essas coisa ninguém fala. Fizemos uma campanha na mídia e criamo até um personagem, o Nelson Piquete, pra apresentar o carro proletário pros peão de fábrica. Um modelo básico, com direção e acelerador opissional, e que roda 25 quilômetro com um copinho de cachaça. Em pauta pro prócimo ano está o programa “Motocicreta pra Todos”. Vamo importar 12.000 motos “Namarra”, 125 cilindrada, produzidas no Paraguai. Também está em faze de estudos a distribuição do tênis Reboque, para os camarada da construção civil. Ainda do nosso vizinho Paraguai traremos novo alento à infância desacistida, com a importação de dois vagão de pilha “Vai-O-Racha”, que vão dar vida nova pras bonecas, os ursinho e os carrinho da gurizada nacional.
Cesta-feira, 9
Fiquei uns dia sem escrever porque a situação tá preta. Pegaram o Tadeu com a boca na botija. Ele andou fazendo umas coisa feia que eu não tava sabendo, o safado. Me falaram que eu posso me estropiar mesmo sem ter nada haver com o pato. Conciente dos meus direito, fui tirar a limpo essa história com os bam-bam-bam que entende da lei. Disse que não ia sair assim não, que não ia intregar a rapadura. Eles falaram pra eu ir embora com um pé naquele lugar e uma mão na frente. Mas aí me lembrei dos tempos de sindicato e enduressi na negociação. Disse que só saía com um bom acordo - no mínimo com uma mão na frente, outra atrás e mais o chutão nos fundilho. Aí um dos bacana falou assim que eu não ia ficar sem eira nem beira, que dava pra arrumar também uma eira e uma beira bem reforçada. Milhor. Já dá pra acertar a vida antes de voltar pro batente.
Depois da janta com o Buch, uma bela buchada de bode para recepcionar o Chaves. Junto com ele, veio toda a comitiva: Chiquinha, sr. Barriga, dona Florinda, sr. Madruga e o Kiko. Rachamo o bico de dar risada e depois assistimo uns filme nacional, no cinema que tem aqui em casa. Quando terminou a seção, o Chaves ficou espetando o retrato do Buch com alfinete e falando: “foi sem querer querendo, foi sem querer querendo”... muito engrassado.
Terça-feira, 30
Dia agitado. Trabalhei até as duas da tarde, depois tive um encontro com o comando de greve das universidade. Ganhei um livro, chama “Caminho Suave”. Tem as letra grande, um monte de figura, mas ainda não deu tempo de começar a ler.
Quarta-feira, 31
Sabe, eu fico muito triste quando vejo na televizão aquelas fila de engenheiro, com MBA em Rafard e doutorado em Artur Nogueira, disputando a tapa uma vaga de lixeiro. Tudo bem, é lamentave. Mas e eu, gente, comigo ninguém se preocupa? E lá no meu sofazão comecei a falar com os botão do meu pijama: caramba, desde que eu tô aqui não pediram minha carteira de trabalho pra assinar, não troussero a papelada de Pis / Pasep, contrato de esperiença, essas coisa. Vai ver que eu tô de informal nessa bodega e não tô sabendo. Nunca me chegou um extrato de FGTS, pra conferir se está tudo direitinho com os depósito. Será que eu tenho que dar nota e me escrever no Simpres? Como diria o finado Joca Tranqueira, pelegão da Volks e meu padrinho de casamento, “é o ó do borogodó”.
Quinta-feira, 1
Não agüento mais esses protocolo na hora do almoço. É colherzinha pra comer estragô, garfo de peixe, garfo de carne, copo de vinho, copo de água, faca disso, faca daquilo... Que saudade do meu tempo de marmita. Era tudo na cuié. Pronto, sem frescura. Tudo eles pega no meu pé, fica tirando retrato que depois sai nos jornal. Outra coisa é esse negócio de avião. Se tem um que fica comigo pra sima e pra baixo, que mal tem aproveitar a viagem e levar uns amigo junto? É até um serviço que eu fasso, já que com isso temos, em bom economêis, uma economia de escala de avião.
Cesta-feira, 2
Nunca fui homem de deixar faltar as coisa dende casa. Mas numa casa destamanho, que nem a gente mora agora, fica difícil o trabalhador manter a despensa abastecida. Tudo bem que todo dia 30 vem a sesta básica. Mas pra quem literalmente se ferra de verde e amarelo, essa sestinha é muito mircha. Lá no sindicato sim, todo mês vinha uma daquelas, bem farta. Fubá, sardinha em lata, maça de tomate, bolacha maria, farinha de rosca e sal. E sal iodado, companheiro. Não era fraco, não. O Joaquinzão, por exempro, que não se meteu nessa enrascada em que eu estou, continua recebendo a dele. E eu, não tenho filho pra criar? Ora, fassame o favor. Não bastace tudo isso, tem a história das pensão como preso político, que eu tenho direito e não resebo. Fui pro xilindró não sei quantas vez. A minha língua, coitada, continua presa até hoje. E os meus inimigo, que tem a língua solta, vive jogando na minha cara que essa mamata eu não vou conseguir.
Sábado, 3
Reunião de cúpula com a patroa.
Domingo, 4
Continuassão da reunião de cúpula.
Segunda-feira, 5
Pacei hoje o dia inteiro no ofurô, pensando no povão. O Projeto “Pois é” é um bom exempro do que pode ser feito pro brasileiro melhorar de vida. Essas coisa ninguém fala. Fizemos uma campanha na mídia e criamo até um personagem, o Nelson Piquete, pra apresentar o carro proletário pros peão de fábrica. Um modelo básico, com direção e acelerador opissional, e que roda 25 quilômetro com um copinho de cachaça. Em pauta pro prócimo ano está o programa “Motocicreta pra Todos”. Vamo importar 12.000 motos “Namarra”, 125 cilindrada, produzidas no Paraguai. Também está em faze de estudos a distribuição do tênis Reboque, para os camarada da construção civil. Ainda do nosso vizinho Paraguai traremos novo alento à infância desacistida, com a importação de dois vagão de pilha “Vai-O-Racha”, que vão dar vida nova pras bonecas, os ursinho e os carrinho da gurizada nacional.
Cesta-feira, 9
Fiquei uns dia sem escrever porque a situação tá preta. Pegaram o Tadeu com a boca na botija. Ele andou fazendo umas coisa feia que eu não tava sabendo, o safado. Me falaram que eu posso me estropiar mesmo sem ter nada haver com o pato. Conciente dos meus direito, fui tirar a limpo essa história com os bam-bam-bam que entende da lei. Disse que não ia sair assim não, que não ia intregar a rapadura. Eles falaram pra eu ir embora com um pé naquele lugar e uma mão na frente. Mas aí me lembrei dos tempos de sindicato e enduressi na negociação. Disse que só saía com um bom acordo - no mínimo com uma mão na frente, outra atrás e mais o chutão nos fundilho. Aí um dos bacana falou assim que eu não ia ficar sem eira nem beira, que dava pra arrumar também uma eira e uma beira bem reforçada. Milhor. Já dá pra acertar a vida antes de voltar pro batente.
Monday, January 02, 2006
BATE-BOLA
COM NERO
Time de futebol
Botafogo.
Filme
Quanto mais quente, melhor.
Cidade
Lavas.
Música
Me chama.
Uma paixão
Joelma.
Um trauma
Hidrantes.
Um ditado
Onde há fumaça, há fogo.
Jogo
Queimada.
Prato favorito
Macarrão ardente.
Sobremesa
Doce de coco queimado.
Sonho impossível
Extintor de água.
Bebida
Whisqueiro.
Elemento Químico
Fósforo.
Livro
Os segredos do Churrasco.
Cigarro
Aceso.
Pneu
Firestone.
Cor
Cinza.
Desenho animado
Os Brasinhas do Espaço.
Programa de TV
Tela Quente e Temperatura Máxima.
Roupa
Só de queima de estoque.
Lugar mais estranho onde já fez amor
Escada de incêndio.
Viagem
De foguete.
Amar é
Não deixar o desejo apagar.
Defeito
Ter o pavio curto.
Desejo
Tocar cítara tão bem quanto toco fogo.
COM DELFIM NETO
Carro
Renault Selic com câmbio flutuante.
Passeio
Circuito das Águas, com desconto na fonte.
Investimento
Poupe seu tempo e economize espaço no jornal. Duas perguntas já está bom.
COM GIL GOMES
Comida
Presunto.
Música
Ronda.
Filme
Corra que a polícia vem aí.
Livro
Memórias do Cárcere.
Teatro
Uma facada.
Uma virtude
Garra.
Um crime hediondo
Morte seguida de estupro.
Passatempo
Xadrez.
Roupa
Forum.
Sonho de consumo
Cela ampla e luxuosa, com requintes de crueldade.
Lugar legal
O Instituto Médico.
Carro
Envenenado.
Situação econômica
Enforcado.
Cartão de Crédito
Roubado.
Cachorro
Policial.
O que incomoda
Prisão de ventre.
Filosofia
Sorria. Você está sendo filmado.
Acabou.
Que pena.
COM BEETHOVEN
Carro
No concerto. Só andava em ré.
Instrumento
Hein?
Instrumento!
Hein?
Instrumentoooooooo!!!!!
Ah sim, instrumento. Surdo.
Fruta
A Nona.
Lugar
Lá.
Desodorante
Moderato.
Relógio
De cordas.
Comida
Bis.
Cachorro
Bravo!
O que anda ouvindo
Hein?
COM SHERLOCK HOLMES
Música
Adivinhe.
Hobby
Investigue.
Cor
Deduza.
Filme
Sou suspeito pra falar.
Uma pista
Rodovia dos Bandeirantes.
Quem é o culpado
Ele.
Ele quem?
