Saturday, February 10, 2007
Sunday, January 14, 2007
GAZETA DO HIPOCONDRÍACO
Confira nesta edição:
AMARELÃO É A COR DA MODA
A tendência da estação é o amarelão em vários tons, garantem os estilistas. Uma verdadeira coqueluche irá tomar as ruas.
GENTE QUE VAI DESSA PRA MELHOR
A Família Dornêles está deixando nossa cidade para fixar residência em Bom Jesus dos Remédios. E vende uma mesa de operação com 4 cadeiras de rodas, maca de casal e criado mudo (é mudo mas está em tratamento no fonoaudiólogo).
COMO FAZER FRANGO RESFRIADO
É como diz aquele velho deitado: antes frango resfriado do que gripe aviária. Na página 4, aviamos a receita dessa iguaria.
UTI FAZ PROMOÇÃO NAS DIÁRIAS
Em plena alta temporada, a UTI surpreende com uma superpromoção – diárias com pensão completa pela metade do preço. Elas incluem canja 3 x ao dia e respiração boca-a-boca de 8 em 8 horas. As crianças contam com equipe de monitores cardíacos, soro no canudinho e balão pula-pula de oxigênio.
PRÉDIO DA SECRETARIA DE SAÚDE É DECORADO COM PASTILHAS
A nova obra foi inaugurada sábado último, nos sabores menta, limão e eucalipto.
RODOVIÁRIA ESTÁ EM ESTADO TERMINAL
Permanece crítica a situação do terminal rodoviário do município. O quadro clínico, porém, encontra-se estacionado nos boxes 4, 5 8 e 17.
COLÉGIO SANTO AGOSTINHO DIVULGA BOLETIM
Segundo informações obtidas com exclusividade no setor ambulatorial, tudo indica que os enfermos, embora em recuperação, conseguirão passar de ano.
BANCO DE SANGUE ANUNCIA LUCRO RECORDE
Captação do tipo A positivo tira finalmente os glóbulos do vermelho.
ORÇAMENTO ESTÁ ENGESSADO, DIZ SECRETÁRIO DE OBRAS
Isso explica por que a administração pública não se mexe. Leia entrevista exclusiva na página 6.
ÓTIMAS OFERTAS NA FLORICULTURA TRANSPLANT
Os paisagistas farão plantão de 36 horas para atender à procura, que deverá ser grande.
GRUPO DA TERCEIRA IDADE ORGANIZA EXCURSÃO PARA A FAIXA DE GAZE
Restam poucas vagas. Garanta já o seu leito.
COMO IDENTIFICAR A FRATURA DO SEU CARTÃO DE CRÉDITO
Um seguro indicativo de que você está quebrado é a fratura do seu American Express, Dinners, Visa ou Mastercard. Veja quais são os primeiros sintomas.
HORÓSCOPO
Áries
Carneiro tem lã. Lã pode dar alergia. Alergia causa coceira e manchas na pele. Ou seja, é bom tomar cuidado.
Touro
Mesmo sendo um touro, com a saúde não se brinca. Ótimo momento para fazer um plano com ampla cobertura.
Gêmeos
Por serem dois, vocês têm o dobro de chance de contrair algum vírus ou bactéria. Para prevenir o pior, evitem ficar juntinhos o tempo todo.
Câncer
Vamos para o próximo...
Leão
O alinhamento de Júpiter com Mercúrio mostra que esta semana é propícia para rever seus hábitos carnívoros.
Virgem
Quando chegar o seu dia, lembre-se das campanhas preventivas de saúde pública e use camisinha.
Libra
Fique atento à balança da sua farmácia de manipulação. Recebemos denúncias de que há estabelecimentos comercializando fenilcloroceptrina de 250mg em cápsulas contendo apenas 230.
Escorpião
Se sua cara-metade chamar você de peçonhento, não morda. Isso só iria aumentar o veneno entre vocês, causando intoxicação.
Sagitário, Capricórnio e Aquário
Em observação e sem previsão de alta.
Peixes
Tudo bem que você vive molhado, mas não é por isso que vai abusar do sereno. Cuide-se para não morrer pela boca.
AMARELÃO É A COR DA MODA
A tendência da estação é o amarelão em vários tons, garantem os estilistas. Uma verdadeira coqueluche irá tomar as ruas.
GENTE QUE VAI DESSA PRA MELHOR
A Família Dornêles está deixando nossa cidade para fixar residência em Bom Jesus dos Remédios. E vende uma mesa de operação com 4 cadeiras de rodas, maca de casal e criado mudo (é mudo mas está em tratamento no fonoaudiólogo).
COMO FAZER FRANGO RESFRIADO
É como diz aquele velho deitado: antes frango resfriado do que gripe aviária. Na página 4, aviamos a receita dessa iguaria.
UTI FAZ PROMOÇÃO NAS DIÁRIAS
Em plena alta temporada, a UTI surpreende com uma superpromoção – diárias com pensão completa pela metade do preço. Elas incluem canja 3 x ao dia e respiração boca-a-boca de 8 em 8 horas. As crianças contam com equipe de monitores cardíacos, soro no canudinho e balão pula-pula de oxigênio.
PRÉDIO DA SECRETARIA DE SAÚDE É DECORADO COM PASTILHAS
A nova obra foi inaugurada sábado último, nos sabores menta, limão e eucalipto.
RODOVIÁRIA ESTÁ EM ESTADO TERMINAL
Permanece crítica a situação do terminal rodoviário do município. O quadro clínico, porém, encontra-se estacionado nos boxes 4, 5 8 e 17.
COLÉGIO SANTO AGOSTINHO DIVULGA BOLETIM
Segundo informações obtidas com exclusividade no setor ambulatorial, tudo indica que os enfermos, embora em recuperação, conseguirão passar de ano.
BANCO DE SANGUE ANUNCIA LUCRO RECORDE
Captação do tipo A positivo tira finalmente os glóbulos do vermelho.
ORÇAMENTO ESTÁ ENGESSADO, DIZ SECRETÁRIO DE OBRAS
Isso explica por que a administração pública não se mexe. Leia entrevista exclusiva na página 6.
ÓTIMAS OFERTAS NA FLORICULTURA TRANSPLANT
Os paisagistas farão plantão de 36 horas para atender à procura, que deverá ser grande.
GRUPO DA TERCEIRA IDADE ORGANIZA EXCURSÃO PARA A FAIXA DE GAZE
Restam poucas vagas. Garanta já o seu leito.
COMO IDENTIFICAR A FRATURA DO SEU CARTÃO DE CRÉDITO
Um seguro indicativo de que você está quebrado é a fratura do seu American Express, Dinners, Visa ou Mastercard. Veja quais são os primeiros sintomas.
HORÓSCOPO
Áries
Carneiro tem lã. Lã pode dar alergia. Alergia causa coceira e manchas na pele. Ou seja, é bom tomar cuidado.
Touro
Mesmo sendo um touro, com a saúde não se brinca. Ótimo momento para fazer um plano com ampla cobertura.
Gêmeos
Por serem dois, vocês têm o dobro de chance de contrair algum vírus ou bactéria. Para prevenir o pior, evitem ficar juntinhos o tempo todo.
Câncer
Vamos para o próximo...
Leão
O alinhamento de Júpiter com Mercúrio mostra que esta semana é propícia para rever seus hábitos carnívoros.
Virgem
Quando chegar o seu dia, lembre-se das campanhas preventivas de saúde pública e use camisinha.
Libra
Fique atento à balança da sua farmácia de manipulação. Recebemos denúncias de que há estabelecimentos comercializando fenilcloroceptrina de 250mg em cápsulas contendo apenas 230.
Escorpião
Se sua cara-metade chamar você de peçonhento, não morda. Isso só iria aumentar o veneno entre vocês, causando intoxicação.
Sagitário, Capricórnio e Aquário
Em observação e sem previsão de alta.
Peixes
Tudo bem que você vive molhado, mas não é por isso que vai abusar do sereno. Cuide-se para não morrer pela boca.
Monday, January 08, 2007
RAINDROPS
A chuva mansa e criadeira me levou em correnteza à releitura de Herman Hesse, Machado e Florbela Espanca. Às vezes em pingos fortes, açoitando minhas janelas, chegava lembrando o medo das cucas e lobisomens, sentimento adormecido desde a época em que os lobisomens e as cucas existiam aqui de fato.
Serena mas decidida, faz serviço caprichoso de empenar as madeiras, traga os barcos de papel e os de verdade, encharca por onde passa. Tinge de musgo as pedras, provoca o estrago que quer. Perseverante, dura bem mais que os dois volumes capa-dura do Machado, do meu “Sidarta” já em frangalhos e da fininha antologia da Florbela. Finda a faina literária, me faz separar as roupas em uso das que não servem, erguer castelos de cartas, deletar e-mails lidos e um mundo de outras tarefas que jamais levaria adiante se sol houvesse, por tímido que fosse.
O chumbo do céu chuvoso, convite mais que aceitável ao nada pra se fazer. Céu que me ilha e me avisa que é inútil tentar sair, tão cedo não irá ceder esse concerto de trovões. E dá-lhe água despencando.
Fechadas as portas que dão pra fora, a chuva me ordena a olhar pra dentro, para o que havia de seco e há muito pedia uma rega farta e recompensadora. Ao longo desses dias tão iguais, ela foi moldando minha carcaça no aconchego da poltrona, me trouxe de volta ao piano que há anos nem abria. E reparei naquele Mi desafinado desde nem sei quando. A chuva que também é uma nota só e que marcou novembro em Andante Cantabile, atravessou dezembro em Allegro Moderato e ao, que tudo indica, encerrará janeiro em Presto Molto Vivace.
De garoa a tempestade, a chuva me botou em posição de lótus, com a espinha ereta e o coração tranqüilo como o Walter Franco naquele disco anos 70, a Revolver fantasmas. Me deixou menos urbano e instalou narina adentro o pasto e o estrume de vaca, mais raros e intraduzíveis que o mais fino dos Chanel. A chuva tem sido tamanha que borra as letras dos livros mofando nessas estantes. Não autorizou a fazer nada do que havia planejado, mas me mostrou que as urgências não eram assim tão urgentes. Que espera é maturação, que tempo tinha de haver pra escutar sua cantilena.
Deito, durmo e sonho aos pingos, enfronhado nos torós. Enquanto os móveis de casa bóiam na enchente insana, eu vazo por todos os poros, choro água da borrasca, viro bica como tudo à minha volta.
E o barulho da chuva, que me trouxe o pesadelo, é o mesmo que me desperta. Vejo o bolor nos rejuntes e cogumelos multicores fermentando no quintal. Ela, que impacienta as crianças e apascenta os velhos. A chuva que cai sobre os recém-defuntos, coada por 7 palmos de terra. Criando adubo, abrindo poças e transbordando poços nas chácaras que se estendem pra além do alcance da vista. A chuva que não pára e que, reinando feito déspota, quer que o assunto seja ela e nada mais.
Serena mas decidida, faz serviço caprichoso de empenar as madeiras, traga os barcos de papel e os de verdade, encharca por onde passa. Tinge de musgo as pedras, provoca o estrago que quer. Perseverante, dura bem mais que os dois volumes capa-dura do Machado, do meu “Sidarta” já em frangalhos e da fininha antologia da Florbela. Finda a faina literária, me faz separar as roupas em uso das que não servem, erguer castelos de cartas, deletar e-mails lidos e um mundo de outras tarefas que jamais levaria adiante se sol houvesse, por tímido que fosse.
O chumbo do céu chuvoso, convite mais que aceitável ao nada pra se fazer. Céu que me ilha e me avisa que é inútil tentar sair, tão cedo não irá ceder esse concerto de trovões. E dá-lhe água despencando.
Fechadas as portas que dão pra fora, a chuva me ordena a olhar pra dentro, para o que havia de seco e há muito pedia uma rega farta e recompensadora. Ao longo desses dias tão iguais, ela foi moldando minha carcaça no aconchego da poltrona, me trouxe de volta ao piano que há anos nem abria. E reparei naquele Mi desafinado desde nem sei quando. A chuva que também é uma nota só e que marcou novembro em Andante Cantabile, atravessou dezembro em Allegro Moderato e ao, que tudo indica, encerrará janeiro em Presto Molto Vivace.
De garoa a tempestade, a chuva me botou em posição de lótus, com a espinha ereta e o coração tranqüilo como o Walter Franco naquele disco anos 70, a Revolver fantasmas. Me deixou menos urbano e instalou narina adentro o pasto e o estrume de vaca, mais raros e intraduzíveis que o mais fino dos Chanel. A chuva tem sido tamanha que borra as letras dos livros mofando nessas estantes. Não autorizou a fazer nada do que havia planejado, mas me mostrou que as urgências não eram assim tão urgentes. Que espera é maturação, que tempo tinha de haver pra escutar sua cantilena.
Deito, durmo e sonho aos pingos, enfronhado nos torós. Enquanto os móveis de casa bóiam na enchente insana, eu vazo por todos os poros, choro água da borrasca, viro bica como tudo à minha volta.
E o barulho da chuva, que me trouxe o pesadelo, é o mesmo que me desperta. Vejo o bolor nos rejuntes e cogumelos multicores fermentando no quintal. Ela, que impacienta as crianças e apascenta os velhos. A chuva que cai sobre os recém-defuntos, coada por 7 palmos de terra. Criando adubo, abrindo poças e transbordando poços nas chácaras que se estendem pra além do alcance da vista. A chuva que não pára e que, reinando feito déspota, quer que o assunto seja ela e nada mais.
Monday, January 01, 2007
2007: CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Pra começar, longe de mim querer desafinar o coro dos contentes, deixando de entoar os velhos augúrios de felicidade e harmonia, de um ano novo pleno de alegrias e sucessos aos meus leitores. Mas é preciso ser realista. Como Hardy, a Hiena, tão injustamente acusada de pessimismo por sua sábia precaução. Temos de convir que são muitos os perigos à espreita nos próximos 12 meses, a começar pelos tradicionais rega-bofes e outros ritos de virada de ano, marcados pelas simpatias e superstições.
Longe de mim querer assustá-lo, mas pode ser que as 3 sementinhas de romã que você guardou na carteira já tenham ido pro chão logo no primeiro dia do ano, quando você sacou aquela notinha de 1 real para dar ao garoto que te acordou às 6 da manhã pedindo “bom princípio”, lembra? Pois é, os carocinhos a uma hora dessas devem estar em algum bueiro – o que no mínimo é um péssimo presságio.
Há quem prefira guardar uma nota de dólar e atravessar o ano com ela pra cima e pra baixo. Se for o seu caso, livre-se do mico enquanto é tempo, antes que a cotação despenque ainda mais. Fora que dá azar - vide o caso do assessor do irmão do José Genoíno. Guardou um monte na cueca, e olha só no que deu. Desista, não vale a pena.
Como não poderia deixar de ser, no fim de 2006 você ganhou uma agenda linda. Todo animado, você preencheu seus dados até com o tipo sangüíneo e colocou nas primeiras páginas as fabulosas resoluções para 2007 – perder peso, pedir a conta, parar de fumar, abrir negócio, conhecer a Austrália e por aí vai. Longe de mim querer desanimá-lo, mas até março ela já terá virado caderno de receitas da sua esposa.
Agora é tarde, mas ao invés das pândegas, bailes, bebedeiras e buzinaços do réveillon você deveria ter preferido o aconchego do lar. Longe de mim querer repreendê-lo, mas um bom escalda-pés, seguido de amistoso e aconchegante par de pantufas, não teria sido muito melhor que acordar não sei aonde e perguntar pra não sei quem sobre não sei quê?
Acima de qualquer coisa, no ano novo se deseja paz. Longe de mim querer ser chato, mas nada é mais incompatível com ela que os ensurdecedores rojões, bombinhas, traques e congêneres espocados à meia-noite. Somos massageados por mensagens profundas e tocantes falando de busca da essência interior, de encontro do eu verdadeiro, de preces pelo entendimento entre os homens. E o que se vê (e se ouve) é uma Sarajevo em cada esquina. E em cada esquina, hordas de gente de branco. Parece assembléia do sindicato dos enfermeiros ou simpósio de pai-de-santo.
Crendice das mais arraigadas para os praianos da gema e veranistas de ocasião é aquela história de pular 7 ondas e fazer 7 pedidos. Longe de mim querer me meter, mas o 7 deveria ser evitado por ser um número cabalístico. Você poderia pular 6 ondas, embora digam que esse é o número do cão-danado. Pulando só 5, os desejos poderiam não se realizar direito, vai saber. Por via das dúvidas, o melhor seria ter pulado 8, que são os 7 regulamentares e mais 1 de lambuja. Sim, porque 2007 tem que ter fartura. E longe de mim deixar de desejar isso pra você.
Longe de mim querer assustá-lo, mas pode ser que as 3 sementinhas de romã que você guardou na carteira já tenham ido pro chão logo no primeiro dia do ano, quando você sacou aquela notinha de 1 real para dar ao garoto que te acordou às 6 da manhã pedindo “bom princípio”, lembra? Pois é, os carocinhos a uma hora dessas devem estar em algum bueiro – o que no mínimo é um péssimo presságio.
Há quem prefira guardar uma nota de dólar e atravessar o ano com ela pra cima e pra baixo. Se for o seu caso, livre-se do mico enquanto é tempo, antes que a cotação despenque ainda mais. Fora que dá azar - vide o caso do assessor do irmão do José Genoíno. Guardou um monte na cueca, e olha só no que deu. Desista, não vale a pena.
Como não poderia deixar de ser, no fim de 2006 você ganhou uma agenda linda. Todo animado, você preencheu seus dados até com o tipo sangüíneo e colocou nas primeiras páginas as fabulosas resoluções para 2007 – perder peso, pedir a conta, parar de fumar, abrir negócio, conhecer a Austrália e por aí vai. Longe de mim querer desanimá-lo, mas até março ela já terá virado caderno de receitas da sua esposa.
Agora é tarde, mas ao invés das pândegas, bailes, bebedeiras e buzinaços do réveillon você deveria ter preferido o aconchego do lar. Longe de mim querer repreendê-lo, mas um bom escalda-pés, seguido de amistoso e aconchegante par de pantufas, não teria sido muito melhor que acordar não sei aonde e perguntar pra não sei quem sobre não sei quê?
Acima de qualquer coisa, no ano novo se deseja paz. Longe de mim querer ser chato, mas nada é mais incompatível com ela que os ensurdecedores rojões, bombinhas, traques e congêneres espocados à meia-noite. Somos massageados por mensagens profundas e tocantes falando de busca da essência interior, de encontro do eu verdadeiro, de preces pelo entendimento entre os homens. E o que se vê (e se ouve) é uma Sarajevo em cada esquina. E em cada esquina, hordas de gente de branco. Parece assembléia do sindicato dos enfermeiros ou simpósio de pai-de-santo.
Crendice das mais arraigadas para os praianos da gema e veranistas de ocasião é aquela história de pular 7 ondas e fazer 7 pedidos. Longe de mim querer me meter, mas o 7 deveria ser evitado por ser um número cabalístico. Você poderia pular 6 ondas, embora digam que esse é o número do cão-danado. Pulando só 5, os desejos poderiam não se realizar direito, vai saber. Por via das dúvidas, o melhor seria ter pulado 8, que são os 7 regulamentares e mais 1 de lambuja. Sim, porque 2007 tem que ter fartura. E longe de mim deixar de desejar isso pra você.
Saturday, December 23, 2006
DUÑA EXPLICA
Abandonando o pedestal onde merecidamente repousa sobre louros, Mestre Duña, num assomo de humildade, se nivelou a nós mortais para dissecar alguns enigmas que há muito intrigam a alma humana.
Frases, comentários ou mesmo interjeições jocosas desse Aristóteles moderno transformavam-se instantaneamente em citações, máximas, enunciados, fórmulas e teoremas. Tais aforismos saíam desgovernadamente de seus lábios, ora em golfadas, ora aos borbortões, mas sempre com a chancela singular de quem é Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Harvard, Oxford e Unip.
No intuito de testemunhar o inusitado torvelinho cultural, repórteres da BBC e da National Geographic, PHDs, filósofos e cientistas de todas as vertentes do conhecimento se espremeram por três dias defronte à choupana duñesca, alvo de peregrinação de muçulmanos e católicos, budistas e neo-pentecostais.
As aparições do Mestre se sucediam em intervalos regulares, à janela do seu quarto, onde o Iluminado se apresentava invariavelmente trajando sua túnica de lantejoulas cor de abóbora e azul celeste, a postos para dar vazão à sua cornucópia de saber.
Vamos agora a alguns excertos dessas 72 horas de bem-aventuranças.
Lan House
Trata-se somente de um nome afrescalhado para a conhecida loja de armarinhos e aviamentos, tão familiar às nossas prendadas titias e avós.
Galeorrinídeos
Mestre Duña relutou em elucidar esta questão, julgando-a por demais óbvia. Afinal, sentenciou o guru, quem não sabe que os galeorrinídeos pertencem à família de peixes elasmobrânquios precisa de cola para passar no exame psicotécnico.
Batatinha quando nasce
Obra basilar na formação poética de Drummond, trata-se de um divisor de águas da lírica em língua portuguesa. Recentemente Duña deu à lume um ensaio definitivo sobre o assunto, dele resultando um alfarrábio de 800 páginas que se detém sobre os sentidos recônditos dessa estrofe de quatro versos, aparentemente boçal e despretensiosa.
Garrida
A origem etimológica do termo é um tanto obscura, e se perde em tempos imemoriais. Tão imemoriais que, quando incluído no Hino Nacional, o vocábulo já era arcaico. Esse imemorialismo latente talvez explique porque tanta gente não se lembre da letra ao entoá-lo.
Maxilar
Grande loja de dois pavimentos localizada em Paraiponga, especializada em utilidades domésticas.
“O espelho da vida é a sombra do infinito”
Grafado no courvin da poltrona de um buzunga da Cometa, entre aspas mas sem crédito ao autor, Mestre Duña afirma que este paradoxo há 28 anos vem roubando o seu sono, no vão esforço de decifrá-lo. Se alguém sobre ele for capaz de lançar luz, que entre sem demora em contato pelo e-mail: msguassabia@yahoo.com.br
Frases, comentários ou mesmo interjeições jocosas desse Aristóteles moderno transformavam-se instantaneamente em citações, máximas, enunciados, fórmulas e teoremas. Tais aforismos saíam desgovernadamente de seus lábios, ora em golfadas, ora aos borbortões, mas sempre com a chancela singular de quem é Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Harvard, Oxford e Unip.
No intuito de testemunhar o inusitado torvelinho cultural, repórteres da BBC e da National Geographic, PHDs, filósofos e cientistas de todas as vertentes do conhecimento se espremeram por três dias defronte à choupana duñesca, alvo de peregrinação de muçulmanos e católicos, budistas e neo-pentecostais.
As aparições do Mestre se sucediam em intervalos regulares, à janela do seu quarto, onde o Iluminado se apresentava invariavelmente trajando sua túnica de lantejoulas cor de abóbora e azul celeste, a postos para dar vazão à sua cornucópia de saber.
Vamos agora a alguns excertos dessas 72 horas de bem-aventuranças.
Lan House
Trata-se somente de um nome afrescalhado para a conhecida loja de armarinhos e aviamentos, tão familiar às nossas prendadas titias e avós.
Galeorrinídeos
Mestre Duña relutou em elucidar esta questão, julgando-a por demais óbvia. Afinal, sentenciou o guru, quem não sabe que os galeorrinídeos pertencem à família de peixes elasmobrânquios precisa de cola para passar no exame psicotécnico.
Batatinha quando nasce
Obra basilar na formação poética de Drummond, trata-se de um divisor de águas da lírica em língua portuguesa. Recentemente Duña deu à lume um ensaio definitivo sobre o assunto, dele resultando um alfarrábio de 800 páginas que se detém sobre os sentidos recônditos dessa estrofe de quatro versos, aparentemente boçal e despretensiosa.
Garrida
A origem etimológica do termo é um tanto obscura, e se perde em tempos imemoriais. Tão imemoriais que, quando incluído no Hino Nacional, o vocábulo já era arcaico. Esse imemorialismo latente talvez explique porque tanta gente não se lembre da letra ao entoá-lo.
Maxilar
Grande loja de dois pavimentos localizada em Paraiponga, especializada em utilidades domésticas.
“O espelho da vida é a sombra do infinito”
Grafado no courvin da poltrona de um buzunga da Cometa, entre aspas mas sem crédito ao autor, Mestre Duña afirma que este paradoxo há 28 anos vem roubando o seu sono, no vão esforço de decifrá-lo. Se alguém sobre ele for capaz de lançar luz, que entre sem demora em contato pelo e-mail: msguassabia@yahoo.com.br
Sunday, December 17, 2006
ATA DA ASSEMBLÉIA ORDINÁRIA DO EDIFÍCIO ILHA DA GAIVOTA
Primeira pauta: Assuntos Gerais.
Após os procedimentos iniciais de praxe, e contando com a presença de 39 dos condôminos, o Sr. Rodolfo, do apartamento 41, disse que tinha uma queixa a fazer sobre o comportamento da Dona Maíra, do 42.
Segundo ele, ruídos denunciavam práticas diárias de foro íntimo por volta das 21h45, sendo o range-range de sua cama uma afronta aos bons costumes. Indignada, Dona Maíra esclareceu não tratar-se de suposta sem-vergonhice, mas dos exercícios abdominais e de flexão que é obrigada a fazer todas as noites, por indicação médica. E que mesmo que se tratasse da alegada prática, estaria em seu direito e não seria da conta de ninguém o que fizesse ou deixasse de fazer entre as quatro paredes do seu apartamento.
Nesse momento, Dr. Élcio, do 74, pediu a palavra dizendo que a falta de isolamento acústico se deve ao fato do prédio ter sido construído com tijolos baianos, motivo pelo qual era capaz de escutar até a reza da Dona Biloca, sua vizinha do 73. Complementou seu aparte afirmando que, quando quer manter intimidade com a esposa, tem de ligar o aparelho de som no último volume para abafar os naturais ruídos da conjunção carnal.
Isto posto, foi dada a vez à senhorita Elza, proprietária do apartamento 62, que sugeriu à assembléia a mudança do nome do edifício, já que o mesmo não é uma ilha e muito menos abriga gaivotas. Diante do exposto, o presidente da assembléia interrogou a moradora, dizendo se ela não tinha mais o que fazer, observação que provocou palmas em alguns dos presentes e gargalhadas em outros.
Em seguida, o subsíndico introduziu a segunda pauta da reunião: formação de fundo de reserva para a compra de apetrechos natalinos e figuras de presépio para o Natal.
Seu Luiz, do 51, 1º Secretário que acumula a função de tesoureiro, apresentou orçamento de três reis magos, mas recomendou a compra de apenas um, por medida de economia. Referiu-se ainda a um Baltazar em oferta num camelô da Rua Duque, e que a compra do mago de biscuit dava direito a um carneirinho de manjedoura grátis. Trêmula e demonstrando não estar de posse de seu juízo perfeito, Dona Geni do 36 foi taxativa ao afirmar que deixaria de pagar o condomínio caso não se adquirisse também uma ou duas vaquinhas malhadas, para fazer companhia ao carneiro junto ao bercinho do Menino-Deus.
Após acalorada discussão, a maioria dos presentes decidiu que o fundo de reserva arcaria com um presepinho básico e uma fiada de piscas de 200 lâmpadas para ornar a guarita, o qual seria ligado às 20 horas e desligado às 2 da manhã.
Prosseguindo, Dona Carla, moradora do 93, propôs a compra de um novo gira-gira para usufruto do pequeno Rafa, seu filho. Dona Albina, proprietária do 131, disse que “pequeno” era um eufemismo, dada a circunferência avantajada do menino e dos seus 82 quilos capazes de abalar a estrutura de qualquer gira-gira do planeta e arredores, segundo palavras da mesma. O Sr. Eduardo, do 22, argumentou que o gira-gira em questão já era o sexto a ter seu eixo entortado pelo robusto petiz. Ficou decidido solicitar ao Dr. Benício, engenheiro mecânico e morador do 114, um cáculo para determinar a estrutura necessária ao eixo, considerando-se as forças centrífuga e centrípeta versus o peso do garoto.
Procedeu-se então à eleição do novo síndico. De imediato o Sr. Waldemar lançou-se candidato à reeleição, argumentando que ao síndico assiste o direito de não pagar a taxa condominial e que, se não permanecesse no cargo, passaria à condição de inadimplente por não ter como honrar a referida taxa, o que seria pior para o condomínio. Assim, todos assentiram que o Sr. Waldemar prossiga em suas funções pelos próximos dois anos.
Tomada a deliberação, o Sr. Maurício do 173 cobrou do síndico a prestação de contas referente ao último exercício, ao que o Sr. Waldemar se esquivou, dizendo que precisaria de um apartamento inteiro e vago para guardar todas as notas e recibos da contabilidade predial. Não satisfeito com o argumento, o proprietário do 173 ameaçou o síndico com o dedo em riste, dizendo “ah, isso não vai ficar assim não”. Seguiram-se outros insultos até chegarem às vias de fato, aplicando-se mutuamente sopapos, bofetes, voadoras e outros golpes de natureza semelhante, o que obrigou à convocação de nova assembléia de condôminos, em data ainda a ser determinada.
Após os procedimentos iniciais de praxe, e contando com a presença de 39 dos condôminos, o Sr. Rodolfo, do apartamento 41, disse que tinha uma queixa a fazer sobre o comportamento da Dona Maíra, do 42.
Segundo ele, ruídos denunciavam práticas diárias de foro íntimo por volta das 21h45, sendo o range-range de sua cama uma afronta aos bons costumes. Indignada, Dona Maíra esclareceu não tratar-se de suposta sem-vergonhice, mas dos exercícios abdominais e de flexão que é obrigada a fazer todas as noites, por indicação médica. E que mesmo que se tratasse da alegada prática, estaria em seu direito e não seria da conta de ninguém o que fizesse ou deixasse de fazer entre as quatro paredes do seu apartamento.
Nesse momento, Dr. Élcio, do 74, pediu a palavra dizendo que a falta de isolamento acústico se deve ao fato do prédio ter sido construído com tijolos baianos, motivo pelo qual era capaz de escutar até a reza da Dona Biloca, sua vizinha do 73. Complementou seu aparte afirmando que, quando quer manter intimidade com a esposa, tem de ligar o aparelho de som no último volume para abafar os naturais ruídos da conjunção carnal.
Isto posto, foi dada a vez à senhorita Elza, proprietária do apartamento 62, que sugeriu à assembléia a mudança do nome do edifício, já que o mesmo não é uma ilha e muito menos abriga gaivotas. Diante do exposto, o presidente da assembléia interrogou a moradora, dizendo se ela não tinha mais o que fazer, observação que provocou palmas em alguns dos presentes e gargalhadas em outros.
Em seguida, o subsíndico introduziu a segunda pauta da reunião: formação de fundo de reserva para a compra de apetrechos natalinos e figuras de presépio para o Natal.
Seu Luiz, do 51, 1º Secretário que acumula a função de tesoureiro, apresentou orçamento de três reis magos, mas recomendou a compra de apenas um, por medida de economia. Referiu-se ainda a um Baltazar em oferta num camelô da Rua Duque, e que a compra do mago de biscuit dava direito a um carneirinho de manjedoura grátis. Trêmula e demonstrando não estar de posse de seu juízo perfeito, Dona Geni do 36 foi taxativa ao afirmar que deixaria de pagar o condomínio caso não se adquirisse também uma ou duas vaquinhas malhadas, para fazer companhia ao carneiro junto ao bercinho do Menino-Deus.
Após acalorada discussão, a maioria dos presentes decidiu que o fundo de reserva arcaria com um presepinho básico e uma fiada de piscas de 200 lâmpadas para ornar a guarita, o qual seria ligado às 20 horas e desligado às 2 da manhã.
Prosseguindo, Dona Carla, moradora do 93, propôs a compra de um novo gira-gira para usufruto do pequeno Rafa, seu filho. Dona Albina, proprietária do 131, disse que “pequeno” era um eufemismo, dada a circunferência avantajada do menino e dos seus 82 quilos capazes de abalar a estrutura de qualquer gira-gira do planeta e arredores, segundo palavras da mesma. O Sr. Eduardo, do 22, argumentou que o gira-gira em questão já era o sexto a ter seu eixo entortado pelo robusto petiz. Ficou decidido solicitar ao Dr. Benício, engenheiro mecânico e morador do 114, um cáculo para determinar a estrutura necessária ao eixo, considerando-se as forças centrífuga e centrípeta versus o peso do garoto.
Procedeu-se então à eleição do novo síndico. De imediato o Sr. Waldemar lançou-se candidato à reeleição, argumentando que ao síndico assiste o direito de não pagar a taxa condominial e que, se não permanecesse no cargo, passaria à condição de inadimplente por não ter como honrar a referida taxa, o que seria pior para o condomínio. Assim, todos assentiram que o Sr. Waldemar prossiga em suas funções pelos próximos dois anos.
Tomada a deliberação, o Sr. Maurício do 173 cobrou do síndico a prestação de contas referente ao último exercício, ao que o Sr. Waldemar se esquivou, dizendo que precisaria de um apartamento inteiro e vago para guardar todas as notas e recibos da contabilidade predial. Não satisfeito com o argumento, o proprietário do 173 ameaçou o síndico com o dedo em riste, dizendo “ah, isso não vai ficar assim não”. Seguiram-se outros insultos até chegarem às vias de fato, aplicando-se mutuamente sopapos, bofetes, voadoras e outros golpes de natureza semelhante, o que obrigou à convocação de nova assembléia de condôminos, em data ainda a ser determinada.
Sunday, December 10, 2006
OCORRÊNCIAS POLICIAIS DA PROVÍNCIA
A loja de armarinhos de Dona Matilda foi invadida ontem por meliantes desaforados, que, após renderem a proprietária, buliram nas partes baixas de sua primogênita. No momento do assalto, a filha de Dona Matilda fechava o caixa. Os gatunos levaram a féria do dia – montante estimado em R$ 29,95, mais dois novelos de lã da marca Cléa e alguns retrozes de linha. A polícia vem empreendendo incessantes diligências no sentido de reaver as mercadorias, mas até o momento só recuperou um dos dois novelos, achado no porta-malas de um Chevette abandonado às margens de um capinzal. O retrato falado do outro novelo foi afixado em vários postes do nosso município e enviado por fax às unidades policiais da região.
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Sansara Mahranta, dono do Espaço Holístico Luz do Oriente, compareceu à delegacia para dar queixa do estabelecimento vizinho, a churrascaria Boizão Grill. O mestre iogue argumentou que o cheiro da picanha na brasa atrapalhava a concentração dos seus alunos na prática da meditação. Frisou ainda que tal odor, misturado ao incenso de jasmim, causava náuseas insuportáveis em pelo menos 70% da classe, e que todos ameaçavam trancar matrícula caso persistisse o fumacê bovino. Até o fechamento desta edição, as partes envolvidas não tinham chegado a um acordo amigável.
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O menor J.L.C. foi detido para averiguações ao ser pego com a bicicleta de outro menor, Z.B.F. Inquirido sobre as razões que motivaram aquele ato reprovável, J.L.C. argumentou que só queria dar uma voltinha, e que devolveria a bicicleta a Z.B.F. tão logo concluísse um passeio no quarteirão. Após uma série de sopapos, cascudos, croques e piparotes do pai da vítima no guri infrator, o Cabo Éverton estabeleceu que o menor deveria, a título de pena, engraxar os coturnos de todos os membros da Corporação, durante um mês, tendo o garoto que fornecer os apetrechos necessários à tarefa: graxa nugget, pano e escovas de polimento, além da caixa de engraxate.
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Na quinta-feira passada, o Vigário Adamantino dirigiu-se ao Distrito para denunciar do sumiço de vinho da paróquia, atribuindo ao sacristão Denófrio a autoria do furto. Como prova, trouxe consigo uma devota de São Judas, a qual, tendo participado recentemente de uma quermesse escolar, identificou o vinho do padre como um dos ingredientes utilizados no ponche do evento.
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Domingo último, por volta das 21h14, o Dr. Augusto Vicentino Soares saboreava calmamente seu chumaço de algodão doce na praça central. No momento em que a Banda Municipal executava “O Cisne Branco”, Dr. Augusto notou um movimento atípico atrás de um arbusto próximo. Remexendo com sua bengala o referido vegetal, deparou-se com sua cadela Yorkshire a copular com um sarnento vira-latas, ambos em frenético vai-e-vem ao ritmo da música. Irado com a intromissão, o vira-latas mordeu um dos calcanhares do doutor, que teve de tomar uma anti-rábica.
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Mais uma vez o jovem Odorico Ângelo Júnior foi flagrado cheirando maconha e fumando cocaína em via pública. O pai declarou que desta feita nada faria para tirá-lo de trás das grades, e que seria um favor mantê-lo trancafiado. A autoridade de plantão disse que seria oneroso sustentá-lo no xadrez, uma vez que a compra de 2 marmitex ao dia no Restaurante Rodoviário custaria R$ 14,60, valor bem maior que a fiança de R$ 10,00 para libertá-lo Assim sendo, o sargento acabou ele mesmo pagando a fiança do viciado, para não comprometer ainda mais o minguado orçamento do Distrito.
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Sansara Mahranta, dono do Espaço Holístico Luz do Oriente, compareceu à delegacia para dar queixa do estabelecimento vizinho, a churrascaria Boizão Grill. O mestre iogue argumentou que o cheiro da picanha na brasa atrapalhava a concentração dos seus alunos na prática da meditação. Frisou ainda que tal odor, misturado ao incenso de jasmim, causava náuseas insuportáveis em pelo menos 70% da classe, e que todos ameaçavam trancar matrícula caso persistisse o fumacê bovino. Até o fechamento desta edição, as partes envolvidas não tinham chegado a um acordo amigável.
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O menor J.L.C. foi detido para averiguações ao ser pego com a bicicleta de outro menor, Z.B.F. Inquirido sobre as razões que motivaram aquele ato reprovável, J.L.C. argumentou que só queria dar uma voltinha, e que devolveria a bicicleta a Z.B.F. tão logo concluísse um passeio no quarteirão. Após uma série de sopapos, cascudos, croques e piparotes do pai da vítima no guri infrator, o Cabo Éverton estabeleceu que o menor deveria, a título de pena, engraxar os coturnos de todos os membros da Corporação, durante um mês, tendo o garoto que fornecer os apetrechos necessários à tarefa: graxa nugget, pano e escovas de polimento, além da caixa de engraxate.
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Na quinta-feira passada, o Vigário Adamantino dirigiu-se ao Distrito para denunciar do sumiço de vinho da paróquia, atribuindo ao sacristão Denófrio a autoria do furto. Como prova, trouxe consigo uma devota de São Judas, a qual, tendo participado recentemente de uma quermesse escolar, identificou o vinho do padre como um dos ingredientes utilizados no ponche do evento.
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Domingo último, por volta das 21h14, o Dr. Augusto Vicentino Soares saboreava calmamente seu chumaço de algodão doce na praça central. No momento em que a Banda Municipal executava “O Cisne Branco”, Dr. Augusto notou um movimento atípico atrás de um arbusto próximo. Remexendo com sua bengala o referido vegetal, deparou-se com sua cadela Yorkshire a copular com um sarnento vira-latas, ambos em frenético vai-e-vem ao ritmo da música. Irado com a intromissão, o vira-latas mordeu um dos calcanhares do doutor, que teve de tomar uma anti-rábica.
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Mais uma vez o jovem Odorico Ângelo Júnior foi flagrado cheirando maconha e fumando cocaína em via pública. O pai declarou que desta feita nada faria para tirá-lo de trás das grades, e que seria um favor mantê-lo trancafiado. A autoridade de plantão disse que seria oneroso sustentá-lo no xadrez, uma vez que a compra de 2 marmitex ao dia no Restaurante Rodoviário custaria R$ 14,60, valor bem maior que a fiança de R$ 10,00 para libertá-lo Assim sendo, o sargento acabou ele mesmo pagando a fiança do viciado, para não comprometer ainda mais o minguado orçamento do Distrito.
Sunday, December 03, 2006
VIDE BULA
INFORMAÇÃO AO PACIENTE
Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem usual, objetiva e atraente.
Ou seja, a idéia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo assim maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.
APRESENTAÇÃO
Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.
COMPOSIÇÃO
Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Evandro e pelo Renato e suas Blue Cápsulas.
INDICAÇÕES
Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.
A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.
AÇÃO FARMACOLÓGICA
Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e da urina, nos casos mais graves.
INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.
REAÇÕES ADVERSAS
Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.
PRECAUÇÕES
Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.
PACIENTES IDOSOS
Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.
CONDUTA NA SUPERDOSAGEM
Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.
Não desaparecendo os sintomas, reze. Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil. Conservar em local seco e fresco. Ui!
Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem usual, objetiva e atraente.
Ou seja, a idéia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo assim maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.
APRESENTAÇÃO
Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.
COMPOSIÇÃO
Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Evandro e pelo Renato e suas Blue Cápsulas.
INDICAÇÕES
Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.
A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.
AÇÃO FARMACOLÓGICA
Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e da urina, nos casos mais graves.
INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.
REAÇÕES ADVERSAS
Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.
PRECAUÇÕES
Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.
PACIENTES IDOSOS
Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.
CONDUTA NA SUPERDOSAGEM
Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.
Não desaparecendo os sintomas, reze. Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil. Conservar em local seco e fresco. Ui!
Sunday, November 26, 2006
MORTOS DE RIR
O Willy não precisava ter ido tão cedo. Não precisava mesmo. Uma desatenção nossa e olha ele aí, finado. Ainda se tivesse procurado o fim – tomado veneno de rato, dado um tiro na têmpora, um enforcamentozinho. Mas assim, pego de surpresa, ver-se defunto da noite pro dia e a contragosto, não deve ter sido fácil.
Bom Willy, tão viciado em vida e de repente nessa situação. Em quase todas as sepulturas do cemitério, a estrelinha e a cruz, a data da morte e o dia do nascimento. Com estrela você combina, mas cruz não é o seu estilo.
Prometo que, tão logo o padre encomende sua carcaça, cairei fora desse latifúndio de esqueletos e entrarei no bar mais próximo para beber à nossa saúde. À minha aqui embaixo e à sua aí em cima, seu desalmado. Embora beba quase nunca, farei isso por você.
Aguardo, sua besta, você numa noite dessas pra me puxar as pernas, fazendo gracejo das coisas sagradas. O céu nunca mais será o mesmo depois da chegada de “Aero Willy”, o querubim gozador. Tô até vendo você tentando empurrar uma rifa pra cima de São Pedro ou convencendo Santo Expedito a ser seu fiador numa confortável nuvem de dois dormitórios.
Quero que fique em relevo no mármore branco e no granito preto desses túmulos um pouco dos melhores momentos que tivemos. Um dia, querendo ou não, a vida vai me mover um processo de desapropriação e virei também morar por essas bandas. Seremos vizinhos de novo, como éramos de rua.
Agora é essa serra azulada circundando o campo santo. Deixar você assim desamparado, no meio de tão desanimadas companhias, é de cortar o coração. Sinto um espírito me soprando ao ouvido: “escreve aí no seu texto pra cuidarem mais da gente. Só lembram que a gente existe dia 2 de novembro, isso é uma desumanidade”. É justo. Inexistente também existe. Não é porque morreu que deixou de merecer consideração.
Assim como os vermes daqui a uns dias avançarão com menos apetite sobre os seus restos, as lembranças suas também irão perdendo o brilho e a nitidez, sei disso. Sei do inevitável disso. E deixo subirem à mente as pipas todas que soltamos e milhões de bolhas de sabão, da época em que a gente tinha o tamanho dos anjinhos tocadores de trombeta, iguais a esses da tumba aqui do lado.
- Acorda aí, palhaço. Que cara de sonso é essa...
- Willy, é você? Eu tava sonhando ou é você que veio me buscar?
- Dá um cigarro, vai. Anda.
- Tá, mas primeiro me conta o que é que está acontecendo.
- Calma, tudo a seu tempo. E tempo a gente tem de sobra daqui pra frente.
Caímos na gargalhada. Acesso de riso no cemitério, coisa mais sem cabimento. Rimos tanto que apagamos as velas com as nossas risadas. Ao fundo, a trilha de Nino Rota para “Oito e Meio”. O coveiro passa por nós, mede a dupla de cima a baixo e faz um “tsc-tsc” de desaprovação.
Bom Willy, tão viciado em vida e de repente nessa situação. Em quase todas as sepulturas do cemitério, a estrelinha e a cruz, a data da morte e o dia do nascimento. Com estrela você combina, mas cruz não é o seu estilo.