Elementar.
Objeto de desejo
A Lupa do Oliveira.
Prato preferido
Comida álibi.
Caso insolúvel
Água e óleo.
Carro
Siga-o.
Ídolo
Conan. O Doyle, não o Bárbaro.
Amigo de valor
Meu caro Watson.
Filosofia
Agora tudo se encaixa.
Um ditado
A primeira impressão digital é a que fica.
Uma dúvida
Nenhuma. Foi o mordomo.
Animal
A gata Christie.
Finalize o interrogatório
Pergunta pro Nero se ele tem fogo pro meu cachimbo.
Time de futebol
Botafogo.
Filme
Quanto mais quente, melhor.
Cidade
Lavas.
Música
Me chama.
Uma paixão
Joelma.
Um trauma
Hidrantes.
Um ditado
Onde há fumaça, há fogo.
Jogo
Queimada.
Prato favorito
Macarrão ardente.
Sobremesa
Doce de coco queimado.
Sonho impossível
Extintor de água.
Bebida
Whisqueiro.
Elemento Químico
Fósforo.
Livro
Os segredos do Churrasco.
Cigarro
Aceso.
Pneu
Firestone.
Cor
Cinza.
Desenho animado
Os Brasinhas do Espaço.
Programa de TV
Tela Quente e Temperatura Máxima.
Roupa
Só de queima de estoque.
Lugar mais estranho onde já fez amor
Escada de incêndio.
Viagem
De foguete.
Amar é
Não deixar o desejo apagar.
Defeito
Ter o pavio curto.
Desejo
Tocar cítara tão bem quanto toco fogo.
COM DELFIM NETO
Carro
Renault Selic com câmbio flutuante.
Passeio
Circuito das Águas, com desconto na fonte.
Investimento
Poupe seu tempo e economize espaço no jornal. Duas perguntas já está bom.
COM GIL GOMES
Comida
Presunto.
Música
Ronda.
Filme
Corra que a polícia vem aí.
Livro
Memórias do Cárcere.
Teatro
Uma facada.
Uma virtude
Garra.
Um crime hediondo
Morte seguida de estupro.
Passatempo
Xadrez.
Roupa
Forum.
Sonho de consumo
Cela ampla e luxuosa, com requintes de crueldade.
Lugar legal
O Instituto Médico.
Carro
Envenenado.
Situação econômica
Enforcado.
Cartão de Crédito
Roubado.
Cachorro
Policial.
O que incomoda
Prisão de ventre.
Filosofia
Sorria. Você está sendo filmado.
Acabou.
Que pena.
COM BEETHOVEN
Carro
No concerto. Só andava em ré.
Instrumento
Hein?
Instrumento!
Hein?
Instrumentoooooooo!!!!!
Ah sim, instrumento. Surdo.
Fruta
A Nona.
Lugar
Lá.
Desodorante
Moderato.
Relógio
De cordas.
Comida
Bis.
Cachorro
Bravo!
O que anda ouvindo
Hein?
COM SHERLOCK HOLMES
Música
Adivinhe.
Hobby
Investigue.
Cor
Deduza.
Filme
Sou suspeito pra falar.
Uma pista
Rodovia dos Bandeirantes.
Quem é o culpado
Ele.
Ele quem?
Elementar.
Objeto de desejo
A Lupa do Oliveira.
Prato preferido
Comida álibi.
Caso insolúvel
Água e óleo.
Carro
Siga-o.
Ídolo
Conan. O Doyle, não o Bárbaro.
Amigo de valor
Meu caro Watson.
Filosofia
Agora tudo se encaixa.
Um ditado
A primeira impressão digital é a que fica.
Uma dúvida
Nenhuma. Foi o mordomo.
Animal
A gata Christie.
Finalize o interrogatório
Pergunta pro Nero se ele tem fogo pro meu cachimbo.
Wednesday, December 21, 2005
ANACRÔNICA
Outro dia um colega de trabalho me mostrou um programinha que ele tinha acabado de baixar da internet: um simulador de barulho de máquina de escrever. Acionado o software, bastava ligar as caixinhas de som e, ao digitar no teclado, saíam ruídos que imitavam o tec-tec da dita cuja. Com o requinte de poder escolher entre vários modelos de máquina. Para cada modelo um som diferente, cópia fiel do original. O mais engraçado é que se ia escrevendo e, ao chegar o fim da linha, tinha aquele barulhão do carro da máquina voltando.
Retornei ao meu lugar e à época em que se datilografava ao invés de digitar. Tinha uns 12 ou 13 anos quando meu pai me matriculou num curso de datilografia da Escola Remington, do Seu Mario Sundfeld. Guardo até hoje o certificado de conclusão - passei com 9. Lembro direitinho do primeiro exercício, só com a mão esquerda: asdf asdf asdf – quatro ou cinco linhas da mesma seqüência, para o aluno memorizar a localização das teclas. Para boa conservação do equipamento, era bom passar o limpa-tipos de vez em quando - uma espécie de borrachinha que, pressionada como um chiclete nos tipos da máquina, ia tirando os resíduos de pó e de tinta que se acumulavam nas letras e tornavam os caracteres ilegíveis.
Quando a gente xxxxxxx errava alguma coisa no xxxx que estava escrevendo, ou resolvia substiutir uma xxxxxxxxxx palavra por outra, o texto ficava cheio de xxxxxxxx. Ou então se usava o corretivo, também chamado de branquinho, utilizado por muitos para fins bem menos nobres. Hoje, o processo de gestação do texto não deixa rastro. Os originais já nascem insípidos e imaculados. Tudo se deleta, se remove, se inverte, sem rabisco e rasura. É o fim do lixo cheio de papel amassado.
Uma máquina de escrever era o que se poderia chamar de “bem durável”, com direito a plaquinha de patrimônio. Objeto de ciúme e estimação, inspirava respeito. Era um monolito encravado na mesa do escritório. Muita gente ganhava uma na formatura do ginásio e ficava com ela até se aposentar. A pessoa, porque a máquina, nem pensar. Quanto mais se batucava mais a bichinha ia amaciando o teclado, ficando mais sensível ao toque e aos caprichos do dono. Tinha valor, atravessava gerações, ficava de herança. Já pensou hoje um computador ser arrolado em inventário? Por mais moderno que seja, daqui a uns meses não valerá mais nada – não suportará a versão 11.2 do Word, os novos recursos do Excel e a interface amigável do próximo Windows. Para que os programas continuem rodando satisfatoriamente, será preciso providenciar mais 4 pentes de memória, um processador mais potente, um hd de 100 gigas e 6 entradas USB. Aí o técnico em informática dirá a você que talvez seja melhor e mais em conta trocar de uma vez a CPU ao invés fazer as atualizações.
Em contrapartida, o que a minha boa e velha Hermes portátil me pede? Quando muito uma fitinha nova a cada dois anos. E olha que maus tratos é que não faltaram nesse tempo todo em que está comigo. Quanta migalha de bolacha e cinza de cigarro já deixei cair em cima dela. Poderia entornar uma ceia de Natal inteira sobre a coitada, com leitoa e tudo, que ela continuaria firme. Já o teclado do computador, se pingar uma gotinha de refrigerante, pode esquecer. Curto nos circuitos, falha geral de sistema, adeus aos dados não salvos.
Preço não é desculpa pra que você deixe de satisfazer esse excêntrico sonho de consumo. Por 100, 150 reais dá pra comprar uma maquininha bem razoável nas poucas oficinas de manutenção remanescentes. De quarta ou quinta mão, mas em perfeito estado de funcionamento - revisada e garantida. Mesmo que não seja pra usar, mas pra sentir o gostinho (ou o cheirinho) de ter uma. Sim, porque as máquinas de escrever têm um cheiro peculiar, de metal e óleo lubrificante. Todas cheiram assim. Exceto as que estão no ferro-velho.
NOTA: esta crônica foi gerada em ambiente Windows XP, no editor de texto Word 2003, salva em disco rígido, copiada em CD e finalmente passada a limpo numa Hermes Baby cor de abóbora, fabricada em 1979.
Retornei ao meu lugar e à época em que se datilografava ao invés de digitar. Tinha uns 12 ou 13 anos quando meu pai me matriculou num curso de datilografia da Escola Remington, do Seu Mario Sundfeld. Guardo até hoje o certificado de conclusão - passei com 9. Lembro direitinho do primeiro exercício, só com a mão esquerda: asdf asdf asdf – quatro ou cinco linhas da mesma seqüência, para o aluno memorizar a localização das teclas. Para boa conservação do equipamento, era bom passar o limpa-tipos de vez em quando - uma espécie de borrachinha que, pressionada como um chiclete nos tipos da máquina, ia tirando os resíduos de pó e de tinta que se acumulavam nas letras e tornavam os caracteres ilegíveis.
Quando a gente xxxxxxx errava alguma coisa no xxxx que estava escrevendo, ou resolvia substiutir uma xxxxxxxxxx palavra por outra, o texto ficava cheio de xxxxxxxx. Ou então se usava o corretivo, também chamado de branquinho, utilizado por muitos para fins bem menos nobres. Hoje, o processo de gestação do texto não deixa rastro. Os originais já nascem insípidos e imaculados. Tudo se deleta, se remove, se inverte, sem rabisco e rasura. É o fim do lixo cheio de papel amassado.