Prometo que, tão logo o padre encomende sua carcaça, cairei fora desse latifúndio de esqueletos e entrarei no bar mais próximo para beber à nossa saúde. À minha aqui embaixo e à sua aí em cima, seu desalmado. Embora beba quase nunca, farei isso por você.
Aguardo, sua besta, você numa noite dessas pra me puxar as pernas, fazendo gracejo das coisas sagradas. O céu nunca mais será o mesmo depois da chegada de “Aero Willy”, o querubim gozador. Tô até vendo você tentando empurrar uma rifa pra cima de São Pedro ou convencendo Santo Expedito a ser seu fiador numa confortável nuvem de dois dormitórios.
Quero que fique em relevo no mármore branco e no granito preto desses túmulos um pouco dos melhores momentos que tivemos. Um dia, querendo ou não, a vida vai me mover um processo de desapropriação e virei também morar por essas bandas. Seremos vizinhos de novo, como éramos de rua.
Agora é essa serra azulada circundando o campo santo. Deixar você assim desamparado, no meio de tão desanimadas companhias, é de cortar o coração. Sinto um espírito me soprando ao ouvido: “escreve aí no seu texto pra cuidarem mais da gente. Só lembram que a gente existe dia 2 de novembro, isso é uma desumanidade”. É justo. Inexistente também existe. Não é porque morreu que deixou de merecer consideração.
Assim como os vermes daqui a uns dias avançarão com menos apetite sobre os seus restos, as lembranças suas também irão perdendo o brilho e a nitidez, sei disso. Sei do inevitável disso. E deixo subirem à mente as pipas todas que soltamos e milhões de bolhas de sabão, da época em que a gente tinha o tamanho dos anjinhos tocadores de trombeta, iguais a esses da tumba aqui do lado.
- Acorda aí, palhaço. Que cara de sonso é essa...
- Willy, é você? Eu tava sonhando ou é você que veio me buscar?
- Dá um cigarro, vai. Anda.
- Tá, mas primeiro me conta o que é que está acontecendo.
- Calma, tudo a seu tempo. E tempo a gente tem de sobra daqui pra frente.
Caímos na gargalhada. Acesso de riso no cemitério, coisa mais sem cabimento. Rimos tanto que apagamos as velas com as nossas risadas. Ao fundo, a trilha de Nino Rota para “Oito e Meio”. O coveiro passa por nós, mede a dupla de cima a baixo e faz um “tsc-tsc” de desaprovação.
Sunday, November 19, 2006
MANIFESTO PELA VOLTA DO TEMPO
O sujeito que assina este mal-arrumado libelo, em nome de toda a humanidade (à exceção talvez dos anciãos com mais de 100, cheios de saúde e paradoxalmente fartos de viver), vem a público exigir que o tempo volte o mais rápido que puder. E que fique claro que não me refiro à volta no tempo; o que reivindico é o retorno do próprio tempo, calmo e humilde, à vida das pessoas.
É espantoso como tudo, há uns poucos anos, levava muito mais tempo para ser feito. E quanto mais vagaroso era o processo, mais tempo, estranhamente, sobrava pro cidadão.
Criava-se o porco no quintal. Matava-se o bicho. Jogava-se água fervente sobre o pêlo, a ser raspado na navalha. Abria-se a barrigada, separava-se as partes, temperava-se e deixava-se da noite para o dia mergulhado em marinada. Providenciava-se a lenha, acendia-se o fogo, cozinhava-se lentamente e degustava-se mais lentamente ainda. Era um tempo de sobra que não acabava nunca mais, de enjoar de fazer nada. De botar cadeira na calçada, chamar o vizinho pra uma breja e fomentar o diz-que-diz-que. O tempo era artigo barato, era preciso arrumar um jeito de se livrar dele. De matá-lo de alguma forma antes que ele matasse a todos de tédio. Tempo havia para debruçar na janela, jogar paciência, montar quebra-cabeça. Fazia-se a sesta, lia-se pela satisfação de ler, não pela urgência de manter-se up-to-date.
Voltando à feijoada, dessa vez à rala, insípida e inodora versão de hoje – em lata e aquecida no microondas. Não presta-se atenção no que se está comendo, pois no tempo em que se engole a gororoba ao molho de flavorizantes vê-se a TV, atende-se ao celular, confere-se o extrato, pensa-se nos termos do relatório a ser entregue o mais tardar às 12h30. E são 12h20, meu Deus do céu.
Se aqui é assim, imagine lá, do outro lado do mundo. Valorizar o tempo é com os japoneses. Ninguém tem know-how mais apurado. Por algum mecanismo ancestral, sabem os nipônicos desde tenra idade que tempo é recurso não-renovável, e conseqüentemente precisam consumi-lo da mais produtiva maneira. Lá na placenta, enquanto espera ficar pronto pra vir ao mundo, o japonesinho deve aproveitar o líquido amniótico pra cultivar algum legume hidropônico. Ou já reserva aquela água que o rodeia pra abrir sua lavanderia quando nascer. Talvez ache oportuno estudar a anatomia da mãe e já ir se afiando para o vestibular. Pelo menos não vai zerar em biologia...
Melhor ainda que voltar, amigo tempo, seria ver você parado. Isso mesmo. Nem correr, nem andar, nem se arrastar. Simplesmente parar, perder a função de tempo e eternizar-nos a todos.
E vamos ficar por aqui, porque o tempo do leitor é curto e seria uma lástima continuar a desperdiçá-lo. Ainda mais comigo.
É espantoso como tudo, há uns poucos anos, levava muito mais tempo para ser feito. E quanto mais vagaroso era o processo, mais tempo, estranhamente, sobrava pro cidadão.
Criava-se o porco no quintal. Matava-se o bicho. Jogava-se água fervente sobre o pêlo, a ser raspado na navalha. Abria-se a barrigada, separava-se as partes, temperava-se e deixava-se da noite para o dia mergulhado em marinada. Providenciava-se a lenha, acendia-se o fogo, cozinhava-se lentamente e degustava-se mais lentamente ainda. Era um tempo de sobra que não acabava nunca mais, de enjoar de fazer nada. De botar cadeira na calçada, chamar o vizinho pra uma breja e fomentar o diz-que-diz-que. O tempo era artigo barato, era preciso arrumar um jeito de se livrar dele. De matá-lo de alguma forma antes que ele matasse a todos de tédio. Tempo havia para debruçar na janela, jogar paciência, montar quebra-cabeça. Fazia-se a sesta, lia-se pela satisfação de ler, não pela urgência de manter-se up-to-date.
Voltando à feijoada, dessa vez à rala, insípida e inodora versão de hoje – em lata e aquecida no microondas. Não presta-se atenção no que se está comendo, pois no tempo em que se engole a gororoba ao molho de flavorizantes vê-se a TV, atende-se ao celular, confere-se o extrato, pensa-se nos termos do relatório a ser entregue o mais tardar às 12h30. E são 12h20, meu Deus do céu.
Se aqui é assim, imagine lá, do outro lado do mundo. Valorizar o tempo é com os japoneses. Ninguém tem know-how mais apurado. Por algum mecanismo ancestral, sabem os nipônicos desde tenra idade que tempo é recurso não-renovável, e conseqüentemente precisam consumi-lo da mais produtiva maneira. Lá na placenta, enquanto espera ficar pronto pra vir ao mundo, o japonesinho deve aproveitar o líquido amniótico pra cultivar algum legume hidropônico. Ou já reserva aquela água que o rodeia pra abrir sua lavanderia quando nascer. Talvez ache oportuno estudar a anatomia da mãe e já ir se afiando para o vestibular. Pelo menos não vai zerar em biologia...
Melhor ainda que voltar, amigo tempo, seria ver você parado. Isso mesmo. Nem correr, nem andar, nem se arrastar. Simplesmente parar, perder a função de tempo e eternizar-nos a todos.
E vamos ficar por aqui, porque o tempo do leitor é curto e seria uma lástima continuar a desperdiçá-lo. Ainda mais comigo.
Sunday, November 12, 2006
MADE IN CHINA
Guarda-chuva à prova d’água
Um avanço sem precedentes, fruto de 14 anos e meio de pesquisas e testes exaustivos na região da Manchúria.
Nikei Mouse
Idêntico ao camundongo orelhudo licenciado pela Disney, que custa uma fortuna por aí. Além de mais em conta, já vem com leptospirose.
Controlador Remoto de Vôo
Os profissionais que controlam o tráfego aéreo não precisarão mais estar fisicamente alocados em suas bases de operação. Nas suas casas, confortavelmente acomodados às suas redes e cadeiras-do-papai, eles poderão desempenhar suas tarefas com segurança e sem o stress típico dessa atividade. O artefato funciona com quatro pilhas médias. Embalagem com 29 mil pés, tamanho 41 e sem unha encravada.
Água do Rio Jordão (Jordan River Water)
Na verdade, ela não é proveniente do Rio Jordão, mas de um ribeirão próximo à cidade de Shangai, cuja água tem propriedades físico-químicas semelhantes à do famoso rio bíblico. Segundo Jing Ling Long, Gerente de Produto, “o que vale é a fé do crente”.
Respirador de UTI
Precisão e alta confiabilidade distingüem esse produto da concorrência. Possui um apito que avisa quando o presunto ficou pronto.
Comida Chinesa
Assim como os brasileiros não ingerem feijoada e acarajé todos os dias, também os chineses não se alimentam exclusivamente de yakisoba e rolinhos primavera. O chinês comum, ou seja, aquele igualzinho aos outros, come rotineiramente arroz, feijão, bife e batata frita. E é isso o que o consumidor encontra nesse lançamento, em caixas de 500g.
Grande Muralha de bolso
Miniatura em escala da única obra do engenho humano que pode ser vista do espaço a olho nu. Aparentemente essa muralhinha de resina não tem serventia determinada, o que nos autoriza afirmar que se trata de um artigo multiuso.
Rapadura
Concebida numa prisão de segurança máxima, por um chinês que pegou 20 anos de cana. A exemplo da similar nacional, ela é doce mas não é mole, não.
Negócio da China
Kit completo para montar sua loja de 1,99. Custa 1,99.
Caixão de defunto
Feito em isopor imitando madeira, sua constituição é mais frágil que as cestinhas de morango vendidas na beira da estrada. A grande vantagem é que, caso o defunto venha a despertar depois de enterrado, poderá libertar-se rapidamente de sua urna mortuária.
Moto-Serra
Produto ecologicamente correto. Ao contrário dos modelos conhecidos, que serram os troncos, essa apenas quebra o galho.
Fogão Meia-Boca
Depois dos congêneres de seis e quatro bocas, o mercado ganha agora essa versão desenvolvida especificamente para anões, pigmeus e velhinhos em fase de encolhimento. O consumo de gás, garante o fabricante, é reduzido pela metade.
Sacolinha de supermercado
Basta de esperar a sacolinha ficar cheia para arrebentar. Muito mais prática, essa já vem arrebentada, dispensando o penoso processo de enchimento.
Foto do Che
A mesma que ornamenta as paredes das repúblicas de estudantes e ilustra 97,3% das camisetas das feiras de artesanato. A única diferença são os olhos, ligeiramente puxados.
Vachina
Numa só aplicação, imuniza o indivíduo contra todos os males da humanidade. Em ampolas de 5, 10 e 15ml.
Mao Tsé Tang
Líder chinês em sucos concentrados de preparo instantâneo. Nos sabores mixirica mixuruca, uva-passa e macaúba.
Um avanço sem precedentes, fruto de 14 anos e meio de pesquisas e testes exaustivos na região da Manchúria.
Nikei Mouse
Idêntico ao camundongo orelhudo licenciado pela Disney, que custa uma fortuna por aí. Além de mais em conta, já vem com leptospirose.
Controlador Remoto de Vôo
Os profissionais que controlam o tráfego aéreo não precisarão mais estar fisicamente alocados em suas bases de operação. Nas suas casas, confortavelmente acomodados às suas redes e cadeiras-do-papai, eles poderão desempenhar suas tarefas com segurança e sem o stress típico dessa atividade. O artefato funciona com quatro pilhas médias. Embalagem com 29 mil pés, tamanho 41 e sem unha encravada.
Água do Rio Jordão (Jordan River Water)
Na verdade, ela não é proveniente do Rio Jordão, mas de um ribeirão próximo à cidade de Shangai, cuja água tem propriedades físico-químicas semelhantes à do famoso rio bíblico. Segundo Jing Ling Long, Gerente de Produto, “o que vale é a fé do crente”.
Respirador de UTI
Precisão e alta confiabilidade distingüem esse produto da concorrência. Possui um apito que avisa quando o presunto ficou pronto.
Comida Chinesa
Assim como os brasileiros não ingerem feijoada e acarajé todos os dias, também os chineses não se alimentam exclusivamente de yakisoba e rolinhos primavera. O chinês comum, ou seja, aquele igualzinho aos outros, come rotineiramente arroz, feijão, bife e batata frita. E é isso o que o consumidor encontra nesse lançamento, em caixas de 500g.
Grande Muralha de bolso
Miniatura em escala da única obra do engenho humano que pode ser vista do espaço a olho nu. Aparentemente essa muralhinha de resina não tem serventia determinada, o que nos autoriza afirmar que se trata de um artigo multiuso.
Rapadura
Concebida numa prisão de segurança máxima, por um chinês que pegou 20 anos de cana. A exemplo da similar nacional, ela é doce mas não é mole, não.
Negócio da China
Kit completo para montar sua loja de 1,99. Custa 1,99.
Caixão de defunto
Feito em isopor imitando madeira, sua constituição é mais frágil que as cestinhas de morango vendidas na beira da estrada. A grande vantagem é que, caso o defunto venha a despertar depois de enterrado, poderá libertar-se rapidamente de sua urna mortuária.
Moto-Serra
Produto ecologicamente correto. Ao contrário dos modelos conhecidos, que serram os troncos, essa apenas quebra o galho.
Fogão Meia-Boca
Depois dos congêneres de seis e quatro bocas, o mercado ganha agora essa versão desenvolvida especificamente para anões, pigmeus e velhinhos em fase de encolhimento. O consumo de gás, garante o fabricante, é reduzido pela metade.
Sacolinha de supermercado
Basta de esperar a sacolinha ficar cheia para arrebentar. Muito mais prática, essa já vem arrebentada, dispensando o penoso processo de enchimento.
Foto do Che
A mesma que ornamenta as paredes das repúblicas de estudantes e ilustra 97,3% das camisetas das feiras de artesanato. A única diferença são os olhos, ligeiramente puxados.
Vachina
Numa só aplicação, imuniza o indivíduo contra todos os males da humanidade. Em ampolas de 5, 10 e 15ml.
Mao Tsé Tang
Líder chinês em sucos concentrados de preparo instantâneo. Nos sabores mixirica mixuruca, uva-passa e macaúba.
Sunday, November 05, 2006
A LUNETA
Na embalagem havia um enorme splash, onde se lia: “Montagem fácil e rápida”. Bom, dois dias e duas noites não é tanto tempo assim. O suficiente para encaixar nos lugares certos as lentes, roldanas, parafusos, porcas e cilindros de diferentes calibres e tamanhos.
Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute - porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.
Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.
No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.
Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.
Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?
No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.
Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões.
Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.
Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.
- Vai, vai, vai...
Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:
- Vai o que, Claudinho?
Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.
- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta...
- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.
- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.
- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!
Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.
- Sabe como é, testando o foco, querida...
E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.
Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute - porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.
Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.
No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.
Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.
Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?
No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.
Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões.
Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.
Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.
- Vai, vai, vai...
Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:
- Vai o que, Claudinho?
Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.
- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta...
- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.
- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.
- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!
Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.
- Sabe como é, testando o foco, querida...
E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.
Sunday, October 29, 2006
APARTAMENTO 607
Naquele cubículo eu a amei mais do que seria o bastante a dois mamíferos normais. Ou mais do que seria conveniente aos olhos e ouvidos dos vizinhos.
- Essa penugenzinha mais espessa caminhando pro seu umbigo, olha só.
- Ah, seu bobo. Cada uma...
Viro pro outro lado e dou com o peixe em zigue-zague ali no aquário, assustadinho. A falta de gravidade, zumbe a bomba de ar, há um verde musgo nos cascalhos e o reflexo da gente distorcido no vidro.
Quero que a tarde plane sobre a pólis desse jeito, com a tv ligada e nos ligando por um zonzo abandono de afazeres. Além do mais, há quase um tudo nesse nada, e é um estrondo a brisa leve nas avencas. Que mais a gente pode desejar, a não ser o dilatamento do tempo governando o espaço nosso?
- Alguém acendeu um aqui perto, sente o cheiro.
- Cheiro é o seu, meu bem.
Cheiro é o dela. Estrógeno concentrado nos cabelos fininhos da nuca. A falta que você fez enquanto hoje não chegava, se soubesse. Se soubesse se arrancava de onde estava e se atirava sem vergonha sobre mim, antes do prazo combinado e dos procedimentos cumpridos.
Os dentes todos, brancos e seus, rompendo a carne da maçã. Que bom é assim, vendo você sem que se saiba sendo vista. O lençol se espraia em ondas pela cama. Florzinhas, detalhes, coisas de mulher que põe sentimento no cio. Há uma batalha em andamento nesses três metros por quatro, sem vencedor nem vencido, só a disputa e a conquista do território do outro. Estar dentro do outro lado, ser os dois lados e um só. Depois é água e bandeira branca, amor.
- Duas coisas, meu anjo: pede uma pizza e traz a manta.
- Sim senhora. E eu, também estou no pedido?
É de perder a cabeça quando ela aciona esse riso, como se abrisse um preview do mistério de que é feita. Vinte minutos de cócegas e guerra de travesseiros. Nada muito mais sério pode rolar daí pra frente, eu sei mas finjo que não e tento falar de nós dois enquanto conto suas estrias.
- Espera aí que eu já volto, o motoqueiro tá buzinando.
Uma sirene de polícia e um alarme disparado Sua pulseira sobre a antologia de Drummond. O relógio e as chaves de casa, do carro e de nós. Trago os talheres e os pratos.
Gosto tanto do atrevimento, tão raro e tão bem-vindo. Das poucas vezes em que você se presta a me domar. É claro que a porta pode se abrir para uma procissão de camelos, mandalas de pedra podem passar razantes sobre nossas cabeças que tudo bem, nada que assuste ou afaste os olhos cravados nos olhos.
- Me ajuda aqui com o fecho do vestido.
Se ela tem mesmo que ir, que vá cheirando a mim. A saciedade é uma ilusão que dura quase 10 minutos. Tudo o que vier a acontecer será só ínterim entre sua partida e seu retorno incerto.
O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores. Batom no copo, cabelo no ralo. Uns rastros poucos que duram, quando muito, até amanhã. E amanhã é muito longe da outra vinda, quando aqui será o nirvana novamente.
- Essa penugenzinha mais espessa caminhando pro seu umbigo, olha só.
- Ah, seu bobo. Cada uma...
Viro pro outro lado e dou com o peixe em zigue-zague ali no aquário, assustadinho. A falta de gravidade, zumbe a bomba de ar, há um verde musgo nos cascalhos e o reflexo da gente distorcido no vidro.
Quero que a tarde plane sobre a pólis desse jeito, com a tv ligada e nos ligando por um zonzo abandono de afazeres. Além do mais, há quase um tudo nesse nada, e é um estrondo a brisa leve nas avencas. Que mais a gente pode desejar, a não ser o dilatamento do tempo governando o espaço nosso?
- Alguém acendeu um aqui perto, sente o cheiro.
- Cheiro é o seu, meu bem.
Cheiro é o dela. Estrógeno concentrado nos cabelos fininhos da nuca. A falta que você fez enquanto hoje não chegava, se soubesse. Se soubesse se arrancava de onde estava e se atirava sem vergonha sobre mim, antes do prazo combinado e dos procedimentos cumpridos.
Os dentes todos, brancos e seus, rompendo a carne da maçã. Que bom é assim, vendo você sem que se saiba sendo vista. O lençol se espraia em ondas pela cama. Florzinhas, detalhes, coisas de mulher que põe sentimento no cio. Há uma batalha em andamento nesses três metros por quatro, sem vencedor nem vencido, só a disputa e a conquista do território do outro. Estar dentro do outro lado, ser os dois lados e um só. Depois é água e bandeira branca, amor.
- Duas coisas, meu anjo: pede uma pizza e traz a manta.
- Sim senhora. E eu, também estou no pedido?
É de perder a cabeça quando ela aciona esse riso, como se abrisse um preview do mistério de que é feita. Vinte minutos de cócegas e guerra de travesseiros. Nada muito mais sério pode rolar daí pra frente, eu sei mas finjo que não e tento falar de nós dois enquanto conto suas estrias.
- Espera aí que eu já volto, o motoqueiro tá buzinando.
Uma sirene de polícia e um alarme disparado Sua pulseira sobre a antologia de Drummond. O relógio e as chaves de casa, do carro e de nós. Trago os talheres e os pratos.
Gosto tanto do atrevimento, tão raro e tão bem-vindo. Das poucas vezes em que você se presta a me domar. É claro que a porta pode se abrir para uma procissão de camelos, mandalas de pedra podem passar razantes sobre nossas cabeças que tudo bem, nada que assuste ou afaste os olhos cravados nos olhos.
- Me ajuda aqui com o fecho do vestido.
Se ela tem mesmo que ir, que vá cheirando a mim. A saciedade é uma ilusão que dura quase 10 minutos. Tudo o que vier a acontecer será só ínterim entre sua partida e seu retorno incerto.
O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores. Batom no copo, cabelo no ralo. Uns rastros poucos que duram, quando muito, até amanhã. E amanhã é muito longe da outra vinda, quando aqui será o nirvana novamente.
Thursday, October 26, 2006
O FILOSÓFO DUÑESCO FALA À PROVÍNCIA CREPUSCULAR
Por Lauro Augusto Bittencourt Borges
Há tempos, mais de ano, este escriba labuta por uma entrevista com o grande —e quase inacessível— Mestre Duña, o sábio multicultural, o navegante-mor de todas as áreas do conhecimento humano. Nas esquinas crepusculares, fuçando aqui e acolá, consegui apurar que Marcelo Sguassábia, “carpinteiro” do marketing e boa pena lá do 2º Caderno, é íntimo do Mestre. Tão íntimo que convenceu o filósofo duñesco a bater um pingue-pongue rápido com O MUNICIPIO. Através do “carpinteiro”, ele assim assentiu com o pedido do bate-papo: "Se é para o bem de todos e felicidade geral dos sem-noção, diga ao Lauro que concedo a entrevista".
Mestre, além de seda pura e alfinetadas, o Parlamento brazuca vai ganhar o que com a eleição do Clodovil?
Ganhará um ser bufante: bufa, bufa, bufa e não arregaça as mangas. Todavia, Clô deverá apresentar boas emendas, já que é profissional da costura.
Num eventual segundo mandato, o presidente Lula vai manter os fundamentos sóbrios da política econômica ou vai soltar a franga num “pacotaço” para aterrorizar a “zelite”?
É praticamente certo que soltará a franga —e franga das boas, com apito termométrico que avisa quando fica pronta. O referido “pacotaço” aterrorizará não somente a “zelite”, mas sobretudo a “Celite”, pois será uma verdadeira m..., se é que me entende.
Entendo, Mestre, entendo. Mas continuando, José Serra é um notívago que tem a fama de acordar assessores durante a madrugada para falar de trabalho. Pensando na saúde dos adjuntos, como fazer para que o governador eleito durma pesado da meia-noite às sete da manhã?
Simples: basta que ele ligue, já acomodado no leito, um Geraldo Walkman com fone de ouvido e músicas new-age. Minha gravadora, a Duña Records, coloca desde já o seu catálogo à disposição do insone governador.
O churrasqueiro do presidente Lula o colocou um maus lençóis com o caso do dossiê. É sabido que o cara tem nome de chuveiro —Lorenzetti. Nas suas acuradas pesquisas, o senhor detectou uma propensão maior para o crime em churrasqueiros que têm nome de chuveiro? Vide também o escândalo “Romualdo Corona”, churrasqueador da tucanada crepuscular, acusado de desvio de toneladas de macaúba e que, por isso, quase derrubou o prefeito Teixeirinha, a quem assessorava em assuntos macaúbicos e afins.
Admitir a citada propensão tão somente pelos exemplos de Lorenzetti e de Corona seria atitude inFAME. Quanto aos desvios de macaúba, os autos dão conta de que o homem-chuveiro levava voltagem nas transações, avaliadas em 110 e superfaturadas por 220.
Mestre Duña, ouvi falar do seu apreço por esta província crepuscular. Corre um boato que o senhor veraneia às margens do Jaguari e que até já freqüentou como visitante a Seita da Macaúba Alucinógena. Essas informações procedem, venerado Mestre?
Esses paparazzi não dão folga, já descobriram a versão crepuscular do meu Oráculo... Na verdade, revezo entre duas propriedades que mantenho na região —um pesqueiro às margens do Jaguari e uma chácara no Bairro Alegre. Para despistar a equipe da Revista “Duñas”, só vou pra Sanja disfarçado de Marcelo Sguassábia, já que aí ninguém conhece ele mesmo. Freqüento com assiduidade a Seita da Macaúba Alucinógena, na condição de aspirante ao noviciado, e devo ao gosmento xarope minha sempre acurada lucidez.
PS 1: Mestre Duña (pronuncia-se Duña), introduziu a filosofia duñesca em solo brasileiro, é Marcelo Pirajá Sguassábia nas horas vagas e fará dobradinha com o Bartazá nas próximas eleições. Duña Neis!
PS 2: Este escriba é grato ao Marcelo pelo esforço de reportagem. Captar as palavras do Mestre é tarefa hercúlea. Valeu a tabelinha, amigo, “carpinteiro” da propaganda e do bom vernáculo.
Há tempos, mais de ano, este escriba labuta por uma entrevista com o grande —e quase inacessível— Mestre Duña, o sábio multicultural, o navegante-mor de todas as áreas do conhecimento humano. Nas esquinas crepusculares, fuçando aqui e acolá, consegui apurar que Marcelo Sguassábia, “carpinteiro” do marketing e boa pena lá do 2º Caderno, é íntimo do Mestre. Tão íntimo que convenceu o filósofo duñesco a bater um pingue-pongue rápido com O MUNICIPIO. Através do “carpinteiro”, ele assim assentiu com o pedido do bate-papo: "Se é para o bem de todos e felicidade geral dos sem-noção, diga ao Lauro que concedo a entrevista".
Mestre, além de seda pura e alfinetadas, o Parlamento brazuca vai ganhar o que com a eleição do Clodovil?
Ganhará um ser bufante: bufa, bufa, bufa e não arregaça as mangas. Todavia, Clô deverá apresentar boas emendas, já que é profissional da costura.
Num eventual segundo mandato, o presidente Lula vai manter os fundamentos sóbrios da política econômica ou vai soltar a franga num “pacotaço” para aterrorizar a “zelite”?
É praticamente certo que soltará a franga —e franga das boas, com apito termométrico que avisa quando fica pronta. O referido “pacotaço” aterrorizará não somente a “zelite”, mas sobretudo a “Celite”, pois será uma verdadeira m..., se é que me entende.
Entendo, Mestre, entendo. Mas continuando, José Serra é um notívago que tem a fama de acordar assessores durante a madrugada para falar de trabalho. Pensando na saúde dos adjuntos, como fazer para que o governador eleito durma pesado da meia-noite às sete da manhã?
Simples: basta que ele ligue, já acomodado no leito, um Geraldo Walkman com fone de ouvido e músicas new-age. Minha gravadora, a Duña Records, coloca desde já o seu catálogo à disposição do insone governador.
O churrasqueiro do presidente Lula o colocou um maus lençóis com o caso do dossiê. É sabido que o cara tem nome de chuveiro —Lorenzetti. Nas suas acuradas pesquisas, o senhor detectou uma propensão maior para o crime em churrasqueiros que têm nome de chuveiro? Vide também o escândalo “Romualdo Corona”, churrasqueador da tucanada crepuscular, acusado de desvio de toneladas de macaúba e que, por isso, quase derrubou o prefeito Teixeirinha, a quem assessorava em assuntos macaúbicos e afins.
Admitir a citada propensão tão somente pelos exemplos de Lorenzetti e de Corona seria atitude inFAME. Quanto aos desvios de macaúba, os autos dão conta de que o homem-chuveiro levava voltagem nas transações, avaliadas em 110 e superfaturadas por 220.
Mestre Duña, ouvi falar do seu apreço por esta província crepuscular. Corre um boato que o senhor veraneia às margens do Jaguari e que até já freqüentou como visitante a Seita da Macaúba Alucinógena. Essas informações procedem, venerado Mestre?
Esses paparazzi não dão folga, já descobriram a versão crepuscular do meu Oráculo... Na verdade, revezo entre duas propriedades que mantenho na região —um pesqueiro às margens do Jaguari e uma chácara no Bairro Alegre. Para despistar a equipe da Revista “Duñas”, só vou pra Sanja disfarçado de Marcelo Sguassábia, já que aí ninguém conhece ele mesmo. Freqüento com assiduidade a Seita da Macaúba Alucinógena, na condição de aspirante ao noviciado, e devo ao gosmento xarope minha sempre acurada lucidez.
PS 1: Mestre Duña (pronuncia-se Duña), introduziu a filosofia duñesca em solo brasileiro, é Marcelo Pirajá Sguassábia nas horas vagas e fará dobradinha com o Bartazá nas próximas eleições. Duña Neis!
PS 2: Este escriba é grato ao Marcelo pelo esforço de reportagem. Captar as palavras do Mestre é tarefa hercúlea. Valeu a tabelinha, amigo, “carpinteiro” da propaganda e do bom vernáculo.
Sunday, October 22, 2006
A HERÓICA TRAJETÓRIA DE UM JORNAL
A um bom jornal compete informar, denunciar, ser voz e guardião dos justos anseios da comunidade. Até aí todo mundo concorda. Mas um jornal pode ter outros papéis. Bem menos nobres, é verdade, mas bastante oportunos dependendo da ocasião.
O fato é que um exemplar de jornal nem sempre tem comportamento exemplar. Não que ele se comporte mal – as pessoas é que geralmente se comportam mal com ele. E aí me refiro ao jornal como objeto de estranhas e incontáveis serventias, ou seja, ao que ele é capaz de se prestar depois de lido.
Marcador de livro, por exemplo. Prendedor de porta, tapa-goteira, embalador de copo em caminhão de mudança, aparador de vazamento de óleo no carro, tampa de panela, forro de casinha de cachorro e de gaiola de passarinho. Até pra cobrir defunto ele serve.
E que dizer daquela sua tia-avó, que faz o coitadinho de leque durante aquela visita rápida de 7 horas e meia em pleno sábado?
Acender fogo de churrasqueira é outro emprego comum. O primeiro caderno você encharca de álcool para acender o fogo. O segundo você usa para abanar o braseiro.
Alguém leva o jornal para a mesa do escritório, ao lado do telefone. Pronto. É o que basta para que o abnegado matutino ganhe indecifráveis rabiscos. Anotações de telefones, endereços de sites e e-mails, rubricas, declarações de amor e até receitas de bolo anotadas em suas margens. Há os que prefiram preencher com caneta ou lápis as letras “O” das manchetes e subtítulos, enquanto em intermináveis conversas com a namorada.
Atire a primeira pedra quem nunca usou um jornal dobrado em oito pra servir de calço de mesa. Lembro do tempo de faculdade em que morava sozinho, numa quitinete. Meu calço era um José Sarney com bigodes ainda negros, então no auge da popularidade com o redentor “Plano Cruzado”. Nunca tive alguém tão poderoso aos meus pés, me servindo gratuitamente durante anos.
E quando tem serviço de pintura em casa? O pintor chega de manhãzinha e, com ele, o aguardado jornal. Ele pede jornal velho pra forrar o chão. Velho não tem. Só o do dia, que você ainda não leu. Por eliminação, você fica com as partes das notícias, artigos, crônicas e classificados. E entrega a ele os balanços de empresas, editais de convocação, avisos de licitação e os obituários. Pronto, já dá pra ele se divertir enquanto você devora o que mais interessa. Na varanda ou no quintal, evidentemente, porque não dá pra suportar nem o cheiro da tinta nem o pagode que ele assobia.
Há de convir o leitor que é de praxe o jornal do fim de semana – ou o que restou dele – pernoitar de domingo para segunda no sofá da sala. E segunda é dia que a faxineira vem. Espana pó aqui, limpa azulejo ali e eis que o ás da piaçava vê um ser rastejante entre a copa e a cozinha. Corre pra sala, passa a mão no jornal e Paf !. Errou. Outro Paf. Quase. Mais um, uhhhh por pouco. Até que acerta na mosca, quer dizer, na barata. As vísceras da bichinha se estendem por todo o terceiro parágrafo das notas policiais. Lá vai o jornal amigo para a lixeira da lavanderia. A escala ali é de umas poucas horas para então cair no sacão preto do lixo do quintal, em meio a toda sorte de resíduos, orgânicos ou não.
No dia seguinte o jornal é recolhido, vai para reciclagem e volta para a porta da sua casa em forma de outras notícias, todas extremamente desagradáveis: os boletos de conta de água, de luz, de telefone. É quando você amaldiçoa o mandatário supremo que aparece todo dia no jornal. E sente até saudade do Sarney, estimado calço do pé da mesa.
O fato é que um exemplar de jornal nem sempre tem comportamento exemplar. Não que ele se comporte mal – as pessoas é que geralmente se comportam mal com ele. E aí me refiro ao jornal como objeto de estranhas e incontáveis serventias, ou seja, ao que ele é capaz de se prestar depois de lido.
Marcador de livro, por exemplo. Prendedor de porta, tapa-goteira, embalador de copo em caminhão de mudança, aparador de vazamento de óleo no carro, tampa de panela, forro de casinha de cachorro e de gaiola de passarinho. Até pra cobrir defunto ele serve.
E que dizer daquela sua tia-avó, que faz o coitadinho de leque durante aquela visita rápida de 7 horas e meia em pleno sábado?
Acender fogo de churrasqueira é outro emprego comum. O primeiro caderno você encharca de álcool para acender o fogo. O segundo você usa para abanar o braseiro.
Alguém leva o jornal para a mesa do escritório, ao lado do telefone. Pronto. É o que basta para que o abnegado matutino ganhe indecifráveis rabiscos. Anotações de telefones, endereços de sites e e-mails, rubricas, declarações de amor e até receitas de bolo anotadas em suas margens. Há os que prefiram preencher com caneta ou lápis as letras “O” das manchetes e subtítulos, enquanto em intermináveis conversas com a namorada.
Atire a primeira pedra quem nunca usou um jornal dobrado em oito pra servir de calço de mesa. Lembro do tempo de faculdade em que morava sozinho, numa quitinete. Meu calço era um José Sarney com bigodes ainda negros, então no auge da popularidade com o redentor “Plano Cruzado”. Nunca tive alguém tão poderoso aos meus pés, me servindo gratuitamente durante anos.
E quando tem serviço de pintura em casa? O pintor chega de manhãzinha e, com ele, o aguardado jornal. Ele pede jornal velho pra forrar o chão. Velho não tem. Só o do dia, que você ainda não leu. Por eliminação, você fica com as partes das notícias, artigos, crônicas e classificados. E entrega a ele os balanços de empresas, editais de convocação, avisos de licitação e os obituários. Pronto, já dá pra ele se divertir enquanto você devora o que mais interessa. Na varanda ou no quintal, evidentemente, porque não dá pra suportar nem o cheiro da tinta nem o pagode que ele assobia.
Há de convir o leitor que é de praxe o jornal do fim de semana – ou o que restou dele – pernoitar de domingo para segunda no sofá da sala. E segunda é dia que a faxineira vem. Espana pó aqui, limpa azulejo ali e eis que o ás da piaçava vê um ser rastejante entre a copa e a cozinha. Corre pra sala, passa a mão no jornal e Paf !. Errou. Outro Paf. Quase. Mais um, uhhhh por pouco. Até que acerta na mosca, quer dizer, na barata. As vísceras da bichinha se estendem por todo o terceiro parágrafo das notas policiais. Lá vai o jornal amigo para a lixeira da lavanderia. A escala ali é de umas poucas horas para então cair no sacão preto do lixo do quintal, em meio a toda sorte de resíduos, orgânicos ou não.
No dia seguinte o jornal é recolhido, vai para reciclagem e volta para a porta da sua casa em forma de outras notícias, todas extremamente desagradáveis: os boletos de conta de água, de luz, de telefone. É quando você amaldiçoa o mandatário supremo que aparece todo dia no jornal. E sente até saudade do Sarney, estimado calço do pé da mesa.
Thursday, October 12, 2006
Monday, October 09, 2006
DELETADOR DE SAUDADE - MANUAL DO USUÁRIO
No Menu Principal do programa, escolha “Definir Saudoso”. Aparecerão na tela os modos: amigo(a), namorado(a), noivo(a), cônjuge, pai, mãe, filho(a), amante, caso, rolo e ficante. Escolha e dê Ok.
Em seguida, maximize o box “Características Físicas”. Preencha os campos Idade, Altura, Peso, Cor de pele e de cabelo, Estilo de roupa, Classe Social, Escolaridade, Convicções Ideológicas e nº do Pis/Pasep.
Vá até a janela “Sinais particulares”. Se houver algum, marque e indique a parte do corpo onde se situa: Cicatriz, Pinta, Tatuagem, Piercing, Botox e Silicone.
Escreva no editor de textos frases que a pessoa falaria com mais freqüência para você. Para que as falas tenham sotaques e inflexões personalizadas, vá até Opções, selecione Definir Modulação de Voz, escolha a mais conveniente e clique em Aplicar. De quinze em quinze minutos as frases soarão no alto-falante do computador, em ordem aleatória ou mediante programação específica. Exemplo: mãe falando “Tá na mesa!!!” ao meio-dia e às sete da noite.
Inserir final de frase. Recurso interessante, não disponível na versão 6.2 do programa. Você pode escolher entre: “Né?”, “Entendeu?” “Certo?” “Ok?”.
Ainda no editor de textos, liste uma agenda básica com os compromissos do seu dia-a-dia. Esses dados serão automaticamente transferidos aos nossos servidores. Para que fique realmente próximo em todos os seus momentos, o ente distante saltará na tela como uma janela pop-up, lembrando cada um dos afazeres programados.
A área de trabalho do computador – ícones, papel de parede e descanso de tela, também pode ficar com a cara do sumido. Além disso, o programa permite a instalação de “Oi” e “Tchau” da pessoa, quando da inicialização e do fechamento do sistema operacional.
Nosso programa enviará a você e-mails em nome do saudoso. Para que não falte assunto, é preciso preencher o menu “Áreas de Interesse”. Selecione as mais adequadas. Você pode responder aos e-mails. Só não conte com a resposta da resposta, porque aí também já é demais.
O Menu Privé é acessado mediante senha, e deve ser utilizado por usuários que mantenham ou mantinham relações carnais com o ausente. As opções vão desde “Não, hoje estou com dor de cabeça” até “Foi bom pra você?”, passando pelo indefectível “Caramba, isso nunca aconteceu comigo antes”.
Lembramos que o nosso revolucionário produto deleta a saudade através de três níveis de operação: Ar da Graça, Presença Marcante e Repulsa, sendo que o modo Repulsa possui a função de transformar a saudade em reação alérgica ao saudoso, pela superexposição de sua figura no computador do cliente.
No menu Opcionais, você encontrará as alternativas “Sachet Chulé” e “Kit Hálito”, que serão entregues em sua casa no prazo máximo de três dias úteis. O sachet é um simulador de chulé do dito cujo. Clique em Suave, Médio, Forte, Extra-Forte ou Deus-me-livre. O Kit Hálito disponibiliza as modalidades Vinagrete com alho, Vinagrete sem alho e com bastante cebola, Cachaça, Uísque 12 anos, Uísque 8 anos engarrafado aqui, Cerveja, Cigarro, Pasta de Dente, Café, Mexerica e Amendoim Japonês.
Você pode desativar temporariamente o programa ou cancelar a assinatura do serviço a qualquer tempo. Para maior segurança, mesmo que o usuário mova o saudoso para a lixeira, um clone do mesmo permanecerá oculto no HD. Para habilitá-lo, clique em “Ajuda” e selecione “Volta, vem viver outra vez ao meu lado”.
Em seguida, maximize o box “Características Físicas”. Preencha os campos Idade, Altura, Peso, Cor de pele e de cabelo, Estilo de roupa, Classe Social, Escolaridade, Convicções Ideológicas e nº do Pis/Pasep.
Vá até a janela “Sinais particulares”. Se houver algum, marque e indique a parte do corpo onde se situa: Cicatriz, Pinta, Tatuagem, Piercing, Botox e Silicone.
Escreva no editor de textos frases que a pessoa falaria com mais freqüência para você. Para que as falas tenham sotaques e inflexões personalizadas, vá até Opções, selecione Definir Modulação de Voz, escolha a mais conveniente e clique em Aplicar. De quinze em quinze minutos as frases soarão no alto-falante do computador, em ordem aleatória ou mediante programação específica. Exemplo: mãe falando “Tá na mesa!!!” ao meio-dia e às sete da noite.
Inserir final de frase. Recurso interessante, não disponível na versão 6.2 do programa. Você pode escolher entre: “Né?”, “Entendeu?” “Certo?” “Ok?”.
Ainda no editor de textos, liste uma agenda básica com os compromissos do seu dia-a-dia. Esses dados serão automaticamente transferidos aos nossos servidores. Para que fique realmente próximo em todos os seus momentos, o ente distante saltará na tela como uma janela pop-up, lembrando cada um dos afazeres programados.
A área de trabalho do computador – ícones, papel de parede e descanso de tela, também pode ficar com a cara do sumido. Além disso, o programa permite a instalação de “Oi” e “Tchau” da pessoa, quando da inicialização e do fechamento do sistema operacional.
Nosso programa enviará a você e-mails em nome do saudoso. Para que não falte assunto, é preciso preencher o menu “Áreas de Interesse”. Selecione as mais adequadas. Você pode responder aos e-mails. Só não conte com a resposta da resposta, porque aí também já é demais.
O Menu Privé é acessado mediante senha, e deve ser utilizado por usuários que mantenham ou mantinham relações carnais com o ausente. As opções vão desde “Não, hoje estou com dor de cabeça” até “Foi bom pra você?”, passando pelo indefectível “Caramba, isso nunca aconteceu comigo antes”.
Lembramos que o nosso revolucionário produto deleta a saudade através de três níveis de operação: Ar da Graça, Presença Marcante e Repulsa, sendo que o modo Repulsa possui a função de transformar a saudade em reação alérgica ao saudoso, pela superexposição de sua figura no computador do cliente.
No menu Opcionais, você encontrará as alternativas “Sachet Chulé” e “Kit Hálito”, que serão entregues em sua casa no prazo máximo de três dias úteis. O sachet é um simulador de chulé do dito cujo. Clique em Suave, Médio, Forte, Extra-Forte ou Deus-me-livre. O Kit Hálito disponibiliza as modalidades Vinagrete com alho, Vinagrete sem alho e com bastante cebola, Cachaça, Uísque 12 anos, Uísque 8 anos engarrafado aqui, Cerveja, Cigarro, Pasta de Dente, Café, Mexerica e Amendoim Japonês.
Você pode desativar temporariamente o programa ou cancelar a assinatura do serviço a qualquer tempo. Para maior segurança, mesmo que o usuário mova o saudoso para a lixeira, um clone do mesmo permanecerá oculto no HD. Para habilitá-lo, clique em “Ajuda” e selecione “Volta, vem viver outra vez ao meu lado”.
Sunday, October 01, 2006
BOBO E SUA CORTE
Já reparou como os termos “Bobo” e “Tolo” têm sinônimos? Dentre tantos, “Doidivanas” sempre me chamou a atenção. Acho que foi lendo algum romance de cavalaria ou livro de Julio Diniz que vi a palavra pela primeira vez. Recorri a um pequeno e nada confiável dicionário e encontrei lá: “Doidivanas: o mesmo que Estouvado”. Fui em “Estouvado” e li: o mesmo que Doidivanas. Ou seja, o pai dos burros me fez de bobo.
Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno, jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.
Fora do reino animal, um dos meus favoritos é “Bocó”, quase um arcaísmo atualmente. Melhor ainda é “Bocó de Mola”, que sugere um upgrade na acepção original (ou um downgrade, no caso).
Igualmente em desuso está o “Monte”. Largamente empregado na zona rural de São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigindo. Monte é, basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f...