Uma máquina de escrever era o que se poderia chamar de “bem durável”, com direito a plaquinha de patrimônio. Objeto de ciúme e estimação, inspirava respeito. Era um monolito encravado na mesa do escritório. Muita gente ganhava uma na formatura do ginásio e ficava com ela até se aposentar. A pessoa, porque a máquina, nem pensar. Quanto mais se batucava mais a bichinha ia amaciando o teclado, ficando mais sensível ao toque e aos caprichos do dono. Tinha valor, atravessava gerações, ficava de herança. Já pensou hoje um computador ser arrolado em inventário? Por mais moderno que seja, daqui a uns meses não valerá mais nada – não suportará a versão 11.2 do Word, os novos recursos do Excel e a interface amigável do próximo Windows. Para que os programas continuem rodando satisfatoriamente, será preciso providenciar mais 4 pentes de memória, um processador mais potente, um hd de 100 gigas e 6 entradas USB. Aí o técnico em informática dirá a você que talvez seja melhor e mais em conta trocar de uma vez a CPU ao invés fazer as atualizações.
Em contrapartida, o que a minha boa e velha Hermes portátil me pede? Quando muito uma fitinha nova a cada dois anos. E olha que maus tratos é que não faltaram nesse tempo todo em que está comigo. Quanta migalha de bolacha e cinza de cigarro já deixei cair em cima dela. Poderia entornar uma ceia de Natal inteira sobre a coitada, com leitoa e tudo, que ela continuaria firme. Já o teclado do computador, se pingar uma gotinha de refrigerante, pode esquecer. Curto nos circuitos, falha geral de sistema, adeus aos dados não salvos.
Preço não é desculpa pra que você deixe de satisfazer esse excêntrico sonho de consumo. Por 100, 150 reais dá pra comprar uma maquininha bem razoável nas poucas oficinas de manutenção remanescentes. De quarta ou quinta mão, mas em perfeito estado de funcionamento - revisada e garantida. Mesmo que não seja pra usar, mas pra sentir o gostinho (ou o cheirinho) de ter uma. Sim, porque as máquinas de escrever têm um cheiro peculiar, de metal e óleo lubrificante. Todas cheiram assim. Exceto as que estão no ferro-velho.
NOTA: esta crônica foi gerada em ambiente Windows XP, no editor de texto Word 2003, salva em disco rígido, copiada em CD e finalmente passada a limpo numa Hermes Baby cor de abóbora, fabricada em 1979.
O RETORNO
Eram três e vinte. A consulta estava marcada para as quatro, e acho que pela primeira vez na vida comecei a reparar nos detalhes peculiares de uma sala de espera. Percebi que havia pouquíssimas diferenças entre aquela e todas as outras que já tinha entrado. Só variavam o endereço e a especialidade do médico ou do dentista.
Você chega e, antes de sentar-se, vai direto ao porta-revistas. Que nunca é um porta-revistas. Ou é um tacho de cobre ou uma cestinha de vime. Dentro, algumas "Veja" sem capa, publicações médicas, tablóides de ofertas do supermercado mais próximo e livrinhos de palavras cruzadas já resolvidas. Se for consultório de pediatra, costuma ter gibi também. E, claro, uma revista Nova bem velha. De 98, 99, por aí. Com uma mulher maravilhosa na capa, em superclose, enrugada como um maracujá de gaveta pelo amassado do papel. Iguais as que a gente encontra no cabeleireiro, mas sem as mechas de cabelo anônimo no meio. Fuçando mais um bocadinho você vai encontrar umas duas ou três Caras que já viraram Coroas, esfarelando e mais amareladas que os manuscritos do Mar Morto.
Geralmente, a revista que você pega é um pouco mais interessante que a do sujeito que está ao seu lado. É quando você percebe que são dois lendo a mesma matéria. O cara com o pescoço cada vez mais esticado para o seu colo. E você fica naquela, sem saber se vira ou não a página, se o vizinho já terminou ou não a leitura dele.
Não demora e chega o puxa-prosa. Aquele que diz “como vai?” e, antes que você responda, já vai logo contando como ele vai. Começa falando do tempo e em questão de segundos desembucha a ficha completa: de onde é, onde dói, a filha casada que mora em Mato Grosso, o filho metido com droga, o terreninho que ele comprou em Boiçucanga com a herança deixada por um tio-avô.
Algumas salas de espera têm aquário, com acarás-bandeira, peixes japoneses, paulistinhas e até cascudos. Sem som ambiente, fica só aquele glub-glub da bomba de ar, que é tiro e queda como sonífero. Quando estiver numa dessas, pode reparar: de cada dez, tem uns quatro dormindo. E ferrados no sono, com fio de baba escorrendo e tudo.
Existem tipos invariavelmente encontráveis em toda sala de espera que se preze: a mãe com um pestinha que não pára quieto (o pentelho quase sempre é acompanhante e não o paciente, pois demonstra uma saúde de ferro). O homem que fica olhando para a ponta do sapato, com o pensamento a léguas dali. O propagandista de laboratório, tamborilando com os dedos em sua pasta preta e consultando o relógio a cada dois minutos. Uma perua falando alto ao celular. A patricinha com seu "Diário de Bridget Jones", mascando chiclete e de calça Diesel.
A intimidade que você acaba tendo com a sala de espera é praticamente compulsória, pelo tempo a mais que você tem que ficar esperando. A consulta das 13h30 é, na verdade, às 14h45. O problema é que, se você não chega às 13h30, o paciente das 14h, que só vai ser atendido às 15h15, passa na sua frente. Ou seja, você está condenado a ficar ali contando não sei quantas vezes os ladrilhos do chão.
Uma voz feminina, com inflexão de locutora de aeroporto, me tira do devaneio:
- Sr. Marcelo... Sguas...
E enrosca no Sguassábia. Lógico.
- Primeira porta à direita. É retorno, senhor?
- Não. Mas é como se fosse.
- Ahn??
Você chega e, antes de sentar-se, vai direto ao porta-revistas. Que nunca é um porta-revistas. Ou é um tacho de cobre ou uma cestinha de vime. Dentro, algumas "Veja" sem capa, publicações médicas, tablóides de ofertas do supermercado mais próximo e livrinhos de palavras cruzadas já resolvidas. Se for consultório de pediatra, costuma ter gibi também. E, claro, uma revista Nova bem velha. De 98, 99, por aí. Com uma mulher maravilhosa na capa, em superclose, enrugada como um maracujá de gaveta pelo amassado do papel. Iguais as que a gente encontra no cabeleireiro, mas sem as mechas de cabelo anônimo no meio. Fuçando mais um bocadinho você vai encontrar umas duas ou três Caras que já viraram Coroas, esfarelando e mais amareladas que os manuscritos do Mar Morto.
Geralmente, a revista que você pega é um pouco mais interessante que a do sujeito que está ao seu lado. É quando você percebe que são dois lendo a mesma matéria. O cara com o pescoço cada vez mais esticado para o seu colo. E você fica naquela, sem saber se vira ou não a página, se o vizinho já terminou ou não a leitura dele.
Não demora e chega o puxa-prosa. Aquele que diz “como vai?” e, antes que você responda, já vai logo contando como ele vai. Começa falando do tempo e em questão de segundos desembucha a ficha completa: de onde é, onde dói, a filha casada que mora em Mato Grosso, o filho metido com droga, o terreninho que ele comprou em Boiçucanga com a herança deixada por um tio-avô.
Algumas salas de espera têm aquário, com acarás-bandeira, peixes japoneses, paulistinhas e até cascudos. Sem som ambiente, fica só aquele glub-glub da bomba de ar, que é tiro e queda como sonífero. Quando estiver numa dessas, pode reparar: de cada dez, tem uns quatro dormindo. E ferrados no sono, com fio de baba escorrendo e tudo.
Existem tipos invariavelmente encontráveis em toda sala de espera que se preze: a mãe com um pestinha que não pára quieto (o pentelho quase sempre é acompanhante e não o paciente, pois demonstra uma saúde de ferro). O homem que fica olhando para a ponta do sapato, com o pensamento a léguas dali. O propagandista de laboratório, tamborilando com os dedos em sua pasta preta e consultando o relógio a cada dois minutos. Uma perua falando alto ao celular. A patricinha com seu "Diário de Bridget Jones", mascando chiclete e de calça Diesel.
A intimidade que você acaba tendo com a sala de espera é praticamente compulsória, pelo tempo a mais que você tem que ficar esperando. A consulta das 13h30 é, na verdade, às 14h45. O problema é que, se você não chega às 13h30, o paciente das 14h, que só vai ser atendido às 15h15, passa na sua frente. Ou seja, você está condenado a ficar ali contando não sei quantas vezes os ladrilhos do chão.
Uma voz feminina, com inflexão de locutora de aeroporto, me tira do devaneio:
- Sr. Marcelo... Sguas...
E enrosca no Sguassábia. Lógico.
- Primeira porta à direita. É retorno, senhor?
- Não. Mas é como se fosse.
- Ahn??