Vamos ao “Tonto”. Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto, por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou Manuéis), um “Girolas” inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar aqui os derivativos “Mané-Coco” e “Mané-Jacá”, além do conhecidíssimo “Mané-Patola”, a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de “Patola”.
Temos ainda o “Boboca”, que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo que o valha. É mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno. Na mesma classe estão os “Parvos”, a bradarem suas parvoíces em qualquer tempo e lugar.
A letra “P” é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes, “Palerma”, “Paspalho” e “Pateta” – todos com sentido semelhante e QI idem.
Na letra “T”, além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o “Tapado”. Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a “Florentina” do Tiririca ele precisa olhar a letra.
Capítulo à parte merecem o “Doido de Pedra” e o “Doido Varrido”, mas não serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força se debatendo entre ramos de piaçava.
O “Abestado” é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne dicionarista o cataloga como “Abestalhado” – que particularmente considero um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta que abestalhado, concorda?
Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de significado. Compare “burro” e “burraldo”. O leitor logo perceberá que o burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro, incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O burro é menos pretensioso na escala búrrica - de vez em quando é capaz de falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.
“Babaca” e “Panaca”. Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados que já abandonou o vício.
Pouca gente se dá conta, mas “imbecil” e “idiota” não são propriamente xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se debruçando sobre os “Seqüelados” e os “Sem-Noção” – neo-zuretas desse insano início de século 21.
Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno, jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.
Fora do reino animal, um dos meus favoritos é “Bocó”, quase um arcaísmo atualmente. Melhor ainda é “Bocó de Mola”, que sugere um upgrade na acepção original (ou um downgrade, no caso).
Igualmente em desuso está o “Monte”. Largamente empregado na zona rural de São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigindo. Monte é, basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f...
Vamos ao “Tonto”. Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto, por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou Manuéis), um “Girolas” inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar aqui os derivativos “Mané-Coco” e “Mané-Jacá”, além do conhecidíssimo “Mané-Patola”, a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de “Patola”.
Temos ainda o “Boboca”, que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo que o valha. É mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno. Na mesma classe estão os “Parvos”, a bradarem suas parvoíces em qualquer tempo e lugar.
A letra “P” é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes, “Palerma”, “Paspalho” e “Pateta” – todos com sentido semelhante e QI idem.
Na letra “T”, além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o “Tapado”. Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a “Florentina” do Tiririca ele precisa olhar a letra.
Capítulo à parte merecem o “Doido de Pedra” e o “Doido Varrido”, mas não serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força se debatendo entre ramos de piaçava.
O “Abestado” é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne dicionarista o cataloga como “Abestalhado” – que particularmente considero um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta que abestalhado, concorda?
Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de significado. Compare “burro” e “burraldo”. O leitor logo perceberá que o burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro, incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O burro é menos pretensioso na escala búrrica - de vez em quando é capaz de falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.
“Babaca” e “Panaca”. Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados que já abandonou o vício.
Pouca gente se dá conta, mas “imbecil” e “idiota” não são propriamente xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se debruçando sobre os “Seqüelados” e os “Sem-Noção” – neo-zuretas desse insano início de século 21.
Sunday, September 24, 2006
ENSEBADO
Troco numa boa mil megastores de livros novos com cybercafés por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles encravados nos centrões das metrópoles, com as paredes caindo aos pedaços como os volumes que abrigam. Até meados dos 80, nos sebos a gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem vinis, CDs, fitas de vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de tabuleiro, vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos, honestos sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos lançamentos.
O que freqüento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.
Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o freqüentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.
O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.
Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio falando no interfone com o porteiro.
Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?
Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Tiago querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”
Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Tiago pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.
Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão? Se não dá pra imaginar o antigo dono do livro, que dizer da origem da mancha.
Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.
Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um VHS de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.
O que freqüento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.
Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o freqüentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.
O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.
Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio falando no interfone com o porteiro.
Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?
Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Tiago querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”
Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Tiago pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.
Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão? Se não dá pra imaginar o antigo dono do livro, que dizer da origem da mancha.
Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.
Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um VHS de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.
Sunday, September 17, 2006
ANGU À MODA DE DALI
Ah, como foi fácil abrir os olhos, ficar de joelhos e estalar artelhos dentro da redoma. Quis um cafuné despido de razão para comer com pão no café da manhã. Mas não estava são, como nunca estarei. Apenas maldizia em compasso de espera.
A cara metade a léguas daqui. A cara metida em downloads de lá. Entra o descanso de tela, despluga o fio de raciocínio que coitadinho se insinua a vir a ser alguma coisa. Vou escrevendo sem mãos a medir nem pés a amparar, mesmo sabendo que nada restará que se aproveite, exceto o jasmim exalado de uma ou outra consoante. Branca, linda, sem serifas que machuquem. Cai flutuando no texto e deixa-se ficar. Que nada, quimera, que sina, pintassilgos de resina nessa piscina de esperanto. Regrido pros idos da pedra lascada, desvãos, lodos e escaninhos por toda a inadequada geografia. Acesso de riso à entrada da estrada lacrada com pasta de amendoim e raspas de misericórdia. Mas de repente tudo passa a destoar de Dostoievski. Cubro com a mortalha o corpo da vida. Pois é, nem deu tempo de avisar todo mundo, mas o fato é que a vida acabou de morrer com um terno sorriso nos lábios. Incensa e chora, lamenta e geme que ela já era. Espana, gira em falso. Espanha, falsos Mirós. Vejo carradas de mouses de esgoto a farejarem rotos e a soltarem arrotos sobre outros ratos. Enquanto isso, há milhares de lousas à espera dos gizes e mulheres lusas ainda quentes, moídas por engano na bacalhoada. Uma soneca no vinco do teu jeans, sob o embalo cômodo de Brothers in Arms. Sem mais delongas, estimo melhoras.
A cara metade a léguas daqui. A cara metida em downloads de lá. Entra o descanso de tela, despluga o fio de raciocínio que coitadinho se insinua a vir a ser alguma coisa. Vou escrevendo sem mãos a medir nem pés a amparar, mesmo sabendo que nada restará que se aproveite, exceto o jasmim exalado de uma ou outra consoante. Branca, linda, sem serifas que machuquem. Cai flutuando no texto e deixa-se ficar. Que nada, quimera, que sina, pintassilgos de resina nessa piscina de esperanto. Regrido pros idos da pedra lascada, desvãos, lodos e escaninhos por toda a inadequada geografia. Acesso de riso à entrada da estrada lacrada com pasta de amendoim e raspas de misericórdia. Mas de repente tudo passa a destoar de Dostoievski. Cubro com a mortalha o corpo da vida. Pois é, nem deu tempo de avisar todo mundo, mas o fato é que a vida acabou de morrer com um terno sorriso nos lábios. Incensa e chora, lamenta e geme que ela já era. Espana, gira em falso. Espanha, falsos Mirós. Vejo carradas de mouses de esgoto a farejarem rotos e a soltarem arrotos sobre outros ratos. Enquanto isso, há milhares de lousas à espera dos gizes e mulheres lusas ainda quentes, moídas por engano na bacalhoada. Uma soneca no vinco do teu jeans, sob o embalo cômodo de Brothers in Arms. Sem mais delongas, estimo melhoras.
Sunday, September 10, 2006
BABA-OVO
Não conhecia a expressão até outro dia. Já tinha ouvido muitas de suas variantes elencadas pelo Aurélio: bajulador, adulador, adulão, babão, cafofa, chaleira, incensador, lambedor, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco, sabujo, xereta, banhista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, xeleléu, lambedor, lambe-botas, lambe-esporas e mais um outro sinônimo realmente impronunciável.
Mas baba-ovo pra mim é novo. Não o sujeito, mas o predicado. Aliás, alguém poderia me dizer por que baba-ovo se chama baba-ovo e por que puxa-saco se chama puxa-saco?
Questões semânticas à parte, é preciso reconhecer que o baba-ovo legítimo, aquele que honra a classe, geralmente não é o que se poderia chamar de um cara ambicioso. Sua pretensão é ter o seu lugarzinho ao sol e tudo bem. Não chega a ser arrivista e também não é necessariamente mau-caráter. É ardiloso de nascença e por força das circunstâncias, mas seria uma injustiça chamá-lo de canalha. Falta a ele coragem para a vilania.
Como tudo que é rasteiro e ordinário, os baba-ovos pululam à nossa volta, é raça que se dissemina em estonteante velocidade. Agora mesmo tem um baba-ovinho nascendo. Tão baba-ovo que, se dependesse dele, ao invés de chorar na hora do parto daria um tapinha nas costas do médico. Sabe como é, nunca se sabe quando é que se vai precisar das pessoas...
Uma vez baba-ovo, sempre baba-ovo. Começa com a maçã lustrosa na mesa do professor e termina com o discurso, aos prantos, na cerimônia comemorativa aos 75 anos do Diretor-Presidente. E nessas e outras pequenas coisinhas, lá vai ele se segurando no staf e amealhando pontinhos.
O baba-ovo não é o político. É o assessor dele. Seu negócio é mais superficialzinho, não engendra grandes estratagemas e não age em quadrilha. É improvável que um puxa-saco entre em conluio com quem quer que seja pra obter alguma coisa. O baba-ovo de verdade é egoísta, quer fazer ele mesmo e não gosta de dividir o mérito, se é que se pode chamar de mérito o produto de sua desfaçatez.
Ser o escudeiro é tudo o que basta ao abnegado puxa-saco. Ele se compraz tendo o imediato superior a reverenciar. A seara dele é o bastidor, a adulação estudada e cheia de intenções adjacentes. O barato do baba-ovo é a própria vassalagem, curvar a espinha é o seu orgasmo. Fica sabonetando e estendendo o tapete por instinto e vocação mesmo. Definitivamente ele gosta da coisa.
O mais engraçado no baba-ovo é a sua inaptidão em disfarçar a babaovice. Se acha um expert em dissimulação, tem certeza de que ninguém está percebendo seus expedientes. Não imagina o quanto sua pretensa sutileza é ostensiva, o quanto é alvo de chacota nas rodinhas de conversa e nas mesas de bar. Enfim, o torpezinho mal sabe a que ponto sua fama é estabelecida na praça. E vai ficando sem saber, já que falta peito aos colegas para alertar o indivíduo. Já pensou chegar pro enxuga-gelo e dizer – “Ô meu, manera na puxa-saquice que tá dando na vista”? Não dá. É algo parecido com aquela história de avisar o sujeito que ele tem mau-hálito. Todo mundo sabe que é uma boa ação, até um gesto de caridade, mas ninguém se aventura a ser tão sincero.
Nas reuniões, sua perfeita concordância com as opiniões do chefe é tão automática e previsível que não choca mais ninguém. Mas aí acontece um imprevisto: o baba-ovo é surpreendido por uma inesperada promoção e passa a ser sub-chefe de qualquer coisa. Consequentemente, terá por sua vez, se não um arsenal, pelo menos um neo baba-ovo mais do que disposto a lamber-lhe as polainas. A pergunta é: será que ele, alçado agora ao posto de “adulável”, vai perceber?
Mas baba-ovo pra mim é novo. Não o sujeito, mas o predicado. Aliás, alguém poderia me dizer por que baba-ovo se chama baba-ovo e por que puxa-saco se chama puxa-saco?
Questões semânticas à parte, é preciso reconhecer que o baba-ovo legítimo, aquele que honra a classe, geralmente não é o que se poderia chamar de um cara ambicioso. Sua pretensão é ter o seu lugarzinho ao sol e tudo bem. Não chega a ser arrivista e também não é necessariamente mau-caráter. É ardiloso de nascença e por força das circunstâncias, mas seria uma injustiça chamá-lo de canalha. Falta a ele coragem para a vilania.
Como tudo que é rasteiro e ordinário, os baba-ovos pululam à nossa volta, é raça que se dissemina em estonteante velocidade. Agora mesmo tem um baba-ovinho nascendo. Tão baba-ovo que, se dependesse dele, ao invés de chorar na hora do parto daria um tapinha nas costas do médico. Sabe como é, nunca se sabe quando é que se vai precisar das pessoas...
Uma vez baba-ovo, sempre baba-ovo. Começa com a maçã lustrosa na mesa do professor e termina com o discurso, aos prantos, na cerimônia comemorativa aos 75 anos do Diretor-Presidente. E nessas e outras pequenas coisinhas, lá vai ele se segurando no staf e amealhando pontinhos.
O baba-ovo não é o político. É o assessor dele. Seu negócio é mais superficialzinho, não engendra grandes estratagemas e não age em quadrilha. É improvável que um puxa-saco entre em conluio com quem quer que seja pra obter alguma coisa. O baba-ovo de verdade é egoísta, quer fazer ele mesmo e não gosta de dividir o mérito, se é que se pode chamar de mérito o produto de sua desfaçatez.
Ser o escudeiro é tudo o que basta ao abnegado puxa-saco. Ele se compraz tendo o imediato superior a reverenciar. A seara dele é o bastidor, a adulação estudada e cheia de intenções adjacentes. O barato do baba-ovo é a própria vassalagem, curvar a espinha é o seu orgasmo. Fica sabonetando e estendendo o tapete por instinto e vocação mesmo. Definitivamente ele gosta da coisa.
O mais engraçado no baba-ovo é a sua inaptidão em disfarçar a babaovice. Se acha um expert em dissimulação, tem certeza de que ninguém está percebendo seus expedientes. Não imagina o quanto sua pretensa sutileza é ostensiva, o quanto é alvo de chacota nas rodinhas de conversa e nas mesas de bar. Enfim, o torpezinho mal sabe a que ponto sua fama é estabelecida na praça. E vai ficando sem saber, já que falta peito aos colegas para alertar o indivíduo. Já pensou chegar pro enxuga-gelo e dizer – “Ô meu, manera na puxa-saquice que tá dando na vista”? Não dá. É algo parecido com aquela história de avisar o sujeito que ele tem mau-hálito. Todo mundo sabe que é uma boa ação, até um gesto de caridade, mas ninguém se aventura a ser tão sincero.
Nas reuniões, sua perfeita concordância com as opiniões do chefe é tão automática e previsível que não choca mais ninguém. Mas aí acontece um imprevisto: o baba-ovo é surpreendido por uma inesperada promoção e passa a ser sub-chefe de qualquer coisa. Consequentemente, terá por sua vez, se não um arsenal, pelo menos um neo baba-ovo mais do que disposto a lamber-lhe as polainas. A pergunta é: será que ele, alçado agora ao posto de “adulável”, vai perceber?
Sunday, September 03, 2006
O NÃO SER
Eu sei que foi mais ou menos desse jeito, querendo jogar uma água sanitária no mofo de mim mesmo, que saí pra rua sem rumo nenhum. Pensando em não pensar em nada, só ouvindo um ou outro estalinho de graveto no caminho e deduzindo: isso é um estalinho de graveto no caminho e pronto.
Eu sei que a intenção era boa e honestamente me empenhei, mas ao primeiro graveto estalado me chega sorrateiro o chato interrogativo e suas vãs divagações. E me fala do abismo entre a finitude do ser e a infinitude do tempo/espaço, diz que é da natureza humana colocar termo, ordem e dimensão a tudo. Argumenta sobre a urgência e a necessidade de haver cabimento, pois tudo há de “caber” na fôrma do que é lógico, compreensível e demonstrável.
Eu sei do desalento nesse ponto de vista agnóstico. Considerando-se que a vida seja mesmo uma só, só essa que a gente tá vivendo e olhe lá, ela é um ridículo intervalo entre a eternidade que passamos não sendo e a eternidade vindoura onde continuaremos a não ser. Ao invés de seres, na verdade somos “não seres”, a não ser por algumas décadas. E tem gente que não aproveita essa rara exceção que o caos nos abre. Pior: há os que se matam, voltando prematuramente ao nada. É muito desapego, é quase fazer troça com o acaso ou com o Todo Poderoso.
Eu sei o quanto é difícil imaginar o que quer que seja sem um começo. Você saber que o tempo vai prosseguir indefinidamente a partir de agora, ainda vá lá. Mas você aceitar o infinito de tempo que houve antes de agora, fica bem mais complicado. Algo sem fim é algo mais fácil de conceber que algo sem começo. Uma coisa é começar do zero, como todas as coisas aparentemente começam. Outra é não ter zero. Como é que pode?
Eu sei que querer achar a combinação desse cofre é megalomania. Nossa cachola mede alguns centímetros quadrados e não seria razoável que abrigasse, em tão reduzido espaço, a explicação do universo. Enquanto isso astrônomos se debatem, fazem votação e agendam simpósios internacionais para deliberarem, soberanamente, se Plutão continua planeta ou se é rebaixado a aspirante. Como se isso diminuísse o peso das interrogações que há milênios levamos às costas.
Eu sei que entrei na primeira igreja que me apareceu na frente. Um grupo de oração seguia desfiando seu rosário. Beatas de véu, homens de terno, como que prontos para uma festa do divino. Rezei uma Ave-Maria e um Pai-Nosso, rogando a todos os santos que me tirassem da aflição inútil, pelamordeDeus. Com o perdão dos céticos, que às vezes perdem a razão pelo excesso dela, eu quero é nuvenzinhas, tronos celestiais, trombetas de serafins, mantos diáfanos. E faço questão que a autenticidade do Santo Sudário seja confirmada pela ciência. Que divina delícia esse conforto das abóbadas repletas de anjos gordinhos com cabelos encaracolados, os ecos de uns poucos sapatos na catedral vazia, às duas da tarde de uma segunda-feira. Ou os ofícios dos domingos, os estandartes, cálices bentos e andores das procissões, os tapetes de serragem e palha de arroz tingidos de anilina para o Corpus Christi. O céu e o inferno, Adão e Eva, o bem e o mal. Quero o padre de aldeia, que vem dar comunhão em casa e acaba ficando para o frango com polenta.
Eu sei que a intenção era boa e honestamente me empenhei, mas ao primeiro graveto estalado me chega sorrateiro o chato interrogativo e suas vãs divagações. E me fala do abismo entre a finitude do ser e a infinitude do tempo/espaço, diz que é da natureza humana colocar termo, ordem e dimensão a tudo. Argumenta sobre a urgência e a necessidade de haver cabimento, pois tudo há de “caber” na fôrma do que é lógico, compreensível e demonstrável.
Eu sei do desalento nesse ponto de vista agnóstico. Considerando-se que a vida seja mesmo uma só, só essa que a gente tá vivendo e olhe lá, ela é um ridículo intervalo entre a eternidade que passamos não sendo e a eternidade vindoura onde continuaremos a não ser. Ao invés de seres, na verdade somos “não seres”, a não ser por algumas décadas. E tem gente que não aproveita essa rara exceção que o caos nos abre. Pior: há os que se matam, voltando prematuramente ao nada. É muito desapego, é quase fazer troça com o acaso ou com o Todo Poderoso.
Eu sei o quanto é difícil imaginar o que quer que seja sem um começo. Você saber que o tempo vai prosseguir indefinidamente a partir de agora, ainda vá lá. Mas você aceitar o infinito de tempo que houve antes de agora, fica bem mais complicado. Algo sem fim é algo mais fácil de conceber que algo sem começo. Uma coisa é começar do zero, como todas as coisas aparentemente começam. Outra é não ter zero. Como é que pode?
Eu sei que querer achar a combinação desse cofre é megalomania. Nossa cachola mede alguns centímetros quadrados e não seria razoável que abrigasse, em tão reduzido espaço, a explicação do universo. Enquanto isso astrônomos se debatem, fazem votação e agendam simpósios internacionais para deliberarem, soberanamente, se Plutão continua planeta ou se é rebaixado a aspirante. Como se isso diminuísse o peso das interrogações que há milênios levamos às costas.
Eu sei que entrei na primeira igreja que me apareceu na frente. Um grupo de oração seguia desfiando seu rosário. Beatas de véu, homens de terno, como que prontos para uma festa do divino. Rezei uma Ave-Maria e um Pai-Nosso, rogando a todos os santos que me tirassem da aflição inútil, pelamordeDeus. Com o perdão dos céticos, que às vezes perdem a razão pelo excesso dela, eu quero é nuvenzinhas, tronos celestiais, trombetas de serafins, mantos diáfanos. E faço questão que a autenticidade do Santo Sudário seja confirmada pela ciência. Que divina delícia esse conforto das abóbadas repletas de anjos gordinhos com cabelos encaracolados, os ecos de uns poucos sapatos na catedral vazia, às duas da tarde de uma segunda-feira. Ou os ofícios dos domingos, os estandartes, cálices bentos e andores das procissões, os tapetes de serragem e palha de arroz tingidos de anilina para o Corpus Christi. O céu e o inferno, Adão e Eva, o bem e o mal. Quero o padre de aldeia, que vem dar comunhão em casa e acaba ficando para o frango com polenta.
Sunday, August 27, 2006
JUNTE-SE A NÓS!
Chega de candidatos de ocasião, que dão as caras agora e que, findo o pleito, escafedem-se como ninjas em filmes de kung fu. Basta de aproveitadores com sua verborragia inflamada e estéril. Cheios de programas vazios, esses embusteiros se apresentam no vídeo com a mão espalmada, apregoando as cinco manjadas prioridades de governo: saúde, habitação, emprego, transporte e segurança. Quero fazer frente a esse engodo que caçoa da boa-fé do eleitor, e para tanto apresento propostas concretas.
Darei combate sem trégua àqueles que são contrários ao nepotismo saudável e desinteresseiro, ao cartorialismo firme e atuante, à legítima barganha de cargos públicos em todos os escalões, ao voto de cabresto a peso de mortadela e ao assistencialismo de fachada.
Atendendo a uma antiga reivindicação da sociedade organizada, azeitarei a máquina administrativa para que funcione a contento. Confiante em minha vitória nas eleições que se avizinham, já deliberei à minha futura equipe de assessores uma tomada de preços para importação do óleo de oliva da marca Gallo (com o perdão do cacófato), extra virgem, em caixas contendo 120 latas de 500 ml. Havendo excedente, o azeite será utilizado para regar as pizzas de minha legislatura, que sem dúvida serão muitas e de sortidos recheios.
O eleitorado da terceira idade terá acesso a um novo modelo de prótese, composto por arcadas lisas e inteiriças, ou seja, sem as repartições a que chamamos “dentes”. Uma peça é afixada no maxilar superior e outra no maxilar inferior. O efeito estético é avassalador, assemelhando-se ao que se vê na maioria dos personagens de desenhos animados. Além de facilitar sobremaneira a higiene bucal do idoso, essa revolução protética dispensa o uso de fio dental, desonerando assim os cofres públicos da compra deste item para os asilos. A fôrma do novo artefato já está pronta e o produto chegará aos postos de saúde em 3 tamanhos, dependendo da dimensão da boca do ancião: boca pequena (para velhinhos fofoqueiros), média e extra grande, comercialmente chamada de “Lobo Mau” ou “Cicarelli”.
Implantação do “Halloween Tupiniquim” no calendário de festividades, com o objetivo de manter vivas nossas mais ricas tradições folclóricas. Com ele, diremos não ao imperialismo americano e suas bruxinhas babacas, marshmellows de variadas cores e cabeças de abóbora iluminadas. Os monstros ianques darão lugar ao Boi da Cara Preta, ao Saci, à Cuca, ao Boitatá e ao Chupa-Cabra. A gurizada, por sua vez, passará pelas casas à cata de doces típicos da nossa culinária, como o quebra-queixo, a pamonha e o pé-de-moleque.
Incentivos fiscais para pequenas produtores de mandruvá em cativeiro, projeto que acalento desde os tempos de vereança. Devo lembrar aos eleitores que a indolente lagarta, abundante em nossa região, tem eficácia comprovada na erradicação do escorbuto e de outras hipovitaminoses que assolam as populações desassistidas, especialmente as comunidades ribeirinhas.
Programa “Espana, Brasil!”, que prevê a produção de espanadores com pena de codorninha do mato. Toda a produção será escoada para acabar com o pó de países vizinhos, como a Bolívia e a Colômbia.
Se suas aspirações encontram eco em nossa plataforma de governo, junte-se a nós. Empunhe nossa bandeira, leve no peito nosso botom, convença seu vizinho ou colega de trabalho de que a nossa causa é a causa de todos. À vitória, companheiros!
Observação do autor: esta é uma obra de ficção. Ou não... decida com seu voto.
Darei combate sem trégua àqueles que são contrários ao nepotismo saudável e desinteresseiro, ao cartorialismo firme e atuante, à legítima barganha de cargos públicos em todos os escalões, ao voto de cabresto a peso de mortadela e ao assistencialismo de fachada.
Atendendo a uma antiga reivindicação da sociedade organizada, azeitarei a máquina administrativa para que funcione a contento. Confiante em minha vitória nas eleições que se avizinham, já deliberei à minha futura equipe de assessores uma tomada de preços para importação do óleo de oliva da marca Gallo (com o perdão do cacófato), extra virgem, em caixas contendo 120 latas de 500 ml. Havendo excedente, o azeite será utilizado para regar as pizzas de minha legislatura, que sem dúvida serão muitas e de sortidos recheios.
O eleitorado da terceira idade terá acesso a um novo modelo de prótese, composto por arcadas lisas e inteiriças, ou seja, sem as repartições a que chamamos “dentes”. Uma peça é afixada no maxilar superior e outra no maxilar inferior. O efeito estético é avassalador, assemelhando-se ao que se vê na maioria dos personagens de desenhos animados. Além de facilitar sobremaneira a higiene bucal do idoso, essa revolução protética dispensa o uso de fio dental, desonerando assim os cofres públicos da compra deste item para os asilos. A fôrma do novo artefato já está pronta e o produto chegará aos postos de saúde em 3 tamanhos, dependendo da dimensão da boca do ancião: boca pequena (para velhinhos fofoqueiros), média e extra grande, comercialmente chamada de “Lobo Mau” ou “Cicarelli”.
Implantação do “Halloween Tupiniquim” no calendário de festividades, com o objetivo de manter vivas nossas mais ricas tradições folclóricas. Com ele, diremos não ao imperialismo americano e suas bruxinhas babacas, marshmellows de variadas cores e cabeças de abóbora iluminadas. Os monstros ianques darão lugar ao Boi da Cara Preta, ao Saci, à Cuca, ao Boitatá e ao Chupa-Cabra. A gurizada, por sua vez, passará pelas casas à cata de doces típicos da nossa culinária, como o quebra-queixo, a pamonha e o pé-de-moleque.
Incentivos fiscais para pequenas produtores de mandruvá em cativeiro, projeto que acalento desde os tempos de vereança. Devo lembrar aos eleitores que a indolente lagarta, abundante em nossa região, tem eficácia comprovada na erradicação do escorbuto e de outras hipovitaminoses que assolam as populações desassistidas, especialmente as comunidades ribeirinhas.
Programa “Espana, Brasil!”, que prevê a produção de espanadores com pena de codorninha do mato. Toda a produção será escoada para acabar com o pó de países vizinhos, como a Bolívia e a Colômbia.
Se suas aspirações encontram eco em nossa plataforma de governo, junte-se a nós. Empunhe nossa bandeira, leve no peito nosso botom, convença seu vizinho ou colega de trabalho de que a nossa causa é a causa de todos. À vitória, companheiros!
Observação do autor: esta é uma obra de ficção. Ou não... decida com seu voto.
Wednesday, August 23, 2006
DOMINGO DE 71
No ar, Flávio Cavalcanti.
Ele era da época. Do Flávio da primeira temporada, aquele da TV Tupi e em preto e branco, transmitido ao vivo no domingo à noite e com a Márcia de Windsor, o Erlon Chaves e o Sérgio Bittencourt no júri. Sentado na espreguiçadeira, assistia ao programa tomando Coca-Cola e comendo sanduíche de pão Pullman (pão de forma só tinha o Pullman) com patê Bordon e salsichas do Frigor Eder. Pra comprar a Coca precisava levar o vasilhame, que alguns chamavam de casco. O empório vendia banha por quilo, azeitona a granel, galocha, fluido de isqueiro e tinha uma Filizola, daquelas de regular o peso manualmente. Ficava a duas quadras de casa – a velha casa de grade baixinha e Coroas-de-Cristo no jardim. Mas mesmo assim ia de carro quando precisava de alguma coisa, um Opala último tipo, branco e de capota preta, com alavanca de câmbio na direção.
Precisava dormir mais cedo, ficou de segunda-época e nem havia decidido ainda se ia prestar Cecem, Cecea ou Mapofei quando terminasse o Científico. Na véspera, a brincadeira dançante. Abafou com o plataforma novo e a calça Far-West. Cuba libre e hi-fi a rodo, os pais da Ju tinham viajado pro litoral. Uma hippie bonitinha, com uma bata de anarruga, dando bola para ele a noite toda. Lá pelas tantas, o vizinho chamou o guarda-noturno que acionou a rádio-patrulha porque a vitrola estava com o volume muito alto.
Nossos comerciais, por favor. Ele estala os dedos e a câmera dá um zoom na mão.
O Flávio de smoking em seu púlpito, pondo e tirando os óculos de armação grossa, num cacoete irritante. Igual ao outro cara do júri, o tal do Clécius Ribeiro. Dizendo o que presta e o que não presta, com o dedo em riste, quebrando disco do Caetano e jogando no lixo, criando suspense, fazendo caras e bocas, promovendo a moral e os bons costumes, entrevistando viajantes de discos voadores.
Mamãe entra na sala.
- Esse maldito pequinês me arranha todo o sinteko. Vou ter que passar a enceradeira de novo. O cabelo armado de laquê e as anáguas à mostra enquanto se curva para recolher as bitucas de Minister do cinzeiro de cristal. Vai pra cozinha e volta pra pegar o prato com os farelos de pão e o copo vazio, enquanto o cuco anuncia 9 horas.
- Ai que horror esse homem metendo medo na gente. Deviam colocar novela no lugar dele. Domingo também podia ser dia de novela – ela dizia, arrumando o chumaço de bom-bril na antena da TV. Volta pra cozinha.
Tem comercial demais. Flávio é líder de audiência.
A pulguinha dançando iê-iê-iê, o pernilongo mordendo o meu nenê. Varig, Varig, Varig. Cinta modeladora Esbelt. Mappin, abre às oito, Mappin. Groselha vitaminada Milani, é uma delícia no lanche...
Um fusca tala larga, amarelo-gema, passa cantando pneu. Nessa velocidade, vai se arrebentar quando passar na tartaruga ou parar no sinaleiro.
Papai deixou o monóculo com a lembrança da viagem a Araxá em cima da lata de Duchen recheada de morango. O pequinês vem chegando, barulho das patinhas no assoalho do apartamento. Tomou banho hoje, cheira a talco e creolina.
Voltamos a apresentar... Flávio Cavalcanti.
Ele era da época. Do Flávio da primeira temporada, aquele da TV Tupi e em preto e branco, transmitido ao vivo no domingo à noite e com a Márcia de Windsor, o Erlon Chaves e o Sérgio Bittencourt no júri. Sentado na espreguiçadeira, assistia ao programa tomando Coca-Cola e comendo sanduíche de pão Pullman (pão de forma só tinha o Pullman) com patê Bordon e salsichas do Frigor Eder. Pra comprar a Coca precisava levar o vasilhame, que alguns chamavam de casco. O empório vendia banha por quilo, azeitona a granel, galocha, fluido de isqueiro e tinha uma Filizola, daquelas de regular o peso manualmente. Ficava a duas quadras de casa – a velha casa de grade baixinha e Coroas-de-Cristo no jardim. Mas mesmo assim ia de carro quando precisava de alguma coisa, um Opala último tipo, branco e de capota preta, com alavanca de câmbio na direção.
Precisava dormir mais cedo, ficou de segunda-época e nem havia decidido ainda se ia prestar Cecem, Cecea ou Mapofei quando terminasse o Científico. Na véspera, a brincadeira dançante. Abafou com o plataforma novo e a calça Far-West. Cuba libre e hi-fi a rodo, os pais da Ju tinham viajado pro litoral. Uma hippie bonitinha, com uma bata de anarruga, dando bola para ele a noite toda. Lá pelas tantas, o vizinho chamou o guarda-noturno que acionou a rádio-patrulha porque a vitrola estava com o volume muito alto.
Nossos comerciais, por favor. Ele estala os dedos e a câmera dá um zoom na mão.
O Flávio de smoking em seu púlpito, pondo e tirando os óculos de armação grossa, num cacoete irritante. Igual ao outro cara do júri, o tal do Clécius Ribeiro. Dizendo o que presta e o que não presta, com o dedo em riste, quebrando disco do Caetano e jogando no lixo, criando suspense, fazendo caras e bocas, promovendo a moral e os bons costumes, entrevistando viajantes de discos voadores.
Mamãe entra na sala.
- Esse maldito pequinês me arranha todo o sinteko. Vou ter que passar a enceradeira de novo. O cabelo armado de laquê e as anáguas à mostra enquanto se curva para recolher as bitucas de Minister do cinzeiro de cristal. Vai pra cozinha e volta pra pegar o prato com os farelos de pão e o copo vazio, enquanto o cuco anuncia 9 horas.
- Ai que horror esse homem metendo medo na gente. Deviam colocar novela no lugar dele. Domingo também podia ser dia de novela – ela dizia, arrumando o chumaço de bom-bril na antena da TV. Volta pra cozinha.
Tem comercial demais. Flávio é líder de audiência.
A pulguinha dançando iê-iê-iê, o pernilongo mordendo o meu nenê. Varig, Varig, Varig. Cinta modeladora Esbelt. Mappin, abre às oito, Mappin. Groselha vitaminada Milani, é uma delícia no lanche...
Um fusca tala larga, amarelo-gema, passa cantando pneu. Nessa velocidade, vai se arrebentar quando passar na tartaruga ou parar no sinaleiro.
Papai deixou o monóculo com a lembrança da viagem a Araxá em cima da lata de Duchen recheada de morango. O pequinês vem chegando, barulho das patinhas no assoalho do apartamento. Tomou banho hoje, cheira a talco e creolina.
Voltamos a apresentar... Flávio Cavalcanti.
Sunday, August 13, 2006
FESTA DE INTEGRAÇÃO CRIANÇA-EMPRESA
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ref: Festa de Integração Criança-Empresa
Senhores,
Com relação ao assunto supra-citado, é imperioso frisar que temos apenas 3 meses e 22 dias para definirmos um plano estratégico de ações. Pela complexidade do tema, estamos correndo contra o tempo. Sugiro uma reunião de nossas diretorias para que possamos estabelecer metas conjuntas e criarmos uma comissão executiva, cuja incumbência envolverá os múltiplos aspectos a serem providenciados – do perfil psico-social do homem do algodão doce aos testes de elasticidade e resistência das bexigas.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Perfeitamente, senhor Diretor. Como start do projeto, já temos um croqui enviado por nossa agência de eventos, para ambientação do salão de festas. A nosso ver, é imprescindível uma correção na quantidade de purpurina nas sobrancelhas da Pequena Sereia. No processo licitatório o fornecedor escolhido foi a Purpur-Show, que deverá nos entregar a matéria-prima em tempo hábil para competente aprovação final. Caso contrário chamaremos em caráter de urgência a Mega Brilho Purpurinas – dessa vez sem licitação, por demonstrar notória competência e especialização naquilo que faz. Devo lembrar ao senhor que a Cinderela de isopor da festa de 1997 teve os olhos e o lábio inferior ornados por eles, e até hoje se comenta do furor causado pelo artefato entre os pequenos.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Tivemos, na confraternização do ano passado, um sem número de reclamações de esposas de colaboradores, argumentando que nos recheios das coxinhas predominava a sobrecoxa, quando historicamente utilizamos o peito desossado. Alguns relatos dão conta de resquícios de moela, o que é ainda mais inadmissível. Fiquem atentos a isso, por obséquio.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Informamos que o responsável pelas coxinhas com frango de segunda está devidamente frito. Ainda para conhecimento dos envolvidos, encaminho a síntese da apresentação em power-point do item 6, sub-item 9, que trata do recheio do bolo.
. Primeira camada: leite condensado com ameixa.
. Segunda camada: chantily com morango e cerejas ao licor.
. Terceira camada: massa folhada com creme amarelo do tipo bomba de padaria.
. Quarta camada: a ser definida após consenso entre as nossas diretorias, que nas últimas reuniões vêm divergindo a respeito da matéria. Para que não haja comprometimento do nosso follow-up, uma vez que estamos a apenas 1 mês e 29 dias para o fechamento do escopo estratégico de ações, e em permanecendo o impasse, sugiro que uma instância independente delibere sobre o assunto, sendo sua decisão soberana e irrecorrível.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Deliberação do dia: garfinhos de madeira de 2 dentes X garfinhos de plástico de 3 dentes.
Fizemos a tomada de preços e constamos que o custo da primeira opção é significativamente menor que o da segunda. Contudo, é forçoso admitir que os garfinhos de dois dentes têm menor desempenho de contenção do bocado alimentar – estudos demonstram que há uma perda de bolo maior no trajeto compreendido entre o pratinho de festa e a boca do conviva. Além do desperdício de bolo em si, teremos ainda um maior acúmulo de resíduos gordurosos no chão, que ocasionarão escorregões e tombos, que significarão fraturas e arranhões, que trarão ônus para o ambulatório da empresa.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de assuntos sociais
De fato. A Diretoria, com o aval da CIPA, delibera pela compra dos garfinhos de três dentes, do fornecedor Algazarra – Artigos para Festas Ltda. Contudo, há uma pendência a ser equacionada, já elencada na pauta da reunião de quinta próxima: o bexigão-surpresa, cujo estouro e conseqüente avalanche de miudezas infantis é o ponto alto da festa. Urge que a Coordenadoria de Assuntos Sociais saia a campo para uma pesquisa em profundidade junto ao público-alvo para sabermos se adquirimos ou não os mesmos produtos dos anos anteriores e respectivas marcas, a saber: chiclés de bola, balas de goma, cornetinhas, apitos, línguas de sogra, aneizinhos e ioiôs.
De: Coordenadoria para assuntos sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
A pesquisa citada em seu último memo já está em andamento. Publicamos também um edital de concorrência para aquisição de talco antialérgico (10 latas de 1kg), a ser acrescentado junto aos demais brinquedinhos no enchimento do citado bexigão, para maior efeito cênico quando do seu estouro. Todos hão de recordar o caso do petiz de tenra idade, que numa das últimas edições da festa quase veio a óbito, por inalar talco não-antialérgico contido no bexigão da época.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ótimo, muito bem lembrado. A pró-atividade demonstrada por sua equipe sinaliza preparo para os desafios de um cenário econômico globalizado e de um mercado cada dia mais competitivo. Mas o profissionalismo está nos detalhes, e em dois deles os senhores pecaram:
1.
Há muito tempo as Marias-Moles não estão mais entre os sonhos de consumo de nosso público.
2.
Os guarda-chuvinhas de chocolate, marca Ploft, lote 153-06, não atendem às normas de segurança do INMETRO.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Tenham os senhores a certeza de que as mencionadas falhas serão sanadas. A seguir, as sugestões do nosso departamento para os presentes dos guris:
Filhos de operários: jogo do mico
Filhos de encarregados: resta-um, pega-vareta e dominó
Filhos de supervisores de produção: dama, xadrez, trilha e ludo
Filhos de chefes: bonecas que falam e carrinhos com rádio-controle
Filhos de gerentes: bicicletas e ursões de pelúcia
Filho do Diretor de Recursos Humanos: Playstation 3
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ok, aprovado. Podem solicitar os orçamentos para análise do Financeiro. Por último, porém não menos importante: o balão pula-pula. Sugiro que as bolas sejam confeccionadas com as cores do emblema da firma – verde e dourado. O que acham?
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ref: Festa de Integração Criança-Empresa
Senhores,
Com relação ao assunto supra-citado, é imperioso frisar que temos apenas 3 meses e 22 dias para definirmos um plano estratégico de ações. Pela complexidade do tema, estamos correndo contra o tempo. Sugiro uma reunião de nossas diretorias para que possamos estabelecer metas conjuntas e criarmos uma comissão executiva, cuja incumbência envolverá os múltiplos aspectos a serem providenciados – do perfil psico-social do homem do algodão doce aos testes de elasticidade e resistência das bexigas.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Perfeitamente, senhor Diretor. Como start do projeto, já temos um croqui enviado por nossa agência de eventos, para ambientação do salão de festas. A nosso ver, é imprescindível uma correção na quantidade de purpurina nas sobrancelhas da Pequena Sereia. No processo licitatório o fornecedor escolhido foi a Purpur-Show, que deverá nos entregar a matéria-prima em tempo hábil para competente aprovação final. Caso contrário chamaremos em caráter de urgência a Mega Brilho Purpurinas – dessa vez sem licitação, por demonstrar notória competência e especialização naquilo que faz. Devo lembrar ao senhor que a Cinderela de isopor da festa de 1997 teve os olhos e o lábio inferior ornados por eles, e até hoje se comenta do furor causado pelo artefato entre os pequenos.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Tivemos, na confraternização do ano passado, um sem número de reclamações de esposas de colaboradores, argumentando que nos recheios das coxinhas predominava a sobrecoxa, quando historicamente utilizamos o peito desossado. Alguns relatos dão conta de resquícios de moela, o que é ainda mais inadmissível. Fiquem atentos a isso, por obséquio.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Informamos que o responsável pelas coxinhas com frango de segunda está devidamente frito. Ainda para conhecimento dos envolvidos, encaminho a síntese da apresentação em power-point do item 6, sub-item 9, que trata do recheio do bolo.
. Primeira camada: leite condensado com ameixa.
. Segunda camada: chantily com morango e cerejas ao licor.
. Terceira camada: massa folhada com creme amarelo do tipo bomba de padaria.
. Quarta camada: a ser definida após consenso entre as nossas diretorias, que nas últimas reuniões vêm divergindo a respeito da matéria. Para que não haja comprometimento do nosso follow-up, uma vez que estamos a apenas 1 mês e 29 dias para o fechamento do escopo estratégico de ações, e em permanecendo o impasse, sugiro que uma instância independente delibere sobre o assunto, sendo sua decisão soberana e irrecorrível.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Deliberação do dia: garfinhos de madeira de 2 dentes X garfinhos de plástico de 3 dentes.
Fizemos a tomada de preços e constamos que o custo da primeira opção é significativamente menor que o da segunda. Contudo, é forçoso admitir que os garfinhos de dois dentes têm menor desempenho de contenção do bocado alimentar – estudos demonstram que há uma perda de bolo maior no trajeto compreendido entre o pratinho de festa e a boca do conviva. Além do desperdício de bolo em si, teremos ainda um maior acúmulo de resíduos gordurosos no chão, que ocasionarão escorregões e tombos, que significarão fraturas e arranhões, que trarão ônus para o ambulatório da empresa.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de assuntos sociais
De fato. A Diretoria, com o aval da CIPA, delibera pela compra dos garfinhos de três dentes, do fornecedor Algazarra – Artigos para Festas Ltda. Contudo, há uma pendência a ser equacionada, já elencada na pauta da reunião de quinta próxima: o bexigão-surpresa, cujo estouro e conseqüente avalanche de miudezas infantis é o ponto alto da festa. Urge que a Coordenadoria de Assuntos Sociais saia a campo para uma pesquisa em profundidade junto ao público-alvo para sabermos se adquirimos ou não os mesmos produtos dos anos anteriores e respectivas marcas, a saber: chiclés de bola, balas de goma, cornetinhas, apitos, línguas de sogra, aneizinhos e ioiôs.
De: Coordenadoria para assuntos sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
A pesquisa citada em seu último memo já está em andamento. Publicamos também um edital de concorrência para aquisição de talco antialérgico (10 latas de 1kg), a ser acrescentado junto aos demais brinquedinhos no enchimento do citado bexigão, para maior efeito cênico quando do seu estouro. Todos hão de recordar o caso do petiz de tenra idade, que numa das últimas edições da festa quase veio a óbito, por inalar talco não-antialérgico contido no bexigão da época.
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ótimo, muito bem lembrado. A pró-atividade demonstrada por sua equipe sinaliza preparo para os desafios de um cenário econômico globalizado e de um mercado cada dia mais competitivo. Mas o profissionalismo está nos detalhes, e em dois deles os senhores pecaram:
1.
Há muito tempo as Marias-Moles não estão mais entre os sonhos de consumo de nosso público.
2.
Os guarda-chuvinhas de chocolate, marca Ploft, lote 153-06, não atendem às normas de segurança do INMETRO.