O DIA D
De deixar de engolir sapos pra dizer cobras e lagartos. De lagartear enquanto todos se danam de trabalhar. De danar-se para o que os outros achem ou possam pensar. De esticar o raciocínio até atingir a ignorância. De ignorar o radar e a multa, quando ela chegar. De chegar em casa e no chuveiro esvair-se ralo abaixo, sem parar. De parar de andar sentido com a vida e buscar um sentido pra ela. De dizer a ela, a ele, a elas e a eles que agora infelizmente não é possível. De possibilitar-se novas possibilidades, e ver que dá pé fazer o que jamais passou pela cabeça. De encabeçar o abaixo-assinado, indignar-se, chamar a imprensa. De imprimir sua marca na mais alta das encostas, onde poucos alcançaram e ninguém possa tirar. De tirar o relógio do pulso e ter pulso para mandar às favas o prazo estourado. De estourar a boca do balão, cair matando e partir pra briga. De brigar com a obrigação e fazer as pazes com a paz. De apaziguar a ansiedade, baixar a guarda e abrir os braços. De abraçar causas perdidas. De perder e dormir sobre os louros da derrota. De derrotar quem resolve o que pode e o que não pode. De poder e arbitrar, ir além da dose habitual, pichar um muro, dormir sem pijama, não trancar as portas nem regar as plantas. De plantar a semente da discórdia, botar a pulga atrás da orelha, acender o pavio, tapar os ouvidos e sair correndo. De correr algum risco, curtir o frio na barriga, ver a morte de perto, desatar os nós e desatar a rir. De soltar a risada reprimida, censurada à mesa, proibida nas igrejas e velórios, condenável na escola, nas audiências públicas e salas de concerto. De consertar o ânimo alquebrado, o tédio que enferruja, o sifão da pia e a dobradiça da janela. De erguer a vidraça e açoitar o mofo de idos tempos. De sentir saudade de sentir saudade. Ou, melhor ainda, de não sentir saudade por não saber do que se trata. De tratar de ser o que sonhava ser quando crescesse. De crescer sem conhecer a dor do fogo, a picada da cobra, os receios, arrependimentos e limitações incapacitantes. De ser capaz de entreter sem ser chato ou cansativo. De cansar do cansaço e demiti-lo, por justa causa e sem aviso prévio. De previamente ir deixando pra depois. De manter adiado até segunda ordem. De ordenar ao sargento pra não bater continência. De tornar continente seu pequeno povoado. De povoar de duendes e fadas madrinhas a fria terra dos gigantes. De agigantar-se e soar como o piano de Horowitz, a guitarra de Hendrix, o trompete de Armstrong num final de tarde. De assistir o entardecer sem pressa do sol se pôr. De pôr os pingos nos is, passar a limpo, tirar a teima e, tudo isso feito, jazer abandonado num sofá Chesterfield. De abandonar o cigarro por enjoar do vício, não porque é preciso. De não precisar mais cortar as unhas, fazer a barba, retornar ao dentista, atualizar o antivírus, pagar as contas e a promessa. De prometer a si mesmo que, daqui pra frente, nunca mais. De nunca mais guardar pra amanhã o último pedaço de chocolate, já que o amanhã pode muito bem cismar de não chegar. De chegar ao cúmulo, despertar a ira e provocar o espanto. De se espantar consigo e com quem quer que seja. De deixar de.
Tuesday, December 20, 2005
ALEATORIAMENTE
Falta de criatividade pode não significar ausência de dom ou talento para a coisa. Pode ser simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.
Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “random word”, também chamada de estímulo aleatório. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a idéia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim soluções e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.
Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas não tinha nada melhor pra me aparecer, não?! O acaso poderia ter sido mais camarada.
Tentei de novo. Apareceu a palavra “empada”. Pra achar alguma liga entre empada e inspiração, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso, eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...
Ainda assim fui em frente. Caí no termo “tubo”. Relacionando inspiração a tubo fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à associação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com isso. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável potencial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!
Optei pela caminhada. Coloquei short e tênis e me pus em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros da palavra Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de Hollywood por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao Mistério de Irma Vap, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. Tear me lembrou Tears, lágrimas em inglês. Pára, pára, pára. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última idéia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.
O fato é que, com essa história toda, cheguei até os quase 3000 caracteres que precisava pra completar minha coluna. E se você chegou até o fim deste texto, é sinal de que minha viagem pela aleatoriedade não foi totalmente em vão. Ou foi?
Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “random word”, também chamada de estímulo aleatório. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a idéia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim soluções e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.
Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas não tinha nada melhor pra me aparecer, não?! O acaso poderia ter sido mais camarada.
Tentei de novo. Apareceu a palavra “empada”. Pra achar alguma liga entre empada e inspiração, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso, eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...
Ainda assim fui em frente. Caí no termo “tubo”. Relacionando inspiração a tubo fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à associação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com isso. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável potencial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!
Optei pela caminhada. Coloquei short e tênis e me pus em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros da palavra Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de Hollywood por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao Mistério de Irma Vap, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. Tear me lembrou Tears, lágrimas em inglês. Pára, pára, pára. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última idéia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.
O fato é que, com essa história toda, cheguei até os quase 3000 caracteres que precisava pra completar minha coluna. E se você chegou até o fim deste texto, é sinal de que minha viagem pela aleatoriedade não foi totalmente em vão. Ou foi?
ELE É O CARA. AINDA.
Sinistro como aquele dia, só a fachada do Dakota - o paquiderme gótico que em nada lembrava você e suas roupas brancas pela paz. Gente do mundo todo aos prantos na frente da sua casa, teimando em não acreditar. Foi muita areia pros meus 16 anos, cara. Ainda que a milhares de quilômetros do epicentro, e só acompanhando pela televisão, sacudiu muito a estrutura. O Lucas Mendes ali, todo encapotado no Central Park, até ele parecia não encontrar nexo no que estava narrando.
Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e cinco anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de conter, não mais por causa da sua morte, mas por sentir você mais vivo que antes de ser assassinado. Você chamando Julia, pedindo Help, são coisas que a gente ainda escuta em estado de graça e com os pêlos todos eriçados. Os que já beiram os 60 – que viram você surgir, brilhar e partir – ou a garotada de 15, que só agora está ouvindo falar de você.
Fica à vontade, Mr. John. Nem preciso dizer que a casa é sua, olha só quantos discos seus. Acenda o tipo de cigarro que quiser, sirva-se do meu uísque, toque o meu piano. Só não fica tão ansioso, cruzando e descruzando as pernas o tempo todo. Relax, man. Pode se esticar no sofá, vou ligar para o delivery e pedir uns sushis.
Você afirmava que Deus era uma invenção, e é possível que você tenha dado de cara com o nada depois daqueles quatro tiros. Mas talvez o fato de não-ser valha mais a pena do que continuar por aqui, vendo tudo tão oposto ao que você imaginou. É, porque não deram chance à paz coisa nenhuma. Nunca estivemos tão longe dela. A despeito de você ter deixado a CIA com o pé atrás, o Nixon de cabelo em pé, o Elvis enciumado. Apesar de ter apontado o caminho pros filhos desorientados da guerra fria. Você, cara, teve peito de devolver a medalha pra Rainha. Deu uma banana pro show business e os managers das gravadoras pra ficar fazendo pão, lavando o chão e ninando o Sean. Que absurdo, o babá-beatle. Onde é que ele quer chegar, o que é que ele quer dizer? É, meu, você precisou ser muito homem pra virar dono de casa.
Como dizia uma de suas últimas letras, “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”. E os nossos planos, cara, são ainda mais tolos e mesquinhos do que em 1980. Junto com o adeus a você, um caminhão de utopias rolou ribanceira abaixo. É frustrante ver hoje a sua figura desvinculada da sua história. Da sua verdadeira história. O que se vê é você reduzido a botons e pôsteres, desde as rodoviárias até as galerias de arte – o John de terninho e bota, o psicodélico, o hippie barbudo, o combativo, o pacifista. Mas da sua mensagem, que é o mais importante, muito pouco se fala. Ficam na superfície, no guru a quem se deve adoração sem que se saiba o porquê.
É irônico e entediante encontrar, por essa época do ano, seus CDs dentro daqueles trenós de papelão nos hipermercados, ao lado da gôndola de panetones. A mídia faturando em cima da aura messiânica criada em torno de você, fazendo girar a engrenagem que financia a guerra que você combatia. Transmitem especiais em sua homenagem, celebram com fingido pesar a sua morte, transformam você num papai noel magro, o som ambiente dos shoppings mandando ver o seu “Happy Christmas”. Eles não entenderam nada. Pior: fingem que não entenderam.
Até, cara. Dá um abraço no George.
Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e cinco anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de conter, não mais por causa da sua morte, mas por sentir você mais vivo que antes de ser assassinado. Você chamando Julia, pedindo Help, são coisas que a gente ainda escuta em estado de graça e com os pêlos todos eriçados. Os que já beiram os 60 – que viram você surgir, brilhar e partir – ou a garotada de 15, que só agora está ouvindo falar de você.
Fica à vontade, Mr. John. Nem preciso dizer que a casa é sua, olha só quantos discos seus. Acenda o tipo de cigarro que quiser, sirva-se do meu uísque, toque o meu piano. Só não fica tão ansioso, cruzando e descruzando as pernas o tempo todo. Relax, man. Pode se esticar no sofá, vou ligar para o delivery e pedir uns sushis.
Você afirmava que Deus era uma invenção, e é possível que você tenha dado de cara com o nada depois daqueles quatro tiros. Mas talvez o fato de não-ser valha mais a pena do que continuar por aqui, vendo tudo tão oposto ao que você imaginou. É, porque não deram chance à paz coisa nenhuma. Nunca estivemos tão longe dela. A despeito de você ter deixado a CIA com o pé atrás, o Nixon de cabelo em pé, o Elvis enciumado. Apesar de ter apontado o caminho pros filhos desorientados da guerra fria. Você, cara, teve peito de devolver a medalha pra Rainha. Deu uma banana pro show business e os managers das gravadoras pra ficar fazendo pão, lavando o chão e ninando o Sean. Que absurdo, o babá-beatle. Onde é que ele quer chegar, o que é que ele quer dizer? É, meu, você precisou ser muito homem pra virar dono de casa.
Como dizia uma de suas últimas letras, “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”. E os nossos planos, cara, são ainda mais tolos e mesquinhos do que em 1980. Junto com o adeus a você, um caminhão de utopias rolou ribanceira abaixo. É frustrante ver hoje a sua figura desvinculada da sua história. Da sua verdadeira história. O que se vê é você reduzido a botons e pôsteres, desde as rodoviárias até as galerias de arte – o John de terninho e bota, o psicodélico, o hippie barbudo, o combativo, o pacifista. Mas da sua mensagem, que é o mais importante, muito pouco se fala. Ficam na superfície, no guru a quem se deve adoração sem que se saiba o porquê.