De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos
Tenham os senhores a certeza de que as mencionadas falhas serão sanadas. A seguir, as sugestões do nosso departamento para os presentes dos guris:
Filhos de operários: jogo do mico
Filhos de encarregados: resta-um, pega-vareta e dominó
Filhos de supervisores de produção: dama, xadrez, trilha e ludo
Filhos de chefes: bonecas que falam e carrinhos com rádio-controle
Filhos de gerentes: bicicletas e ursões de pelúcia
Filho do Diretor de Recursos Humanos: Playstation 3
De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Ok, aprovado. Podem solicitar os orçamentos para análise do Financeiro. Por último, porém não menos importante: o balão pula-pula. Sugiro que as bolas sejam confeccionadas com as cores do emblema da firma – verde e dourado. O que acham?
Saturday, August 05, 2006
QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA
Num reino muito distante vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de consciência, cada dia da semana com um anãozinho – mas sempre com camisinha. No caso, camisinhazinha.
O príncipe, ao cavalgar pelos arredores do reino enquanto era corneado, avistou um dia a casa de Prático, o mais esperto dos três porquinhos. Papo vai, papo vem e o futuro monarca convenceu o suíno a firmar sociedade com ele num frigorífico para produção de bacon sem colesterol e 0% de calorias. Mas Prático não foi esperto o suficiente para desconfiar que ele entraria com o bacon. Pensava que sua participação se restringiria à gestão estratégica do empreendimento, por conhecer a fundo o produto desde leitãozinho.
Emitido o atestado de óbito – e de burrice, o príncipe contrata o marceneiro Geppeto para fazer o caixão de Prático, cujo velório se realizaria após a missa de porco presente. Foi quando Pinóquio resolveu meter o nariz na história: “Meu faro diz que esse negócio de bacon light é muito promissor”, comentou ele com o napolitano vovozinho.
“Sou o sócio que todo empreendedor pediu ao Sebrae”, argumentou Pinóquio ao visitar o príncipe em sua fabriqueta de toucinho. “Se mentir ou tentar enganá-lo, meu nariz me denunciará”. Mais que convincente, o argumento era irresistível. Tinha à sua frente o sócio ideal: um sujeito compulsoriamente honesto!
Mas se associar empresarialmente ao príncipe não significava garantia de recursos fartos. A arrecadação de impostos no reino se resumia a umas poucas patacas, graças à inoperância da máquina administrativa. O jeito era arrumar um terceiro sócio – o capitalista. De imediato Pinóquio lembrou-se de Dona Baratinha, a que tem fita no cabelo mas jamais deixaria o dinheiro na caixinha: todos sabiam que aplicara tudo, incluindo o espólio de João Ratão, num fundo de investimento agressivo para ter lucro rápido e desbaratinar, pegando onda em Saquarema. (A título de curiosidade, João Ratão empanturrou-se até a morte com o bacon de Prático, um dos muitos pertences da substancial feijoada da Senhora Baratinha).
Ao ser consultado para aceitar a proposta, o famoso inseto da família dos blatídeos esquivou-se, alegando os planos de desbaratinamento acima citados e que já estava de malas prontas para a paradisíaca cidade fluminense. Mas indicou o Gato de Botas como parceiro no projeto, embora o felino tivesse sido um perseguidor implacável do seu amado João Ratão, nos porões de uma repartição pública.
Longe há muitos anos da burocracia estatal, o Gato de Botas andava agora de rabo preso ao jogo do bicho. Com as patas sobre a mesa do seu bunker e cofiando calmamente seus bigodes, recusou com polidez a oferta de Pinóquio e do príncipe: “O convite é tentador, mas não é zoológico abandonar nesse momento os meus negócios. Já falaram com o Shrek? Também ouvi dizer que a Cinderela, com aquela carinha de santa, tem cem mil contos de fada depositados na Suíça. Aposto que não sabiam disso, né. Um verdadeiro golpe de mestre...”
- Mestre... claro, o anão! Como não pensamos nele antes? Bem debaixo das minhas barbas! – retrucou o príncipe.
- E do meu nariz!, complementou Pinóquio. Com o trabalho nas minas, deve ter muito dinheiro guardado, o bastante para fazer do Diet Bacon um fenômeno nas gôndolas. Vamos já para o seu reino, príncipe.
Como a Lei de Murphy impera sempre, inclusive no mundo do faz-de-conta, aquele era o dia do Mestre dividir os lençóis com a insaciável Branca. Ou melhor, os maus lençóis: o príncipe e Pinóquio flagraram Branca de Neve no sofá, em sensuais preliminares com o Mestre, o Patinho Feio e a Bela Adormecida, que na ocasião parecia mais acordada que nunca.
Gritos, pancadas, tiros, golpes de espada, sangue derramado.
Até que chegou o soldadinho de chumbo, dando voz de prisão a todo mundo.
(continua qualquer dia desses)
O príncipe, ao cavalgar pelos arredores do reino enquanto era corneado, avistou um dia a casa de Prático, o mais esperto dos três porquinhos. Papo vai, papo vem e o futuro monarca convenceu o suíno a firmar sociedade com ele num frigorífico para produção de bacon sem colesterol e 0% de calorias. Mas Prático não foi esperto o suficiente para desconfiar que ele entraria com o bacon. Pensava que sua participação se restringiria à gestão estratégica do empreendimento, por conhecer a fundo o produto desde leitãozinho.
Emitido o atestado de óbito – e de burrice, o príncipe contrata o marceneiro Geppeto para fazer o caixão de Prático, cujo velório se realizaria após a missa de porco presente. Foi quando Pinóquio resolveu meter o nariz na história: “Meu faro diz que esse negócio de bacon light é muito promissor”, comentou ele com o napolitano vovozinho.
“Sou o sócio que todo empreendedor pediu ao Sebrae”, argumentou Pinóquio ao visitar o príncipe em sua fabriqueta de toucinho. “Se mentir ou tentar enganá-lo, meu nariz me denunciará”. Mais que convincente, o argumento era irresistível. Tinha à sua frente o sócio ideal: um sujeito compulsoriamente honesto!
Mas se associar empresarialmente ao príncipe não significava garantia de recursos fartos. A arrecadação de impostos no reino se resumia a umas poucas patacas, graças à inoperância da máquina administrativa. O jeito era arrumar um terceiro sócio – o capitalista. De imediato Pinóquio lembrou-se de Dona Baratinha, a que tem fita no cabelo mas jamais deixaria o dinheiro na caixinha: todos sabiam que aplicara tudo, incluindo o espólio de João Ratão, num fundo de investimento agressivo para ter lucro rápido e desbaratinar, pegando onda em Saquarema. (A título de curiosidade, João Ratão empanturrou-se até a morte com o bacon de Prático, um dos muitos pertences da substancial feijoada da Senhora Baratinha).
Ao ser consultado para aceitar a proposta, o famoso inseto da família dos blatídeos esquivou-se, alegando os planos de desbaratinamento acima citados e que já estava de malas prontas para a paradisíaca cidade fluminense. Mas indicou o Gato de Botas como parceiro no projeto, embora o felino tivesse sido um perseguidor implacável do seu amado João Ratão, nos porões de uma repartição pública.
Longe há muitos anos da burocracia estatal, o Gato de Botas andava agora de rabo preso ao jogo do bicho. Com as patas sobre a mesa do seu bunker e cofiando calmamente seus bigodes, recusou com polidez a oferta de Pinóquio e do príncipe: “O convite é tentador, mas não é zoológico abandonar nesse momento os meus negócios. Já falaram com o Shrek? Também ouvi dizer que a Cinderela, com aquela carinha de santa, tem cem mil contos de fada depositados na Suíça. Aposto que não sabiam disso, né. Um verdadeiro golpe de mestre...”
- Mestre... claro, o anão! Como não pensamos nele antes? Bem debaixo das minhas barbas! – retrucou o príncipe.
- E do meu nariz!, complementou Pinóquio. Com o trabalho nas minas, deve ter muito dinheiro guardado, o bastante para fazer do Diet Bacon um fenômeno nas gôndolas. Vamos já para o seu reino, príncipe.
Como a Lei de Murphy impera sempre, inclusive no mundo do faz-de-conta, aquele era o dia do Mestre dividir os lençóis com a insaciável Branca. Ou melhor, os maus lençóis: o príncipe e Pinóquio flagraram Branca de Neve no sofá, em sensuais preliminares com o Mestre, o Patinho Feio e a Bela Adormecida, que na ocasião parecia mais acordada que nunca.
Gritos, pancadas, tiros, golpes de espada, sangue derramado.
Até que chegou o soldadinho de chumbo, dando voz de prisão a todo mundo.
(continua qualquer dia desses)
Sunday, July 23, 2006
FILHO, UM DIA NADA DISSO SERÁ SEU
O retrato de Paolo era de 1885. O pintor assinava como “Vincenzo Ponti”, e havia sido pintado ainda na Itália, poucos anos antes do velho Paolo imigrar para o Brasil. Sentado numa confortável poltrona, tinha atrás de si uma lareira. Parecia estar trajando algo parecido com um fraque, de tom azulado escuro. Sua expressão não era nem alegre nem triste, nem confiante nem descrente. Apenas olhava placidamente para o pintor, esse tal Vincenzo Ponti que a história não legou à posteridade e de quem só se conhecia a assinatura. Nenhum verbete na Wikipedia ou ocorrência no Google.
A pintura veio para o Brasil junto com as duas malinhas surradas de Paolo e família, e anos depois passou a ornamentar a parede da casa de Luigi, o primogênito.
Correram as décadas, vieram as traças e os cupins na moldura. Melhor chamar um fotógrafo para tirar um retrato do retrato, a imagem de papai não pode se perder – pensou Luigi. Ainda bem que o retrato não se mexia, porque a exposição à câmera era demorada. Se fosse uma pessoa, teria que ficar imóvel por pelo menos 10 minutos. A fotografia retratando a pintura ficava numa mesinha de canto, próxima ao hall de entrada.
Trinta anos mais tarde, Felipe, que havia herdado a casa de Luigi, sacou sua Rolleiflex e prosseguiu com a brincadeira: tirou uma foto da foto da pintura junto à pintura real - a essa altura com a tela em frangalhos, as cores desbotadas e outra moldura no lugar da original.
1967. Com uma filmadora Super-8 na mão, Joaquim preparava a luz para fazer a tomada antes da demolição da casa. Filmou, num único e demorado plano, a foto que seu pai, Felipe, havia tirado da foto que Luigi mandara fazer do retrato de Paolo.
Chegou a vez do Rodrigo, filho do Joaquim, prosseguir com a tradição. Passou para uma fita de vídeo a filmagem em Super-8 feita pelo pai. Agora era um vídeo contendo o filme que mostrava a foto onde figurava outra foto que captou a pintura do falecidíssimo Paolo. Cinco gerações, cinco planos de registros sendo perpetuados.
Mas fita de vídeo oxida, estraga com o rebobinamento, perde qualidade a cada reprodução. Já o DVD, não. Dados digitais são eternos, como eternas tinham que ser as relíquias da família. Hora de passar a fita para a nova mídia.
Deu na televisão e nos suplementos de informática: o DVD, supostamente imune à ação do tempo, mostra sua fragilidade. Muitos estão se apagando, sem causa aparente. Rodrigo decide fazer cópias do DVD familiar para deixar ao pequeno Paolo, assim batizado em homenagem ao patriarca.
Fez 10 cópias. Para maior segurança, cada uma delas de um fabricante diferente. Três vão ficar com o jovem Paolo, que só irá reproduzi-las em ocasiões especiais para evitar manuseios constantes. Seis serão distribuídas para parentes que residam distantes uns dos outros (incêndios, inundações, terremotos ou assaltos podem acontecer, mas não simultaneamente em seis lugares diferentes, a menos que seja o fim do mundo). A última das dez cópias será acondicionada em uma caixa de isopor, sobre a qual haverá um revestimento de cortiça. Acima deste será providenciada uma camada de chumbo, que então será guarnecida por uma forração de madeira maciça fechada por cinco cadeados. A caixa multi-camadas será depositada, junto com as chaves dos cadeados, no cofre de um banco.
Tudo pronto. Dever cumprido, consciência tranqüila, perpetuação assegurada. Mas o sossego durou pouco: agora apareceu o Blu-Ray, nova mídia que irá aposentar definitivamente o DVD comum. E com um nível de confiabilidade de armazenamento nunca antes imaginado pelo homem. Muito menos pelo velho Paolo.
A pintura veio para o Brasil junto com as duas malinhas surradas de Paolo e família, e anos depois passou a ornamentar a parede da casa de Luigi, o primogênito.
Correram as décadas, vieram as traças e os cupins na moldura. Melhor chamar um fotógrafo para tirar um retrato do retrato, a imagem de papai não pode se perder – pensou Luigi. Ainda bem que o retrato não se mexia, porque a exposição à câmera era demorada. Se fosse uma pessoa, teria que ficar imóvel por pelo menos 10 minutos. A fotografia retratando a pintura ficava numa mesinha de canto, próxima ao hall de entrada.
Trinta anos mais tarde, Felipe, que havia herdado a casa de Luigi, sacou sua Rolleiflex e prosseguiu com a brincadeira: tirou uma foto da foto da pintura junto à pintura real - a essa altura com a tela em frangalhos, as cores desbotadas e outra moldura no lugar da original.
1967. Com uma filmadora Super-8 na mão, Joaquim preparava a luz para fazer a tomada antes da demolição da casa. Filmou, num único e demorado plano, a foto que seu pai, Felipe, havia tirado da foto que Luigi mandara fazer do retrato de Paolo.
Chegou a vez do Rodrigo, filho do Joaquim, prosseguir com a tradição. Passou para uma fita de vídeo a filmagem em Super-8 feita pelo pai. Agora era um vídeo contendo o filme que mostrava a foto onde figurava outra foto que captou a pintura do falecidíssimo Paolo. Cinco gerações, cinco planos de registros sendo perpetuados.
Mas fita de vídeo oxida, estraga com o rebobinamento, perde qualidade a cada reprodução. Já o DVD, não. Dados digitais são eternos, como eternas tinham que ser as relíquias da família. Hora de passar a fita para a nova mídia.
Deu na televisão e nos suplementos de informática: o DVD, supostamente imune à ação do tempo, mostra sua fragilidade. Muitos estão se apagando, sem causa aparente. Rodrigo decide fazer cópias do DVD familiar para deixar ao pequeno Paolo, assim batizado em homenagem ao patriarca.
Fez 10 cópias. Para maior segurança, cada uma delas de um fabricante diferente. Três vão ficar com o jovem Paolo, que só irá reproduzi-las em ocasiões especiais para evitar manuseios constantes. Seis serão distribuídas para parentes que residam distantes uns dos outros (incêndios, inundações, terremotos ou assaltos podem acontecer, mas não simultaneamente em seis lugares diferentes, a menos que seja o fim do mundo). A última das dez cópias será acondicionada em uma caixa de isopor, sobre a qual haverá um revestimento de cortiça. Acima deste será providenciada uma camada de chumbo, que então será guarnecida por uma forração de madeira maciça fechada por cinco cadeados. A caixa multi-camadas será depositada, junto com as chaves dos cadeados, no cofre de um banco.
Tudo pronto. Dever cumprido, consciência tranqüila, perpetuação assegurada. Mas o sossego durou pouco: agora apareceu o Blu-Ray, nova mídia que irá aposentar definitivamente o DVD comum. E com um nível de confiabilidade de armazenamento nunca antes imaginado pelo homem. Muito menos pelo velho Paolo.
SEM COMENTÁRIOS
Li recentemente que 75.000 novos blogs são criados ao dia. O que significa dizer que, se até hoje você não tem um, amanhã provavelmente terá. Nem que seja só um álbum de fotos do batizado do seu pimpolho.
Mas se sobram blogs, faltam comentários. Pelo menos no meu. Após meses de postagens, o saldo de mensagens no meu sitiozinho virtual era desolador: um da minha irmã, um da minha sobrinha (ambos altamente suspeitos), um de colega de trabalho e um do meu querido Clóvis Vieira, jornalista de “O Município”.
Quando estes poucos comentários chegaram, deu aquele frio na barriga. Quem terá enviado? Será que é elogio ou alguém descendo o sarrafo?
Se fosse alguma coisa muito desabonadora, eu ia querer tirar. Mas aí seria censura. Estaria omitindo as talvez merecidas descomposturas para deixar só os afagos. Já pensou, atacar de editor de comentários? Seria muita trapaça.
Melhor então deixar sem a opção de comentar. E foi o que fiz. Entrei nas configurações do bichinho e desabilitei os palpites. Ótimo. Agora a porcaria do blog virou depósito de textos. Um contra-senso, já que a graça do blog é justamente a interatividade com o visitante. Mas fazer o quê, ninguém queria interagir comigo. O que era pra ser diálogo virou monólogo e estamos conversados. Quer dizer, não estamos.
Quem quer deixar um comentário deve achar antipática essa não-abertura à avaliação alheia. Mas tenho cá minhas razões, e a principal delas é que estava pegando mal. Onde é que já se viu um blog tão sem comentários assim?
Coisa mais frustrante ver aquele “0 comments” embaixo de dezenas de textos, cada um deles clamando por um comentarista de plantão!!!
Opinião mesmo, só de boca. Amigos e parentes dizendo que tinham acessado o blog e achado muito bonitinho, uma graça. Todos com a mesma história: “Olha, não deu tempo de ler tudo, mas os dois ou três textos que li já valeram a visita. Parabéns, continue firme”. Mas comentário por escrito, nada. Pô, uma linhazinha já estava bom. Um “oi”, um “passei por aqui e prometo voltar”, um “valeu” básico. A impressão que dava é que faltava disposição pra deixar lá o que quer que fosse. Outra explicação possível é que os comentários, uma vez postados, tornam-se públicos, tanto quanto o texto comentado. Muita gente pode acessar e ler, e o nosso comentarista de repente não quer deixar rastros...
Melhor sorte têm os ilustres, as celebridades que estão na blogosfera. O figurão postou o texto e meia hora depois já está até o pescoço de comentários, do Brasil inteiro. É que aí a coisa é diferente. Ter a oportunidade de deixar seu recado no blog de um famoso é status, quem ler pode achar que o palpiteiro é íntimo do autor. Na remota hipótese da mensagem ser uma raspança, o fã-clube do distinto instantaneamente se encarregará de lavrar um comentário-réplica, dando um “cala-boca” no desaforado.
Isto posto (ou seria postado?), vamos combinar o seguinte: fique à vontade pra percorrer as mal-traçadas do meu blog. Mas para louvações ou porradas, mande um e-mail. Prometo responder a todos. msguassabia@yahoo.com.br
Mas se sobram blogs, faltam comentários. Pelo menos no meu. Após meses de postagens, o saldo de mensagens no meu sitiozinho virtual era desolador: um da minha irmã, um da minha sobrinha (ambos altamente suspeitos), um de colega de trabalho e um do meu querido Clóvis Vieira, jornalista de “O Município”.
Quando estes poucos comentários chegaram, deu aquele frio na barriga. Quem terá enviado? Será que é elogio ou alguém descendo o sarrafo?
Se fosse alguma coisa muito desabonadora, eu ia querer tirar. Mas aí seria censura. Estaria omitindo as talvez merecidas descomposturas para deixar só os afagos. Já pensou, atacar de editor de comentários? Seria muita trapaça.
Melhor então deixar sem a opção de comentar. E foi o que fiz. Entrei nas configurações do bichinho e desabilitei os palpites. Ótimo. Agora a porcaria do blog virou depósito de textos. Um contra-senso, já que a graça do blog é justamente a interatividade com o visitante. Mas fazer o quê, ninguém queria interagir comigo. O que era pra ser diálogo virou monólogo e estamos conversados. Quer dizer, não estamos.
Quem quer deixar um comentário deve achar antipática essa não-abertura à avaliação alheia. Mas tenho cá minhas razões, e a principal delas é que estava pegando mal. Onde é que já se viu um blog tão sem comentários assim?
Coisa mais frustrante ver aquele “0 comments” embaixo de dezenas de textos, cada um deles clamando por um comentarista de plantão!!!
Opinião mesmo, só de boca. Amigos e parentes dizendo que tinham acessado o blog e achado muito bonitinho, uma graça. Todos com a mesma história: “Olha, não deu tempo de ler tudo, mas os dois ou três textos que li já valeram a visita. Parabéns, continue firme”. Mas comentário por escrito, nada. Pô, uma linhazinha já estava bom. Um “oi”, um “passei por aqui e prometo voltar”, um “valeu” básico. A impressão que dava é que faltava disposição pra deixar lá o que quer que fosse. Outra explicação possível é que os comentários, uma vez postados, tornam-se públicos, tanto quanto o texto comentado. Muita gente pode acessar e ler, e o nosso comentarista de repente não quer deixar rastros...
Melhor sorte têm os ilustres, as celebridades que estão na blogosfera. O figurão postou o texto e meia hora depois já está até o pescoço de comentários, do Brasil inteiro. É que aí a coisa é diferente. Ter a oportunidade de deixar seu recado no blog de um famoso é status, quem ler pode achar que o palpiteiro é íntimo do autor. Na remota hipótese da mensagem ser uma raspança, o fã-clube do distinto instantaneamente se encarregará de lavrar um comentário-réplica, dando um “cala-boca” no desaforado.
Isto posto (ou seria postado?), vamos combinar o seguinte: fique à vontade pra percorrer as mal-traçadas do meu blog. Mas para louvações ou porradas, mande um e-mail. Prometo responder a todos. msguassabia@yahoo.com.br
Sunday, July 09, 2006
A RÚCULA E SUAS DESCONHECIDAS PROPRIEDADES
Parcela do IPVA, água, luz, telefone, escola.
Podia muito bem pagar por internet, caixa eletrônico, débito automático. Mas não confiava em nada disso, gostava mesmo da autenticação mecânica. Ali, preto no branco. Vai que amanhã dá pau geral no sistema, como provar que tá pago?
Pra falar a verdade, nem queria que a fila andasse. Tinha hora no dentista daí a 40 minutos. E sair de um suplício para outro era demais. Um sacrifício pede recompensa, e não mais sacrifício. Boca aberta ao torturante motorzinho, boquiaberto com o buraco no orçamento. Não, não. Ligaria pro consultório, desmarcando.
O saco sem fundo de trabalhar pra ganhar, ganhar pra pagar as contas, pagar as contas pra continuar na estatística dos economicamente ativos. E assim sucessivamente – do mesmo jeito será com seu filho e destino igual terá seu neto, se até lá esse mundinho não explodir numa hecatombe.
Ontem tinha ido almoçar com a Débora. Como sabia esnobá-lo, a cachorra. Ô Débora desalmada. Deixa estar que ainda me vingo, ele pensou. E a vingança veio a cavalo, naquele safado PF de padaria. Arroz, feijão, batata souté, salada de tomate e... rúcula.
Sentados à mesa, ela aciona o seu mais radiante sorriso em direção ao carinha da mesa ao lado. Foi quando se deu o desastre: aquele tiquinho de rúcula entre os alvíssimos incisivos. Quanto mais metida e insinuante a darling se mostrava, mais a verdura tornava bizarra aquela diva de subúrbio. Era nojento, constrangedor, hilariante. E a Deborazinha se achando.
Ele regozijava-se intimamente com aqueles míseros milímetros quadrados de rúcula, cujo poder de destruição ecoava por toda a Panificadora Doce Mel.
Contou: 28 à sua frente, sendo 7 office-boys. Aquelas caras de segunda-feira, mesmo sendo uma quinta que anuncia a sexta que traria o redentor fim de semana.
Se estudasse direitinho não estaria ali e não seria o que era. Esse ser de cera, dez horas por dia com o traseiro soldado a uma poltrona de escritório sem apoio para os braços. Essa previdente figura que não sai de casa sem guarda-chuva e talões de zona azul.
A cordinha de nylon a balizar a fila. Em todas as filas, de todos os bancos, a mesma cordinha e o mesmo dim-dom anunciando o caixa livre. Um passo à frente.
Olhou para o cartaz, na parede próxima ao subgerente. Um casal, dois filhos e um cão de guarda simpático, todos transbordando de felicidade graças ao seguro de vida que, além de cobrir morte, invalidez permanente e renda cessante, ainda oferece sorteios mensais de casas, carros e notebooks com processador Pentium 4 e monitor de cristal líquido.
De novo a imagem da Débora, com sua carruagem transformada em abóbora ao meio-dia. Foi-se o encanto, seu sapatinho de cristal virou pantufa de palhaço. A Débora a quem a rúcula tornou ridícula.
Dim-dom. Chegou sua vez.
Olha no crachá da moça: outra Débora. Ela diz “pois não” sorrindo. E sem rúcula nos dentes.
Podia muito bem pagar por internet, caixa eletrônico, débito automático. Mas não confiava em nada disso, gostava mesmo da autenticação mecânica. Ali, preto no branco. Vai que amanhã dá pau geral no sistema, como provar que tá pago?
Pra falar a verdade, nem queria que a fila andasse. Tinha hora no dentista daí a 40 minutos. E sair de um suplício para outro era demais. Um sacrifício pede recompensa, e não mais sacrifício. Boca aberta ao torturante motorzinho, boquiaberto com o buraco no orçamento. Não, não. Ligaria pro consultório, desmarcando.
O saco sem fundo de trabalhar pra ganhar, ganhar pra pagar as contas, pagar as contas pra continuar na estatística dos economicamente ativos. E assim sucessivamente – do mesmo jeito será com seu filho e destino igual terá seu neto, se até lá esse mundinho não explodir numa hecatombe.
Ontem tinha ido almoçar com a Débora. Como sabia esnobá-lo, a cachorra. Ô Débora desalmada. Deixa estar que ainda me vingo, ele pensou. E a vingança veio a cavalo, naquele safado PF de padaria. Arroz, feijão, batata souté, salada de tomate e... rúcula.
Sentados à mesa, ela aciona o seu mais radiante sorriso em direção ao carinha da mesa ao lado. Foi quando se deu o desastre: aquele tiquinho de rúcula entre os alvíssimos incisivos. Quanto mais metida e insinuante a darling se mostrava, mais a verdura tornava bizarra aquela diva de subúrbio. Era nojento, constrangedor, hilariante. E a Deborazinha se achando.
Ele regozijava-se intimamente com aqueles míseros milímetros quadrados de rúcula, cujo poder de destruição ecoava por toda a Panificadora Doce Mel.
Contou: 28 à sua frente, sendo 7 office-boys. Aquelas caras de segunda-feira, mesmo sendo uma quinta que anuncia a sexta que traria o redentor fim de semana.
Se estudasse direitinho não estaria ali e não seria o que era. Esse ser de cera, dez horas por dia com o traseiro soldado a uma poltrona de escritório sem apoio para os braços. Essa previdente figura que não sai de casa sem guarda-chuva e talões de zona azul.
A cordinha de nylon a balizar a fila. Em todas as filas, de todos os bancos, a mesma cordinha e o mesmo dim-dom anunciando o caixa livre. Um passo à frente.
Olhou para o cartaz, na parede próxima ao subgerente. Um casal, dois filhos e um cão de guarda simpático, todos transbordando de felicidade graças ao seguro de vida que, além de cobrir morte, invalidez permanente e renda cessante, ainda oferece sorteios mensais de casas, carros e notebooks com processador Pentium 4 e monitor de cristal líquido.
De novo a imagem da Débora, com sua carruagem transformada em abóbora ao meio-dia. Foi-se o encanto, seu sapatinho de cristal virou pantufa de palhaço. A Débora a quem a rúcula tornou ridícula.
Dim-dom. Chegou sua vez.
Olha no crachá da moça: outra Débora. Ela diz “pois não” sorrindo. E sem rúcula nos dentes.
Sunday, July 02, 2006
O DEDÉ
Foi revendo “Forrest Gump” que lembrei do Dedé, o sumido porém inesquecível Dedé. Estava ao seu lado no cinema, na época do lançamento do filme, quando num rompante inspiradíssimo ele lavrou a versão tupiniquim da filosofia do anti-herói americano: “A vida é como uma empadinha de rodoviária: a gente nunca sabe o que vai encontrar”.
Nada do que o Dedé dissesse era levado a sério. Por mais sérios que fossem seus enunciados e máximas.
Consta que foi por volta de 1978 que o Dedé cismou que o tempo estava passando mais rápido. Alardeava aos quatro ventos a singular constatação, dispunha-se a chamar a comunidade científica pra comprovar por A+B a sua tese. Tinha toda uma teoria, amparada por equações complicadíssimas, cálculos quânticos e dízimas periódicas. Porém, mais rápido ou não, o tempo passou e a coisa ficou por isso mesmo.
Uma figura, o Dedé. Pelo seu jeitão aloprado, muitos o chamavam de Lelé. Que maldade.
Líder nato, amava palavras de ordem e gritos de guerra. Adivinha, no colégio, quem era o presidente do grêmio, o chefe da fanfarra, o representante de classe, o orador da turma? Lógico, o Dedé. Na faculdade, estampava e vendia nos intervalos das aulas camisetas do Che, da plantinha de Cannabis e contra o imperialismo ianque.
Se havia alguém perito em arrumar uma confusão, esse alguém era o Dedé. Sem querer, espalhava boatos e insultos difamantes, semeando a discórdia por onde passasse. Aprontava todas e, quando o tempo fechava, escafedia-se em meio à turba se estapeando. O Dedé sumia com a leveza e a rapidez de um ninja. Aquele monte de amigos batendo e apanhando por causa dele, e ele lá, rindo e guardando distância segura do qüiproquó.
O Dedé era também um diletante gastronômico, e suas panelas assistiam às combinações mais esdrúxulas – macarrão doce, sorvete de queijo com cobertura de azeite de oliva e polvilhado com orégano, pato ao molho de fanta uva.
São muitas as recordações. Devia ter umas duas semanas de casado, praticamente ainda em lua de mel, e quem me aparece em casa, de mala e cuia? Adivinhou de novo, leitor: o Dedé. Disse que ia ficar só uns dias. E uns dias, para o Dedé, eram muitos. Mais exatamente, 94.
Assaltava a geladeira sem cerimônia nenhuma, esparramava-se no sofá da sala para ver televisão e urinava com a porta do banheiro aberta.
O ecletismo era sua marca registrada no âmbito profissional. Chegou a gerenciar simultaneamente um bingo para a terceira idade, um serviço de telemensagem e um quiosque de tapioca.
Há cerca de dois anos, aconteceu aquela que seria a grande guinada de sua vida. Com a pompa que a circunstância exigia, abriu as portas do “Hair Fashion by Dedé”. Portas que foram fechadas antes mesmo da tesoura de cabeleireiro cortar a fita inaugural, por não ter sido expedido o alvará da prefeitura. Nunca testemunhei tão retumbante fracasso. Mais de 150 convivas, entre autoridades, convidados e representantes da imprensa local, degustando sidra vagabunda e assistindo o fiscal lacrar o natimorto salão de beleza.
O sucesso do Dedé com as mulheres era inversamente proporcional à sua desenvoltura como empreendedor. Tinha todas as que punha em sua alça de mira. Incluindo a filha de um promotor de justiça, com a qual chegou a noivar e a quem dedicou uma canção de relativo sucesso na época, finalista de um festival em Santa Rita do Passa Quatro e terceiro lugar num outro em Ijuí.
Não obstante essas heróicas conquistas, o pai da moça se opunha ao relacionamento, subestimando seus feitos e julgando-o indigno da filha.
Afrontado e ávido por um revide, Dedé foi à luta e um mês mais tarde esfregou na cara do promotor uma medalhinha de menção honrosa no 12º PIC - Piraporinha in Concert, e o cheque de R$ 75,00 a que fez jus.
Convertido a uma seita pentecostal, passou a levar uma vida regrada e produzia, em sociedade com um cunhado, pesos de porta com grandes figuras bíblicas, como Maomé, Isaac e Matuzalém. Mas foi à bancarrota ao ter um contêiner de Isaacs devolvidos. O comprador alegou que os Isaaquinhos rechados de areia trajavam suspensórios, artefatos que ainda não estavam em voga naqueles idos distantes.
Assim era o Dedé. Esse ser que não existe.
Nada do que o Dedé dissesse era levado a sério. Por mais sérios que fossem seus enunciados e máximas.
Consta que foi por volta de 1978 que o Dedé cismou que o tempo estava passando mais rápido. Alardeava aos quatro ventos a singular constatação, dispunha-se a chamar a comunidade científica pra comprovar por A+B a sua tese. Tinha toda uma teoria, amparada por equações complicadíssimas, cálculos quânticos e dízimas periódicas. Porém, mais rápido ou não, o tempo passou e a coisa ficou por isso mesmo.
Uma figura, o Dedé. Pelo seu jeitão aloprado, muitos o chamavam de Lelé. Que maldade.
Líder nato, amava palavras de ordem e gritos de guerra. Adivinha, no colégio, quem era o presidente do grêmio, o chefe da fanfarra, o representante de classe, o orador da turma? Lógico, o Dedé. Na faculdade, estampava e vendia nos intervalos das aulas camisetas do Che, da plantinha de Cannabis e contra o imperialismo ianque.
Se havia alguém perito em arrumar uma confusão, esse alguém era o Dedé. Sem querer, espalhava boatos e insultos difamantes, semeando a discórdia por onde passasse. Aprontava todas e, quando o tempo fechava, escafedia-se em meio à turba se estapeando. O Dedé sumia com a leveza e a rapidez de um ninja. Aquele monte de amigos batendo e apanhando por causa dele, e ele lá, rindo e guardando distância segura do qüiproquó.
O Dedé era também um diletante gastronômico, e suas panelas assistiam às combinações mais esdrúxulas – macarrão doce, sorvete de queijo com cobertura de azeite de oliva e polvilhado com orégano, pato ao molho de fanta uva.
São muitas as recordações. Devia ter umas duas semanas de casado, praticamente ainda em lua de mel, e quem me aparece em casa, de mala e cuia? Adivinhou de novo, leitor: o Dedé. Disse que ia ficar só uns dias. E uns dias, para o Dedé, eram muitos. Mais exatamente, 94.
Assaltava a geladeira sem cerimônia nenhuma, esparramava-se no sofá da sala para ver televisão e urinava com a porta do banheiro aberta.
O ecletismo era sua marca registrada no âmbito profissional. Chegou a gerenciar simultaneamente um bingo para a terceira idade, um serviço de telemensagem e um quiosque de tapioca.
Há cerca de dois anos, aconteceu aquela que seria a grande guinada de sua vida. Com a pompa que a circunstância exigia, abriu as portas do “Hair Fashion by Dedé”. Portas que foram fechadas antes mesmo da tesoura de cabeleireiro cortar a fita inaugural, por não ter sido expedido o alvará da prefeitura. Nunca testemunhei tão retumbante fracasso. Mais de 150 convivas, entre autoridades, convidados e representantes da imprensa local, degustando sidra vagabunda e assistindo o fiscal lacrar o natimorto salão de beleza.
O sucesso do Dedé com as mulheres era inversamente proporcional à sua desenvoltura como empreendedor. Tinha todas as que punha em sua alça de mira. Incluindo a filha de um promotor de justiça, com a qual chegou a noivar e a quem dedicou uma canção de relativo sucesso na época, finalista de um festival em Santa Rita do Passa Quatro e terceiro lugar num outro em Ijuí.
Não obstante essas heróicas conquistas, o pai da moça se opunha ao relacionamento, subestimando seus feitos e julgando-o indigno da filha.
Afrontado e ávido por um revide, Dedé foi à luta e um mês mais tarde esfregou na cara do promotor uma medalhinha de menção honrosa no 12º PIC - Piraporinha in Concert, e o cheque de R$ 75,00 a que fez jus.
Convertido a uma seita pentecostal, passou a levar uma vida regrada e produzia, em sociedade com um cunhado, pesos de porta com grandes figuras bíblicas, como Maomé, Isaac e Matuzalém. Mas foi à bancarrota ao ter um contêiner de Isaacs devolvidos. O comprador alegou que os Isaaquinhos rechados de areia trajavam suspensórios, artefatos que ainda não estavam em voga naqueles idos distantes.
Assim era o Dedé. Esse ser que não existe.
Sunday, June 18, 2006
OUT DO ORKUT
O nome "Orkut" pra mim remetia a nave russa, fria, orbitando no ciberespaço. Até que sábado passado resolvi me embrenhar, timidamente, por esse cipoal de relacionamentos. E vi que de frio o orkut não tem nada. O orkut é quente. O orkut pega fogo.
Entrei com o login da minha filha, pois ninguém me convidou pra ser um orkutiano (nem ela!). Claro, o que um tiozinho – no caso, um paizinho - vai estar fazendo por lá?
Comecei a procurar amigos de infância e de adolescência, hoje todos na casa dos 40. E percebi que eles estão no orkut, sim, mas como eu: não como membros. Os membros são seus filhos, e meus amigos aparecem como pano de fundo em fotos de festas de aniversário, férias, formaturas. Isso quando aparecem, já que muitas vezes são eles quem batem as fotos...
Evidente que o orkut não é um lugar só de teens. Meu tio Jairo tem quase 80 e está lá. Se há alguém que dá bola pra ele, já é uma outra história. Mas jogou sua garrafinha naquele mar, como que dizendo "não estou por fora disso, não".
Na São João do Tio Jairo, todo o cosmo cabia na pracinha da cidade. O orkut da época conectava gente em carne e osso, com hora marcada para os encontros: domingo, depois da missa. O on line era tête-à-tête, olhando nos olhos, sentindo o perfume e o hálito, sussurrando ao ouvido.
Tudo muito mais humano, mas também mais limitado. O sujeito crescia com aquela meia duzia de amigos e depois do "colegial" ia pra cidade grande fazer faculdade. Voltava uns anos depois pra terrinha, decidido a montar clínica, comércio ou escritório. Pra mais tarde casar, procriar e trabalhar com afinco para dar o melhor aos seus meninos.
Com o orkut, as possibilidades de conhecer novas pessoas se multiplicam em progressão geométrica, ainda que essas pessoas se façam ciberpresentes maquiadas pelo photoshop e se definam invariavelmente como inteligentes, bonitas, carinhosas, compreensivas e extrovertidas.
Mesmo que não busque exatamente informação, um jovem no orkut é um ser antenado, sabe o que se passa à sua volta. Diferente de mim, que só vim a saber que havia uma ditadura em curso aos 19 anos, na Universidade (nasci em 64, uma semana antes da "gloriosa"). Como ninguém falava abertamente nisso, o anti-estado de direito parecia, aos mais jovens, a ordem natural das coisas. Sou da geração Coca-Cola, a perdida, sem bandeira ou ideologia. Filho dos anos de chumbo, usava crachazinho verde e amarelo na Semana da Pátria. Os militares eram presidentes porque os presidentes eram naturalmente militares. E pronto.
Sorte dos novos, que com o orkut e outros bichos estão a salvo dos embustes que eu e meus amigos quarentões tivemos de engolir.
Viva o orkut. Ainda que viver seja estar no mundo em forma de pixels e bites.
Entrei com o login da minha filha, pois ninguém me convidou pra ser um orkutiano (nem ela!). Claro, o que um tiozinho – no caso, um paizinho - vai estar fazendo por lá?
Comecei a procurar amigos de infância e de adolescência, hoje todos na casa dos 40. E percebi que eles estão no orkut, sim, mas como eu: não como membros. Os membros são seus filhos, e meus amigos aparecem como pano de fundo em fotos de festas de aniversário, férias, formaturas. Isso quando aparecem, já que muitas vezes são eles quem batem as fotos...
Evidente que o orkut não é um lugar só de teens. Meu tio Jairo tem quase 80 e está lá. Se há alguém que dá bola pra ele, já é uma outra história. Mas jogou sua garrafinha naquele mar, como que dizendo "não estou por fora disso, não".
Na São João do Tio Jairo, todo o cosmo cabia na pracinha da cidade. O orkut da época conectava gente em carne e osso, com hora marcada para os encontros: domingo, depois da missa. O on line era tête-à-tête, olhando nos olhos, sentindo o perfume e o hálito, sussurrando ao ouvido.
Tudo muito mais humano, mas também mais limitado. O sujeito crescia com aquela meia duzia de amigos e depois do "colegial" ia pra cidade grande fazer faculdade. Voltava uns anos depois pra terrinha, decidido a montar clínica, comércio ou escritório. Pra mais tarde casar, procriar e trabalhar com afinco para dar o melhor aos seus meninos.
Com o orkut, as possibilidades de conhecer novas pessoas se multiplicam em progressão geométrica, ainda que essas pessoas se façam ciberpresentes maquiadas pelo photoshop e se definam invariavelmente como inteligentes, bonitas, carinhosas, compreensivas e extrovertidas.
Mesmo que não busque exatamente informação, um jovem no orkut é um ser antenado, sabe o que se passa à sua volta. Diferente de mim, que só vim a saber que havia uma ditadura em curso aos 19 anos, na Universidade (nasci em 64, uma semana antes da "gloriosa"). Como ninguém falava abertamente nisso, o anti-estado de direito parecia, aos mais jovens, a ordem natural das coisas. Sou da geração Coca-Cola, a perdida, sem bandeira ou ideologia. Filho dos anos de chumbo, usava crachazinho verde e amarelo na Semana da Pátria. Os militares eram presidentes porque os presidentes eram naturalmente militares. E pronto.
Sorte dos novos, que com o orkut e outros bichos estão a salvo dos embustes que eu e meus amigos quarentões tivemos de engolir.
Viva o orkut. Ainda que viver seja estar no mundo em forma de pixels e bites.
Saturday, June 17, 2006
MINHAS FÉRIAS NA FAZENDA DO VOVÔ
Quando cheguei o notebook tava com a bateria fraca, vim jogando Fifa Soccer na viagem. Foi um trampo pra achar, na casa do vô, uma tomada que encaixasse no carregador.
Meu quarto era maneiro. Chapei com o visu da janela. Mas um pentelho de um ganso não parava quieto, e eu tinha que deixar tudo fechado pra não ouvir a barulheira dele.
O rango era estranho. Galinha ao molho pardo, polenta, pururuca, vaca atolada. Ainda bem que minha mãe me forrou a mochila com Doritos e Toddynho. Não ia comer aqueles bagulhos esquisitos nem a pau.
Um dia bateu uma larica forte. Pedi pro vô o telefone de um disk-pizza, tava a fim de traçar uma redonda com tudo o que tinha direito. O vô disse que pizza por ali só no forno da fazenda. Mas a lenha precisava cortar e mussarela não tinha, só queijo fresco e coalhada. Ferrou legal.
Minha vó ficava socando a porta do quarto, falando pra ir ver tirar leite de vaca, regar horta, matar porco, colher goiaba.
Uma galerinha, filhos do caseiro, ficava de longe olhando pra mim. Depois vinham com uns papos mó estranho, não entendia nada o que eles diziam. Umas coisas tipo tuia, cafezá, carpi, prumódi, arquere. Bailei bonito. O tempo todo os meninos ficavam me vendo tc. Na boa, me senti no Big Brother.
Jogava counter strike de manhã, até a hora do almoço. Ficava destruído e mandava ver umas Pringles. Só tinha um pacote, e ficava racionando. Também tinha de reserva um chocolate Hershey’s. Comia um pedacinho por dia, quando acabasse ia ter que encarar rapadura.
À tarde entrava no msn e fikava um tempão com a galera que tava on. Blz,mas aí a máquina travou geral. Falei com o vô, mas o véio nem tava ligado, mó sem noção. Tive que me virar sozinho. Foram 4 dias editando os configs do sistema, reinicializando a cada 10 minutos. Nunca fiquei tanto tempo off. Mas no fim consegui.
Uma vez apareceu na fazenda um tiozinho falando de arroba. Arroba do boi, arroba do algodão. Esse aí manja de computer, pensei, deve estar falando de algum site. Mas quando mostrei o notebook pra ele, ele falou: "Nossa, que televisão fininha!". Aí desencanei. Outro sem noção.
Daí pra frente foi maneiro D+. O programa não travou mais, conheci um monte de gente nova e uma mina búlgara, mucho loka.
Quinta-feira passada um peão daqui apareceu com duas varinhas de bambu, me convidando pra ir pescar. Nem fui, nada a ver, coisa de véio seqüelado ficar lá com varinha na beira do rio. O cara surtou quando eu falei em molinete. Nem se tocava que existia.
Naquele dia eu tava com meu jeans e ele perguntou se eu tinha caído de um touro brabo, porque eu estava "cascarça rasgada no jueio e carecia pinchá". Não sabia o que era "pinchá". Entrei no Google, mas não rolou nenhuma ocorrência.
Na hora de vazar pra ksa, tava com meu iPod. Aí um dos carinhas da roça mandou essa: "Xavê esse radim di pi". Depois de um mês, já entendia um pouco aquele idioma. Deixei com ele. Ano que vem eu volto pra buscar.
Meu quarto era maneiro. Chapei com o visu da janela. Mas um pentelho de um ganso não parava quieto, e eu tinha que deixar tudo fechado pra não ouvir a barulheira dele.
O rango era estranho. Galinha ao molho pardo, polenta, pururuca, vaca atolada. Ainda bem que minha mãe me forrou a mochila com Doritos e Toddynho. Não ia comer aqueles bagulhos esquisitos nem a pau.
Um dia bateu uma larica forte. Pedi pro vô o telefone de um disk-pizza, tava a fim de traçar uma redonda com tudo o que tinha direito. O vô disse que pizza por ali só no forno da fazenda. Mas a lenha precisava cortar e mussarela não tinha, só queijo fresco e coalhada. Ferrou legal.
Minha vó ficava socando a porta do quarto, falando pra ir ver tirar leite de vaca, regar horta, matar porco, colher goiaba.
Uma galerinha, filhos do caseiro, ficava de longe olhando pra mim. Depois vinham com uns papos mó estranho, não entendia nada o que eles diziam. Umas coisas tipo tuia, cafezá, carpi, prumódi, arquere. Bailei bonito. O tempo todo os meninos ficavam me vendo tc. Na boa, me senti no Big Brother.
Jogava counter strike de manhã, até a hora do almoço. Ficava destruído e mandava ver umas Pringles. Só tinha um pacote, e ficava racionando. Também tinha de reserva um chocolate Hershey’s. Comia um pedacinho por dia, quando acabasse ia ter que encarar rapadura.
À tarde entrava no msn e fikava um tempão com a galera que tava on. Blz,mas aí a máquina travou geral. Falei com o vô, mas o véio nem tava ligado, mó sem noção. Tive que me virar sozinho. Foram 4 dias editando os configs do sistema, reinicializando a cada 10 minutos. Nunca fiquei tanto tempo off. Mas no fim consegui.
Uma vez apareceu na fazenda um tiozinho falando de arroba. Arroba do boi, arroba do algodão. Esse aí manja de computer, pensei, deve estar falando de algum site. Mas quando mostrei o notebook pra ele, ele falou: "Nossa, que televisão fininha!". Aí desencanei. Outro sem noção.
Daí pra frente foi maneiro D+. O programa não travou mais, conheci um monte de gente nova e uma mina búlgara, mucho loka.
Quinta-feira passada um peão daqui apareceu com duas varinhas de bambu, me convidando pra ir pescar. Nem fui, nada a ver, coisa de véio seqüelado ficar lá com varinha na beira do rio. O cara surtou quando eu falei em molinete. Nem se tocava que existia.
Naquele dia eu tava com meu jeans e ele perguntou se eu tinha caído de um touro brabo, porque eu estava "cascarça rasgada no jueio e carecia pinchá". Não sabia o que era "pinchá". Entrei no Google, mas não rolou nenhuma ocorrência.
Na hora de vazar pra ksa, tava com meu iPod. Aí um dos carinhas da roça mandou essa: "Xavê esse radim di pi". Depois de um mês, já entendia um pouco aquele idioma. Deixei com ele. Ano que vem eu volto pra buscar.
Sunday, June 11, 2006
O FRIO DE FORA E O DE DENTRO

Que coisa mais chata amanhecer no domingo com chuva e frio fustigando a janela. Um dia desse jeito é meio perdido, mal resolvido e defeituoso, meteorológica e produtivamente falando. O que influi no meu humor. Melhor dizendo, no mau humor.
Tem quem goste, achando que dias assim convidam à introspecção, balanço da vida, essas coisas. Outros se sentem mais dispostos para o trabalho. Esse negócio de frio tem sim, seus poucos momentos compensadores. Quando se entra no banho quente ou debaixo das cobertas, é ótimo. Mas essas delícias fugazes não pagam as penas posteriores - de sair do banho tiritando, de pular da cama de má vontade e de espaçar, muito compreensivelmente, as ocasiões para a prática daquela milenar e prazerosa modalidade.
Que suplício tratar de piscina, lavar louça, regar planta. No circo, por exemplo. O vento a 80 por hora arriando a lona. Imagine a agonia dos faquires, na gélida cama de pregos. A responsabilidade dos trapezistas e atiradores de faca, que têm de manter a precisão a despeito das mãos trêmulas. Igualmente torturante é o inverno para as strippers de boate e os entregadores de pizza.
E limpar gaiola de passarinho? Primeiro tem que lavar no tanque aquele fundo de zinco, cheio de caca. Empedernido pelo vento impiedoso, o dejeto só sai com palha de aço ou espátula. Pior é quando você roeu todas as unhas na véspera, deixando as cutículas em carne viva. Aí sim, é gostoso mesmo. Isso quando não se depara com o bichinho seco, as patas pra cima, mortinho da silva.
Gosto de tomar um uísque no fim de semana. Não mais que uma dose - cavalar, é verdade - o suficiente pra relaxar sem ficar xarope. E uísque sem gelo, não dá. É mais uma triste limitação do inverno, essa estação odiosa.
Tendo que renunciar ao meu trago domingueiro, comecei a fuçar nuns álbuns de fotos, do começo dos 90. Umas férias onde estou de passageiro num barco, passeando pela baía de Camamu. Olho as fotos e, claro, acesso o registro correspondente na cabeça, ele existe, está lá. Porém é tão frio quanto o dia lá fora. O fato sobrevive em linhas gerais, mas sem as sensações correspondentes. A foto não me traz de volta a brisa no rosto, o barulho do motor da embarcação, o azulado da água, o que sentia e pensava naquele instante.E assim acontece com outras coisas. Passo em frente de uma casa onde morei por cinco anos. E nada, só um flash nebuloso e em preto e branco vem à mente, condensando meia década de rotina diária num impreciso borrão de lembranças. Em seguida bate aquele paradoxo existencial - viver pra quê, se o que se vive agora será esquecido daqui a pouco? Você comenta com um amigo sobre isso e ele vem com a máxima, presente em 10 entre 10 manuais de auto-ajuda: "viva intensamente cada momento, como se fosse o último. Preste atenção ao presente, sem se agarrar ao passado ou se preocupar com o futuro. Assim você estará mais receptivo a reter o que acontece agora".
Pior ainda é constatar que a sua memória recente também é quase uma retardada - incapaz de lembrar do que você almoçou ou jantou ontem.
Livros às centenas, filmes aos milhares. Passo nas locadoras e não os reconheço, nem pela caixinha e nem pelo conteúdo. Para mim são eternos lançamentos. O lado bom é que, se pego um filme que já vi, não fico com a sensação de que joguei dinheiro fora. Olho para a estante de livros, leio os títulos nas lombadas, sei que um dia os devorei a todos. Atenta e silenciosamente, a cada um deles dediquei horas e mais horas, dias e mais dias. Pra chegar agora e não lembrar de nada - nem da história, nem do assunto, nem dos nomes dos personagens, nem de coisa nenhuma. Dizem os psicólogos e neurologistas que é o consciente que não lembra, e que o subconsciente guarda tudo em detalhes. E é aí, inclusive, que eles entram com suas ferramentas e terapias. Penso: é a idade. Errado: aos 14 já era assim. Chego a aventar a hipótese de distúrbio cognitivo. Herança genética? Talvez. Meu avô estacionava o carro e esquecia os vidros abertos, a chave no contato e - inacreditável - o motor ligado.
Mas por que é que eu vim parar aqui mesmo? Sei lá. Esse frio deixa a gente meio assim, de miolo duro.
Tem quem goste, achando que dias assim convidam à introspecção, balanço da vida, essas coisas. Outros se sentem mais dispostos para o trabalho. Esse negócio de frio tem sim, seus poucos momentos compensadores. Quando se entra no banho quente ou debaixo das cobertas, é ótimo. Mas essas delícias fugazes não pagam as penas posteriores - de sair do banho tiritando, de pular da cama de má vontade e de espaçar, muito compreensivelmente, as ocasiões para a prática daquela milenar e prazerosa modalidade.
Que suplício tratar de piscina, lavar louça, regar planta. No circo, por exemplo. O vento a 80 por hora arriando a lona. Imagine a agonia dos faquires, na gélida cama de pregos. A responsabilidade dos trapezistas e atiradores de faca, que têm de manter a precisão a despeito das mãos trêmulas. Igualmente torturante é o inverno para as strippers de boate e os entregadores de pizza.
E limpar gaiola de passarinho? Primeiro tem que lavar no tanque aquele fundo de zinco, cheio de caca. Empedernido pelo vento impiedoso, o dejeto só sai com palha de aço ou espátula. Pior é quando você roeu todas as unhas na véspera, deixando as cutículas em carne viva. Aí sim, é gostoso mesmo. Isso quando não se depara com o bichinho seco, as patas pra cima, mortinho da silva.
Gosto de tomar um uísque no fim de semana. Não mais que uma dose - cavalar, é verdade - o suficiente pra relaxar sem ficar xarope. E uísque sem gelo, não dá. É mais uma triste limitação do inverno, essa estação odiosa.
Tendo que renunciar ao meu trago domingueiro, comecei a fuçar nuns álbuns de fotos, do começo dos 90. Umas férias onde estou de passageiro num barco, passeando pela baía de Camamu. Olho as fotos e, claro, acesso o registro correspondente na cabeça, ele existe, está lá. Porém é tão frio quanto o dia lá fora. O fato sobrevive em linhas gerais, mas sem as sensações correspondentes. A foto não me traz de volta a brisa no rosto, o barulho do motor da embarcação, o azulado da água, o que sentia e pensava naquele instante.E assim acontece com outras coisas. Passo em frente de uma casa onde morei por cinco anos. E nada, só um flash nebuloso e em preto e branco vem à mente, condensando meia década de rotina diária num impreciso borrão de lembranças. Em seguida bate aquele paradoxo existencial - viver pra quê, se o que se vive agora será esquecido daqui a pouco? Você comenta com um amigo sobre isso e ele vem com a máxima, presente em 10 entre 10 manuais de auto-ajuda: "viva intensamente cada momento, como se fosse o último. Preste atenção ao presente, sem se agarrar ao passado ou se preocupar com o futuro. Assim você estará mais receptivo a reter o que acontece agora".
Pior ainda é constatar que a sua memória recente também é quase uma retardada - incapaz de lembrar do que você almoçou ou jantou ontem.
Livros às centenas, filmes aos milhares. Passo nas locadoras e não os reconheço, nem pela caixinha e nem pelo conteúdo. Para mim são eternos lançamentos. O lado bom é que, se pego um filme que já vi, não fico com a sensação de que joguei dinheiro fora. Olho para a estante de livros, leio os títulos nas lombadas, sei que um dia os devorei a todos. Atenta e silenciosamente, a cada um deles dediquei horas e mais horas, dias e mais dias. Pra chegar agora e não lembrar de nada - nem da história, nem do assunto, nem dos nomes dos personagens, nem de coisa nenhuma. Dizem os psicólogos e neurologistas que é o consciente que não lembra, e que o subconsciente guarda tudo em detalhes. E é aí, inclusive, que eles entram com suas ferramentas e terapias. Penso: é a idade. Errado: aos 14 já era assim. Chego a aventar a hipótese de distúrbio cognitivo. Herança genética? Talvez. Meu avô estacionava o carro e esquecia os vidros abertos, a chave no contato e - inacreditável - o motor ligado.
Mas por que é que eu vim parar aqui mesmo? Sei lá. Esse frio deixa a gente meio assim, de miolo duro.
DUELO À FRENTE DE UM PRATO DE COXINHAS
- Tim-tim!
- Saúde!
- Bom, onde é que a gente tinha parado mesmo?
- Sócrates e seus seguidores.
- Ah sim, claro. Numa perspectiva hedonista, é evidente a influência do iluminismo como mola propulsora da morfologia intramolecular...
- Ok, da qual derivou, décadas mais tarde, a hermenêutica mineira contemporânea. Tudo bem, isso é óbvio e incontestável para qualquer guri de 5 anos. Mas daí você generalizar, atribuindo a Cervantes a fundamentação da hidrofobia, vai uma enorme distância...
- Permita-me discordar. Veja por exemplo a exegese adstringente dos sonetos de Petrarca. No estrito sentido do léxico, conjectura-se ser pura fenomenologia endógena, pelo menos numa primeira análise.
- Em termos, em termos. Afinal, Donaldson é quem efetivamente fez a ponte entre o parnasianismo tardio e Paulo Coelho. Isso dentro da retórica fonética do ser, enunciada por Kant com muita propriedade.
- Contanto que fosse uma suposição empírica, comumente compreendida na estética gamaglobulínica.
- Mas as mutações no tecido social sempre prevalecem sobre a silepse antropológica. Silepse que, aliás, tem em Nietzsche seu mais ferrenho defensor. Te peguei, hein. Sai dessa agora!
- Por mais que a ciência lance luz a essas indagações, a ablação cinética do conservadorismo sempre será objeto, na acepção anímica, de um redesenho neo-positivista que age antagonicamente aos receptores de protease. Ficou clara a diferenciação?
- Na realidade, Pound, em toda sua obra, contextualiza a intersecção geomórfica, ainda que de forma veladamente dúbia, se tomarmos como parâmetro o determinismo puramente iconoclasta.
- Veja bem, o que eu defendo, do ponto de vista enunciado por Homero na Ilíada, é que a bissetriz não tangencia a prosódia de Lacan, qualquer que seja a natureza do objeto em questão.
- Alto lá, meu amigo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se Hahnemann, ao lançar as bases da homeopatia, não tivesse uma mãozinha do Padre Vieira, como explicar a queda da Bastilha enquanto divisor de águas no estudo das pororocas ? E digo mais: se fôssemos levar essa sua premissa como verdadeira, estaríamos admitindo o Molibdênio e seu número atômico como desencadeadores do efeito estufa. O que, convenhamos, é uma sandice.
- Discordo redondamente.
- É desanimador sentir o colega tão refratário à lógica quântica.
- Não tenho culpa se você é retrógrado e insiste em defender a representação metafórica, que extrai da identidade do objeto racional sua própria subjetividade transcendente. Ou você vai continuar negando que o Recôncavo Baiano na verdade é Reconvexo?
- Sim como aforismo. Jamais como axioma.
- Não, não. Você não entendeu aonde eu quero chegar. Tome, por exemplo, essa coxinha que repousa gordurosa à nossa frente. É uma reles coxinha, que não se sabe coxinha. Não tem a consciência de sua “coxinhicidade”, ou sua essência salgadística, entende? É o eterno conflito entre Eros e Tanatos, Sísifo e Prometeu.
- Deixe de ser simplista. A dicotomia aristotélica não se abstrai assim, num maneirismo niilista de contornos platônicos.
- Então, mas...
- Espera aí, deixa eu só concluir o raciocínio. A ambivalência, no contexto glauberiano, pode e tende a ser congruente. Caso contrário, a catarse sinóptica de Eleonora Duse lançaria por terra essa sua teoria. Ou melhor, sua falácia.
- Sei. De onde se supõe uma retomada da síntese diastólica.
- Então, é justamente esse o ponto. Taí a signagem termo-acústica que não me deixa mentir.
- E que não te deixa raciocinar, pelo jeito.
- Está partindo pra ignorância?
- É. Quem sabe assim você me compreende...
- Olha a baixaria!
- Ora, defenda-se com argumentos. Válidos, racionais, insofismáveis. Ou então, renda-se. Tenha a humildade de abandonar a partida ao antever o cheque-mate.
- Seguirei seu conselho. Tô indo embora.
- Ei, espera aí. A gente combinou de rachar a conta.
- Parafraseando Schopenhauer, te vira Mané. Tchau mesmo.
- Saúde!
- Bom, onde é que a gente tinha parado mesmo?
- Sócrates e seus seguidores.
- Ah sim, claro. Numa perspectiva hedonista, é evidente a influência do iluminismo como mola propulsora da morfologia intramolecular...
- Ok, da qual derivou, décadas mais tarde, a hermenêutica mineira contemporânea. Tudo bem, isso é óbvio e incontestável para qualquer guri de 5 anos. Mas daí você generalizar, atribuindo a Cervantes a fundamentação da hidrofobia, vai uma enorme distância...
- Permita-me discordar. Veja por exemplo a exegese adstringente dos sonetos de Petrarca. No estrito sentido do léxico, conjectura-se ser pura fenomenologia endógena, pelo menos numa primeira análise.
- Em termos, em termos. Afinal, Donaldson é quem efetivamente fez a ponte entre o parnasianismo tardio e Paulo Coelho. Isso dentro da retórica fonética do ser, enunciada por Kant com muita propriedade.
- Contanto que fosse uma suposição empírica, comumente compreendida na estética gamaglobulínica.
- Mas as mutações no tecido social sempre prevalecem sobre a silepse antropológica. Silepse que, aliás, tem em Nietzsche seu mais ferrenho defensor. Te peguei, hein. Sai dessa agora!
- Por mais que a ciência lance luz a essas indagações, a ablação cinética do conservadorismo sempre será objeto, na acepção anímica, de um redesenho neo-positivista que age antagonicamente aos receptores de protease. Ficou clara a diferenciação?
- Na realidade, Pound, em toda sua obra, contextualiza a intersecção geomórfica, ainda que de forma veladamente dúbia, se tomarmos como parâmetro o determinismo puramente iconoclasta.
- Veja bem, o que eu defendo, do ponto de vista enunciado por Homero na Ilíada, é que a bissetriz não tangencia a prosódia de Lacan, qualquer que seja a natureza do objeto em questão.
- Alto lá, meu amigo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se Hahnemann, ao lançar as bases da homeopatia, não tivesse uma mãozinha do Padre Vieira, como explicar a queda da Bastilha enquanto divisor de águas no estudo das pororocas ? E digo mais: se fôssemos levar essa sua premissa como verdadeira, estaríamos admitindo o Molibdênio e seu número atômico como desencadeadores do efeito estufa. O que, convenhamos, é uma sandice.
- Discordo redondamente.
- É desanimador sentir o colega tão refratário à lógica quântica.
- Não tenho culpa se você é retrógrado e insiste em defender a representação metafórica, que extrai da identidade do objeto racional sua própria subjetividade transcendente. Ou você vai continuar negando que o Recôncavo Baiano na verdade é Reconvexo?
- Sim como aforismo. Jamais como axioma.
- Não, não. Você não entendeu aonde eu quero chegar. Tome, por exemplo, essa coxinha que repousa gordurosa à nossa frente. É uma reles coxinha, que não se sabe coxinha. Não tem a consciência de sua “coxinhicidade”, ou sua essência salgadística, entende? É o eterno conflito entre Eros e Tanatos, Sísifo e Prometeu.
- Deixe de ser simplista. A dicotomia aristotélica não se abstrai assim, num maneirismo niilista de contornos platônicos.
- Então, mas...
- Espera aí, deixa eu só concluir o raciocínio. A ambivalência, no contexto glauberiano, pode e tende a ser congruente. Caso contrário, a catarse sinóptica de Eleonora Duse lançaria por terra essa sua teoria. Ou melhor, sua falácia.
- Sei. De onde se supõe uma retomada da síntese diastólica.
- Então, é justamente esse o ponto. Taí a signagem termo-acústica que não me deixa mentir.
- E que não te deixa raciocinar, pelo jeito.
- Está partindo pra ignorância?
- É. Quem sabe assim você me compreende...
- Olha a baixaria!
- Ora, defenda-se com argumentos. Válidos, racionais, insofismáveis. Ou então, renda-se. Tenha a humildade de abandonar a partida ao antever o cheque-mate.
- Seguirei seu conselho. Tô indo embora.
- Ei, espera aí. A gente combinou de rachar a conta.
- Parafraseando Schopenhauer, te vira Mané. Tchau mesmo.
Sunday, June 04, 2006
O QUE MUDA COM A COPA
A Mitsubishi já começará a anunciar que a garantia de suas TVs vai até a Copa de 2010.
Restaurantes de comida alemã incluirão no cardápio novidades com nomes sugestivos, como o Chucrute a Gol.
Os lançamentos imobiliários divulgarão apartamentos com quarto, sala, cozinha banheiro e a Copa grátis para os 11 primeiros compradores.
Nos motéis, onde não raramente rolam dois tempos e até uma prorrogação, o bem-bom mesmo só acontecerá no intervalo dos jogos. Nos televisores das suítes, em lugar dos filmes de sacanagem, serão transmitidos bate-bolas diretamente de Munich Evans.
Você execrará a overdose de frases de efeito e jargões de ocasião, do tipo Seleção de Ofertas, Promoção Campeã, Copa Premiada, Alemanha aí vou eu, Traz a Taça, Hexa é Nossa. E amaldiçoará todos os publicitários sobre a face da terra. Inclusive eu, que sou um deles.
As confeitarias só produzirão bolões, taxistas só rodarão com bandeirinha 2, pizzarias só entregarão pizzas meia-direita, meia-esquerda ou inteira de frango, juízes só sentenciarão penalidades máximas, lavanderias prometerão torcidas extras nas roupas caso o Brasil ganhe de lavada.
Os displays das farmácias estarão forrados com as Camisinhas Cafú-Dida, tendo os dois astros como garotos-propaganda. Já as seitas, ONGs e entidades que defendem o controle da natalidade por meios naturais distribuirão nas ruas a Tabelinha da Copa.
As lojas de móveis comercializarão exclusivamente mesas redondas e bancos de reserva. Na compra dos dois, o cliente levará um comentarista movido a pilha de presente.
Nos semáforos oferecerão Ronaldinhos infláveis, para as comemorações familiares, e Marias-Chuteiras também infláveis, para torcedores solitários e carentes.
Nas festas juninas, São João, São Pedro e Santo Antonio terão que se contentar com traques e estalinhos de salão, uma vez que toda a produção nacional de rojões já estará comprometida para outra finalidade.
Nas transações mercantis e financeiras, como garantia irão exigir mais que caução. Você terá que levar tornozeleira, meião e faixa de capitão do time.
No fantástico, o show da vida, Padre Quevedo vai demonstrar que o Fenômeno não passa de um truque, desmascarando definitivamente o camisa 9 Ronaldo.
O Galvão Bueno contabilizará 8.975 bolas fora, mas ainda assim não será posto de escanteio, pois o contrato dele com a Globo vence em 3429.
Milhares de incautos endinheirados forrarão as paredes de suas mansões com TVs de plasma – algumas delas do tamanho de um gol oficial - , indiferentes ao fato de que o preço cairá pela metade assim que acabar o Mundial.
Por motivos óbvios, o barbudinho paz-e-amor não precisará dar maiores satisfações à opinião pública para faltar ao trabalho. Aliás, satisfação é algo que ele não vem dando a ninguém desde que assumiu – se é que de fato assumiu qualquer coisa até agora.
Bancos entupirão nossas caixas postais com cartões verdes e amarelos. Devedores receberão cartões vermelhos.
Os corruptos terão maior posse de bola e os traficantes maior posse de bolinhas.
Cronistas metidos a engraçadinhos aproveitarão a oportunidade para lavrar textos como este, de segunda divisão.
Restaurantes de comida alemã incluirão no cardápio novidades com nomes sugestivos, como o Chucrute a Gol.
Os lançamentos imobiliários divulgarão apartamentos com quarto, sala, cozinha banheiro e a Copa grátis para os 11 primeiros compradores.
Nos motéis, onde não raramente rolam dois tempos e até uma prorrogação, o bem-bom mesmo só acontecerá no intervalo dos jogos. Nos televisores das suítes, em lugar dos filmes de sacanagem, serão transmitidos bate-bolas diretamente de Munich Evans.
Você execrará a overdose de frases de efeito e jargões de ocasião, do tipo Seleção de Ofertas, Promoção Campeã, Copa Premiada, Alemanha aí vou eu, Traz a Taça, Hexa é Nossa. E amaldiçoará todos os publicitários sobre a face da terra. Inclusive eu, que sou um deles.
As confeitarias só produzirão bolões, taxistas só rodarão com bandeirinha 2, pizzarias só entregarão pizzas meia-direita, meia-esquerda ou inteira de frango, juízes só sentenciarão penalidades máximas, lavanderias prometerão torcidas extras nas roupas caso o Brasil ganhe de lavada.
Os displays das farmácias estarão forrados com as Camisinhas Cafú-Dida, tendo os dois astros como garotos-propaganda. Já as seitas, ONGs e entidades que defendem o controle da natalidade por meios naturais distribuirão nas ruas a Tabelinha da Copa.
As lojas de móveis comercializarão exclusivamente mesas redondas e bancos de reserva. Na compra dos dois, o cliente levará um comentarista movido a pilha de presente.
Nos semáforos oferecerão Ronaldinhos infláveis, para as comemorações familiares, e Marias-Chuteiras também infláveis, para torcedores solitários e carentes.
Nas festas juninas, São João, São Pedro e Santo Antonio terão que se contentar com traques e estalinhos de salão, uma vez que toda a produção nacional de rojões já estará comprometida para outra finalidade.
Nas transações mercantis e financeiras, como garantia irão exigir mais que caução. Você terá que levar tornozeleira, meião e faixa de capitão do time.
No fantástico, o show da vida, Padre Quevedo vai demonstrar que o Fenômeno não passa de um truque, desmascarando definitivamente o camisa 9 Ronaldo.
O Galvão Bueno contabilizará 8.975 bolas fora, mas ainda assim não será posto de escanteio, pois o contrato dele com a Globo vence em 3429.
Milhares de incautos endinheirados forrarão as paredes de suas mansões com TVs de plasma – algumas delas do tamanho de um gol oficial - , indiferentes ao fato de que o preço cairá pela metade assim que acabar o Mundial.
Por motivos óbvios, o barbudinho paz-e-amor não precisará dar maiores satisfações à opinião pública para faltar ao trabalho. Aliás, satisfação é algo que ele não vem dando a ninguém desde que assumiu – se é que de fato assumiu qualquer coisa até agora.
Bancos entupirão nossas caixas postais com cartões verdes e amarelos. Devedores receberão cartões vermelhos.
Os corruptos terão maior posse de bola e os traficantes maior posse de bolinhas.
Cronistas metidos a engraçadinhos aproveitarão a oportunidade para lavrar textos como este, de segunda divisão.
Sunday, May 21, 2006
RÁDIO MIOLO
Independentemente do que você esteja pensando agora, por trás desse pensamento tem uma musiquinha, não tem? De pano de fundo, como quem não quer nada. Às vezes uma, depois outra. Tem dias em que rola uma faixa só, teimosamente. Você até quer passar pra outra, mas o cérebro não deixa. O programador da Sinapse FM resolveu que aquele é o dia daquela música, e não há jabá que o faça mudar de idéia.
Ocorre também da música não ter nada a ver com você, muito menos com seu estado de espírito naquela hora. Mas gruda como chiclete nos neurônios. É quando você se pega cantarolando o prefixo do Programa da Xuxa, sem saber por que cargas d’água, no meio de uma reunião da firma.
Meu DJ mental é um cara eclético, mas acima de tudo beatlemaníaco. Assumido e incorrigível. Colocar Beatles no aparelho de som pra mim é redundância - as mais de duzentas músicas deles eu assovio o tempo todo. É o que se pode chamar de original soundtrack biológico, você escuta uma vez e a coisa passa a fazer parte do seu DNA. Tocou na entrada do meu casamento e quero que toque no meu enterro, mesmo não estando mais lá pra escutar.
Acontece algo que me deixa feliz e a Rádio Miolo ataca de “I want to hold your hand”. Se falta coragem não falta “Hey Jude”, a fabulosa injeção de ânimo que o velho Macca fez para o filho do John. Um momento de reflexão e tiro da cachola “Julia”, “Because”, “Across the Universe”. Se quero meditar, a lavra do George Harrison é um mantra só, do começo ao fim. Pronto pra levar à Índia numa sentada, de preferência em posição de lótus.
Porém nem tudo é Beatles, embora quase tudo seja. E de repente se abre o inesgotável baú dos mineiros. Só de Beto Guedes tem pelo menos umas 20 músicas no hit parade pessoal: “Tesouro da Juventude”, “Noite sem Luar”, “Sol de Primavera”, “Maria Solidária”, não há o que ainda possa ser dito dessas coisas, são os profetas do Aleijadinho em forma musical. Valem todo o ouro das Gerais.
Chico é a próxima parada do dial. “Meus Caros Amigos”, com “O que será” e “Mulheres de Atenas”, ou aquele outro disco com um Buarque pra lá do terceiro uísque, fotografado à frente de uma samambaia, que tem “Cálice” e “Trocando em miúdos”. Em outra estação, mas na mesma freqüência, Caetano e o eterno espanto de “Bicho”, “Jóia”, “Muito”, de um “Cinema Transcendental” que transcende “Qualquer Coisa”. Trilhas de uma época em que não se falava de música de trabalho, exposição à mídia, shows privê no Golden Room do Copa, interesses multinacionais.
Vamos aos clássicos. A Quarta balada de Chopin, alguns trechos de Tristão e Isolda, os Brandenburgos de Bach, o concerto para piano de Rachmaninov. Tudo isso em deliciosa ciranda no toca-discos interno. Vira e mexe esses monumentos reaparecem, virando e mexendo com a gente, tocando sem que seja preciso levantar da cadeira, caçar o disco na estante e ligar o player.
O que acaba acontecendo é que eu coloco pra tocar só os mais novos. O tido e havido como “diferente”, que vai surgindo. E ouço a fim, muito a fim de ser pego de surpresa, arrebatado com algo demolidor. É pena, mas essa primeira audição quase sempre acaba sendo a última.
Então volto ao meu flash-back. Som na caixa craniana, graves e agudos equalizados. No repertório, só as dez mais de todos os tempos. Sem correr o risco de incomodar o vizinho e economizando energia elétrica.
Ocorre também da música não ter nada a ver com você, muito menos com seu estado de espírito naquela hora. Mas gruda como chiclete nos neurônios. É quando você se pega cantarolando o prefixo do Programa da Xuxa, sem saber por que cargas d’água, no meio de uma reunião da firma.
Meu DJ mental é um cara eclético, mas acima de tudo beatlemaníaco. Assumido e incorrigível. Colocar Beatles no aparelho de som pra mim é redundância - as mais de duzentas músicas deles eu assovio o tempo todo. É o que se pode chamar de original soundtrack biológico, você escuta uma vez e a coisa passa a fazer parte do seu DNA. Tocou na entrada do meu casamento e quero que toque no meu enterro, mesmo não estando mais lá pra escutar.
Acontece algo que me deixa feliz e a Rádio Miolo ataca de “I want to hold your hand”. Se falta coragem não falta “Hey Jude”, a fabulosa injeção de ânimo que o velho Macca fez para o filho do John. Um momento de reflexão e tiro da cachola “Julia”, “Because”, “Across the Universe”. Se quero meditar, a lavra do George Harrison é um mantra só, do começo ao fim. Pronto pra levar à Índia numa sentada, de preferência em posição de lótus.
Porém nem tudo é Beatles, embora quase tudo seja. E de repente se abre o inesgotável baú dos mineiros. Só de Beto Guedes tem pelo menos umas 20 músicas no hit parade pessoal: “Tesouro da Juventude”, “Noite sem Luar”, “Sol de Primavera”, “Maria Solidária”, não há o que ainda possa ser dito dessas coisas, são os profetas do Aleijadinho em forma musical. Valem todo o ouro das Gerais.
Chico é a próxima parada do dial. “Meus Caros Amigos”, com “O que será” e “Mulheres de Atenas”, ou aquele outro disco com um Buarque pra lá do terceiro uísque, fotografado à frente de uma samambaia, que tem “Cálice” e “Trocando em miúdos”. Em outra estação, mas na mesma freqüência, Caetano e o eterno espanto de “Bicho”, “Jóia”, “Muito”, de um “Cinema Transcendental” que transcende “Qualquer Coisa”. Trilhas de uma época em que não se falava de música de trabalho, exposição à mídia, shows privê no Golden Room do Copa, interesses multinacionais.
Vamos aos clássicos. A Quarta balada de Chopin, alguns trechos de Tristão e Isolda, os Brandenburgos de Bach, o concerto para piano de Rachmaninov. Tudo isso em deliciosa ciranda no toca-discos interno. Vira e mexe esses monumentos reaparecem, virando e mexendo com a gente, tocando sem que seja preciso levantar da cadeira, caçar o disco na estante e ligar o player.
O que acaba acontecendo é que eu coloco pra tocar só os mais novos. O tido e havido como “diferente”, que vai surgindo. E ouço a fim, muito a fim de ser pego de surpresa, arrebatado com algo demolidor. É pena, mas essa primeira audição quase sempre acaba sendo a última.
Então volto ao meu flash-back. Som na caixa craniana, graves e agudos equalizados. No repertório, só as dez mais de todos os tempos. Sem correr o risco de incomodar o vizinho e economizando energia elétrica.
Saturday, May 20, 2006
O CESSAR DAS SESSÕES
Fiz análise durante um certo tempo, por motivo que não vem ao caso expor aqui. Esse certo tempo na verdade não chegou a 3 meses, o suficiente para que eu me desse alta – embora estivesse pior que no início das sessões. Bem pior, descrente da panacéia freudiana e de mim mesmo, me achando um caso perdido.
Era uma sessão semanal, às sextas e após o trabalho. Rua tranqüila, lugar gostoso, consultório aconchegante. A iluminação indireta, só um abajur com uma lâmpada fraquinha. Sentia-me confortável com o chenile do divã e com a perspectiva de 50 longos minutos para um trato nos miolos. O único problema era justamente esse – os tais 50 minutos cravados eram longos demais. O que para os outros pacientes passava voando, para mim parecia todo o período paleozóico.
O analista seguia a linha ortodoxa, freudiano até a medula. E como todo discípulo empedernido do velho Sigmund, se agarrava aos sonhos, lapsos e associações livres pra ir formando o quebra-cabeças. Nesse caso, o monta-cabeças... Tudo poderia e deveria ser usado como fio de meada para os labirintos insondáveis do inconsciente.
Mas o fato é que o homem não abria a boca. Se havia uma análise em curso naquelas quatro paredes só ele sabia, porque absolutamente não compartilhava com a outra parte interessada. Com receio de perguntar, eu também ficava quieto.
Tenho relativa facilidade de não pensar em nada, quando me é possível desfrutar dessa benção. Tanto que no começo achava bom ficar ali, como um acéfalo, os olhos pregados no teto. Só que tudo tem limite. O tempo passando, o taxímetro correndo e eu olhando aqueles certificados todos na parede. As letras góticas com o nome do doutor. A diferença de desenho do D de um diploma para o D de outro. Um em tinta dourada, outro em nanquim, o de graduação de 1972, o de especialização de 1977, o de mestrado de 1979...
Tomei a iniciativa:
- O senhor não vai dizer nada?
- Quem tem de falar é você.
- Mas vou falar o quê?
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
Dizer que eu estava pensando na letra gótica do diploma era demais. Ou de menos. Nem a mais fútil das dondocas poderia se entreter com tamanha banalidade. Mas era a verdade, caramba. Eu pagando uma senhora grana para ficar viajando nas firulas e arabescos de um diploma.
Fechava os olhos e nada. Do nada branco passava para um nada negro e sem saída. E o analista impassível, virado de costas pra mim, cruzando e descruzando as pernas. Aquele silêncio era uma goteira dentro da solitária, uma furadeira de impacto me perfurando os tímpanos.
Outro pensamento recorrente, mas inconfessável naquelas circunstâncias: o que ele, analista, estaria pensando? Conjectura sobre o meu silêncio? Fica ali, caraminholando, empenhado em me livrar de minhas neuroses, ou não vê a hora de dar o tempo regulamentar pra pegar seu cineminha?
Me dei conta de que, além de estar pensando no que estava pensando, estava começando a pensar no que o analista estava pensando de mim. Racionalizava o processo, filtrava, censurava, estragava tudo.
E assim foi, não sei quantas vezes. Os brancos eram cada vez maiores. Vinte, trinta, quarenta minutos sem falar nada. O último deve ter durado uns quarenta e sete, porque logo depois ele me mandou embora.
Se bem me lembro, os três minutos finais foram mais ou menos assim:
- Fala alguma coisa, doutor. Não agüento mais esse silêncio.
Pela enésima vez, ele argumentou:
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
- Estava pensando na música que tocava no rádio enquanto vinha pra cá.
- E você gosta dessa música?
- Detesto.
- Certo. Que mais?
- Sei lá... o que me ocorre agora é que vou ter que comer um hambúrguer pra matar a fome quando sair daqui.
- Hum. Sei, sei.
E sentenciou, depois de longa pausa:
- Talvez o que você encontre aqui não lhe soe bem aos ouvidos, nem lhe caia bem no estômago.
Acertou na mosca. Pra mim bastava, meus fantasmas não eram tão assustadores assim. Encontraria formas mais econômicas de praticar meditação.
- Seus 50 minutos acabaram. Até sexta que vem.
- Até, doutor.
Tá lá me esperando, desde 1992.
Era uma sessão semanal, às sextas e após o trabalho. Rua tranqüila, lugar gostoso, consultório aconchegante. A iluminação indireta, só um abajur com uma lâmpada fraquinha. Sentia-me confortável com o chenile do divã e com a perspectiva de 50 longos minutos para um trato nos miolos. O único problema era justamente esse – os tais 50 minutos cravados eram longos demais. O que para os outros pacientes passava voando, para mim parecia todo o período paleozóico.
O analista seguia a linha ortodoxa, freudiano até a medula. E como todo discípulo empedernido do velho Sigmund, se agarrava aos sonhos, lapsos e associações livres pra ir formando o quebra-cabeças. Nesse caso, o monta-cabeças... Tudo poderia e deveria ser usado como fio de meada para os labirintos insondáveis do inconsciente.
Mas o fato é que o homem não abria a boca. Se havia uma análise em curso naquelas quatro paredes só ele sabia, porque absolutamente não compartilhava com a outra parte interessada. Com receio de perguntar, eu também ficava quieto.
Tenho relativa facilidade de não pensar em nada, quando me é possível desfrutar dessa benção. Tanto que no começo achava bom ficar ali, como um acéfalo, os olhos pregados no teto. Só que tudo tem limite. O tempo passando, o taxímetro correndo e eu olhando aqueles certificados todos na parede. As letras góticas com o nome do doutor. A diferença de desenho do D de um diploma para o D de outro. Um em tinta dourada, outro em nanquim, o de graduação de 1972, o de especialização de 1977, o de mestrado de 1979...
Tomei a iniciativa:
- O senhor não vai dizer nada?
- Quem tem de falar é você.
- Mas vou falar o quê?
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
Dizer que eu estava pensando na letra gótica do diploma era demais. Ou de menos. Nem a mais fútil das dondocas poderia se entreter com tamanha banalidade. Mas era a verdade, caramba. Eu pagando uma senhora grana para ficar viajando nas firulas e arabescos de um diploma.
Fechava os olhos e nada. Do nada branco passava para um nada negro e sem saída. E o analista impassível, virado de costas pra mim, cruzando e descruzando as pernas. Aquele silêncio era uma goteira dentro da solitária, uma furadeira de impacto me perfurando os tímpanos.
Outro pensamento recorrente, mas inconfessável naquelas circunstâncias: o que ele, analista, estaria pensando? Conjectura sobre o meu silêncio? Fica ali, caraminholando, empenhado em me livrar de minhas neuroses, ou não vê a hora de dar o tempo regulamentar pra pegar seu cineminha?
Me dei conta de que, além de estar pensando no que estava pensando, estava começando a pensar no que o analista estava pensando de mim. Racionalizava o processo, filtrava, censurava, estragava tudo.
E assim foi, não sei quantas vezes. Os brancos eram cada vez maiores. Vinte, trinta, quarenta minutos sem falar nada. O último deve ter durado uns quarenta e sete, porque logo depois ele me mandou embora.
Se bem me lembro, os três minutos finais foram mais ou menos assim:
- Fala alguma coisa, doutor. Não agüento mais esse silêncio.
Pela enésima vez, ele argumentou:
- A idéia é dizer o que primeiro vier à mente.
- Estava pensando na música que tocava no rádio enquanto vinha pra cá.
- E você gosta dessa música?
- Detesto.
- Certo. Que mais?
- Sei lá... o que me ocorre agora é que vou ter que comer um hambúrguer pra matar a fome quando sair daqui.
- Hum. Sei, sei.
E sentenciou, depois de longa pausa:
- Talvez o que você encontre aqui não lhe soe bem aos ouvidos, nem lhe caia bem no estômago.
Acertou na mosca. Pra mim bastava, meus fantasmas não eram tão assustadores assim. Encontraria formas mais econômicas de praticar meditação.
- Seus 50 minutos acabaram. Até sexta que vem.
- Até, doutor.
Tá lá me esperando, desde 1992.
Monday, May 01, 2006
TESTAMENTO DE HYPÓLITO RUFINO PEIXOTO
Eu, Hypólito Rufino Peixoto, no gozo de meus direitos e de minhas plenas faculdades mentais, com o intuito de coibir litígios e desavenças acerca do meu espólio, venho de livre e espontânea vontade, por meio deste instrumento, deixar disposta a partilha a meu gosto, conforme abaixo descrito.
À Justina, companheira abnegada e fiel em minha longa enfermidade, deixo uma imensa gratidão, todo o meu afeto, o São Francisco de gesso que fica no corredor, o monóculo com a Nossa Senhora Aparecida, a certidão de casamento e o retrato da lua-de-mel em Poços de Caldas.
Ao meu cunhado Leléu, tido e havido nesta terra como um burro pronto e acabado, deixo minha sela e respectivo arreio, que lhe cairão bem sobre o lombo. À minha irmã Cinira, que gastou a vida a serviço desse viciado em truco, lego rédea e um par de esporas, já que um burro com livre arbítrio é a pior das ameaças à sociedade organizada.
À minha sogra, junto a quem tenho tantas dívidas morais e espirituais, transmito também as dívidas materiais – as já vencidas, as presentes e as que doravante venham a surgir em meu nome, seja como compromissário ou como avalista.
Não abandonarei à própria sorte aqueles que as más línguas chamam de “frutos de união carnal espúria”, ou seja, os bastardinhos que espalhei por essas plagas. Saibam todos que o seu genitor não lhes negará o amparo e o devido quinhão, ainda que hipotecado, na forma de um alqueire e meio de capim-napiê (Pennisetum purpureum), cultivados no sítio.
O celular pré-pago, juntamente com os R$ 4,36 de crédito remanescente, fica para meu capataz Onofre. Uma liberalidade de minha parte para recompensá-lo pelos valorosos préstimos ao longo de 38 anos. Ele que ouviu de mim tantos desaforos, xingamentos intempestivos e acusações levianas, agora merece falar um pouco.
Quanto ao aquário da sala, alvo certo de acirrada disputa, proponho aos herdeiros que amigavelmente se dêem mútua quitação da seguinte forma: Justina fica com os peixes ornamentais, Cinira com a bombinha de ar, Onofre com o filtro, Leléu com o recipiente de vidro e os bastardos com os pedriscos que ficam no fundo.
OUTROS BENS E HAVERES
Suínos e bovinos
Três gomos de lingüiça (de procedência insuspeita e com carimbo do SIF), dois quilos e meio de carne de segunda e mais meia panela de coxão duro duplamente moído, que estão no gavetão de baixo do freezer. Façam disso o melhor e mais rápido proveito que puderem.
Aplicações
Inseticidas, fungicidas e fertilizantes devem continuar sendo aplicados na minha hortinha de almeirão e couve, à proporção de 1:1000. O pulverizador encontra-se na tulha, e não compõe este testamento por estar com a tampa do tanque girando em falso.
Ações
Tanto a ação de despejo, da qual minha família será vítima devido aos aluguéis atrasados, quanto as ações trabalhistas, provavelmente a serem movidas pelo Onofre e seus subordinados, deverão ser administradas pelo meu advogado – que para tanto será regiamente remunerado pela providência divina, em encarnação vindoura.
Grãos estocados em minha propriedade
Uma embalagem de milho para pipoca da marca Yoki, com prazo de validade a esgotar-se em 25 do corrente.
Um tupperware rachado transversalmente, acondicionado em geladeira, contendo feijão preparado na véspera da elaboração deste documento.
Ambos os bens serão partilhados igualmente entre meus herdeiros, legítimos e ilegítimos, em frações ideais de 1/35 (um trinta e cinco avos) para cada um, com escritura definitiva lavrada e registrada em cartório.