É irônico e entediante encontrar, por essa época do ano, seus CDs dentro daqueles trenós de papelão nos hipermercados, ao lado da gôndola de panetones. A mídia faturando em cima da aura messiânica criada em torno de você, fazendo girar a engrenagem que financia a guerra que você combatia. Transmitem especiais em sua homenagem, celebram com fingido pesar a sua morte, transformam você num papai noel magro, o som ambiente dos shoppings mandando ver o seu “Happy Christmas”. Eles não entenderam nada. Pior: fingem que não entenderam.
Até, cara. Dá um abraço no George.
MISSA
A hora em que o Senhor reúne suas ovelhas é a hora em que a província é mais tacanha e ensimesmada, a urbe é vila das almas e todos acreditam piamente na fraternidade entre os homens. Unem-se no mesmo rito o mendigo à porta da igreja e o turco da loja, que não fia nem à mãe. Caciques políticos que não se olham na cara ficam, a contragosto, debaixo da mesma abóbada. Todos perfeitamente equalizados na filiação divina, tentando honrar o que do Altíssimo receberam e merecerem a salvação no dia final.
- Andai com retidão pelos caminhos do Senhor. A quem muito foi dado, muito será cobrado.
O sinal da Cruz com água benta. Um olhar à esquerda e outro à direita, pra saudar os conhecidos antes de tomar assento. O Ministro da Eucaristia repassando a primeira leitura. Alô, sssssssommm.
- Vamos ensaiar mais uma vez o canto do ofertório, na página 3 do folheto.
Amalgamam-se velas, incenso, perfumes finos e populares. A igreja cheia. As velhas com suas novenas e missais, véus negros como os arabescos de jacarandá nos altares laterais. Essas velhas que ali fizeram a primeira comunhão, casaram-se e ali teriam, mais cedo ou mais tarde, sua missa de corpo presente. Enxergam a si mesmas no ataúde, em meio à homilia derradeira, imaginando a figura que fariam, como os parentes as vestiriam para a ocasião. E vagariam, os espíritos já fora dos corpos, pelos comentários de noras e filhos, genros e netos. Saberiam de verdade o que sentiam a seu respeito.
O preto da batina do padre, o vermelho vivo dos paramentos, o branco das pipocas estourando lá na praça.
- Será que teria mais um lugarzinho aí?
Cinco em um banco fica apertado, mas não é cristão negar. Oremos. Adoremos. Louvemos. Divaga o pensamento nas asas dos anjos pintados no teto. O confessionário, agora vazio, tão procurado nas horas mortas pelos reincidentes nas faltas capitais e veniais. O padre ouvindo, ouvindo sem olhar no rosto. Uma cortininha roxa e uma treliça de madeira separando o pecado da absolvição.
O toc-toc do salto alto de Dona Bela, ecoando igreja adentro. Poucos sabem seu nome, raros lhe dirigem a palavra. Estranha e circunspecta, a blusa fechada por uns duzentos botões. Sempre chega dez minutos antes, hoje atrasou. Religiosamente senta-se no mesmo banco, o terceiro à esquerda do altar.
Os olhares estáticos dos santos, como que impassíveis diante das preces.
Genuflexório de reflexões. A luz das nove da manhã, coada pelos vitrais, batendo na pia batismal.
- Esse sermão que não acaba mais. O padre hoje está inspirado.
Tudo muito mais solene no tempo do Advento. Olha que lindo o presépio, festões verdes e dourados, cachoeira ao lado da manjedoura. Estranho à liturgia e alheio ao que se passa, o cachorro pulguento fica pra lá e pra cá. Só de igreja tem uns quinze anos. Deve se sentir acompanhado e protegido. Um cão guardado por Deus. As mãos trêmulas do dono da farmácia passeando pelos mistérios do Rosário. Vem com os netos, uma fileira de pimpolhos. Cabelinhos repartidos, banho tomado, roupa de sair. Na hora do “saudai-vos uns aos outros”, vai um tempão até beijar todos eles. O farmacêutico era ateu. Até que teve um negócio, se agarrou ao Poderoso, pediu com fé sua cura, foi atendido e aí está. Convertido e devoto.
- Ave Maria, Gratia Plena, Dominus tecum...
As colunas, arcos e ogivas a elevarem aos céus os clamores de misericórdia e as alegrias pelas graças alcançadas.
O corpo leve: é a paz na alma. A bênção final, amém.
- Olha a pipoca, quebra-queixo, amendoim... Um coquinho para o seu menino?
- Levo sim. Dessa bexiga ele também vai gostar muito.
E lá vão eles, a passos lentos retornando às suas vidinhas, carregando nos corações todo o bem do mundo de meu Deus.
- Andai com retidão pelos caminhos do Senhor. A quem muito foi dado, muito será cobrado.
O sinal da Cruz com água benta. Um olhar à esquerda e outro à direita, pra saudar os conhecidos antes de tomar assento. O Ministro da Eucaristia repassando a primeira leitura. Alô, sssssssommm.
- Vamos ensaiar mais uma vez o canto do ofertório, na página 3 do folheto.
Amalgamam-se velas, incenso, perfumes finos e populares. A igreja cheia. As velhas com suas novenas e missais, véus negros como os arabescos de jacarandá nos altares laterais. Essas velhas que ali fizeram a primeira comunhão, casaram-se e ali teriam, mais cedo ou mais tarde, sua missa de corpo presente. Enxergam a si mesmas no ataúde, em meio à homilia derradeira, imaginando a figura que fariam, como os parentes as vestiriam para a ocasião. E vagariam, os espíritos já fora dos corpos, pelos comentários de noras e filhos, genros e netos. Saberiam de verdade o que sentiam a seu respeito.
O preto da batina do padre, o vermelho vivo dos paramentos, o branco das pipocas estourando lá na praça.
- Será que teria mais um lugarzinho aí?
Cinco em um banco fica apertado, mas não é cristão negar. Oremos. Adoremos. Louvemos. Divaga o pensamento nas asas dos anjos pintados no teto. O confessionário, agora vazio, tão procurado nas horas mortas pelos reincidentes nas faltas capitais e veniais. O padre ouvindo, ouvindo sem olhar no rosto. Uma cortininha roxa e uma treliça de madeira separando o pecado da absolvição.
O toc-toc do salto alto de Dona Bela, ecoando igreja adentro. Poucos sabem seu nome, raros lhe dirigem a palavra. Estranha e circunspecta, a blusa fechada por uns duzentos botões. Sempre chega dez minutos antes, hoje atrasou. Religiosamente senta-se no mesmo banco, o terceiro à esquerda do altar.
Os olhares estáticos dos santos, como que impassíveis diante das preces.
Genuflexório de reflexões. A luz das nove da manhã, coada pelos vitrais, batendo na pia batismal.
- Esse sermão que não acaba mais. O padre hoje está inspirado.
Tudo muito mais solene no tempo do Advento. Olha que lindo o presépio, festões verdes e dourados, cachoeira ao lado da manjedoura. Estranho à liturgia e alheio ao que se passa, o cachorro pulguento fica pra lá e pra cá. Só de igreja tem uns quinze anos. Deve se sentir acompanhado e protegido. Um cão guardado por Deus. As mãos trêmulas do dono da farmácia passeando pelos mistérios do Rosário. Vem com os netos, uma fileira de pimpolhos. Cabelinhos repartidos, banho tomado, roupa de sair. Na hora do “saudai-vos uns aos outros”, vai um tempão até beijar todos eles. O farmacêutico era ateu. Até que teve um negócio, se agarrou ao Poderoso, pediu com fé sua cura, foi atendido e aí está. Convertido e devoto.
- Ave Maria, Gratia Plena, Dominus tecum...
As colunas, arcos e ogivas a elevarem aos céus os clamores de misericórdia e as alegrias pelas graças alcançadas.
O corpo leve: é a paz na alma. A bênção final, amém.
- Olha a pipoca, quebra-queixo, amendoim... Um coquinho para o seu menino?
- Levo sim. Dessa bexiga ele também vai gostar muito.
E lá vão eles, a passos lentos retornando às suas vidinhas, carregando nos corações todo o bem do mundo de meu Deus.
Sunday, November 06, 2005
BEM-VINDO AO SPA GHETTI

É uma alegria e uma honra recebê-lo em nosso Spa. Para que sua estada seja a mais agradável possível, pedimos seguir à risca as seguintes recomendações:
É terminantemente proibido o contato com alimentos pouco calóricos ou com caloria zero. Uma mudança radical de vida, que é afinal o que você busca, exige força de vontade. Em todas as circunstâncias, nosso lema é: EVITE A PRIMEIRA GOTA DE ADOÇANTE. Por minúscula que seja, é o suficiente para acarretar uma severa recaída e botar a perder todo o trabalho de nossos nutricionistas, psicólogos, médicos e personal trainners.
Na ingestão acidental de substâncias light ou diet, deve-se induzir o vômito ou proceder a uma lavagem estomacal, para desintoxicação.
Nossa tradicional sopa de toucinho com manteiga deverá ser ingerida preferencialmente em jejum, visando o máximo efeito terapêutico.
Bolsas, valises e malas serão revistadas diariamente pelos monitores. Balas e demais guloseimas sem açúcar, se encontradas, serão apreendidas e enviadas à família do hóspede. Em caso de reincidência, o próprio hóspede será remetido à sua cidade de origem, juntamente com seus bagulhos de sacarina.
Há alguns meses testemunhamos em nossas dependências um episódio constrangedor, no qual um interno foi flagrado com um pé de alface na cueca e dois maços de chicória escondidos nas axilas. Nosso detector de verduras e legumes, instalado na recepção, soará imediatamente se infrações semelhantes vierem a ocorrer.