Coleções
Todos os meus gibis, do Carlos Zéfiro e do Cebolinha, as Seleções do Reader’s Digest de 1945 a 1961 e os Almanaques do Biotônico Fontoura deverão ser catalogados por bibliotecário habilitado e experiente. Em seguida, esse rico acervo deverá compor a “Fundação Hypólito Rufino Peixoto”, entidade que terá como missão o fomento cultural em nossa região.
Por fim, meu último porém não menos valioso bem: Edileuza, enteada do Zózimo da botica. Teúda e manteúda desde as quartas-de-final da Copa de 70, com casa montada e conta no armazém, não pode ficar à míngua de uma hora para outra. Todos os meus demais pertences, aqui não arrolados, passam com o meu falecimento às suas mãos.
Perdão, Justina, pela fabulosa e imerecida galharia que fiz brotar em sua cabeça, mas não soube refrear os meus instintos frente a tão roliça criatura. Agora está tudo às claras, não há mais nada a esconder. Mas assim como não se chuta cachorro morto, também não se estapeia defunto, Justina. Releve e viva em paz o resto dos seus dias.
À Justina, companheira abnegada e fiel em minha longa enfermidade, deixo uma imensa gratidão, todo o meu afeto, o São Francisco de gesso que fica no corredor, o monóculo com a Nossa Senhora Aparecida, a certidão de casamento e o retrato da lua-de-mel em Poços de Caldas.
Ao meu cunhado Leléu, tido e havido nesta terra como um burro pronto e acabado, deixo minha sela e respectivo arreio, que lhe cairão bem sobre o lombo. À minha irmã Cinira, que gastou a vida a serviço desse viciado em truco, lego rédea e um par de esporas, já que um burro com livre arbítrio é a pior das ameaças à sociedade organizada.
À minha sogra, junto a quem tenho tantas dívidas morais e espirituais, transmito também as dívidas materiais – as já vencidas, as presentes e as que doravante venham a surgir em meu nome, seja como compromissário ou como avalista.
Não abandonarei à própria sorte aqueles que as más línguas chamam de “frutos de união carnal espúria”, ou seja, os bastardinhos que espalhei por essas plagas. Saibam todos que o seu genitor não lhes negará o amparo e o devido quinhão, ainda que hipotecado, na forma de um alqueire e meio de capim-napiê (Pennisetum purpureum), cultivados no sítio.
O celular pré-pago, juntamente com os R$ 4,36 de crédito remanescente, fica para meu capataz Onofre. Uma liberalidade de minha parte para recompensá-lo pelos valorosos préstimos ao longo de 38 anos. Ele que ouviu de mim tantos desaforos, xingamentos intempestivos e acusações levianas, agora merece falar um pouco.
Quanto ao aquário da sala, alvo certo de acirrada disputa, proponho aos herdeiros que amigavelmente se dêem mútua quitação da seguinte forma: Justina fica com os peixes ornamentais, Cinira com a bombinha de ar, Onofre com o filtro, Leléu com o recipiente de vidro e os bastardos com os pedriscos que ficam no fundo.
OUTROS BENS E HAVERES
Suínos e bovinos
Três gomos de lingüiça (de procedência insuspeita e com carimbo do SIF), dois quilos e meio de carne de segunda e mais meia panela de coxão duro duplamente moído, que estão no gavetão de baixo do freezer. Façam disso o melhor e mais rápido proveito que puderem.
Aplicações
Inseticidas, fungicidas e fertilizantes devem continuar sendo aplicados na minha hortinha de almeirão e couve, à proporção de 1:1000. O pulverizador encontra-se na tulha, e não compõe este testamento por estar com a tampa do tanque girando em falso.
Ações
Tanto a ação de despejo, da qual minha família será vítima devido aos aluguéis atrasados, quanto as ações trabalhistas, provavelmente a serem movidas pelo Onofre e seus subordinados, deverão ser administradas pelo meu advogado – que para tanto será regiamente remunerado pela providência divina, em encarnação vindoura.
Grãos estocados em minha propriedade
Uma embalagem de milho para pipoca da marca Yoki, com prazo de validade a esgotar-se em 25 do corrente.
Um tupperware rachado transversalmente, acondicionado em geladeira, contendo feijão preparado na véspera da elaboração deste documento.
Ambos os bens serão partilhados igualmente entre meus herdeiros, legítimos e ilegítimos, em frações ideais de 1/35 (um trinta e cinco avos) para cada um, com escritura definitiva lavrada e registrada em cartório.
Coleções
Todos os meus gibis, do Carlos Zéfiro e do Cebolinha, as Seleções do Reader’s Digest de 1945 a 1961 e os Almanaques do Biotônico Fontoura deverão ser catalogados por bibliotecário habilitado e experiente. Em seguida, esse rico acervo deverá compor a “Fundação Hypólito Rufino Peixoto”, entidade que terá como missão o fomento cultural em nossa região.
Por fim, meu último porém não menos valioso bem: Edileuza, enteada do Zózimo da botica. Teúda e manteúda desde as quartas-de-final da Copa de 70, com casa montada e conta no armazém, não pode ficar à míngua de uma hora para outra. Todos os meus demais pertences, aqui não arrolados, passam com o meu falecimento às suas mãos.
Perdão, Justina, pela fabulosa e imerecida galharia que fiz brotar em sua cabeça, mas não soube refrear os meus instintos frente a tão roliça criatura. Agora está tudo às claras, não há mais nada a esconder. Mas assim como não se chuta cachorro morto, também não se estapeia defunto, Justina. Releve e viva em paz o resto dos seus dias.
Sunday, April 23, 2006
PASTORAL
Pasta o verde da fazenda no amendoal dos teus olhos. Lavoro onírico, delírio que toma corpo e afronta o cansaço-cão. O trem da Mogiana vem chegando e descarrila ao topar com teus desvios. Bifurcadora de sinas, segues gestando tornados. O sol a pedir licença pra se pôr em tua figura. Não há átomo no cosmo que, ao pressentir tua passagem, não fique tomado de espanto e seja teu servo devoto.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no meio daquilo tudo que nos aconteceria.
Evoca, da tua parte, esse tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não, não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.
Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te sonhar também.
Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja "sim", começa que eu acompanho.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no meio daquilo tudo que nos aconteceria.
Evoca, da tua parte, esse tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não, não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.
Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te sonhar também.
Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja "sim", começa que eu acompanho.
Saturday, April 22, 2006
SUPERMERCADO VOLTE SEMPRE
Não tarda e chega de novo a hora dela: a compra de supermercado.
Lá vão os dois. No caminho, o marido vai pensando na série interminável de procedimentos à espera: da prateleira para o carrinho, do carrinho para o caixa, do caixa para o carrinho de novo (com tudo já nas sacolinhas), do carrinho para o porta-malas, do porta-malas para o carrinho do prédio, do carrinho do prédio para a despensa de casa. Haja saco e saquinho de supermercado. Aliás, esses sim, resistem a tudo. Se você colocar mais que uma pasta de dente em cada um, a alça arrebenta.
É assim há 20 anos, todo santo dia 15, a melhor data para a fatura do cartão. Multiplicando-se os 20 anos por 12, temos a fantástica cifra de 240 compras de mês no decorrer do período.
Chegaram. É claro que o carrinho deles tem a roda enguiçada, que fica puxando pra um lado. Enquanto está vazio, tudo bem, quase não dá pra notar o incômodo. Mas à medida que o carrinho vai enchendo, o manobrista vai se enchendo junto. Com o peso das compras, é uma ginástica mantê-lo alinhado.
Um carrinho vazio de supermercado nunca está vazio de tudo. Há sempre um raminho de brócolis esmagado, uma etiqueta de sutiã 54 e outras coisinhas do gênero, que podemos chamar de restos mortais da batalha anterior. Às vezes tem também a lista de compras da pessoa que usou o carrinho antes de você. Aquela listinha bem caseira, dobrada em quatro. Os ítens encontrados estão ticados ou riscados. Pode ser o contrário – o que está na lista é o que ainda tem em casa, pra lembrar de não comprar. Uma dica: se você estiver sem sua listinha pessoal, leia a do usuário anterior. Talvez você se lembre de alguma coisa que tinha esquecido.
Exemplo de lista típica, de autor anônimo:
Guardanapo – trazer 4 do + barato.
Pó de café – ñ comprar.
Bolacha de recheio – tem 2
Pipoca de microondas – pegar aquela do palhacinho, ñ lembro a marca.
E por aí vai. São todas mais ou menos assim.
O locutor anuncia uma oferta relâmpago. Ela lembra quando, em 1992, quase testemunhou o soterramento de uma velhinha num quiosque promocional de leite condensado. No empurra-empurra, entornaram a anciã no mar de latinhas, com as pernas pra cima e as anáguas à mostra.
Olha pra um lado, olha pro outro, ninguém está vendo. E ele devolve o Detefon Mata-Tudo na gôndola do grão-de-bico. Quem não faz isso? Mês passado ele encontrou um par de Havaianas tamanho 41 em cima de um filé de merluza, em oferta a 9,90 o quilo.
Por mais unido que seja, há o momento da separação do casal no supermercado, na seção de cosméticos. Ali a mulher vai passar pelo menos 45 minutos. Sabendo o tempo que vai perder, ele vai para aquele corredor perto das rações de cachorro, onde tem broca, estopa, cera automotiva e chave de fenda. É o habitat do macho de bermuda, camiseta regata, chinelão e barba por fazer. Enfim, um “amor” de homem.
Fim das compras, resta pegar a fila do caixa. Todas estão mais ou menos do mesmo tamanho, é preciso escolher uma. Meia hora depois eles percebem que é justamente essa uma que não anda. Todas as filas vão de vento em popa, menos a deles. É quando eles reparam no crachá da funcionária: “Em Treinamento”. Tá explicado. Azar, agora é tarde pra entrar em outra fila.
Enquanto um vai colocando as coisas na esteira, o outro vai embalando. Mas aí a patroa lembra: “Nossa, esqueci o rodo!”
Que legal. Nada mais prático pra embalar e pra enfiar depois dentro do carro. Lá vai o maridão correndo feito um fugitivo da polícia, atrás do rodo esquecido. Chega lá e se depara com 16 tipos de rodos diferentes: com cabo de madeira, sem cabo de madeira, de alumínio, com borracha grande, com borracha pequena, com duplo borrachão, com triplo borrachão e exclusiva fita deslizante. Pega o que parece mais apresentável e nem olha o preço – a fila está parada, esperando por ele.
Mais surpresas. A água sanitária vazou bem em cima da baguete. O coalho do queijo fresco encharcou o sabão em pó. A cartela de danoninho, que estava lá no fundo, foi impiedosamente massacrada por uma PET Xereta de 2 litros. Acionado o fiscal do estabelecimento, o marido explica a história, diz que não foi culpa dele. Em vão. Vai ter que pagar pelo que fez e que não vai comer. E o pior é que deu perda total, não se salvou uma colherinha do iogurte.
Na saída, cadê o carro? A3, C5, B4? Ficam zanzando a esmo pelo labirinto de automóveis. Encontrado o Corcelzinho, guardam as compras e chegam à cancela.
- Benhê, o cartão do estacionamento.
- Ué, pensei que estava com você...
Inspeção no porta-luvas, embaixo dos bancos, no pára-sol, nos bolsos, na bolsa...
Pensa que acabou? Imagina. É como diz o saquinho – “Volte Sempre”. Dia 15 do mês que vem tem mais.
Lá vão os dois. No caminho, o marido vai pensando na série interminável de procedimentos à espera: da prateleira para o carrinho, do carrinho para o caixa, do caixa para o carrinho de novo (com tudo já nas sacolinhas), do carrinho para o porta-malas, do porta-malas para o carrinho do prédio, do carrinho do prédio para a despensa de casa. Haja saco e saquinho de supermercado. Aliás, esses sim, resistem a tudo. Se você colocar mais que uma pasta de dente em cada um, a alça arrebenta.
É assim há 20 anos, todo santo dia 15, a melhor data para a fatura do cartão. Multiplicando-se os 20 anos por 12, temos a fantástica cifra de 240 compras de mês no decorrer do período.
Chegaram. É claro que o carrinho deles tem a roda enguiçada, que fica puxando pra um lado. Enquanto está vazio, tudo bem, quase não dá pra notar o incômodo. Mas à medida que o carrinho vai enchendo, o manobrista vai se enchendo junto. Com o peso das compras, é uma ginástica mantê-lo alinhado.
Um carrinho vazio de supermercado nunca está vazio de tudo. Há sempre um raminho de brócolis esmagado, uma etiqueta de sutiã 54 e outras coisinhas do gênero, que podemos chamar de restos mortais da batalha anterior. Às vezes tem também a lista de compras da pessoa que usou o carrinho antes de você. Aquela listinha bem caseira, dobrada em quatro. Os ítens encontrados estão ticados ou riscados. Pode ser o contrário – o que está na lista é o que ainda tem em casa, pra lembrar de não comprar. Uma dica: se você estiver sem sua listinha pessoal, leia a do usuário anterior. Talvez você se lembre de alguma coisa que tinha esquecido.
Exemplo de lista típica, de autor anônimo:
Guardanapo – trazer 4 do + barato.
Pó de café – ñ comprar.
Bolacha de recheio – tem 2
Pipoca de microondas – pegar aquela do palhacinho, ñ lembro a marca.
E por aí vai. São todas mais ou menos assim.
O locutor anuncia uma oferta relâmpago. Ela lembra quando, em 1992, quase testemunhou o soterramento de uma velhinha num quiosque promocional de leite condensado. No empurra-empurra, entornaram a anciã no mar de latinhas, com as pernas pra cima e as anáguas à mostra.
Olha pra um lado, olha pro outro, ninguém está vendo. E ele devolve o Detefon Mata-Tudo na gôndola do grão-de-bico. Quem não faz isso? Mês passado ele encontrou um par de Havaianas tamanho 41 em cima de um filé de merluza, em oferta a 9,90 o quilo.
Por mais unido que seja, há o momento da separação do casal no supermercado, na seção de cosméticos. Ali a mulher vai passar pelo menos 45 minutos. Sabendo o tempo que vai perder, ele vai para aquele corredor perto das rações de cachorro, onde tem broca, estopa, cera automotiva e chave de fenda. É o habitat do macho de bermuda, camiseta regata, chinelão e barba por fazer. Enfim, um “amor” de homem.
Fim das compras, resta pegar a fila do caixa. Todas estão mais ou menos do mesmo tamanho, é preciso escolher uma. Meia hora depois eles percebem que é justamente essa uma que não anda. Todas as filas vão de vento em popa, menos a deles. É quando eles reparam no crachá da funcionária: “Em Treinamento”. Tá explicado. Azar, agora é tarde pra entrar em outra fila.
Enquanto um vai colocando as coisas na esteira, o outro vai embalando. Mas aí a patroa lembra: “Nossa, esqueci o rodo!”
Que legal. Nada mais prático pra embalar e pra enfiar depois dentro do carro. Lá vai o maridão correndo feito um fugitivo da polícia, atrás do rodo esquecido. Chega lá e se depara com 16 tipos de rodos diferentes: com cabo de madeira, sem cabo de madeira, de alumínio, com borracha grande, com borracha pequena, com duplo borrachão, com triplo borrachão e exclusiva fita deslizante. Pega o que parece mais apresentável e nem olha o preço – a fila está parada, esperando por ele.
Mais surpresas. A água sanitária vazou bem em cima da baguete. O coalho do queijo fresco encharcou o sabão em pó. A cartela de danoninho, que estava lá no fundo, foi impiedosamente massacrada por uma PET Xereta de 2 litros. Acionado o fiscal do estabelecimento, o marido explica a história, diz que não foi culpa dele. Em vão. Vai ter que pagar pelo que fez e que não vai comer. E o pior é que deu perda total, não se salvou uma colherinha do iogurte.
Na saída, cadê o carro? A3, C5, B4? Ficam zanzando a esmo pelo labirinto de automóveis. Encontrado o Corcelzinho, guardam as compras e chegam à cancela.
- Benhê, o cartão do estacionamento.
- Ué, pensei que estava com você...
Inspeção no porta-luvas, embaixo dos bancos, no pára-sol, nos bolsos, na bolsa...
Pensa que acabou? Imagina. É como diz o saquinho – “Volte Sempre”. Dia 15 do mês que vem tem mais.
Monday, April 10, 2006
MENSAGEM PARA VC, BILL.
Pois é, Bill. Se tem alguém que se DEL bem na vida, esse alguém é VC. Quem diria que ao ABRIR aquele pequeno negócio na garagem da sua HOME você iria chegar aonde chegou - o homem mais rico do mundo, cheio de PROPRIEDADES. É só dar um OUTLOOK em sua mansão pra perceber o UPGRADE. Nada MOUSE... Seu HISTÓRICO é realmente invejável.
Mas francamente, tem hora que dá vontade de jogar seu WINDOWS pela JANELA. Nosso ERRO foi crer que poderíamos confiar cegamente no seu SISTEMA OPERACIONAL. O fato é que estamos com o DISCO CHEIO dessa sua invenção.
O mundo está em suas mãos, Bill. Independente de ideologia: quem é ALINHADO À ESQUERDA, quem é ALINHADO À DIREITA e até mesmo os CENTRALIZADOS. Como JUSTIFICAR então essa FALHA GERAL NO MÓDULO DLL? Com tanto poder, dinheiro e tecnologia, será que não há E-MAIL de MINIMIZAR esse problema?
Você nos prometeu o EXCEL, mas vivemos num inferno. Acreditamos no seu WORD e agora estamos sem palavras. De TABELA, somos obrigados a conviver com uma FONTE inesgotável de ATUALIZAÇÕES. Caso contrário, o computador REINICIA antes mesmo de ligar.
Às vezes tento apelar para o meu Santo PROTETOR DE TELA. Mas ele me deixa ao Deus dará, olhando feito bobo para o PAPEL DE PAREDE. Outras vezes procuro desesperadamente LOCALIZAR aquele ARQUIVO e nada. Nem pedindo AJUDA a São LOGIN para encontrar. Onde estará? Aí a gente dá um tempo e DOWNLOAD pra refrescar a MEMÓRIA. Não tem jeito. O DOCUMENTO está perdido. E perder um documento no Windows, Bill, é mil vezes pior que perder o RG, o CPF e a carteira de habilitação na rua.
Agora responda, Bill: me SALVAR COMO? Fico a ponto de EXECUTAR UMA OPERAÇÃO ILEGAL, utilizando programa pirata só de sacanagem, pra me vingar mesmo. Um amigo meu bem que tentou instalar um XP do camelódromo na máquina dele, mas na hora HDeu pau.
Enquanto isso, aguardamos a próxima aVERSÃO do seu programa. Com a nítida IMPRESSÃO de que ela será apenas um COPIAR e COLAR da versão anterior. A única diferença será o plantel de VÍRUS, que no mínimo deverá triplicar.
Isto posto, despeço-me jurando jamais adicioná-lo aos FAVORITOS. Espero que muito em breve possa lançar você, seus SOFTWARES e seus ASSISTENTES invasivos e imprestáveis à LIXEIRA. Esse sim, um utilitário altamente seguro e confiável.
P.S.: Nem tente me responder, pois estarei OFF-LINE. Pode desistir também de dar BUSCA na internet ou na lista telefônica, pois vou me RENOMEAR. Ou fazer um auto-BACKUP, para confundir e burlar a vigilância de seus controles e sistemas. É, vou dar um BOOT na máquina e pegar um ATALHO pra alguma praia deserta, que não tenha CONEXÃO com nada. Lá estarei em REDE, bebendo uma água de coco.
Mas francamente, tem hora que dá vontade de jogar seu WINDOWS pela JANELA. Nosso ERRO foi crer que poderíamos confiar cegamente no seu SISTEMA OPERACIONAL. O fato é que estamos com o DISCO CHEIO dessa sua invenção.
O mundo está em suas mãos, Bill. Independente de ideologia: quem é ALINHADO À ESQUERDA, quem é ALINHADO À DIREITA e até mesmo os CENTRALIZADOS. Como JUSTIFICAR então essa FALHA GERAL NO MÓDULO DLL? Com tanto poder, dinheiro e tecnologia, será que não há E-MAIL de MINIMIZAR esse problema?
Você nos prometeu o EXCEL, mas vivemos num inferno. Acreditamos no seu WORD e agora estamos sem palavras. De TABELA, somos obrigados a conviver com uma FONTE inesgotável de ATUALIZAÇÕES. Caso contrário, o computador REINICIA antes mesmo de ligar.
Às vezes tento apelar para o meu Santo PROTETOR DE TELA. Mas ele me deixa ao Deus dará, olhando feito bobo para o PAPEL DE PAREDE. Outras vezes procuro desesperadamente LOCALIZAR aquele ARQUIVO e nada. Nem pedindo AJUDA a São LOGIN para encontrar. Onde estará? Aí a gente dá um tempo e DOWNLOAD pra refrescar a MEMÓRIA. Não tem jeito. O DOCUMENTO está perdido. E perder um documento no Windows, Bill, é mil vezes pior que perder o RG, o CPF e a carteira de habilitação na rua.
Agora responda, Bill: me SALVAR COMO? Fico a ponto de EXECUTAR UMA OPERAÇÃO ILEGAL, utilizando programa pirata só de sacanagem, pra me vingar mesmo. Um amigo meu bem que tentou instalar um XP do camelódromo na máquina dele, mas na hora HDeu pau.
Enquanto isso, aguardamos a próxima aVERSÃO do seu programa. Com a nítida IMPRESSÃO de que ela será apenas um COPIAR e COLAR da versão anterior. A única diferença será o plantel de VÍRUS, que no mínimo deverá triplicar.
Isto posto, despeço-me jurando jamais adicioná-lo aos FAVORITOS. Espero que muito em breve possa lançar você, seus SOFTWARES e seus ASSISTENTES invasivos e imprestáveis à LIXEIRA. Esse sim, um utilitário altamente seguro e confiável.
P.S.: Nem tente me responder, pois estarei OFF-LINE. Pode desistir também de dar BUSCA na internet ou na lista telefônica, pois vou me RENOMEAR. Ou fazer um auto-BACKUP, para confundir e burlar a vigilância de seus controles e sistemas. É, vou dar um BOOT na máquina e pegar um ATALHO pra alguma praia deserta, que não tenha CONEXÃO com nada. Lá estarei em REDE, bebendo uma água de coco.
LÚCIA FOI PARA O CÉU
Era uma vez a recatada Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!
E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.
Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.
E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.
Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.
Sunday, March 19, 2006
DESCLASSIFICADOS
KARMAN GHIA ESPIRITUAL
Resolve qualquer tipo de atrapalhação – saúde, trabalho, amor. Desencapetamento de adultos, crianças e velhinhos. Desmancha instantaneamente trabalho e coisa feita. Lê búzios, tarô, mão, Machado de Assis, Paulo Coelho e Sidney Sheldon.
BLAZER AZUL METÁLICO, NA GARANTIA
De veludo, tamanho M, caimento perfeito. Pequena mancha na gola.
CARRO DE MÉDICO
Ambulância com pouco uso. Cor branca, cruz vermelha na traseira, sirene com 15 toques diferentes. Doa-se a quem doer.
RARIDADE
Decavê com trio elétrico. Tratar com Armandinho, Dodô ou Osmar.
MARIDÃO ZERO (À ESQUERDA)
Ano 67, anda em ponto morto. Na hora de trocar o óleo, só pega no tranco. Única dona, IPVA pago, test-drive de uma semana a quem se habilitar.
IMÓVEL NO LITORAL
Castelo de areia, 18 quartos, estilo medieval, em fase de acabamento. Frente para o mar.
CASA VERDE
Na Água Branca. Bela Vista, vale a Penha.
ALUGO VÁRIAS CASINHAS DE VILA
Tratar com Sr. Barriga. Chaves no local.
LOCADORA
Procura inquilino para aventura, romance, drama, comédia, suspense e, havendo afinidade, sexo explícito.
ADEUS, PATRÃO
Ganhe até R$26.000 por mês preenchendo envelopes. Oferecemos ótima oportunidade de carreira. Exigimos sigilo absoluto em relação ao conteúdo dos envelopes.
APRENDA INGLÊS DORMINDO
E lembre-se de tudo quando acordar. Ainda restam 18 leitos vagos para as turmas de conversação, inglês para viagem, business e pré-intermediário. Traga seu travesseiro e assista a uma aula sem compromisso.
LIMPO SEU NOME
Lavagem completa com máquina de alta pressão. Polimento com cera e cristalização. Seis meses de garantia, equipe especializada.
PROCURA-SE BUROCRATA BILÍNGÜE
Para ficar chupando dois lápis ao mesmo tempo no horário de expediente. Obs: necessário dormir no emprego.
GALINHA MORTA
Vende-se inteira ou em partes.
PERCA PESO
Dieta da garapa – método revolucionário. Kit para 15 dias, contendo meio caminhão de cana e uma mini-moenda movida a pilha.
ELIMINAÇÃO DE CUPINS
Sua geladeira está cheia de cupins? Exterminamos todos em 24 horas. Saúde e boa forma para você e toda a família.
EXCURSÃO
5 dias e 4 noites na Faixa de Gaza. Inclui traslado aeroporto-hotel-cemitério, em carro-bomba com ar condicionado.
AGRADEÇO A SANTO HILÁRIO
Pela gracinha alcançada (tinha perdido e a encontrei ontem, debaixo do sofá). Hebe Camargo.
REMÉDIO PARA CALVÍCIE
Em 5x sem entrada. Asseguramos que os pré-datados só caem se o seu cabelo parar de cair.
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Coleção completa. Só vendo. Pagamento à vista.
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Sem passivo, mais de 500 clientes ativos.
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CACHORRO PERDIDO
Tem focinho, quatro patas, dois olhos, rabo e um sinal característico: possui pelos por todo o corpo. Criança doente (contraiu raiva do animal). Se alguém encontrá-lo, cuidado.
Resolve qualquer tipo de atrapalhação – saúde, trabalho, amor. Desencapetamento de adultos, crianças e velhinhos. Desmancha instantaneamente trabalho e coisa feita. Lê búzios, tarô, mão, Machado de Assis, Paulo Coelho e Sidney Sheldon.
BLAZER AZUL METÁLICO, NA GARANTIA
De veludo, tamanho M, caimento perfeito. Pequena mancha na gola.
CARRO DE MÉDICO
Ambulância com pouco uso. Cor branca, cruz vermelha na traseira, sirene com 15 toques diferentes. Doa-se a quem doer.
RARIDADE
Decavê com trio elétrico. Tratar com Armandinho, Dodô ou Osmar.
MARIDÃO ZERO (À ESQUERDA)
Ano 67, anda em ponto morto. Na hora de trocar o óleo, só pega no tranco. Única dona, IPVA pago, test-drive de uma semana a quem se habilitar.
IMÓVEL NO LITORAL
Castelo de areia, 18 quartos, estilo medieval, em fase de acabamento. Frente para o mar.
CASA VERDE
Na Água Branca. Bela Vista, vale a Penha.
ALUGO VÁRIAS CASINHAS DE VILA
Tratar com Sr. Barriga. Chaves no local.
LOCADORA
Procura inquilino para aventura, romance, drama, comédia, suspense e, havendo afinidade, sexo explícito.
ADEUS, PATRÃO
Ganhe até R$26.000 por mês preenchendo envelopes. Oferecemos ótima oportunidade de carreira. Exigimos sigilo absoluto em relação ao conteúdo dos envelopes.
APRENDA INGLÊS DORMINDO
E lembre-se de tudo quando acordar. Ainda restam 18 leitos vagos para as turmas de conversação, inglês para viagem, business e pré-intermediário. Traga seu travesseiro e assista a uma aula sem compromisso.
LIMPO SEU NOME
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GALINHA MORTA
Vende-se inteira ou em partes.
PERCA PESO
Dieta da garapa – método revolucionário. Kit para 15 dias, contendo meio caminhão de cana e uma mini-moenda movida a pilha.
ELIMINAÇÃO DE CUPINS
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HAPPY FAMILY
A casa perfeita da família feliz recebia, de dois em dois anos, uma demão de tinta na parte externa e nos madeiramentos. A cada seis meses, dedetização e limpeza da caixa d’água. De 45 em 45 dias, o jardineiro para aparar a grama. Diariamente, a perua escolar e suas duas buzinadinhas regulamentares para buscar filhinho e filhinha.
Havia pichações por todo o bairro, menos no imenso muro caiado da casa feliz. Nem sinal de sujeira de pomba, fuligem de queimada ou formigueiro. Asséptica e harmônica em suas formas, a casa feliz era quase música, uma figura etérea em meio à feiúra do quarteirão. Tinha chaminé, cerquinha, floreiras nas janelas e o caminhozinho sinuoso que saía da porta em direção à rua.
Como de hábito, após dar lustro à coleção de miniaturas papai colocava os planos familiares em planilhas do Excel. Ali ficava horas com seus cálculos e projeções. Mamãe evocava a proteção divina em preces e cânticos. Depois, recolhia as roupas do varal com altivez de matriarca honesta, realizada por dar conta do seu fardo. No armário, as camisas pólo de filhinho eram empilhadas por cores, em nuances que iam do vermelho vivo ao bege claro. As pretas e as brancas ficavam em gavetas separadas. Papai mantinha a caixa de ferramentas providencialmente organizada, com um sortido estoque de brocas e buchas. Sobre o rack, o controle do som, o controle do vídeo e o controle da vida ao alcance da mão. No lavabo e nos banheiros as toalhas eram rosa, com monogramas bordados.
As fotos da família feliz eram acondicionadas em compartimentos, de acordo com o tipo de comemoração: casamento, batizados, formaturas, aniversários, natais e férias. Ao lado da caixa de retratos, canhotos de talões de cheque acumulados desde 1981, recibos de contas pagas, cópias de declarações de imposto de renda, boletins escolares.
Era com nítido orgulho que filhinho se projetava alistando-se aos 18. Filhinha, por sua vez, gastava folhas e mais folhas de papel vegetal a desenhar grinaldas e buquês de noiva. Na casa perfeita, ao romper da aurora, a família fazia seu desjejum com farinha láctea, mel e mamão papaia. Verduras hidropônicas e legumes sem agrotóxicos faziam as delícias do almoço e do jantar. Mais ou menos por essa época, filhinha foi debutante e filhinho escoteiro.
A felicidade, ali, se alastrava como fogo em mato seco. Vizinho nenhum jamais ouviu um palavrão saído de dentro daquela casa. Nem um “cala a boca”, um “anda logo”, um “caramba” ou coisa assim. O carro estava sempre limpo e a mecânica em ótimo estado. Todas as revisões feitas nas quilometragens e prazos recomendados pelo fabricante. Dizem as más línguas que um dia, em outubro de 1993, papai esqueceu o guarda-chuva em casa. Mas um boy da firma logo apareceu para buscar.
Por volta das três – com margem de tolerância de cinco minutos, para mais ou para menos, filhinha sentava-se ao piano e interpretava com doçura e sentimento uma peça de Clementi. Não constam registros de estouros de champanhe, gritos de gol ou fumaça de churrasco vindos da casa perfeita da família feliz. Eram três, e não mais que três, as ocasiões semanais em que todos saíam juntos: para o culto dominical, para a visita aos pais de mamãe e para divertirem-se a valer vendo os aviões pousando no aeroporto.
No aconchego daquelas quatro paredes, os narizes eram assoados silenciosamente, o piso era encerado com regularidade monástica, os travesseiros exalavam a alfazema mais pura desse mundo. As contas nunca eram pagas na data de vencimento - no mais tardar dois dias antes. Os vestidos de mamãe eram todos 4 dedos abaixo do joelho. Os cachimbos de papai eram escovados e acondicionados em saquinhos de veludo. Filhinho não sabia o que era cotovelo ralado. Filhinha não sabia o que era amasso no portão. Mamãe era professora mas não exercia a profissão. A familia feliz sabia que roupa suja se lava em casa, mas nunca havia roupa suja para se lavar. Papai e mamãe não se esqueciam e se saudavam mutuamente no aniversario de noivado. Com menos entusiasmo que no aniversário de casamento e mais calorosamente que no aniversário de namoro. Por sua conduta exemplar, papai foi várias vezes convocado a compor júri no fórum. Era sócio benemérito do conselho para o bem-estar comunitário. Mamãe colaborava com as obras do berço.
Um belo dia papai reuniu a família feliz, pegou os 20 metros de pisca-pisca natalino guardados numa gaveta da edícula, dividiu-os em 4 partes de 5 metros, distribuiu uma parte para cada um. Foram os quatro encontrados na sala de estar, os corpos dispostos de maneira simétrica e em ordem cronológica decrescente.
Havia pichações por todo o bairro, menos no imenso muro caiado da casa feliz. Nem sinal de sujeira de pomba, fuligem de queimada ou formigueiro. Asséptica e harmônica em suas formas, a casa feliz era quase música, uma figura etérea em meio à feiúra do quarteirão. Tinha chaminé, cerquinha, floreiras nas janelas e o caminhozinho sinuoso que saía da porta em direção à rua.
Como de hábito, após dar lustro à coleção de miniaturas papai colocava os planos familiares em planilhas do Excel. Ali ficava horas com seus cálculos e projeções. Mamãe evocava a proteção divina em preces e cânticos. Depois, recolhia as roupas do varal com altivez de matriarca honesta, realizada por dar conta do seu fardo. No armário, as camisas pólo de filhinho eram empilhadas por cores, em nuances que iam do vermelho vivo ao bege claro. As pretas e as brancas ficavam em gavetas separadas. Papai mantinha a caixa de ferramentas providencialmente organizada, com um sortido estoque de brocas e buchas. Sobre o rack, o controle do som, o controle do vídeo e o controle da vida ao alcance da mão. No lavabo e nos banheiros as toalhas eram rosa, com monogramas bordados.
As fotos da família feliz eram acondicionadas em compartimentos, de acordo com o tipo de comemoração: casamento, batizados, formaturas, aniversários, natais e férias. Ao lado da caixa de retratos, canhotos de talões de cheque acumulados desde 1981, recibos de contas pagas, cópias de declarações de imposto de renda, boletins escolares.
Era com nítido orgulho que filhinho se projetava alistando-se aos 18. Filhinha, por sua vez, gastava folhas e mais folhas de papel vegetal a desenhar grinaldas e buquês de noiva. Na casa perfeita, ao romper da aurora, a família fazia seu desjejum com farinha láctea, mel e mamão papaia. Verduras hidropônicas e legumes sem agrotóxicos faziam as delícias do almoço e do jantar. Mais ou menos por essa época, filhinha foi debutante e filhinho escoteiro.
A felicidade, ali, se alastrava como fogo em mato seco. Vizinho nenhum jamais ouviu um palavrão saído de dentro daquela casa. Nem um “cala a boca”, um “anda logo”, um “caramba” ou coisa assim. O carro estava sempre limpo e a mecânica em ótimo estado. Todas as revisões feitas nas quilometragens e prazos recomendados pelo fabricante. Dizem as más línguas que um dia, em outubro de 1993, papai esqueceu o guarda-chuva em casa. Mas um boy da firma logo apareceu para buscar.
Por volta das três – com margem de tolerância de cinco minutos, para mais ou para menos, filhinha sentava-se ao piano e interpretava com doçura e sentimento uma peça de Clementi. Não constam registros de estouros de champanhe, gritos de gol ou fumaça de churrasco vindos da casa perfeita da família feliz. Eram três, e não mais que três, as ocasiões semanais em que todos saíam juntos: para o culto dominical, para a visita aos pais de mamãe e para divertirem-se a valer vendo os aviões pousando no aeroporto.
No aconchego daquelas quatro paredes, os narizes eram assoados silenciosamente, o piso era encerado com regularidade monástica, os travesseiros exalavam a alfazema mais pura desse mundo. As contas nunca eram pagas na data de vencimento - no mais tardar dois dias antes. Os vestidos de mamãe eram todos 4 dedos abaixo do joelho. Os cachimbos de papai eram escovados e acondicionados em saquinhos de veludo. Filhinho não sabia o que era cotovelo ralado. Filhinha não sabia o que era amasso no portão. Mamãe era professora mas não exercia a profissão. A familia feliz sabia que roupa suja se lava em casa, mas nunca havia roupa suja para se lavar. Papai e mamãe não se esqueciam e se saudavam mutuamente no aniversario de noivado. Com menos entusiasmo que no aniversário de casamento e mais calorosamente que no aniversário de namoro. Por sua conduta exemplar, papai foi várias vezes convocado a compor júri no fórum. Era sócio benemérito do conselho para o bem-estar comunitário. Mamãe colaborava com as obras do berço.
Um belo dia papai reuniu a família feliz, pegou os 20 metros de pisca-pisca natalino guardados numa gaveta da edícula, dividiu-os em 4 partes de 5 metros, distribuiu uma parte para cada um. Foram os quatro encontrados na sala de estar, os corpos dispostos de maneira simétrica e em ordem cronológica decrescente.
Sunday, February 26, 2006
OBITUÁRIO CARNAVALESCO
DIÓGENES CAPISTRANO MATOS
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.
JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).
ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.
CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Deixa marido, filhos, sobrinhos, netos e uma amiga inconsolável, a jardineira.
GENERAL ANTONIO FELISBINO DE ANDRADE
Aos 67, a serviço da pátria. Após combater heroicamente numa batalha de confete, foi encontrado na sarjeta com a boca cheia do produto. Sepultado com honras militares, teve seu caixão envolto por uma bandeira branca.
PEDRO SILVESTRE RONQUIN
Aos 60, mordido por uma serpentina venenosa. Enfermeiros tentaram reanimá-lo com a inalação de um aromatizador de ambientes, sem sucesso.
JOVALDO ROSSETTO (VULGO DUM-DUM)
Aos 28, atropelado por um carro alegórico na dispersão do desfile das escolas do grupo especial. O indivíduo veio a óbito após confusão causada por uma briga feia entre o Rei Momo e a Terça-Feira Gorda.
CHIQUITA BACANA
Aos 66, de tombo. Testemunhas afirmam tê-la visto escorregando numa casca de banana nanica.
ANDRÉ FERREIRA VASQUEZ
Aos 97, queimado. Seu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo! O corpo de bombeiros foi acionado, porém o moribundo não teve tempo de ver a Mangueira entrar.
RUBIÃO VICENTE DE RAMOS VEIGA
Aos 70, vítima de assalto. Ao ouvir o bandido dizer: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, ele teria respondido que não ia dar, não ia dar não. Deu no que deu.
GEORGE BUSH
Aos 61, enforcado em um cordão de foliões. Para decepção dos populares que cercavam o corpo, constatou-se que se tratava de um desconhecido com uma máscara do Bush, comprada na rodoviária. Foi enterrado como indigente.
TATIANA NEVSKY
Aos 4, de inanição, na matinê infantil. A garotinha gritava “Mamãe, eu quero mamar”, mas a genitora, empolgada com o ziriguidum, não conseguia ouvir seus berros.
DENIVALDO GALVÃO DE MORAES ANTIBES
Aos 35, de hemorragia. Foi atingido por um bloco, enquanto sambava próximo a uma obra. Entre os componentes do bloco foram encontrados areia, cimento, pedra e ferro. Detidos para averiguações, todos negaram veementemente qualquer envolvimento com o caso.
JOÃOZINHO
Aos 30, bicado por um beija-flor.
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.
JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).
ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.
CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Deixa marido, filhos, sobrinhos, netos e uma amiga inconsolável, a jardineira.
GENERAL ANTONIO FELISBINO DE ANDRADE
Aos 67, a serviço da pátria. Após combater heroicamente numa batalha de confete, foi encontrado na sarjeta com a boca cheia do produto. Sepultado com honras militares, teve seu caixão envolto por uma bandeira branca.
PEDRO SILVESTRE RONQUIN
Aos 60, mordido por uma serpentina venenosa. Enfermeiros tentaram reanimá-lo com a inalação de um aromatizador de ambientes, sem sucesso.
JOVALDO ROSSETTO (VULGO DUM-DUM)
Aos 28, atropelado por um carro alegórico na dispersão do desfile das escolas do grupo especial. O indivíduo veio a óbito após confusão causada por uma briga feia entre o Rei Momo e a Terça-Feira Gorda.
CHIQUITA BACANA
Aos 66, de tombo. Testemunhas afirmam tê-la visto escorregando numa casca de banana nanica.
ANDRÉ FERREIRA VASQUEZ
Aos 97, queimado. Seu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo! O corpo de bombeiros foi acionado, porém o moribundo não teve tempo de ver a Mangueira entrar.
RUBIÃO VICENTE DE RAMOS VEIGA
Aos 70, vítima de assalto. Ao ouvir o bandido dizer: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, ele teria respondido que não ia dar, não ia dar não. Deu no que deu.
GEORGE BUSH
Aos 61, enforcado em um cordão de foliões. Para decepção dos populares que cercavam o corpo, constatou-se que se tratava de um desconhecido com uma máscara do Bush, comprada na rodoviária. Foi enterrado como indigente.
TATIANA NEVSKY
Aos 4, de inanição, na matinê infantil. A garotinha gritava “Mamãe, eu quero mamar”, mas a genitora, empolgada com o ziriguidum, não conseguia ouvir seus berros.
DENIVALDO GALVÃO DE MORAES ANTIBES
Aos 35, de hemorragia. Foi atingido por um bloco, enquanto sambava próximo a uma obra. Entre os componentes do bloco foram encontrados areia, cimento, pedra e ferro. Detidos para averiguações, todos negaram veementemente qualquer envolvimento com o caso.
JOÃOZINHO
Aos 30, bicado por um beija-flor.
31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)
Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes.
- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranqüilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Que mulher vai aceitar que você passe a virada do milênio com quatro barbados ao invés de ficar com a família? E quatro barbados carecas, porque até lá...
- Bom, por mim, tá feito.
- Eu também topo. Pode redigir uma ata e botar meu nome que eu assino.
Eles cinco, a panelinha inseparável, estavam tramando de se encontrarem à meia noite do dia 31 de dezembro de 1999, na praça do coreto. Passagem de ano, de década, de século e de milênio (não exatamente de século e de milênio, mas a data era emblemática). Dezenove anos depois. Eu não conseguia imaginar aquele reencontro. Era amigo dos cinco, mas não era exatamente da turma. Tanto que eles não me incluíram no pacto.
(Coloque aí na sua telinha um efeito especial de passagem de tempo. Velhas casas de família viram prédios. Os Corcéis, Opalas e Brasílias agora são Vectras, Fiestas e Golfs. A imagem em sépia fica colorida. E aparece aquele texto bem manjado no rodapé do vídeo: “19 anos depois”...)
Por nada nesse mundo eu poderia perder aquela cena. Queria assistir de longe, ver sem ser visto, estava de bicão naquela festa privê. Depois do encontro me juntaria a eles. A hora da virada chegou e me pegou sozinho ali na praça. Meia-noite, nada. Meia-noite e meia, nada. Ninguém apareceu. Só eu, a testemunha intrometida, o que não era pra estar lá. Decidi ficar mais uns cinco minutos, até dar uma da manhã e ter certeza de que não apareceria mesmo ninguém. Era horário de verão. Será que estava valendo o horário antigo? Se fosse assim a coisa tinha acontecido às onze da noite e talvez já tivessem ido embora. Foi quando surgiu um rapazinho, de jeans e camiseta branca, meio ofegante. Sentou-se num dos bancos, olhou para os lados, consultou o relógio, esperou. Os cabelos longos e lisos, os olhos amendoados, as pernas finas. Claro, era o Tavito. Em qualquer lugar do mundo o reconheceria.
Saí do meu posto de observação e fui até ele.
- Tavito!
-
Não era possível, o tempo não tinha passado pra ele. A mesma cara, nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. O Tavito me olhava com um jeito de quem não estava entendendo nada.
- Sou o filho dele. Meu pai morreu quando eu era criança. Deixou uma carta lacrada, que só deveria ser aberta ontem, dizendo que tinha um encontro marcado com seus melhores amigos hoje à meia-noite, aqui nesta praça. Se por algum motivo ele não pudesse vir, eu deveria representá-lo. O senhor deve ser um deles...
Logo ele, o Tavito. Dos cinco, o mais descrente do pacto. O único a honrá-lo, mesmo morto.
- E os outros três, já foram?
Sentei ao seu lado e expliquei a história e minha condição de testemunha. Depois ficamos ali, madrugada adentro, à espera dos quatro ausentes. Uns fogos estouravam ao longe, carros passavam pela pracinha buzinando, grupos de branco iam em direção ao clube. Falei da linha do trem, que antes dele nascer cortava a cidade de fora a fora. Comentei como o pai dele era bom de natação, os campeonatos que ganhou, o sucesso que fazia com a mulherada. Os porres que tomamos, os aventais brancos que vestíamos na escola. Ele me contou do acidente de avião, do trauma da perda, do segundo casamento da mãe. Eu escutava, mas não ouvia. Divagava, vendo em sua boca os lábios do pai dele me sussurrando as respostas da prova de biologia.
- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranqüilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Que mulher vai aceitar que você passe a virada do milênio com quatro barbados ao invés de ficar com a família? E quatro barbados carecas, porque até lá...
- Bom, por mim, tá feito.
- Eu também topo. Pode redigir uma ata e botar meu nome que eu assino.
Eles cinco, a panelinha inseparável, estavam tramando de se encontrarem à meia noite do dia 31 de dezembro de 1999, na praça do coreto. Passagem de ano, de década, de século e de milênio (não exatamente de século e de milênio, mas a data era emblemática). Dezenove anos depois. Eu não conseguia imaginar aquele reencontro. Era amigo dos cinco, mas não era exatamente da turma. Tanto que eles não me incluíram no pacto.
(Coloque aí na sua telinha um efeito especial de passagem de tempo. Velhas casas de família viram prédios. Os Corcéis, Opalas e Brasílias agora são Vectras, Fiestas e Golfs. A imagem em sépia fica colorida. E aparece aquele texto bem manjado no rodapé do vídeo: “19 anos depois”...)
Por nada nesse mundo eu poderia perder aquela cena. Queria assistir de longe, ver sem ser visto, estava de bicão naquela festa privê. Depois do encontro me juntaria a eles. A hora da virada chegou e me pegou sozinho ali na praça. Meia-noite, nada. Meia-noite e meia, nada. Ninguém apareceu. Só eu, a testemunha intrometida, o que não era pra estar lá. Decidi ficar mais uns cinco minutos, até dar uma da manhã e ter certeza de que não apareceria mesmo ninguém. Era horário de verão. Será que estava valendo o horário antigo? Se fosse assim a coisa tinha acontecido às onze da noite e talvez já tivessem ido embora. Foi quando surgiu um rapazinho, de jeans e camiseta branca, meio ofegante. Sentou-se num dos bancos, olhou para os lados, consultou o relógio, esperou. Os cabelos longos e lisos, os olhos amendoados, as pernas finas. Claro, era o Tavito. Em qualquer lugar do mundo o reconheceria.
Saí do meu posto de observação e fui até ele.
- Tavito!
-
Não era possível, o tempo não tinha passado pra ele. A mesma cara, nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. O Tavito me olhava com um jeito de quem não estava entendendo nada.
- Sou o filho dele. Meu pai morreu quando eu era criança. Deixou uma carta lacrada, que só deveria ser aberta ontem, dizendo que tinha um encontro marcado com seus melhores amigos hoje à meia-noite, aqui nesta praça. Se por algum motivo ele não pudesse vir, eu deveria representá-lo. O senhor deve ser um deles...
Logo ele, o Tavito. Dos cinco, o mais descrente do pacto. O único a honrá-lo, mesmo morto.
- E os outros três, já foram?
Sentei ao seu lado e expliquei a história e minha condição de testemunha. Depois ficamos ali, madrugada adentro, à espera dos quatro ausentes. Uns fogos estouravam ao longe, carros passavam pela pracinha buzinando, grupos de branco iam em direção ao clube. Falei da linha do trem, que antes dele nascer cortava a cidade de fora a fora. Comentei como o pai dele era bom de natação, os campeonatos que ganhou, o sucesso que fazia com a mulherada. Os porres que tomamos, os aventais brancos que vestíamos na escola. Ele me contou do acidente de avião, do trauma da perda, do segundo casamento da mãe. Eu escutava, mas não ouvia. Divagava, vendo em sua boca os lábios do pai dele me sussurrando as respostas da prova de biologia.
Friday, February 10, 2006
A FALTA QUE O CELULAR NÃO FAZ
Verdade seja dita, logo de cara: felizes os que não usam telefone celular. São poucos, e dentre eles eu racionalmente me incluo, graças a Deus. Pelo menos por enquanto. Sei que mais cedo ou mais tarde serei obrigado a me render, já que é para ele que aponta a chamada convergência das mídias – voz, MP3, câmera digital, TV, internet e sabe-se lá o que mais. Mas quero adiar esse dia o máximo possível.
Que paranóia insensata essa de estar ligado 24 horas, de prontidão, encontrável e acessível custe o que custar. Prefiro ser eremita, ter paradeiro desconhecido dentro dessa estranha teia de seres chipados. Os dependentes da maquininha costumam dizer: "como eu conseguia viver sem isso?". Ao que eu respondo: como é possível viver com isso?
Quando o celular toca, nunca é aquele cara dizendo que vai pagar a grana que está te devendo. Jamais é aquele amor platônico que, cansado de esperar sua declaração, resolveu tomar a iniciativa. Tampouco é aquela pessoa querida que, desinteressadamente, quer apenas saber como é que você está, se precisa de alguma coisa. Sempre é um chato de galocha te cobrando um trabalho, lembrando prazos e urgências, querendo a mãozinha que você ficou de dar.
Lembro bem dos primeiros modelos. Uma rapadura de meio quilo, que quando em funcionamento parecia uma maquete da pista de dança dos "Embalos de Sábado à noite", com uma luz verde-limão brilhando forte no teclado. Alguns lembravam o telefone-sapato do Agente 86.
Mimo dos abastados, quando surgiu o celular era preso ao cinto, de maneira que ficasse bem à mostra. Como um abcesso exposto de propósito. Era um tal de empinar pra frente a barriga, deixar o paletó aberto, só pra expor a novidade. E o cidadão, ao atender a chamada, nunca ficava quieto. Fazia questão de andar de um lado pro outro, como que frisando o fato do telefone ser móvel. Morram de inveja, pobres de uma figa.
Já hoje acontece o contrário. A rapadura se reduziu a porta-jóias. O recém-celulado faz de tudo pra mostrar a todo mundo o quanto o modelo dele não chama a atenção. Ganha a guerrinha de vaidades quem, a olhos vistos, deixar o seu celular imperceptível.
Dentro desta nova classe de maquininhas que primam pela discrição, destacam-se as que vibram ao invés de tocar. Há poucas semanas conversava com um amigo, num restaurante. Ele foi ao toalete e o seu celular com vibra-call deu sinal de vida. Começou a tremer e a se mover feito uma barata tonta pela mesa, como se estivesse em transe mediúnico. Se não sou eu a barrar sua desnorteada trajetória, ele teria se espatifado (para minha íntima satisfação).
Ai de quem se fiar na autonomia que um telefone celular teoricamente oferece. A despeito da proibição, quase todo mundo o utiliza em trânsito. O usuário está rodando por uma estrada com a coisa na orelha, passa por uma montanha ou uma baixada na pista e é o que basta: já não escuta mais nada, e nada do que ele disser será ouvido. Anda mais um tanto e sai fora da área de cobertura. Além disso tem que falar pouco, se não a bateria acaba. Chegando em casa, o procedimento número 1 é dar mamadeira pro bichinho, ligando o carregador na tomada e o dito cujo no carregador. Se for pré-pago, dá-lhe crédito. Aí sim, está pronto pra ficar de novo ligadinho, a postos para o próximo sobressalto.
O pior é quem tem celular e usa como se fosse telefone fixo. Além de não aproveitar a portabilidade, que é o diferencial do negócio, ainda dá trabalho para os outros.
- Alô, celular do Toninho. Só que não é o Toninho, é o Celso.
- Ô, Toninho. Sou eu, rapaz. Agora deu pra fingir que não é você, é?
- Não, aqui não é o Toninho mesmo, é o amigo dele. Eu só atendi o celular. O Toninho precisou dar uma saída.
- Mas ele não levou o celular?
- Não. Se tivesse levado ele tinha atendido, né. É um problema, quando ele sai sempre esquece o celular aqui na mesa.
- Ah, então por favor, anota o meu telefone e pede pra ele ligar pra mim, pode ser?
E lá vai o trouxa servir de moleque de recado. Fora tudo isso, tem também os ringtones. Chatíssimos, muitos de extremo mau gosto, que imitam espirros, orgasmos femininos e até respiradores de UTI. Outra aporrinhação é o efeito picotado – aquelas perdas de sinal no meio da fala do indivíduo, deixando a mensagem incompreensível. Acrescente os controversos efeitos da radiação e, no meu caso específico, o fato de morar a 50 metros de uma antena de celular – sem alvará de funcionamento e frontalmente em desacordo com a lesgislação de telefonia móvel vigente em Campinas. Deu pra entender agora? Alô? Tá me ouvindo??
Que paranóia insensata essa de estar ligado 24 horas, de prontidão, encontrável e acessível custe o que custar. Prefiro ser eremita, ter paradeiro desconhecido dentro dessa estranha teia de seres chipados. Os dependentes da maquininha costumam dizer: "como eu conseguia viver sem isso?". Ao que eu respondo: como é possível viver com isso?
Quando o celular toca, nunca é aquele cara dizendo que vai pagar a grana que está te devendo. Jamais é aquele amor platônico que, cansado de esperar sua declaração, resolveu tomar a iniciativa. Tampouco é aquela pessoa querida que, desinteressadamente, quer apenas saber como é que você está, se precisa de alguma coisa. Sempre é um chato de galocha te cobrando um trabalho, lembrando prazos e urgências, querendo a mãozinha que você ficou de dar.
Lembro bem dos primeiros modelos. Uma rapadura de meio quilo, que quando em funcionamento parecia uma maquete da pista de dança dos "Embalos de Sábado à noite", com uma luz verde-limão brilhando forte no teclado. Alguns lembravam o telefone-sapato do Agente 86.
Mimo dos abastados, quando surgiu o celular era preso ao cinto, de maneira que ficasse bem à mostra. Como um abcesso exposto de propósito. Era um tal de empinar pra frente a barriga, deixar o paletó aberto, só pra expor a novidade. E o cidadão, ao atender a chamada, nunca ficava quieto. Fazia questão de andar de um lado pro outro, como que frisando o fato do telefone ser móvel. Morram de inveja, pobres de uma figa.
Já hoje acontece o contrário. A rapadura se reduziu a porta-jóias. O recém-celulado faz de tudo pra mostrar a todo mundo o quanto o modelo dele não chama a atenção. Ganha a guerrinha de vaidades quem, a olhos vistos, deixar o seu celular imperceptível.
Dentro desta nova classe de maquininhas que primam pela discrição, destacam-se as que vibram ao invés de tocar. Há poucas semanas conversava com um amigo, num restaurante. Ele foi ao toalete e o seu celular com vibra-call deu sinal de vida. Começou a tremer e a se mover feito uma barata tonta pela mesa, como se estivesse em transe mediúnico. Se não sou eu a barrar sua desnorteada trajetória, ele teria se espatifado (para minha íntima satisfação).
Ai de quem se fiar na autonomia que um telefone celular teoricamente oferece. A despeito da proibição, quase todo mundo o utiliza em trânsito. O usuário está rodando por uma estrada com a coisa na orelha, passa por uma montanha ou uma baixada na pista e é o que basta: já não escuta mais nada, e nada do que ele disser será ouvido. Anda mais um tanto e sai fora da área de cobertura. Além disso tem que falar pouco, se não a bateria acaba. Chegando em casa, o procedimento número 1 é dar mamadeira pro bichinho, ligando o carregador na tomada e o dito cujo no carregador. Se for pré-pago, dá-lhe crédito. Aí sim, está pronto pra ficar de novo ligadinho, a postos para o próximo sobressalto.
O pior é quem tem celular e usa como se fosse telefone fixo. Além de não aproveitar a portabilidade, que é o diferencial do negócio, ainda dá trabalho para os outros.
- Alô, celular do Toninho. Só que não é o Toninho, é o Celso.
- Ô, Toninho. Sou eu, rapaz. Agora deu pra fingir que não é você, é?
- Não, aqui não é o Toninho mesmo, é o amigo dele. Eu só atendi o celular. O Toninho precisou dar uma saída.
- Mas ele não levou o celular?
- Não. Se tivesse levado ele tinha atendido, né. É um problema, quando ele sai sempre esquece o celular aqui na mesa.
- Ah, então por favor, anota o meu telefone e pede pra ele ligar pra mim, pode ser?
E lá vai o trouxa servir de moleque de recado. Fora tudo isso, tem também os ringtones. Chatíssimos, muitos de extremo mau gosto, que imitam espirros, orgasmos femininos e até respiradores de UTI. Outra aporrinhação é o efeito picotado – aquelas perdas de sinal no meio da fala do indivíduo, deixando a mensagem incompreensível. Acrescente os controversos efeitos da radiação e, no meu caso específico, o fato de morar a 50 metros de uma antena de celular – sem alvará de funcionamento e frontalmente em desacordo com a lesgislação de telefonia móvel vigente em Campinas. Deu pra entender agora? Alô? Tá me ouvindo??
Sunday, January 29, 2006
PERGUNTE AO DUÑA
TENHO AS DUAS PERNAS GANGRENADAS, A AORTA ENTUPIDA E APENAS UM PULMÃO (TRIPLAMENTE PERFURADO). E AGORA, DUÑA?
Agora, é bola pra frente. Segundo o Dr. Brown Rutherford, em seu aclamado estudo “Manifestações psicossomáticas no homem caucasiano de meia idade”, o único tratamento possível é a antropotectomia, que consiste em extirpar do paciente o próprio corpo e colocar outro no lugar. Simples.
SAPIENTÍSSIMO MESTRE: O SENHOR É A FAVOR DO DESARMAMENTO?
Depende do porte da arma: pequeno, médio ou grande. As armas de porte pequeno são geralmente inofensivas, o que as torna sem efeito prático, nem mesmo para intimidação psicológica do bandido. Mais envergonham que protegem o proprietário. As de porte médio amedrontam quando muito os ladrões de galinha, geralmente munidos de armas de igual calibre e mais experientes em seu manejo que o cidadão pacato. Já as de grande porte estão todas nas mãos das quadrilhas organizadas, e o fato de possuí-las significa, conseqüentemente, que você é integrante de uma delas.
CARO DUÑA,
ANDO MUITO DESANIMADO NO TRABALHO. QUANTO MAIS ME ESFORÇO, MENOS SOU RECONHECIDO. TODOS DESPREZAM MINHAS OPINIÕES E MEU ASSISTENTE GANHA TRÊS VEZES MAIS DO QUE EU. GOSTARIA DE UM CONSELHO.
Recomendo a leitura do livro “Ossos do Ofício”, biografia do coveiro piauiense Benevides Denófrio Ramos. Em estilo claro e conciso, o autor discorre sobre o dilema de sua profissão à luz da doutrina positivista, de onde o leitor poderá extrair um verdadeiro bálsamo para a solução de seus problemas.
QUAL A IDADE IDEAL PARA CONTRAIR MATRIMÔNIO?
Um pouco depois da idade ideal para contrair patrimônio. Aliás, “contrair” não sei se é bem o termo. Melhor seria o oposto, “expandir patrimônio”. Casar hoje em dia exige estrutura financeira, meu filho.
EXISTE UMA ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA DUÑA?
Não. O que se sabe é que a dinastia Duña é oriunda da Espanha. O ramo da família a imigrar para a América teve como patriarca Hector Duña, meu bisavô. Hector era casado com uma italiana, Filipa Cazzone. Transtornado com o sacolejo do navio que os trazia ao Brasil, meu bisavô morreu de enjôo, cabendo a Filipa a missão de disseminar a filosofia duñesca por essas plagas.
QUAL A ORIGEM DAS EXPRESSÕES “NEM QUE A VACA TUSSA”, “PODE TIRAR O CAVALINHO DA CHUVA”, “QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO” E “UMA ANDORINHA NÃO FAZ VERÃO”?
Macacos me mordam! É evidente que todas elas são de origem animal.
SOFRO MUITO COM MEU COMPLEXO DE INFERIORIDADE. ELE ME ATRAPALHA NAS TAREFAS MAIS CORRIQUEIRAS, COMO IR À QUITANDA OU DAR UM PASSEIO COM MINHA FILHINHA NO GLOBO DA MORTE. QUE FAZER?
Consultando meus alfarrábios, encontrei uma simpatia que talvez ajude no seu caso. Junte 1 e 1/2 colher (das de chá) de canjica dormida na geladeira, duas moléculas de hidrogênio mais uma de oxigênio (ou água pronta, se tiver aí na sua casa) e 3 penas de calopsita. Aqueça em fogo mais ou menos brando, espere esfriar e tome de um gole só.
VENERÁVEL DUÑA,
PASSO PELO MENOS 16 HORAS POR DIA JOGANDO “CARA OU COROA”. TENHO OBSERVADO QUE EM 21% DAS VEZES O RESULTADO É “CARA” E EM 79% “COROA”, O QUE CONTRARIA COMPLETAMENTE A LEI DAS PROBABILIDADES. A QUE POSSO ATRIBUIR ISSO?
A moeda está viciada. Leve-a a uma clínica de recuperação, onde terá a orientação adequada para restabelecer o equilíbrio e se livrar da dependência. De cara, posso garantir que a tentativa será coroada de êxito.
QUAL O SENTIDO DA VIDA?
Não me aborreça. Nem eu nem meus leitores temos tempo a perder com questões menores como esta.
O SENHOR ESTÁ ME EXPULSANDO DAQUI?
Exatamente.
ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?
É. Agora dê o fora, tem mais gente querendo fazer perguntas.
OLÁ, DUÑA. ME DIGA UMA COISA: COMO EU FAÇO PARA ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO?
Mantenha o interruptor de luz à altura de suas mãos.
JÁ TENTEI DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO ACABAR COM MINHA INSÔNIA. O SENHOR TEM ALGUMA SUGESTÃO?
Tudo no universo está em contínua transformação. Olhe ao seu redor e perceberá que tudo muda, menos o papel da bala Chita e o repertório do Cauby Peixoto. Aproveite cada segundo não como se fosse o segundo, mas sim o último. Experimente o seguinte: reserve um tempinho em sua rotina para fazer o que realmente gosta: praticar ioiô, descascar rabanetes ou colecionar abotoaduras, por exemplo. Isso feito, pegue uma enxada e capine mato durante três dias seguidos. Você vai ver se o sono vem ou não vem.
SOU ACOMETIDA FREQÜENTEMENTE POR EPISÓDIOS DE DÉJÀ VU, AQUELA SENSAÇÃO QUE A GENTE TEM DE QUE AQUILO QUE ESTÁ ACONTECENDO JÁ ACONTECEU. ISSO É UMA IMPRESSÃO SUBJETIVA OU É A PROVA DE QUE EXISTE REENCARNAÇÃO?
Nem uma coisa, nem outra. O problema é a sua cabeça mesmo. Já é a 23ª vez que a senhora me faz essa pergunta.
ESTOU ABRINDO UM RESTAURANTE VEGETARIANO. SERÁ QUE O DUÑA PODERIA DAR UMA SUGESTÃO DE NOME?
Que tal “Contra-Filé”?
Faça você também suas perguntas para o Duña. E-mails para msguassabia@yahoo.com.br. Pode escrever que o Duña responde.
Agora, é bola pra frente. Segundo o Dr. Brown Rutherford, em seu aclamado estudo “Manifestações psicossomáticas no homem caucasiano de meia idade”, o único tratamento possível é a antropotectomia, que consiste em extirpar do paciente o próprio corpo e colocar outro no lugar. Simples.
SAPIENTÍSSIMO MESTRE: O SENHOR É A FAVOR DO DESARMAMENTO?
Depende do porte da arma: pequeno, médio ou grande. As armas de porte pequeno são geralmente inofensivas, o que as torna sem efeito prático, nem mesmo para intimidação psicológica do bandido. Mais envergonham que protegem o proprietário. As de porte médio amedrontam quando muito os ladrões de galinha, geralmente munidos de armas de igual calibre e mais experientes em seu manejo que o cidadão pacato. Já as de grande porte estão todas nas mãos das quadrilhas organizadas, e o fato de possuí-las significa, conseqüentemente, que você é integrante de uma delas.
CARO DUÑA,
ANDO MUITO DESANIMADO NO TRABALHO. QUANTO MAIS ME ESFORÇO, MENOS SOU RECONHECIDO. TODOS DESPREZAM MINHAS OPINIÕES E MEU ASSISTENTE GANHA TRÊS VEZES MAIS DO QUE EU. GOSTARIA DE UM CONSELHO.
Recomendo a leitura do livro “Ossos do Ofício”, biografia do coveiro piauiense Benevides Denófrio Ramos. Em estilo claro e conciso, o autor discorre sobre o dilema de sua profissão à luz da doutrina positivista, de onde o leitor poderá extrair um verdadeiro bálsamo para a solução de seus problemas.
QUAL A IDADE IDEAL PARA CONTRAIR MATRIMÔNIO?
Um pouco depois da idade ideal para contrair patrimônio. Aliás, “contrair” não sei se é bem o termo. Melhor seria o oposto, “expandir patrimônio”. Casar hoje em dia exige estrutura financeira, meu filho.
EXISTE UMA ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA DUÑA?
Não. O que se sabe é que a dinastia Duña é oriunda da Espanha. O ramo da família a imigrar para a América teve como patriarca Hector Duña, meu bisavô. Hector era casado com uma italiana, Filipa Cazzone. Transtornado com o sacolejo do navio que os trazia ao Brasil, meu bisavô morreu de enjôo, cabendo a Filipa a missão de disseminar a filosofia duñesca por essas plagas.
QUAL A ORIGEM DAS EXPRESSÕES “NEM QUE A VACA TUSSA”, “PODE TIRAR O CAVALINHO DA CHUVA”, “QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO” E “UMA ANDORINHA NÃO FAZ VERÃO”?
Macacos me mordam! É evidente que todas elas são de origem animal.
SOFRO MUITO COM MEU COMPLEXO DE INFERIORIDADE. ELE ME ATRAPALHA NAS TAREFAS MAIS CORRIQUEIRAS, COMO IR À QUITANDA OU DAR UM PASSEIO COM MINHA FILHINHA NO GLOBO DA MORTE. QUE FAZER?
Consultando meus alfarrábios, encontrei uma simpatia que talvez ajude no seu caso. Junte 1 e 1/2 colher (das de chá) de canjica dormida na geladeira, duas moléculas de hidrogênio mais uma de oxigênio (ou água pronta, se tiver aí na sua casa) e 3 penas de calopsita. Aqueça em fogo mais ou menos brando, espere esfriar e tome de um gole só.
VENERÁVEL DUÑA,
PASSO PELO MENOS 16 HORAS POR DIA JOGANDO “CARA OU COROA”. TENHO OBSERVADO QUE EM 21% DAS VEZES O RESULTADO É “CARA” E EM 79% “COROA”, O QUE CONTRARIA COMPLETAMENTE A LEI DAS PROBABILIDADES. A QUE POSSO ATRIBUIR ISSO?
A moeda está viciada. Leve-a a uma clínica de recuperação, onde terá a orientação adequada para restabelecer o equilíbrio e se livrar da dependência. De cara, posso garantir que a tentativa será coroada de êxito.
QUAL O SENTIDO DA VIDA?
Não me aborreça. Nem eu nem meus leitores temos tempo a perder com questões menores como esta.
O SENHOR ESTÁ ME EXPULSANDO DAQUI?
Exatamente.
ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?
É. Agora dê o fora, tem mais gente querendo fazer perguntas.
OLÁ, DUÑA. ME DIGA UMA COISA: COMO EU FAÇO PARA ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO?
Mantenha o interruptor de luz à altura de suas mãos.
JÁ TENTEI DE TUDO, MAS NÃO CONSIGO ACABAR COM MINHA INSÔNIA. O SENHOR TEM ALGUMA SUGESTÃO?
Tudo no universo está em contínua transformação. Olhe ao seu redor e perceberá que tudo muda, menos o papel da bala Chita e o repertório do Cauby Peixoto. Aproveite cada segundo não como se fosse o segundo, mas sim o último. Experimente o seguinte: reserve um tempinho em sua rotina para fazer o que realmente gosta: praticar ioiô, descascar rabanetes ou colecionar abotoaduras, por exemplo. Isso feito, pegue uma enxada e capine mato durante três dias seguidos. Você vai ver se o sono vem ou não vem.
SOU ACOMETIDA FREQÜENTEMENTE POR EPISÓDIOS DE DÉJÀ VU, AQUELA SENSAÇÃO QUE A GENTE TEM DE QUE AQUILO QUE ESTÁ ACONTECENDO JÁ ACONTECEU. ISSO É UMA IMPRESSÃO SUBJETIVA OU É A PROVA DE QUE EXISTE REENCARNAÇÃO?
Nem uma coisa, nem outra. O problema é a sua cabeça mesmo. Já é a 23ª vez que a senhora me faz essa pergunta.
ESTOU ABRINDO UM RESTAURANTE VEGETARIANO. SERÁ QUE O DUÑA PODERIA DAR UMA SUGESTÃO DE NOME?
Que tal “Contra-Filé”?
Faça você também suas perguntas para o Duña. E-mails para msguassabia@yahoo.com.br. Pode escrever que o Duña responde.
CINE LUXOR
Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.
Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.
Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.
Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.
Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.
A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.
Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.
Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.
Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.
Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.
A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.
Saturday, January 14, 2006
DIÁRIO DE UM CHEFE (FRAGMENTOS)
Segunda-feira, 29
Depois da janta com o Buch, uma bela buchada de bode para recepcionar o Chaves. Junto com ele, veio toda a comitiva: Chiquinha, sr. Barriga, dona Florinda, sr. Madruga e o Kiko. Rachamo o bico de dar risada e depois assistimo uns filme nacional, no cinema que tem aqui em casa. Quando terminou a seção, o Chaves ficou espetando o retrato do Buch com alfinete e falando: “foi sem querer querendo, foi sem querer querendo”... muito engrassado.
Terça-feira, 30
Dia agitado. Trabalhei até as duas da tarde, depois tive um encontro com o comando de greve das universidade. Ganhei um livro, chama “Caminho Suave”. Tem as letra grande, um monte de figura, mas ainda não deu tempo de começar a ler.
Quarta-feira, 31
Sabe, eu fico muito triste quando vejo na televizão aquelas fila de engenheiro, com MBA em Rafard e doutorado em Artur Nogueira, disputando a tapa uma vaga de lixeiro. Tudo bem, é lamentave. Mas e eu, gente, comigo ninguém se preocupa? E lá no meu sofazão comecei a falar com os botão do meu pijama: caramba, desde que eu tô aqui não pediram minha carteira de trabalho pra assinar, não troussero a papelada de Pis / Pasep, contrato de esperiença, essas coisa. Vai ver que eu tô de informal nessa bodega e não tô sabendo. Nunca me chegou um extrato de FGTS, pra conferir se está tudo direitinho com os depósito. Será que eu tenho que dar nota e me escrever no Simpres? Como diria o finado Joca Tranqueira, pelegão da Volks e meu padrinho de casamento, “é o ó do borogodó”.
Quinta-feira, 1
Não agüento mais esses protocolo na hora do almoço. É colherzinha pra comer estragô, garfo de peixe, garfo de carne, copo de vinho, copo de água, faca disso, faca daquilo... Que saudade do meu tempo de marmita. Era tudo na cuié. Pronto, sem frescura. Tudo eles pega no meu pé, fica tirando retrato que depois sai nos jornal. Outra coisa é esse negócio de avião. Se tem um que fica comigo pra sima e pra baixo, que mal tem aproveitar a viagem e levar uns amigo junto? É até um serviço que eu fasso, já que com isso temos, em bom economêis, uma economia de escala de avião.
Cesta-feira, 2
Nunca fui homem de deixar faltar as coisa dende casa. Mas numa casa destamanho, que nem a gente mora agora, fica difícil o trabalhador manter a despensa abastecida. Tudo bem que todo dia 30 vem a sesta básica. Mas pra quem literalmente se ferra de verde e amarelo, essa sestinha é muito mircha. Lá no sindicato sim, todo mês vinha uma daquelas, bem farta. Fubá, sardinha em lata, maça de tomate, bolacha maria, farinha de rosca e sal. E sal iodado, companheiro. Não era fraco, não. O Joaquinzão, por exempro, que não se meteu nessa enrascada em que eu estou, continua recebendo a dele. E eu, não tenho filho pra criar? Ora, fassame o favor. Não bastace tudo isso, tem a história das pensão como preso político, que eu tenho direito e não resebo. Fui pro xilindró não sei quantas vez. A minha língua, coitada, continua presa até hoje. E os meus inimigo, que tem a língua solta, vive jogando na minha cara que essa mamata eu não vou conseguir.
Sábado, 3
Reunião de cúpula com a patroa.
Domingo, 4
Continuassão da reunião de cúpula.
Segunda-feira, 5
Pacei hoje o dia inteiro no ofurô, pensando no povão. O Projeto “Pois é” é um bom exempro do que pode ser feito pro brasileiro melhorar de vida. Essas coisa ninguém fala. Fizemos uma campanha na mídia e criamo até um personagem, o Nelson Piquete, pra apresentar o carro proletário pros peão de fábrica. Um modelo básico, com direção e acelerador opissional, e que roda 25 quilômetro com um copinho de cachaça. Em pauta pro prócimo ano está o programa “Motocicreta pra Todos”. Vamo importar 12.000 motos “Namarra”, 125 cilindrada, produzidas no Paraguai. Também está em faze de estudos a distribuição do tênis Reboque, para os camarada da construção civil. Ainda do nosso vizinho Paraguai traremos novo alento à infância desacistida, com a importação de dois vagão de pilha “Vai-O-Racha”, que vão dar vida nova pras bonecas, os ursinho e os carrinho da gurizada nacional.
Cesta-feira, 9
Fiquei uns dia sem escrever porque a situação tá preta. Pegaram o Tadeu com a boca na botija. Ele andou fazendo umas coisa feia que eu não tava sabendo, o safado. Me falaram que eu posso me estropiar mesmo sem ter nada haver com o pato. Conciente dos meus direito, fui tirar a limpo essa história com os bam-bam-bam que entende da lei. Disse que não ia sair assim não, que não ia intregar a rapadura. Eles falaram pra eu ir embora com um pé naquele lugar e uma mão na frente. Mas aí me lembrei dos tempos de sindicato e enduressi na negociação. Disse que só saía com um bom acordo - no mínimo com uma mão na frente, outra atrás e mais o chutão nos fundilho. Aí um dos bacana falou assim que eu não ia ficar sem eira nem beira, que dava pra arrumar também uma eira e uma beira bem reforçada. Milhor. Já dá pra acertar a vida antes de voltar pro batente.
Depois da janta com o Buch, uma bela buchada de bode para recepcionar o Chaves. Junto com ele, veio toda a comitiva: Chiquinha, sr. Barriga, dona Florinda, sr. Madruga e o Kiko. Rachamo o bico de dar risada e depois assistimo uns filme nacional, no cinema que tem aqui em casa. Quando terminou a seção, o Chaves ficou espetando o retrato do Buch com alfinete e falando: “foi sem querer querendo, foi sem querer querendo”... muito engrassado.
Terça-feira, 30
Dia agitado. Trabalhei até as duas da tarde, depois tive um encontro com o comando de greve das universidade. Ganhei um livro, chama “Caminho Suave”. Tem as letra grande, um monte de figura, mas ainda não deu tempo de começar a ler.
Quarta-feira, 31
Sabe, eu fico muito triste quando vejo na televizão aquelas fila de engenheiro, com MBA em Rafard e doutorado em Artur Nogueira, disputando a tapa uma vaga de lixeiro. Tudo bem, é lamentave. Mas e eu, gente, comigo ninguém se preocupa? E lá no meu sofazão comecei a falar com os botão do meu pijama: caramba, desde que eu tô aqui não pediram minha carteira de trabalho pra assinar, não troussero a papelada de Pis / Pasep, contrato de esperiença, essas coisa. Vai ver que eu tô de informal nessa bodega e não tô sabendo. Nunca me chegou um extrato de FGTS, pra conferir se está tudo direitinho com os depósito. Será que eu tenho que dar nota e me escrever no Simpres? Como diria o finado Joca Tranqueira, pelegão da Volks e meu padrinho de casamento, “é o ó do borogodó”.
Quinta-feira, 1
Não agüento mais esses protocolo na hora do almoço. É colherzinha pra comer estragô, garfo de peixe, garfo de carne, copo de vinho, copo de água, faca disso, faca daquilo... Que saudade do meu tempo de marmita. Era tudo na cuié. Pronto, sem frescura. Tudo eles pega no meu pé, fica tirando retrato que depois sai nos jornal. Outra coisa é esse negócio de avião. Se tem um que fica comigo pra sima e pra baixo, que mal tem aproveitar a viagem e levar uns amigo junto? É até um serviço que eu fasso, já que com isso temos, em bom economêis, uma economia de escala de avião.
Cesta-feira, 2
Nunca fui homem de deixar faltar as coisa dende casa. Mas numa casa destamanho, que nem a gente mora agora, fica difícil o trabalhador manter a despensa abastecida. Tudo bem que todo dia 30 vem a sesta básica. Mas pra quem literalmente se ferra de verde e amarelo, essa sestinha é muito mircha. Lá no sindicato sim, todo mês vinha uma daquelas, bem farta. Fubá, sardinha em lata, maça de tomate, bolacha maria, farinha de rosca e sal. E sal iodado, companheiro. Não era fraco, não. O Joaquinzão, por exempro, que não se meteu nessa enrascada em que eu estou, continua recebendo a dele. E eu, não tenho filho pra criar? Ora, fassame o favor. Não bastace tudo isso, tem a história das pensão como preso político, que eu tenho direito e não resebo. Fui pro xilindró não sei quantas vez. A minha língua, coitada, continua presa até hoje. E os meus inimigo, que tem a língua solta, vive jogando na minha cara que essa mamata eu não vou conseguir.
Sábado, 3
Reunião de cúpula com a patroa.
Domingo, 4
Continuassão da reunião de cúpula.
Segunda-feira, 5
Pacei hoje o dia inteiro no ofurô, pensando no povão. O Projeto “Pois é” é um bom exempro do que pode ser feito pro brasileiro melhorar de vida. Essas coisa ninguém fala. Fizemos uma campanha na mídia e criamo até um personagem, o Nelson Piquete, pra apresentar o carro proletário pros peão de fábrica. Um modelo básico, com direção e acelerador opissional, e que roda 25 quilômetro com um copinho de cachaça. Em pauta pro prócimo ano está o programa “Motocicreta pra Todos”. Vamo importar 12.000 motos “Namarra”, 125 cilindrada, produzidas no Paraguai. Também está em faze de estudos a distribuição do tênis Reboque, para os camarada da construção civil. Ainda do nosso vizinho Paraguai traremos novo alento à infância desacistida, com a importação de dois vagão de pilha “Vai-O-Racha”, que vão dar vida nova pras bonecas, os ursinho e os carrinho da gurizada nacional.
Cesta-feira, 9
Fiquei uns dia sem escrever porque a situação tá preta. Pegaram o Tadeu com a boca na botija. Ele andou fazendo umas coisa feia que eu não tava sabendo, o safado. Me falaram que eu posso me estropiar mesmo sem ter nada haver com o pato. Conciente dos meus direito, fui tirar a limpo essa história com os bam-bam-bam que entende da lei. Disse que não ia sair assim não, que não ia intregar a rapadura. Eles falaram pra eu ir embora com um pé naquele lugar e uma mão na frente. Mas aí me lembrei dos tempos de sindicato e enduressi na negociação. Disse que só saía com um bom acordo - no mínimo com uma mão na frente, outra atrás e mais o chutão nos fundilho. Aí um dos bacana falou assim que eu não ia ficar sem eira nem beira, que dava pra arrumar também uma eira e uma beira bem reforçada. Milhor. Já dá pra acertar a vida antes de voltar pro batente.
Monday, January 02, 2006
BATE-BOLA
COM NERO
Time de futebol
Botafogo.
Filme
Quanto mais quente, melhor.
Cidade
Lavas.
Música
Me chama.
Uma paixão
Joelma.
Um trauma
Hidrantes.
Um ditado
Onde há fumaça, há fogo.
Jogo
Queimada.
Prato favorito
Macarrão ardente.
Sobremesa
Doce de coco queimado.
Sonho impossível
Extintor de água.
Bebida
Whisqueiro.
Elemento Químico
Fósforo.
Livro
Os segredos do Churrasco.
Cigarro
Aceso.
Pneu
Firestone.
Cor
Cinza.
Desenho animado
Os Brasinhas do Espaço.
Programa de TV
Tela Quente e Temperatura Máxima.
Roupa
Só de queima de estoque.
Lugar mais estranho onde já fez amor
Escada de incêndio.
Viagem
De foguete.
Amar é
Não deixar o desejo apagar.
Defeito
Ter o pavio curto.
Desejo
Tocar cítara tão bem quanto toco fogo.
COM DELFIM NETO
Carro
Renault Selic com câmbio flutuante.
Passeio
Circuito das Águas, com desconto na fonte.
Investimento
Poupe seu tempo e economize espaço no jornal. Duas perguntas já está bom.
COM GIL GOMES
Comida
Presunto.
Música
Ronda.
Filme
Corra que a polícia vem aí.
Livro
Memórias do Cárcere.
Teatro
Uma facada.
Uma virtude
Garra.
Um crime hediondo
Morte seguida de estupro.
Passatempo
Xadrez.
Roupa
Forum.
Sonho de consumo
Cela ampla e luxuosa, com requintes de crueldade.
Lugar legal
O Instituto Médico.
Carro
Envenenado.
Situação econômica
Enforcado.
Cartão de Crédito
Roubado.
Cachorro
Policial.
O que incomoda
Prisão de ventre.
Filosofia
Sorria. Você está sendo filmado.
Acabou.
Que pena.
COM BEETHOVEN
Carro
No concerto. Só andava em ré.
Instrumento
Hein?
Instrumento!
Hein?
Instrumentoooooooo!!!!!
Ah sim, instrumento. Surdo.
Fruta
A Nona.
Lugar
Lá.
Desodorante
Moderato.
Relógio
De cordas.
Comida
Bis.
Cachorro
Bravo!
O que anda ouvindo
Hein?
COM SHERLOCK HOLMES
Música
Adivinhe.
Hobby
Investigue.
Cor
Deduza.
Filme
Sou suspeito pra falar.
Uma pista
Rodovia dos Bandeirantes.
Quem é o culpado
Ele.
Ele quem?
Elementar.
Objeto de desejo
A Lupa do Oliveira.
Prato preferido
Comida álibi.
Caso insolúvel
Água e óleo.
Carro
Siga-o.
Ídolo
Conan. O Doyle, não o Bárbaro.
Amigo de valor
Meu caro Watson.
Filosofia
Agora tudo se encaixa.
Um ditado
A primeira impressão digital é a que fica.
Uma dúvida
Nenhuma. Foi o mordomo.
Animal
A gata Christie.
Finalize o interrogatório
Pergunta pro Nero se ele tem fogo pro meu cachimbo.
Time de futebol
Botafogo.
Filme
Quanto mais quente, melhor.
Cidade
Lavas.
Música
Me chama.
Uma paixão
Joelma.
Um trauma
Hidrantes.
Um ditado
Onde há fumaça, há fogo.
Jogo
Queimada.
Prato favorito
Macarrão ardente.
Sobremesa
Doce de coco queimado.
Sonho impossível
Extintor de água.
Bebida
Whisqueiro.
Elemento Químico
Fósforo.
Livro
Os segredos do Churrasco.
Cigarro
Aceso.
Pneu
Firestone.
Cor
Cinza.
Desenho animado
Os Brasinhas do Espaço.
Programa de TV
Tela Quente e Temperatura Máxima.
Roupa
Só de queima de estoque.
Lugar mais estranho onde já fez amor
Escada de incêndio.
Viagem
De foguete.
Amar é
Não deixar o desejo apagar.
Defeito
Ter o pavio curto.
Desejo
Tocar cítara tão bem quanto toco fogo.
COM DELFIM NETO
Carro
Renault Selic com câmbio flutuante.
Passeio
Circuito das Águas, com desconto na fonte.
Investimento
Poupe seu tempo e economize espaço no jornal. Duas perguntas já está bom.
COM GIL GOMES
Comida
Presunto.
Música
Ronda.
Filme
Corra que a polícia vem aí.
Livro
Memórias do Cárcere.
Teatro
Uma facada.
Uma virtude
Garra.
Um crime hediondo
Morte seguida de estupro.
Passatempo
Xadrez.
Roupa
Forum.
Sonho de consumo
Cela ampla e luxuosa, com requintes de crueldade.
Lugar legal
O Instituto Médico.
Carro
Envenenado.
Situação econômica
Enforcado.
Cartão de Crédito
Roubado.
Cachorro
Policial.
O que incomoda
Prisão de ventre.
Filosofia
Sorria. Você está sendo filmado.
Acabou.
Que pena.
COM BEETHOVEN
Carro
No concerto. Só andava em ré.
Instrumento
Hein?
Instrumento!
Hein?
Instrumentoooooooo!!!!!
Ah sim, instrumento. Surdo.
Fruta
A Nona.
Lugar
Lá.
Desodorante
Moderato.
Relógio
De cordas.
Comida
Bis.
Cachorro
Bravo!
O que anda ouvindo
Hein?
COM SHERLOCK HOLMES
Música
Adivinhe.
Hobby
Investigue.
Cor
Deduza.
Filme
Sou suspeito pra falar.
Uma pista
Rodovia dos Bandeirantes.
Quem é o culpado
Ele.
Ele quem?
Elementar.
Objeto de desejo
A Lupa do Oliveira.
Prato preferido
Comida álibi.
Caso insolúvel
Água e óleo.
Carro
Siga-o.
Ídolo
Conan. O Doyle, não o Bárbaro.
Amigo de valor
Meu caro Watson.
Filosofia
Agora tudo se encaixa.
Um ditado
A primeira impressão digital é a que fica.
Uma dúvida
Nenhuma. Foi o mordomo.
Animal
A gata Christie.
Finalize o interrogatório
Pergunta pro Nero se ele tem fogo pro meu cachimbo.
Wednesday, December 21, 2005
ANACRÔNICA
Outro dia um colega de trabalho me mostrou um programinha que ele tinha acabado de baixar da internet: um simulador de barulho de máquina de escrever. Acionado o software, bastava ligar as caixinhas de som e, ao digitar no teclado, saíam ruídos que imitavam o tec-tec da dita cuja. Com o requinte de poder escolher entre vários modelos de máquina. Para cada modelo um som diferente, cópia fiel do original. O mais engraçado é que se ia escrevendo e, ao chegar o fim da linha, tinha aquele barulhão do carro da máquina voltando.
Retornei ao meu lugar e à época em que se datilografava ao invés de digitar. Tinha uns 12 ou 13 anos quando meu pai me matriculou num curso de datilografia da Escola Remington, do Seu Mario Sundfeld. Guardo até hoje o certificado de conclusão - passei com 9. Lembro direitinho do primeiro exercício, só com a mão esquerda: asdf asdf asdf – quatro ou cinco linhas da mesma seqüência, para o aluno memorizar a localização das teclas. Para boa conservação do equipamento, era bom passar o limpa-tipos de vez em quando - uma espécie de borrachinha que, pressionada como um chiclete nos tipos da máquina, ia tirando os resíduos de pó e de tinta que se acumulavam nas letras e tornavam os caracteres ilegíveis.
Quando a gente xxxxxxx errava alguma coisa no xxxx que estava escrevendo, ou resolvia substiutir uma xxxxxxxxxx palavra por outra, o texto ficava cheio de xxxxxxxx. Ou então se usava o corretivo, também chamado de branquinho, utilizado por muitos para fins bem menos nobres. Hoje, o processo de gestação do texto não deixa rastro. Os originais já nascem insípidos e imaculados. Tudo se deleta, se remove, se inverte, sem rabisco e rasura. É o fim do lixo cheio de papel amassado.
Uma máquina de escrever era o que se poderia chamar de “bem durável”, com direito a plaquinha de patrimônio. Objeto de ciúme e estimação, inspirava respeito. Era um monolito encravado na mesa do escritório. Muita gente ganhava uma na formatura do ginásio e ficava com ela até se aposentar. A pessoa, porque a máquina, nem pensar. Quanto mais se batucava mais a bichinha ia amaciando o teclado, ficando mais sensível ao toque e aos caprichos do dono. Tinha valor, atravessava gerações, ficava de herança. Já pensou hoje um computador ser arrolado em inventário? Por mais moderno que seja, daqui a uns meses não valerá mais nada – não suportará a versão 11.2 do Word, os novos recursos do Excel e a interface amigável do próximo Windows. Para que os programas continuem rodando satisfatoriamente, será preciso providenciar mais 4 pentes de memória, um processador mais potente, um hd de 100 gigas e 6 entradas USB. Aí o técnico em informática dirá a você que talvez seja melhor e mais em conta trocar de uma vez a CPU ao invés fazer as atualizações.