Se, por recomendação médica, você necessitar de alimentação mais leve, sirva-se do nosso bufê de frutas: maçã do amor, banana caramelada, creme de abacate, abacaxi em calda e compota de goiaba.
A freqüência às piscinas só será permitida com trajes de banha ou camisetas de algodão doce.
O campeonato de Tiro ao Magro acontece diariamente, das 9 às 18h.
O ócio é o melhor amigo da genialidade e do impulso transformador. Exemplos disso são Dorival Caymmi, que fez tudo o que fez praticamente sem fazer nada, e Isaac Newton, que descobriu a lei da gravidade descansando embaixo de uma árvore. Nosso Spa é um monumento à inatividade restauradora. A única coisa que se mexe aqui são os ovos mexidos, servidos com fatias de cupim no café da manhã. Assim, lembre-se: ao invés de correr, ande. Ao invés de andar, sente-se. Ao invés de sentar, deite-se. Ao invés de deitar-se, peça que alguém coloque você na cama.
Para seu maior conforto, nosso projeto arquitetônico contemplou um total de 16 rampas em declive, permitindo que você chegue rolando aos diversos pavimentos. O retorno aos andares superiores poderá ser feito por teleférico ou guindaste.
Ao assistir TV, evite os programas humorísticos. Estudos recentes demonstram que o riso, ainda que contido, promove algum gasto calórico.
Como parte do apoio psicológico ao tratamento, sugerimos a leitura dos livros “Só é magro quem quer”, “À procura do quilo perdido”, “GG – Manual do Gordo Gostoso” e “Boi no Rolete – coma sem culpa”, todos à venda na portaria central.
Não deixe de visitar nossa sala de massagem, onde seu ego poderá ser massageado com as seguintes mensagens:
1 – Nossa, que gordo lindo!
2 – E aí, fofinha? Na minha casa ou na sua?
3 – Uau, onde é que vai com tudo isso?
4 – Essa é a nora que mamãe pediu a Deus.
5 – Sou gordo, mas quem não é? Saco vazio não pára em pé.
Por último, uma consideração de natureza filosófica: magros são perdedores, gordos são vitoriosos.
O magro é alguém que não conseguiu ganhar peso, ou que perdeu, o que de uma forma ou de outra o coloca como um fracassado – justamente por não ter ganho ou por ter perdido.
Você está aqui para ganhar peso. Conseqüentemente, isso fará de você um vencedor. Parabéns!!!
É terminantemente proibido o contato com alimentos pouco calóricos ou com caloria zero. Uma mudança radical de vida, que é afinal o que você busca, exige força de vontade. Em todas as circunstâncias, nosso lema é: EVITE A PRIMEIRA GOTA DE ADOÇANTE. Por minúscula que seja, é o suficiente para acarretar uma severa recaída e botar a perder todo o trabalho de nossos nutricionistas, psicólogos, médicos e personal trainners.
Na ingestão acidental de substâncias light ou diet, deve-se induzir o vômito ou proceder a uma lavagem estomacal, para desintoxicação.
Nossa tradicional sopa de toucinho com manteiga deverá ser ingerida preferencialmente em jejum, visando o máximo efeito terapêutico.
Bolsas, valises e malas serão revistadas diariamente pelos monitores. Balas e demais guloseimas sem açúcar, se encontradas, serão apreendidas e enviadas à família do hóspede. Em caso de reincidência, o próprio hóspede será remetido à sua cidade de origem, juntamente com seus bagulhos de sacarina.
Há alguns meses testemunhamos em nossas dependências um episódio constrangedor, no qual um interno foi flagrado com um pé de alface na cueca e dois maços de chicória escondidos nas axilas. Nosso detector de verduras e legumes, instalado na recepção, soará imediatamente se infrações semelhantes vierem a ocorrer.
Se, por recomendação médica, você necessitar de alimentação mais leve, sirva-se do nosso bufê de frutas: maçã do amor, banana caramelada, creme de abacate, abacaxi em calda e compota de goiaba.
A freqüência às piscinas só será permitida com trajes de banha ou camisetas de algodão doce.
O campeonato de Tiro ao Magro acontece diariamente, das 9 às 18h.
O ócio é o melhor amigo da genialidade e do impulso transformador. Exemplos disso são Dorival Caymmi, que fez tudo o que fez praticamente sem fazer nada, e Isaac Newton, que descobriu a lei da gravidade descansando embaixo de uma árvore. Nosso Spa é um monumento à inatividade restauradora. A única coisa que se mexe aqui são os ovos mexidos, servidos com fatias de cupim no café da manhã. Assim, lembre-se: ao invés de correr, ande. Ao invés de andar, sente-se. Ao invés de sentar, deite-se. Ao invés de deitar-se, peça que alguém coloque você na cama.
Para seu maior conforto, nosso projeto arquitetônico contemplou um total de 16 rampas em declive, permitindo que você chegue rolando aos diversos pavimentos. O retorno aos andares superiores poderá ser feito por teleférico ou guindaste.
Ao assistir TV, evite os programas humorísticos. Estudos recentes demonstram que o riso, ainda que contido, promove algum gasto calórico.
Como parte do apoio psicológico ao tratamento, sugerimos a leitura dos livros “Só é magro quem quer”, “À procura do quilo perdido”, “GG – Manual do Gordo Gostoso” e “Boi no Rolete – coma sem culpa”, todos à venda na portaria central.
Não deixe de visitar nossa sala de massagem, onde seu ego poderá ser massageado com as seguintes mensagens:
1 – Nossa, que gordo lindo!
2 – E aí, fofinha? Na minha casa ou na sua?
3 – Uau, onde é que vai com tudo isso?
4 – Essa é a nora que mamãe pediu a Deus.
5 – Sou gordo, mas quem não é? Saco vazio não pára em pé.
Por último, uma consideração de natureza filosófica: magros são perdedores, gordos são vitoriosos.
O magro é alguém que não conseguiu ganhar peso, ou que perdeu, o que de uma forma ou de outra o coloca como um fracassado – justamente por não ter ganho ou por ter perdido.
Você está aqui para ganhar peso. Conseqüentemente, isso fará de você um vencedor. Parabéns!!!
Sunday, October 30, 2005
MARCAS
O que será que faz o M do Mc Donalds, a curvinha da Nike, o jacarezinho da Lacoste serem o M do Mc Donalds, a curvinha da Nike e o jacarezinho da Lacoste? Na busca de uma resposta, homens de marketing divergirão de sociólogos. Que não necessariamente terão as mesmas convicções dos filósofos, cujos argumentos jamais convencerão os religiosos, que inspirados em seus dogmas travarão discussões acaloradas com os cientistas políticos. A celeuma se aprofundaria, ganharia a mídia e se transformaria num grande fórum de debates, certamente com o patrocínio da Coca-Cola, da Vivo ou da Volkswagen.
O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram genérico. "Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta" – diz ele. "Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".
Tá certo que esse meu amigo é um tanto radical. Mas tão xiita quanto ele é aquele cara no extremo oposto, que compra a etiqueta e só depois é que repara no produto em volta dela. "Grifado" da cabeça aos piercings, o talzinho é um verdadeiro anúncio ambulante. Veste o que veste não pelo valor que atribui à indumentária, mas pelo status que supostamente darão a ele por se exibir com aquilo tudo. E lá vai o bacaninha dando um rolê pelos points da hora, se achando o rei da paçoca.
O poder da marca é um caso muito sério. Aí está o Branding - ciência que estuda a marca e sua dinâmica no relacionamento com o consumidor - que não me deixa mentir. E vale tudo para garantir que ela apareça e ganhe mercado. Até mesmo recorrer a obras-primas, que à revelia de seus autores acabam virando sinônimo de marca. O que será que Beethoven pensaria se soubesse que aquela curta e genial seqüência de notas, que alicerça sua Quinta Sinfonia, se transformaria no "pão pão pão pão" da Wickbold? Ou da sua "Pour Elise", comendo solta nas esperas telefônicas e nos caminhões de entrega de gás? Quando é que iria passar pela cabeça do autor de "O Sole Mio" que sua canção imortal viraria comercial do Cornetto? E por aí vai. "As Quatro Estrações", de Vivaldi, vendendo sabonete. O célebre "Aleluia" de Haendel, que já apregoou até remédio para prisão de ventre. A solene "Pompa e Circunstância", de Edward Elgar, por décadas reduzida à musiquinha do "Boa Noite Cinderela", antigo quadro do Programa Silvio Santos. A lista é interminável. Se bobear, "Águas de Março" daqui a pouco vira jingle de guarda-chuva, pra desespero do meu amigo xiita. Que, aliás, anda sumido. Deve estar desempregado.
O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram genérico. "Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta" – diz ele. "Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".
Tá certo que esse meu amigo é um tanto radical. Mas tão xiita quanto ele é aquele cara no extremo oposto, que compra a etiqueta e só depois é que repara no produto em volta dela. "Grifado" da cabeça aos piercings, o talzinho é um verdadeiro anúncio ambulante. Veste o que veste não pelo valor que atribui à indumentária, mas pelo status que supostamente darão a ele por se exibir com aquilo tudo. E lá vai o bacaninha dando um rolê pelos points da hora, se achando o rei da paçoca.
O poder da marca é um caso muito sério. Aí está o Branding - ciência que estuda a marca e sua dinâmica no relacionamento com o consumidor - que não me deixa mentir. E vale tudo para garantir que ela apareça e ganhe mercado. Até mesmo recorrer a obras-primas, que à revelia de seus autores acabam virando sinônimo de marca. O que será que Beethoven pensaria se soubesse que aquela curta e genial seqüência de notas, que alicerça sua Quinta Sinfonia, se transformaria no "pão pão pão pão" da Wickbold? Ou da sua "Pour Elise", comendo solta nas esperas telefônicas e nos caminhões de entrega de gás? Quando é que iria passar pela cabeça do autor de "O Sole Mio" que sua canção imortal viraria comercial do Cornetto? E por aí vai. "As Quatro Estrações", de Vivaldi, vendendo sabonete. O célebre "Aleluia" de Haendel, que já apregoou até remédio para prisão de ventre. A solene "Pompa e Circunstância", de Edward Elgar, por décadas reduzida à musiquinha do "Boa Noite Cinderela", antigo quadro do Programa Silvio Santos. A lista é interminável. Se bobear, "Águas de Março" daqui a pouco vira jingle de guarda-chuva, pra desespero do meu amigo xiita. Que, aliás, anda sumido. Deve estar desempregado.
TUDO SERÁ COMO SEMPRE
Sucedeu que ele acordou com aquela idéia na cabeça: fazer tudo diferente do que estava acostumado. Tirar a vidinha do piloto automático. Lembrou daquele famoso pressuposto da programação neurolingüística, que aprendeu num curso rápido sobre o assunto: SE VOCÊ CONTINUAR A FAZER O QUE VEM FAZENDO, VAI CONTINUAR A OBTER O QUE VEM OBTENDO. A afirmação era óbvia, tão óbvia que parecia estúpido levá-la a sério. Até que caiu a ficha. E ele resolveu que aquele era o dia da guinada.
Começou na cama mesmo. Absteve-se da interminável sessão de bocejos e espreguiçamentos e de um salto pôs-se de pé. Fez trinta flexões, bem mais que as cinco de costume. Inverteu a ordem dos remédios - primeiro o da pressão, depois o complexo B.
Escovou os dentes começando pelos do fundo e terminando pelos da frente, exatamente como nunca tinha feito. Não se barbeou. Vestiu um terno verde e uma gravata prateada. Sentou-se à mesa, na cadeira da outra ponta. Ao invés de colocar na xícara bastante leite e um pouquinho de café, pôs muito café e quase nada de leite. Se despediu da esposa com um beijo no rosto, e não na testa.
Quando saiu já ia fazendo o caminho de costume, mas a tempo pegou outro rumo.
Ligou o rádio do carro. Tirou da CBN e sintonizou num programa sertanejo. Parou no semáforo e dessa vez comprou as balinhas que o garoto ofereceu. Passou em frente à igreja e não fez o sinal da cruz. Estacionou o carro na vaga do chefe (ele nunca estava mesmo). Subiu pela escada, não ia se repetir tomando o elevador. Decidiu que não responderia nenhum e-mail, por isso nem abriu sua caixa de mensagens. Trocou o mouse pad, limpou o monitor com álcool, mudou o protetor de tela e as cores do windows.
Na hora do almoço, aproveitou para não almoçar. Foi ao cabeleireiro. Abriu a Veja no lugar da Caras. Folheou de trás pra frente. Pediu para o cabeleireiro repartir o cabelo do outro lado. Retornando ao trabalho, "matou" uma tia velha e disse que precisava ir ao velório em Barbacena. Foi à sauna, depois ao cinema. Nenhum drama de consciência ao fazer isso em plena terça. Voltou pra casa duas horas mais cedo que o costume. No horário de sempre se recusara a voltar. Antes, comprou rosas para a esposa. Abriu a porta e flagrou a mulher com o seu chefe, que calçava os seus chinelos e bebia o seu conhaque. Os dois ajoelhados no chão do quarto, levando chicotadas do vizinho do 206, travestido de mulher-gato.
Não fez ruído nenhum. Do mesmo jeito que entrou, saiu. Ia deixar tudo como estava. Caso contrário perderia a mulher, teria que arrumar outro emprego e sairia nos jornais como assassino de traveco. Voltou para a empresa. As flores deixou com a Laura, recepcionista. Com um cartãozinho discreto, confirmando o motel para depois das seis e meia. Como sempre.
Começou na cama mesmo. Absteve-se da interminável sessão de bocejos e espreguiçamentos e de um salto pôs-se de pé. Fez trinta flexões, bem mais que as cinco de costume. Inverteu a ordem dos remédios - primeiro o da pressão, depois o complexo B.
Escovou os dentes começando pelos do fundo e terminando pelos da frente, exatamente como nunca tinha feito. Não se barbeou. Vestiu um terno verde e uma gravata prateada. Sentou-se à mesa, na cadeira da outra ponta. Ao invés de colocar na xícara bastante leite e um pouquinho de café, pôs muito café e quase nada de leite. Se despediu da esposa com um beijo no rosto, e não na testa.
Quando saiu já ia fazendo o caminho de costume, mas a tempo pegou outro rumo.
Ligou o rádio do carro. Tirou da CBN e sintonizou num programa sertanejo. Parou no semáforo e dessa vez comprou as balinhas que o garoto ofereceu. Passou em frente à igreja e não fez o sinal da cruz. Estacionou o carro na vaga do chefe (ele nunca estava mesmo). Subiu pela escada, não ia se repetir tomando o elevador. Decidiu que não responderia nenhum e-mail, por isso nem abriu sua caixa de mensagens. Trocou o mouse pad, limpou o monitor com álcool, mudou o protetor de tela e as cores do windows.
Na hora do almoço, aproveitou para não almoçar. Foi ao cabeleireiro. Abriu a Veja no lugar da Caras. Folheou de trás pra frente. Pediu para o cabeleireiro repartir o cabelo do outro lado. Retornando ao trabalho, "matou" uma tia velha e disse que precisava ir ao velório em Barbacena. Foi à sauna, depois ao cinema. Nenhum drama de consciência ao fazer isso em plena terça. Voltou pra casa duas horas mais cedo que o costume. No horário de sempre se recusara a voltar. Antes, comprou rosas para a esposa. Abriu a porta e flagrou a mulher com o seu chefe, que calçava os seus chinelos e bebia o seu conhaque. Os dois ajoelhados no chão do quarto, levando chicotadas do vizinho do 206, travestido de mulher-gato.
Não fez ruído nenhum. Do mesmo jeito que entrou, saiu. Ia deixar tudo como estava. Caso contrário perderia a mulher, teria que arrumar outro emprego e sairia nos jornais como assassino de traveco. Voltou para a empresa. As flores deixou com a Laura, recepcionista. Com um cartãozinho discreto, confirmando o motel para depois das seis e meia. Como sempre.
AMANTE MANTIQUEIRA
Do meio da escada rolante, na grande cidade cinza, galopo mentalmente nesse azul esverdeado que é todo teu, Mantiqueira. Montanha acima, vou me encardindo com teu musgo, devasso tua vastidão, perdidamente me encontro em tuas veredas e cipoais. E já tão verde quanto és, me camuflo do mundo e me confundo contigo, no enlace fecundo entre o animal de mim e o vegetal de ti. Sigo extasiado com a pintura de teus crepúsculos, desvirginando lendas guardadas desde o Gênesis nas copas de tuas árvores. Trazidos por fresca aragem passam caboclos e curupiras, camafeus de sinhazinhas, rocas de negras velhas, ais de chibata e de gozo, a grande saga dos séculos que ao longo de tua extensão pudeste testemunhar.
Ouves agora esse eco? É toda a tua quietude aos berros dentro de mim. Mais um pouco e o sol a pino vai mudando teus matizes e o canto de teus pássaros. Abro as porteiras do tempo em teus nativos espaços, amasso o barro de tuas trilhas, sobrevôo esses mares de morros que começam não sei onde pra acabar em nunca mais. Tuas termas de extintos vulcões, o enxofre a exalar de tuas entranhas. Reconheço minhas veias nos veios de tuas rochas. Me revelas calmamente cada um dos teus segredos. As Pratas de tuas Águas, as Caldas de teus Poços, a tua tão Boa Vista. Me falas dos milhões de anos que levaste na feitura disso tudo. Da paciência que tiveste, das metamorfoses que sofreste, do quanto que esperaste para me ver assim, rendido aos teus encantos. Me contas histórias antiqüíssimas, gravadas em xistos, calcários e granitos, num dialeto ancestral só partilhado por nós dois. Me inicias em teus saberes e teus sabores, me mostras picadas abertas por bandeirantes atrás do ouro das Gerais. Me escancaras despudoradamente as jazidas de teus minérios. Teus urânios, que enriquecidos te empobrecem. Tuas fontes radioativas, tão indefesas e tão vítimas da cobiça extrativista. Me banhas maternalmente em tuas cascatas, me ensinas que é por causa delas que teu nome é "Serra que Chora", em tupi-guarani.
Mas o que me revelas é quase nada diante daquilo que escondes. O insondável que há por trás de tuas neblinas - uma interrogação que, mesmo fluida, é tão pesada como o ferro que produzes. Porque és, Mantiqueira, quinhentos quilômetros de mistério. Guardas em tuas nascentes o código genético da Terra, sentiste em teu manto silvestre o dedo do Criador. Ele, que te concebeu mulher, de encostas sinuosas e insinuantes para propositadamente seduzir os homens.
Ouves agora esse eco? É toda a tua quietude aos berros dentro de mim. Mais um pouco e o sol a pino vai mudando teus matizes e o canto de teus pássaros. Abro as porteiras do tempo em teus nativos espaços, amasso o barro de tuas trilhas, sobrevôo esses mares de morros que começam não sei onde pra acabar em nunca mais. Tuas termas de extintos vulcões, o enxofre a exalar de tuas entranhas. Reconheço minhas veias nos veios de tuas rochas. Me revelas calmamente cada um dos teus segredos. As Pratas de tuas Águas, as Caldas de teus Poços, a tua tão Boa Vista. Me falas dos milhões de anos que levaste na feitura disso tudo. Da paciência que tiveste, das metamorfoses que sofreste, do quanto que esperaste para me ver assim, rendido aos teus encantos. Me contas histórias antiqüíssimas, gravadas em xistos, calcários e granitos, num dialeto ancestral só partilhado por nós dois. Me inicias em teus saberes e teus sabores, me mostras picadas abertas por bandeirantes atrás do ouro das Gerais. Me escancaras despudoradamente as jazidas de teus minérios. Teus urânios, que enriquecidos te empobrecem. Tuas fontes radioativas, tão indefesas e tão vítimas da cobiça extrativista. Me banhas maternalmente em tuas cascatas, me ensinas que é por causa delas que teu nome é "Serra que Chora", em tupi-guarani.
Mas o que me revelas é quase nada diante daquilo que escondes. O insondável que há por trás de tuas neblinas - uma interrogação que, mesmo fluida, é tão pesada como o ferro que produzes. Porque és, Mantiqueira, quinhentos quilômetros de mistério. Guardas em tuas nascentes o código genético da Terra, sentiste em teu manto silvestre o dedo do Criador. Ele, que te concebeu mulher, de encostas sinuosas e insinuantes para propositadamente seduzir os homens.
Wednesday, October 05, 2005
EM QUE POSSO AJUDÁ-LO?
I
- O senhor vai me desculpar, mas sem o carimbo do Teixeira não tem jeito.
- E o Teixeira não está?
- Não.
- E o carimbo dele?
- O senhor me respeite. Olha o desacato ao servidor...
- Vai me dizer que o Teixeira leva o carimbo quando sai da repartição? Olha só, tem um carrossel lotado de carimbos aí do seu lado. Será que o do Teixeira não está aí, não?...
- Bom, enquanto isso vamos vendo os outros documentos. Trouxe o DIRC atualizado da Paresp?
- DIRC da Paresp... DIRC da Paresp... Tá na mão. E quitado antes do vencimento.
- Só que tem uma coisa... esse adendo da minuta ainda não foi averbado na Junta.
- Não entendi.
- O Benê do guichê 11 vai explicar direitinho pro senhor. Mas já vou lhe adiantando que tem que voltar até o 8º Cartório e reconhecer de novo a firma do antigo proprietário. Essa aqui não vale mais. Então, é melhor fazer o seguinte: antes de ir pro guichê 11 o senhor vai até o terceiro andar e fala com a Wilma. Saindo do elevador, primeira à esquerda, primeira à direita, de novo à direita e o senhor vai dar de cara com uma salinha verde, que tem um bebedouro quebrado.
- Sei, debaixo de um calendário da Seicho-No-Iê. Estive lá na semana passada.
- Isso. É só pegar a senha e aguardar ser chamado.
II
- Eu vou lhe dar um protocolo da requisição. O senhor leva até o Denorf e solicita a emissão do Nada Consta da Delegacia Fazendária. Não demora muito, não.
III
- Bons antecedentes, ok... Certidão Negativa de Débito, ok... habite-se, registro do inventário, 2 fotos 3x4. Mas eu preciso também do requerimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e os últimos cinco boletos do ISSQN, comprovando o recolhimento. É que antes da homologação do prontuário, o DPTS pede o formal de partilha em duas vias. Até julho do ano passado podia fazer por procuração, só que agora o cartório está exigindo a presença da pessoa.
- Mas ele mora em Muzambinho...
IV
- Aparentemente só estão faltando o número do PIS Pasep do inventariante e uma cópia frente e verso autenticada do ITBI pra poder dar baixa. Caso contrário não é possível correr com a papelada.
- Mas quando eu vim aqui da outra vez aquele senhor de óculos ali me disse que uma segunda via da...
- Não, não. De jeito maneira. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A petição tá certa, mas precisa constar uma ressalva prevendo o usufruto da viúva.
- E essa instrução normativa para unificação de cadastro?
- Isso aí pode levar embora porque não vai servir pra nada. O senhor me providencie um termo de responsabilidade, com assinatura de três testemunhas. É só disso que eu preciso, trazendo até segunda-feira pra mim tá bom. Agora, veja bem, isso aqui é a minha parte, entendeu? No guichê 14 vão informar ao senhor como dar entrada no pedido pra saber em qual jurisdição do CASP esse DERC deve ser encaminhado.
V
- Meu amigo, eu não estou autorizado a emitir o TCF sem a apresentação do canhoto do D.O.R. Além disso, olha só, tá faltando a rubrica do perito técnico. Outro dia mesmo apareceu um cidadão aqui com um caso parecido com o seu.
- Bom, resumindo...
- Só na Secretaria, das quinze e trinta às dezesseis e quarenta. E traga também um atestado de saúde.
- Ah, isso com certeza não precisa. Se eu não morri até agora correndo atrás disso tudo, é sinal que a minha saúde tá ótima.
Estava enganado, coitado. Cinco minutos depois, enquanto corria ofegante do guichê 7 para o 18, teve um mal súbito e morreu. O sub-escrevente adjunto adiantou-se e proclamou:
- Ninguém faz nada, ninguém toca no morto enquanto não sair o Alvará de Liberação do corpo. Mas já vou avisando que o Edmilson, que cuida disso, está de licença-prêmio e só volta daqui a seis dias.
- O senhor vai me desculpar, mas sem o carimbo do Teixeira não tem jeito.
- E o Teixeira não está?
- Não.
- E o carimbo dele?
- O senhor me respeite. Olha o desacato ao servidor...
- Vai me dizer que o Teixeira leva o carimbo quando sai da repartição? Olha só, tem um carrossel lotado de carimbos aí do seu lado. Será que o do Teixeira não está aí, não?...
- Bom, enquanto isso vamos vendo os outros documentos. Trouxe o DIRC atualizado da Paresp?
- DIRC da Paresp... DIRC da Paresp... Tá na mão. E quitado antes do vencimento.
- Só que tem uma coisa... esse adendo da minuta ainda não foi averbado na Junta.
- Não entendi.
- O Benê do guichê 11 vai explicar direitinho pro senhor. Mas já vou lhe adiantando que tem que voltar até o 8º Cartório e reconhecer de novo a firma do antigo proprietário. Essa aqui não vale mais. Então, é melhor fazer o seguinte: antes de ir pro guichê 11 o senhor vai até o terceiro andar e fala com a Wilma. Saindo do elevador, primeira à esquerda, primeira à direita, de novo à direita e o senhor vai dar de cara com uma salinha verde, que tem um bebedouro quebrado.
- Sei, debaixo de um calendário da Seicho-No-Iê. Estive lá na semana passada.
- Isso. É só pegar a senha e aguardar ser chamado.
II
- Eu vou lhe dar um protocolo da requisição. O senhor leva até o Denorf e solicita a emissão do Nada Consta da Delegacia Fazendária. Não demora muito, não.
III
- Bons antecedentes, ok... Certidão Negativa de Débito, ok... habite-se, registro do inventário, 2 fotos 3x4. Mas eu preciso também do requerimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e os últimos cinco boletos do ISSQN, comprovando o recolhimento. É que antes da homologação do prontuário, o DPTS pede o formal de partilha em duas vias. Até julho do ano passado podia fazer por procuração, só que agora o cartório está exigindo a presença da pessoa.
- Mas ele mora em Muzambinho...
IV
- Aparentemente só estão faltando o número do PIS Pasep do inventariante e uma cópia frente e verso autenticada do ITBI pra poder dar baixa. Caso contrário não é possível correr com a papelada.
- Mas quando eu vim aqui da outra vez aquele senhor de óculos ali me disse que uma segunda via da...
- Não, não. De jeito maneira. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A petição tá certa, mas precisa constar uma ressalva prevendo o usufruto da viúva.
- E essa instrução normativa para unificação de cadastro?
- Isso aí pode levar embora porque não vai servir pra nada. O senhor me providencie um termo de responsabilidade, com assinatura de três testemunhas. É só disso que eu preciso, trazendo até segunda-feira pra mim tá bom. Agora, veja bem, isso aqui é a minha parte, entendeu? No guichê 14 vão informar ao senhor como dar entrada no pedido pra saber em qual jurisdição do CASP esse DERC deve ser encaminhado.
V
- Meu amigo, eu não estou autorizado a emitir o TCF sem a apresentação do canhoto do D.O.R. Além disso, olha só, tá faltando a rubrica do perito técnico. Outro dia mesmo apareceu um cidadão aqui com um caso parecido com o seu.
- Bom, resumindo...
- Só na Secretaria, das quinze e trinta às dezesseis e quarenta. E traga também um atestado de saúde.
- Ah, isso com certeza não precisa. Se eu não morri até agora correndo atrás disso tudo, é sinal que a minha saúde tá ótima.
Estava enganado, coitado. Cinco minutos depois, enquanto corria ofegante do guichê 7 para o 18, teve um mal súbito e morreu. O sub-escrevente adjunto adiantou-se e proclamou:
- Ninguém faz nada, ninguém toca no morto enquanto não sair o Alvará de Liberação do corpo. Mas já vou avisando que o Edmilson, que cuida disso, está de licença-prêmio e só volta daqui a seis dias.
Saturday, September 24, 2005
FAZENDO JUSTIÇA A IGNÁCIO ESCORBETA
Existem vultos injustamente esquecidos pela história, não obstante sua farta contribuição ao progresso da humanidade e ao bem-estar social. Dessa malfadada classe faz parte Ignácio Escorbeta, inventor da serpentina carnavalesca e do prendedor de roupas.
A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19, a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró. Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas, observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.
Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto abrilhanta os festejos de momo.
Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas, outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa. Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu inventar algo mais prático. Mas isso pede um outra crônica.
A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19, a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró. Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas, observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.
Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto abrilhanta os festejos de momo.
Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas, outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa. Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu inventar algo mais prático. Mas isso pede um outra crônica.
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