Em contrapartida, o que a minha boa e velha Hermes portátil me pede? Quando muito uma fitinha nova a cada dois anos. E olha que maus tratos é que não faltaram nesse tempo todo em que está comigo. Quanta migalha de bolacha e cinza de cigarro já deixei cair em cima dela. Poderia entornar uma ceia de Natal inteira sobre a coitada, com leitoa e tudo, que ela continuaria firme. Já o teclado do computador, se pingar uma gotinha de refrigerante, pode esquecer. Curto nos circuitos, falha geral de sistema, adeus aos dados não salvos.
Preço não é desculpa pra que você deixe de satisfazer esse excêntrico sonho de consumo. Por 100, 150 reais dá pra comprar uma maquininha bem razoável nas poucas oficinas de manutenção remanescentes. De quarta ou quinta mão, mas em perfeito estado de funcionamento - revisada e garantida. Mesmo que não seja pra usar, mas pra sentir o gostinho (ou o cheirinho) de ter uma. Sim, porque as máquinas de escrever têm um cheiro peculiar, de metal e óleo lubrificante. Todas cheiram assim. Exceto as que estão no ferro-velho.
NOTA: esta crônica foi gerada em ambiente Windows XP, no editor de texto Word 2003, salva em disco rígido, copiada em CD e finalmente passada a limpo numa Hermes Baby cor de abóbora, fabricada em 1979.
Retornei ao meu lugar e à época em que se datilografava ao invés de digitar. Tinha uns 12 ou 13 anos quando meu pai me matriculou num curso de datilografia da Escola Remington, do Seu Mario Sundfeld. Guardo até hoje o certificado de conclusão - passei com 9. Lembro direitinho do primeiro exercício, só com a mão esquerda: asdf asdf asdf – quatro ou cinco linhas da mesma seqüência, para o aluno memorizar a localização das teclas. Para boa conservação do equipamento, era bom passar o limpa-tipos de vez em quando - uma espécie de borrachinha que, pressionada como um chiclete nos tipos da máquina, ia tirando os resíduos de pó e de tinta que se acumulavam nas letras e tornavam os caracteres ilegíveis.
Quando a gente xxxxxxx errava alguma coisa no xxxx que estava escrevendo, ou resolvia substiutir uma xxxxxxxxxx palavra por outra, o texto ficava cheio de xxxxxxxx. Ou então se usava o corretivo, também chamado de branquinho, utilizado por muitos para fins bem menos nobres. Hoje, o processo de gestação do texto não deixa rastro. Os originais já nascem insípidos e imaculados. Tudo se deleta, se remove, se inverte, sem rabisco e rasura. É o fim do lixo cheio de papel amassado.
Uma máquina de escrever era o que se poderia chamar de “bem durável”, com direito a plaquinha de patrimônio. Objeto de ciúme e estimação, inspirava respeito. Era um monolito encravado na mesa do escritório. Muita gente ganhava uma na formatura do ginásio e ficava com ela até se aposentar. A pessoa, porque a máquina, nem pensar. Quanto mais se batucava mais a bichinha ia amaciando o teclado, ficando mais sensível ao toque e aos caprichos do dono. Tinha valor, atravessava gerações, ficava de herança. Já pensou hoje um computador ser arrolado em inventário? Por mais moderno que seja, daqui a uns meses não valerá mais nada – não suportará a versão 11.2 do Word, os novos recursos do Excel e a interface amigável do próximo Windows. Para que os programas continuem rodando satisfatoriamente, será preciso providenciar mais 4 pentes de memória, um processador mais potente, um hd de 100 gigas e 6 entradas USB. Aí o técnico em informática dirá a você que talvez seja melhor e mais em conta trocar de uma vez a CPU ao invés fazer as atualizações.
Em contrapartida, o que a minha boa e velha Hermes portátil me pede? Quando muito uma fitinha nova a cada dois anos. E olha que maus tratos é que não faltaram nesse tempo todo em que está comigo. Quanta migalha de bolacha e cinza de cigarro já deixei cair em cima dela. Poderia entornar uma ceia de Natal inteira sobre a coitada, com leitoa e tudo, que ela continuaria firme. Já o teclado do computador, se pingar uma gotinha de refrigerante, pode esquecer. Curto nos circuitos, falha geral de sistema, adeus aos dados não salvos.
Preço não é desculpa pra que você deixe de satisfazer esse excêntrico sonho de consumo. Por 100, 150 reais dá pra comprar uma maquininha bem razoável nas poucas oficinas de manutenção remanescentes. De quarta ou quinta mão, mas em perfeito estado de funcionamento - revisada e garantida. Mesmo que não seja pra usar, mas pra sentir o gostinho (ou o cheirinho) de ter uma. Sim, porque as máquinas de escrever têm um cheiro peculiar, de metal e óleo lubrificante. Todas cheiram assim. Exceto as que estão no ferro-velho.
NOTA: esta crônica foi gerada em ambiente Windows XP, no editor de texto Word 2003, salva em disco rígido, copiada em CD e finalmente passada a limpo numa Hermes Baby cor de abóbora, fabricada em 1979.
O RETORNO
Eram três e vinte. A consulta estava marcada para as quatro, e acho que pela primeira vez na vida comecei a reparar nos detalhes peculiares de uma sala de espera. Percebi que havia pouquíssimas diferenças entre aquela e todas as outras que já tinha entrado. Só variavam o endereço e a especialidade do médico ou do dentista.
Você chega e, antes de sentar-se, vai direto ao porta-revistas. Que nunca é um porta-revistas. Ou é um tacho de cobre ou uma cestinha de vime. Dentro, algumas "Veja" sem capa, publicações médicas, tablóides de ofertas do supermercado mais próximo e livrinhos de palavras cruzadas já resolvidas. Se for consultório de pediatra, costuma ter gibi também. E, claro, uma revista Nova bem velha. De 98, 99, por aí. Com uma mulher maravilhosa na capa, em superclose, enrugada como um maracujá de gaveta pelo amassado do papel. Iguais as que a gente encontra no cabeleireiro, mas sem as mechas de cabelo anônimo no meio. Fuçando mais um bocadinho você vai encontrar umas duas ou três Caras que já viraram Coroas, esfarelando e mais amareladas que os manuscritos do Mar Morto.
Geralmente, a revista que você pega é um pouco mais interessante que a do sujeito que está ao seu lado. É quando você percebe que são dois lendo a mesma matéria. O cara com o pescoço cada vez mais esticado para o seu colo. E você fica naquela, sem saber se vira ou não a página, se o vizinho já terminou ou não a leitura dele.
Não demora e chega o puxa-prosa. Aquele que diz “como vai?” e, antes que você responda, já vai logo contando como ele vai. Começa falando do tempo e em questão de segundos desembucha a ficha completa: de onde é, onde dói, a filha casada que mora em Mato Grosso, o filho metido com droga, o terreninho que ele comprou em Boiçucanga com a herança deixada por um tio-avô.
Algumas salas de espera têm aquário, com acarás-bandeira, peixes japoneses, paulistinhas e até cascudos. Sem som ambiente, fica só aquele glub-glub da bomba de ar, que é tiro e queda como sonífero. Quando estiver numa dessas, pode reparar: de cada dez, tem uns quatro dormindo. E ferrados no sono, com fio de baba escorrendo e tudo.
Existem tipos invariavelmente encontráveis em toda sala de espera que se preze: a mãe com um pestinha que não pára quieto (o pentelho quase sempre é acompanhante e não o paciente, pois demonstra uma saúde de ferro). O homem que fica olhando para a ponta do sapato, com o pensamento a léguas dali. O propagandista de laboratório, tamborilando com os dedos em sua pasta preta e consultando o relógio a cada dois minutos. Uma perua falando alto ao celular. A patricinha com seu "Diário de Bridget Jones", mascando chiclete e de calça Diesel.
A intimidade que você acaba tendo com a sala de espera é praticamente compulsória, pelo tempo a mais que você tem que ficar esperando. A consulta das 13h30 é, na verdade, às 14h45. O problema é que, se você não chega às 13h30, o paciente das 14h, que só vai ser atendido às 15h15, passa na sua frente. Ou seja, você está condenado a ficar ali contando não sei quantas vezes os ladrilhos do chão.
Uma voz feminina, com inflexão de locutora de aeroporto, me tira do devaneio:
- Sr. Marcelo... Sguas...
E enrosca no Sguassábia. Lógico.
- Primeira porta à direita. É retorno, senhor?
- Não. Mas é como se fosse.
- Ahn??
Você chega e, antes de sentar-se, vai direto ao porta-revistas. Que nunca é um porta-revistas. Ou é um tacho de cobre ou uma cestinha de vime. Dentro, algumas "Veja" sem capa, publicações médicas, tablóides de ofertas do supermercado mais próximo e livrinhos de palavras cruzadas já resolvidas. Se for consultório de pediatra, costuma ter gibi também. E, claro, uma revista Nova bem velha. De 98, 99, por aí. Com uma mulher maravilhosa na capa, em superclose, enrugada como um maracujá de gaveta pelo amassado do papel. Iguais as que a gente encontra no cabeleireiro, mas sem as mechas de cabelo anônimo no meio. Fuçando mais um bocadinho você vai encontrar umas duas ou três Caras que já viraram Coroas, esfarelando e mais amareladas que os manuscritos do Mar Morto.
Geralmente, a revista que você pega é um pouco mais interessante que a do sujeito que está ao seu lado. É quando você percebe que são dois lendo a mesma matéria. O cara com o pescoço cada vez mais esticado para o seu colo. E você fica naquela, sem saber se vira ou não a página, se o vizinho já terminou ou não a leitura dele.
Não demora e chega o puxa-prosa. Aquele que diz “como vai?” e, antes que você responda, já vai logo contando como ele vai. Começa falando do tempo e em questão de segundos desembucha a ficha completa: de onde é, onde dói, a filha casada que mora em Mato Grosso, o filho metido com droga, o terreninho que ele comprou em Boiçucanga com a herança deixada por um tio-avô.
Algumas salas de espera têm aquário, com acarás-bandeira, peixes japoneses, paulistinhas e até cascudos. Sem som ambiente, fica só aquele glub-glub da bomba de ar, que é tiro e queda como sonífero. Quando estiver numa dessas, pode reparar: de cada dez, tem uns quatro dormindo. E ferrados no sono, com fio de baba escorrendo e tudo.
Existem tipos invariavelmente encontráveis em toda sala de espera que se preze: a mãe com um pestinha que não pára quieto (o pentelho quase sempre é acompanhante e não o paciente, pois demonstra uma saúde de ferro). O homem que fica olhando para a ponta do sapato, com o pensamento a léguas dali. O propagandista de laboratório, tamborilando com os dedos em sua pasta preta e consultando o relógio a cada dois minutos. Uma perua falando alto ao celular. A patricinha com seu "Diário de Bridget Jones", mascando chiclete e de calça Diesel.
A intimidade que você acaba tendo com a sala de espera é praticamente compulsória, pelo tempo a mais que você tem que ficar esperando. A consulta das 13h30 é, na verdade, às 14h45. O problema é que, se você não chega às 13h30, o paciente das 14h, que só vai ser atendido às 15h15, passa na sua frente. Ou seja, você está condenado a ficar ali contando não sei quantas vezes os ladrilhos do chão.
Uma voz feminina, com inflexão de locutora de aeroporto, me tira do devaneio:
- Sr. Marcelo... Sguas...
E enrosca no Sguassábia. Lógico.
- Primeira porta à direita. É retorno, senhor?
- Não. Mas é como se fosse.
- Ahn??
O DIA D
De deixar de engolir sapos pra dizer cobras e lagartos. De lagartear enquanto todos se danam de trabalhar. De danar-se para o que os outros achem ou possam pensar. De esticar o raciocínio até atingir a ignorância. De ignorar o radar e a multa, quando ela chegar. De chegar em casa e no chuveiro esvair-se ralo abaixo, sem parar. De parar de andar sentido com a vida e buscar um sentido pra ela. De dizer a ela, a ele, a elas e a eles que agora infelizmente não é possível. De possibilitar-se novas possibilidades, e ver que dá pé fazer o que jamais passou pela cabeça. De encabeçar o abaixo-assinado, indignar-se, chamar a imprensa. De imprimir sua marca na mais alta das encostas, onde poucos alcançaram e ninguém possa tirar. De tirar o relógio do pulso e ter pulso para mandar às favas o prazo estourado. De estourar a boca do balão, cair matando e partir pra briga. De brigar com a obrigação e fazer as pazes com a paz. De apaziguar a ansiedade, baixar a guarda e abrir os braços. De abraçar causas perdidas. De perder e dormir sobre os louros da derrota. De derrotar quem resolve o que pode e o que não pode. De poder e arbitrar, ir além da dose habitual, pichar um muro, dormir sem pijama, não trancar as portas nem regar as plantas. De plantar a semente da discórdia, botar a pulga atrás da orelha, acender o pavio, tapar os ouvidos e sair correndo. De correr algum risco, curtir o frio na barriga, ver a morte de perto, desatar os nós e desatar a rir. De soltar a risada reprimida, censurada à mesa, proibida nas igrejas e velórios, condenável na escola, nas audiências públicas e salas de concerto. De consertar o ânimo alquebrado, o tédio que enferruja, o sifão da pia e a dobradiça da janela. De erguer a vidraça e açoitar o mofo de idos tempos. De sentir saudade de sentir saudade. Ou, melhor ainda, de não sentir saudade por não saber do que se trata. De tratar de ser o que sonhava ser quando crescesse. De crescer sem conhecer a dor do fogo, a picada da cobra, os receios, arrependimentos e limitações incapacitantes. De ser capaz de entreter sem ser chato ou cansativo. De cansar do cansaço e demiti-lo, por justa causa e sem aviso prévio. De previamente ir deixando pra depois. De manter adiado até segunda ordem. De ordenar ao sargento pra não bater continência. De tornar continente seu pequeno povoado. De povoar de duendes e fadas madrinhas a fria terra dos gigantes. De agigantar-se e soar como o piano de Horowitz, a guitarra de Hendrix, o trompete de Armstrong num final de tarde. De assistir o entardecer sem pressa do sol se pôr. De pôr os pingos nos is, passar a limpo, tirar a teima e, tudo isso feito, jazer abandonado num sofá Chesterfield. De abandonar o cigarro por enjoar do vício, não porque é preciso. De não precisar mais cortar as unhas, fazer a barba, retornar ao dentista, atualizar o antivírus, pagar as contas e a promessa. De prometer a si mesmo que, daqui pra frente, nunca mais. De nunca mais guardar pra amanhã o último pedaço de chocolate, já que o amanhã pode muito bem cismar de não chegar. De chegar ao cúmulo, despertar a ira e provocar o espanto. De se espantar consigo e com quem quer que seja. De deixar de.
Tuesday, December 20, 2005
ALEATORIAMENTE
Falta de criatividade pode não significar ausência de dom ou talento para a coisa. Pode ser simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.
Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “random word”, também chamada de estímulo aleatório. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a idéia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim soluções e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.
Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas não tinha nada melhor pra me aparecer, não?! O acaso poderia ter sido mais camarada.
Tentei de novo. Apareceu a palavra “empada”. Pra achar alguma liga entre empada e inspiração, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso, eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...
Ainda assim fui em frente. Caí no termo “tubo”. Relacionando inspiração a tubo fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à associação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com isso. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável potencial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!
Optei pela caminhada. Coloquei short e tênis e me pus em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros da palavra Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de Hollywood por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao Mistério de Irma Vap, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. Tear me lembrou Tears, lágrimas em inglês. Pára, pára, pára. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última idéia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.
O fato é que, com essa história toda, cheguei até os quase 3000 caracteres que precisava pra completar minha coluna. E se você chegou até o fim deste texto, é sinal de que minha viagem pela aleatoriedade não foi totalmente em vão. Ou foi?
Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “random word”, também chamada de estímulo aleatório. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a idéia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim soluções e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.
Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas não tinha nada melhor pra me aparecer, não?! O acaso poderia ter sido mais camarada.
Tentei de novo. Apareceu a palavra “empada”. Pra achar alguma liga entre empada e inspiração, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso, eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...
Ainda assim fui em frente. Caí no termo “tubo”. Relacionando inspiração a tubo fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à associação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com isso. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável potencial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!
Optei pela caminhada. Coloquei short e tênis e me pus em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros da palavra Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de Hollywood por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao Mistério de Irma Vap, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. Tear me lembrou Tears, lágrimas em inglês. Pára, pára, pára. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última idéia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.
O fato é que, com essa história toda, cheguei até os quase 3000 caracteres que precisava pra completar minha coluna. E se você chegou até o fim deste texto, é sinal de que minha viagem pela aleatoriedade não foi totalmente em vão. Ou foi?
ELE É O CARA. AINDA.
Sinistro como aquele dia, só a fachada do Dakota - o paquiderme gótico que em nada lembrava você e suas roupas brancas pela paz. Gente do mundo todo aos prantos na frente da sua casa, teimando em não acreditar. Foi muita areia pros meus 16 anos, cara. Ainda que a milhares de quilômetros do epicentro, e só acompanhando pela televisão, sacudiu muito a estrutura. O Lucas Mendes ali, todo encapotado no Central Park, até ele parecia não encontrar nexo no que estava narrando.
Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e cinco anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de conter, não mais por causa da sua morte, mas por sentir você mais vivo que antes de ser assassinado. Você chamando Julia, pedindo Help, são coisas que a gente ainda escuta em estado de graça e com os pêlos todos eriçados. Os que já beiram os 60 – que viram você surgir, brilhar e partir – ou a garotada de 15, que só agora está ouvindo falar de você.
Fica à vontade, Mr. John. Nem preciso dizer que a casa é sua, olha só quantos discos seus. Acenda o tipo de cigarro que quiser, sirva-se do meu uísque, toque o meu piano. Só não fica tão ansioso, cruzando e descruzando as pernas o tempo todo. Relax, man. Pode se esticar no sofá, vou ligar para o delivery e pedir uns sushis.
Você afirmava que Deus era uma invenção, e é possível que você tenha dado de cara com o nada depois daqueles quatro tiros. Mas talvez o fato de não-ser valha mais a pena do que continuar por aqui, vendo tudo tão oposto ao que você imaginou. É, porque não deram chance à paz coisa nenhuma. Nunca estivemos tão longe dela. A despeito de você ter deixado a CIA com o pé atrás, o Nixon de cabelo em pé, o Elvis enciumado. Apesar de ter apontado o caminho pros filhos desorientados da guerra fria. Você, cara, teve peito de devolver a medalha pra Rainha. Deu uma banana pro show business e os managers das gravadoras pra ficar fazendo pão, lavando o chão e ninando o Sean. Que absurdo, o babá-beatle. Onde é que ele quer chegar, o que é que ele quer dizer? É, meu, você precisou ser muito homem pra virar dono de casa.
Como dizia uma de suas últimas letras, “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”. E os nossos planos, cara, são ainda mais tolos e mesquinhos do que em 1980. Junto com o adeus a você, um caminhão de utopias rolou ribanceira abaixo. É frustrante ver hoje a sua figura desvinculada da sua história. Da sua verdadeira história. O que se vê é você reduzido a botons e pôsteres, desde as rodoviárias até as galerias de arte – o John de terninho e bota, o psicodélico, o hippie barbudo, o combativo, o pacifista. Mas da sua mensagem, que é o mais importante, muito pouco se fala. Ficam na superfície, no guru a quem se deve adoração sem que se saiba o porquê.
É irônico e entediante encontrar, por essa época do ano, seus CDs dentro daqueles trenós de papelão nos hipermercados, ao lado da gôndola de panetones. A mídia faturando em cima da aura messiânica criada em torno de você, fazendo girar a engrenagem que financia a guerra que você combatia. Transmitem especiais em sua homenagem, celebram com fingido pesar a sua morte, transformam você num papai noel magro, o som ambiente dos shoppings mandando ver o seu “Happy Christmas”. Eles não entenderam nada. Pior: fingem que não entenderam.
Até, cara. Dá um abraço no George.
Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e cinco anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de conter, não mais por causa da sua morte, mas por sentir você mais vivo que antes de ser assassinado. Você chamando Julia, pedindo Help, são coisas que a gente ainda escuta em estado de graça e com os pêlos todos eriçados. Os que já beiram os 60 – que viram você surgir, brilhar e partir – ou a garotada de 15, que só agora está ouvindo falar de você.
Fica à vontade, Mr. John. Nem preciso dizer que a casa é sua, olha só quantos discos seus. Acenda o tipo de cigarro que quiser, sirva-se do meu uísque, toque o meu piano. Só não fica tão ansioso, cruzando e descruzando as pernas o tempo todo. Relax, man. Pode se esticar no sofá, vou ligar para o delivery e pedir uns sushis.
Você afirmava que Deus era uma invenção, e é possível que você tenha dado de cara com o nada depois daqueles quatro tiros. Mas talvez o fato de não-ser valha mais a pena do que continuar por aqui, vendo tudo tão oposto ao que você imaginou. É, porque não deram chance à paz coisa nenhuma. Nunca estivemos tão longe dela. A despeito de você ter deixado a CIA com o pé atrás, o Nixon de cabelo em pé, o Elvis enciumado. Apesar de ter apontado o caminho pros filhos desorientados da guerra fria. Você, cara, teve peito de devolver a medalha pra Rainha. Deu uma banana pro show business e os managers das gravadoras pra ficar fazendo pão, lavando o chão e ninando o Sean. Que absurdo, o babá-beatle. Onde é que ele quer chegar, o que é que ele quer dizer? É, meu, você precisou ser muito homem pra virar dono de casa.
Como dizia uma de suas últimas letras, “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”. E os nossos planos, cara, são ainda mais tolos e mesquinhos do que em 1980. Junto com o adeus a você, um caminhão de utopias rolou ribanceira abaixo. É frustrante ver hoje a sua figura desvinculada da sua história. Da sua verdadeira história. O que se vê é você reduzido a botons e pôsteres, desde as rodoviárias até as galerias de arte – o John de terninho e bota, o psicodélico, o hippie barbudo, o combativo, o pacifista. Mas da sua mensagem, que é o mais importante, muito pouco se fala. Ficam na superfície, no guru a quem se deve adoração sem que se saiba o porquê.
É irônico e entediante encontrar, por essa época do ano, seus CDs dentro daqueles trenós de papelão nos hipermercados, ao lado da gôndola de panetones. A mídia faturando em cima da aura messiânica criada em torno de você, fazendo girar a engrenagem que financia a guerra que você combatia. Transmitem especiais em sua homenagem, celebram com fingido pesar a sua morte, transformam você num papai noel magro, o som ambiente dos shoppings mandando ver o seu “Happy Christmas”. Eles não entenderam nada. Pior: fingem que não entenderam.
Até, cara. Dá um abraço no George.
MISSA
A hora em que o Senhor reúne suas ovelhas é a hora em que a província é mais tacanha e ensimesmada, a urbe é vila das almas e todos acreditam piamente na fraternidade entre os homens. Unem-se no mesmo rito o mendigo à porta da igreja e o turco da loja, que não fia nem à mãe. Caciques políticos que não se olham na cara ficam, a contragosto, debaixo da mesma abóbada. Todos perfeitamente equalizados na filiação divina, tentando honrar o que do Altíssimo receberam e merecerem a salvação no dia final.
- Andai com retidão pelos caminhos do Senhor. A quem muito foi dado, muito será cobrado.
O sinal da Cruz com água benta. Um olhar à esquerda e outro à direita, pra saudar os conhecidos antes de tomar assento. O Ministro da Eucaristia repassando a primeira leitura. Alô, sssssssommm.
- Vamos ensaiar mais uma vez o canto do ofertório, na página 3 do folheto.
Amalgamam-se velas, incenso, perfumes finos e populares. A igreja cheia. As velhas com suas novenas e missais, véus negros como os arabescos de jacarandá nos altares laterais. Essas velhas que ali fizeram a primeira comunhão, casaram-se e ali teriam, mais cedo ou mais tarde, sua missa de corpo presente. Enxergam a si mesmas no ataúde, em meio à homilia derradeira, imaginando a figura que fariam, como os parentes as vestiriam para a ocasião. E vagariam, os espíritos já fora dos corpos, pelos comentários de noras e filhos, genros e netos. Saberiam de verdade o que sentiam a seu respeito.
O preto da batina do padre, o vermelho vivo dos paramentos, o branco das pipocas estourando lá na praça.
- Será que teria mais um lugarzinho aí?
Cinco em um banco fica apertado, mas não é cristão negar. Oremos. Adoremos. Louvemos. Divaga o pensamento nas asas dos anjos pintados no teto. O confessionário, agora vazio, tão procurado nas horas mortas pelos reincidentes nas faltas capitais e veniais. O padre ouvindo, ouvindo sem olhar no rosto. Uma cortininha roxa e uma treliça de madeira separando o pecado da absolvição.
O toc-toc do salto alto de Dona Bela, ecoando igreja adentro. Poucos sabem seu nome, raros lhe dirigem a palavra. Estranha e circunspecta, a blusa fechada por uns duzentos botões. Sempre chega dez minutos antes, hoje atrasou. Religiosamente senta-se no mesmo banco, o terceiro à esquerda do altar.
Os olhares estáticos dos santos, como que impassíveis diante das preces.
Genuflexório de reflexões. A luz das nove da manhã, coada pelos vitrais, batendo na pia batismal.
- Esse sermão que não acaba mais. O padre hoje está inspirado.
Tudo muito mais solene no tempo do Advento. Olha que lindo o presépio, festões verdes e dourados, cachoeira ao lado da manjedoura. Estranho à liturgia e alheio ao que se passa, o cachorro pulguento fica pra lá e pra cá. Só de igreja tem uns quinze anos. Deve se sentir acompanhado e protegido. Um cão guardado por Deus. As mãos trêmulas do dono da farmácia passeando pelos mistérios do Rosário. Vem com os netos, uma fileira de pimpolhos. Cabelinhos repartidos, banho tomado, roupa de sair. Na hora do “saudai-vos uns aos outros”, vai um tempão até beijar todos eles. O farmacêutico era ateu. Até que teve um negócio, se agarrou ao Poderoso, pediu com fé sua cura, foi atendido e aí está. Convertido e devoto.
- Ave Maria, Gratia Plena, Dominus tecum...
As colunas, arcos e ogivas a elevarem aos céus os clamores de misericórdia e as alegrias pelas graças alcançadas.
O corpo leve: é a paz na alma. A bênção final, amém.
- Olha a pipoca, quebra-queixo, amendoim... Um coquinho para o seu menino?
- Levo sim. Dessa bexiga ele também vai gostar muito.
E lá vão eles, a passos lentos retornando às suas vidinhas, carregando nos corações todo o bem do mundo de meu Deus.
- Andai com retidão pelos caminhos do Senhor. A quem muito foi dado, muito será cobrado.
O sinal da Cruz com água benta. Um olhar à esquerda e outro à direita, pra saudar os conhecidos antes de tomar assento. O Ministro da Eucaristia repassando a primeira leitura. Alô, sssssssommm.
- Vamos ensaiar mais uma vez o canto do ofertório, na página 3 do folheto.
Amalgamam-se velas, incenso, perfumes finos e populares. A igreja cheia. As velhas com suas novenas e missais, véus negros como os arabescos de jacarandá nos altares laterais. Essas velhas que ali fizeram a primeira comunhão, casaram-se e ali teriam, mais cedo ou mais tarde, sua missa de corpo presente. Enxergam a si mesmas no ataúde, em meio à homilia derradeira, imaginando a figura que fariam, como os parentes as vestiriam para a ocasião. E vagariam, os espíritos já fora dos corpos, pelos comentários de noras e filhos, genros e netos. Saberiam de verdade o que sentiam a seu respeito.
O preto da batina do padre, o vermelho vivo dos paramentos, o branco das pipocas estourando lá na praça.
- Será que teria mais um lugarzinho aí?
Cinco em um banco fica apertado, mas não é cristão negar. Oremos. Adoremos. Louvemos. Divaga o pensamento nas asas dos anjos pintados no teto. O confessionário, agora vazio, tão procurado nas horas mortas pelos reincidentes nas faltas capitais e veniais. O padre ouvindo, ouvindo sem olhar no rosto. Uma cortininha roxa e uma treliça de madeira separando o pecado da absolvição.
O toc-toc do salto alto de Dona Bela, ecoando igreja adentro. Poucos sabem seu nome, raros lhe dirigem a palavra. Estranha e circunspecta, a blusa fechada por uns duzentos botões. Sempre chega dez minutos antes, hoje atrasou. Religiosamente senta-se no mesmo banco, o terceiro à esquerda do altar.
Os olhares estáticos dos santos, como que impassíveis diante das preces.
Genuflexório de reflexões. A luz das nove da manhã, coada pelos vitrais, batendo na pia batismal.
- Esse sermão que não acaba mais. O padre hoje está inspirado.
Tudo muito mais solene no tempo do Advento. Olha que lindo o presépio, festões verdes e dourados, cachoeira ao lado da manjedoura. Estranho à liturgia e alheio ao que se passa, o cachorro pulguento fica pra lá e pra cá. Só de igreja tem uns quinze anos. Deve se sentir acompanhado e protegido. Um cão guardado por Deus. As mãos trêmulas do dono da farmácia passeando pelos mistérios do Rosário. Vem com os netos, uma fileira de pimpolhos. Cabelinhos repartidos, banho tomado, roupa de sair. Na hora do “saudai-vos uns aos outros”, vai um tempão até beijar todos eles. O farmacêutico era ateu. Até que teve um negócio, se agarrou ao Poderoso, pediu com fé sua cura, foi atendido e aí está. Convertido e devoto.
- Ave Maria, Gratia Plena, Dominus tecum...
As colunas, arcos e ogivas a elevarem aos céus os clamores de misericórdia e as alegrias pelas graças alcançadas.
O corpo leve: é a paz na alma. A bênção final, amém.
- Olha a pipoca, quebra-queixo, amendoim... Um coquinho para o seu menino?
- Levo sim. Dessa bexiga ele também vai gostar muito.
E lá vão eles, a passos lentos retornando às suas vidinhas, carregando nos corações todo o bem do mundo de meu Deus.
Sunday, November 06, 2005
BEM-VINDO AO SPA GHETTI

É uma alegria e uma honra recebê-lo em nosso Spa. Para que sua estada seja a mais agradável possível, pedimos seguir à risca as seguintes recomendações:
É terminantemente proibido o contato com alimentos pouco calóricos ou com caloria zero. Uma mudança radical de vida, que é afinal o que você busca, exige força de vontade. Em todas as circunstâncias, nosso lema é: EVITE A PRIMEIRA GOTA DE ADOÇANTE. Por minúscula que seja, é o suficiente para acarretar uma severa recaída e botar a perder todo o trabalho de nossos nutricionistas, psicólogos, médicos e personal trainners.
Na ingestão acidental de substâncias light ou diet, deve-se induzir o vômito ou proceder a uma lavagem estomacal, para desintoxicação.
Nossa tradicional sopa de toucinho com manteiga deverá ser ingerida preferencialmente em jejum, visando o máximo efeito terapêutico.
Bolsas, valises e malas serão revistadas diariamente pelos monitores. Balas e demais guloseimas sem açúcar, se encontradas, serão apreendidas e enviadas à família do hóspede. Em caso de reincidência, o próprio hóspede será remetido à sua cidade de origem, juntamente com seus bagulhos de sacarina.
Há alguns meses testemunhamos em nossas dependências um episódio constrangedor, no qual um interno foi flagrado com um pé de alface na cueca e dois maços de chicória escondidos nas axilas. Nosso detector de verduras e legumes, instalado na recepção, soará imediatamente se infrações semelhantes vierem a ocorrer.
Se, por recomendação médica, você necessitar de alimentação mais leve, sirva-se do nosso bufê de frutas: maçã do amor, banana caramelada, creme de abacate, abacaxi em calda e compota de goiaba.
A freqüência às piscinas só será permitida com trajes de banha ou camisetas de algodão doce.
O campeonato de Tiro ao Magro acontece diariamente, das 9 às 18h.
O ócio é o melhor amigo da genialidade e do impulso transformador. Exemplos disso são Dorival Caymmi, que fez tudo o que fez praticamente sem fazer nada, e Isaac Newton, que descobriu a lei da gravidade descansando embaixo de uma árvore. Nosso Spa é um monumento à inatividade restauradora. A única coisa que se mexe aqui são os ovos mexidos, servidos com fatias de cupim no café da manhã. Assim, lembre-se: ao invés de correr, ande. Ao invés de andar, sente-se. Ao invés de sentar, deite-se. Ao invés de deitar-se, peça que alguém coloque você na cama.
Para seu maior conforto, nosso projeto arquitetônico contemplou um total de 16 rampas em declive, permitindo que você chegue rolando aos diversos pavimentos. O retorno aos andares superiores poderá ser feito por teleférico ou guindaste.
Ao assistir TV, evite os programas humorísticos. Estudos recentes demonstram que o riso, ainda que contido, promove algum gasto calórico.
Como parte do apoio psicológico ao tratamento, sugerimos a leitura dos livros “Só é magro quem quer”, “À procura do quilo perdido”, “GG – Manual do Gordo Gostoso” e “Boi no Rolete – coma sem culpa”, todos à venda na portaria central.
Não deixe de visitar nossa sala de massagem, onde seu ego poderá ser massageado com as seguintes mensagens:
1 – Nossa, que gordo lindo!
2 – E aí, fofinha? Na minha casa ou na sua?
3 – Uau, onde é que vai com tudo isso?
4 – Essa é a nora que mamãe pediu a Deus.
5 – Sou gordo, mas quem não é? Saco vazio não pára em pé.
Por último, uma consideração de natureza filosófica: magros são perdedores, gordos são vitoriosos.
O magro é alguém que não conseguiu ganhar peso, ou que perdeu, o que de uma forma ou de outra o coloca como um fracassado – justamente por não ter ganho ou por ter perdido.
Você está aqui para ganhar peso. Conseqüentemente, isso fará de você um vencedor. Parabéns!!!
É terminantemente proibido o contato com alimentos pouco calóricos ou com caloria zero. Uma mudança radical de vida, que é afinal o que você busca, exige força de vontade. Em todas as circunstâncias, nosso lema é: EVITE A PRIMEIRA GOTA DE ADOÇANTE. Por minúscula que seja, é o suficiente para acarretar uma severa recaída e botar a perder todo o trabalho de nossos nutricionistas, psicólogos, médicos e personal trainners.
Na ingestão acidental de substâncias light ou diet, deve-se induzir o vômito ou proceder a uma lavagem estomacal, para desintoxicação.
Nossa tradicional sopa de toucinho com manteiga deverá ser ingerida preferencialmente em jejum, visando o máximo efeito terapêutico.
Bolsas, valises e malas serão revistadas diariamente pelos monitores. Balas e demais guloseimas sem açúcar, se encontradas, serão apreendidas e enviadas à família do hóspede. Em caso de reincidência, o próprio hóspede será remetido à sua cidade de origem, juntamente com seus bagulhos de sacarina.
Há alguns meses testemunhamos em nossas dependências um episódio constrangedor, no qual um interno foi flagrado com um pé de alface na cueca e dois maços de chicória escondidos nas axilas. Nosso detector de verduras e legumes, instalado na recepção, soará imediatamente se infrações semelhantes vierem a ocorrer.
Se, por recomendação médica, você necessitar de alimentação mais leve, sirva-se do nosso bufê de frutas: maçã do amor, banana caramelada, creme de abacate, abacaxi em calda e compota de goiaba.
A freqüência às piscinas só será permitida com trajes de banha ou camisetas de algodão doce.
O campeonato de Tiro ao Magro acontece diariamente, das 9 às 18h.
O ócio é o melhor amigo da genialidade e do impulso transformador. Exemplos disso são Dorival Caymmi, que fez tudo o que fez praticamente sem fazer nada, e Isaac Newton, que descobriu a lei da gravidade descansando embaixo de uma árvore. Nosso Spa é um monumento à inatividade restauradora. A única coisa que se mexe aqui são os ovos mexidos, servidos com fatias de cupim no café da manhã. Assim, lembre-se: ao invés de correr, ande. Ao invés de andar, sente-se. Ao invés de sentar, deite-se. Ao invés de deitar-se, peça que alguém coloque você na cama.
Para seu maior conforto, nosso projeto arquitetônico contemplou um total de 16 rampas em declive, permitindo que você chegue rolando aos diversos pavimentos. O retorno aos andares superiores poderá ser feito por teleférico ou guindaste.
Ao assistir TV, evite os programas humorísticos. Estudos recentes demonstram que o riso, ainda que contido, promove algum gasto calórico.
Como parte do apoio psicológico ao tratamento, sugerimos a leitura dos livros “Só é magro quem quer”, “À procura do quilo perdido”, “GG – Manual do Gordo Gostoso” e “Boi no Rolete – coma sem culpa”, todos à venda na portaria central.
Não deixe de visitar nossa sala de massagem, onde seu ego poderá ser massageado com as seguintes mensagens:
1 – Nossa, que gordo lindo!
2 – E aí, fofinha? Na minha casa ou na sua?
3 – Uau, onde é que vai com tudo isso?
4 – Essa é a nora que mamãe pediu a Deus.
5 – Sou gordo, mas quem não é? Saco vazio não pára em pé.
Por último, uma consideração de natureza filosófica: magros são perdedores, gordos são vitoriosos.
O magro é alguém que não conseguiu ganhar peso, ou que perdeu, o que de uma forma ou de outra o coloca como um fracassado – justamente por não ter ganho ou por ter perdido.
Você está aqui para ganhar peso. Conseqüentemente, isso fará de você um vencedor. Parabéns!!!
Sunday, October 30, 2005
MARCAS
O que será que faz o M do Mc Donalds, a curvinha da Nike, o jacarezinho da Lacoste serem o M do Mc Donalds, a curvinha da Nike e o jacarezinho da Lacoste? Na busca de uma resposta, homens de marketing divergirão de sociólogos. Que não necessariamente terão as mesmas convicções dos filósofos, cujos argumentos jamais convencerão os religiosos, que inspirados em seus dogmas travarão discussões acaloradas com os cientistas políticos. A celeuma se aprofundaria, ganharia a mídia e se transformaria num grande fórum de debates, certamente com o patrocínio da Coca-Cola, da Vivo ou da Volkswagen.
O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram genérico. "Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta" – diz ele. "Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".
Tá certo que esse meu amigo é um tanto radical. Mas tão xiita quanto ele é aquele cara no extremo oposto, que compra a etiqueta e só depois é que repara no produto em volta dela. "Grifado" da cabeça aos piercings, o talzinho é um verdadeiro anúncio ambulante. Veste o que veste não pelo valor que atribui à indumentária, mas pelo status que supostamente darão a ele por se exibir com aquilo tudo. E lá vai o bacaninha dando um rolê pelos points da hora, se achando o rei da paçoca.
O poder da marca é um caso muito sério. Aí está o Branding - ciência que estuda a marca e sua dinâmica no relacionamento com o consumidor - que não me deixa mentir. E vale tudo para garantir que ela apareça e ganhe mercado. Até mesmo recorrer a obras-primas, que à revelia de seus autores acabam virando sinônimo de marca. O que será que Beethoven pensaria se soubesse que aquela curta e genial seqüência de notas, que alicerça sua Quinta Sinfonia, se transformaria no "pão pão pão pão" da Wickbold? Ou da sua "Pour Elise", comendo solta nas esperas telefônicas e nos caminhões de entrega de gás? Quando é que iria passar pela cabeça do autor de "O Sole Mio" que sua canção imortal viraria comercial do Cornetto? E por aí vai. "As Quatro Estrações", de Vivaldi, vendendo sabonete. O célebre "Aleluia" de Haendel, que já apregoou até remédio para prisão de ventre. A solene "Pompa e Circunstância", de Edward Elgar, por décadas reduzida à musiquinha do "Boa Noite Cinderela", antigo quadro do Programa Silvio Santos. A lista é interminável. Se bobear, "Águas de Março" daqui a pouco vira jingle de guarda-chuva, pra desespero do meu amigo xiita. Que, aliás, anda sumido. Deve estar desempregado.
O fato é que as marcas estão aí, colossais e reluzentes, explícita ou subliminarmente a fincar suas bandeiras nas frágeis massas cinzentas.
Tenho um amigo, publicitário, que arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram genérico. "Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta" – diz ele. "Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".
Tá certo que esse meu amigo é um tanto radical. Mas tão xiita quanto ele é aquele cara no extremo oposto, que compra a etiqueta e só depois é que repara no produto em volta dela. "Grifado" da cabeça aos piercings, o talzinho é um verdadeiro anúncio ambulante. Veste o que veste não pelo valor que atribui à indumentária, mas pelo status que supostamente darão a ele por se exibir com aquilo tudo. E lá vai o bacaninha dando um rolê pelos points da hora, se achando o rei da paçoca.
O poder da marca é um caso muito sério. Aí está o Branding - ciência que estuda a marca e sua dinâmica no relacionamento com o consumidor - que não me deixa mentir. E vale tudo para garantir que ela apareça e ganhe mercado. Até mesmo recorrer a obras-primas, que à revelia de seus autores acabam virando sinônimo de marca. O que será que Beethoven pensaria se soubesse que aquela curta e genial seqüência de notas, que alicerça sua Quinta Sinfonia, se transformaria no "pão pão pão pão" da Wickbold? Ou da sua "Pour Elise", comendo solta nas esperas telefônicas e nos caminhões de entrega de gás? Quando é que iria passar pela cabeça do autor de "O Sole Mio" que sua canção imortal viraria comercial do Cornetto? E por aí vai. "As Quatro Estrações", de Vivaldi, vendendo sabonete. O célebre "Aleluia" de Haendel, que já apregoou até remédio para prisão de ventre. A solene "Pompa e Circunstância", de Edward Elgar, por décadas reduzida à musiquinha do "Boa Noite Cinderela", antigo quadro do Programa Silvio Santos. A lista é interminável. Se bobear, "Águas de Março" daqui a pouco vira jingle de guarda-chuva, pra desespero do meu amigo xiita. Que, aliás, anda sumido. Deve estar desempregado.
TUDO SERÁ COMO SEMPRE
Sucedeu que ele acordou com aquela idéia na cabeça: fazer tudo diferente do que estava acostumado. Tirar a vidinha do piloto automático. Lembrou daquele famoso pressuposto da programação neurolingüística, que aprendeu num curso rápido sobre o assunto: SE VOCÊ CONTINUAR A FAZER O QUE VEM FAZENDO, VAI CONTINUAR A OBTER O QUE VEM OBTENDO. A afirmação era óbvia, tão óbvia que parecia estúpido levá-la a sério. Até que caiu a ficha. E ele resolveu que aquele era o dia da guinada.
Começou na cama mesmo. Absteve-se da interminável sessão de bocejos e espreguiçamentos e de um salto pôs-se de pé. Fez trinta flexões, bem mais que as cinco de costume. Inverteu a ordem dos remédios - primeiro o da pressão, depois o complexo B.
Escovou os dentes começando pelos do fundo e terminando pelos da frente, exatamente como nunca tinha feito. Não se barbeou. Vestiu um terno verde e uma gravata prateada. Sentou-se à mesa, na cadeira da outra ponta. Ao invés de colocar na xícara bastante leite e um pouquinho de café, pôs muito café e quase nada de leite. Se despediu da esposa com um beijo no rosto, e não na testa.
Quando saiu já ia fazendo o caminho de costume, mas a tempo pegou outro rumo.
Ligou o rádio do carro. Tirou da CBN e sintonizou num programa sertanejo. Parou no semáforo e dessa vez comprou as balinhas que o garoto ofereceu. Passou em frente à igreja e não fez o sinal da cruz. Estacionou o carro na vaga do chefe (ele nunca estava mesmo). Subiu pela escada, não ia se repetir tomando o elevador. Decidiu que não responderia nenhum e-mail, por isso nem abriu sua caixa de mensagens. Trocou o mouse pad, limpou o monitor com álcool, mudou o protetor de tela e as cores do windows.
Na hora do almoço, aproveitou para não almoçar. Foi ao cabeleireiro. Abriu a Veja no lugar da Caras. Folheou de trás pra frente. Pediu para o cabeleireiro repartir o cabelo do outro lado. Retornando ao trabalho, "matou" uma tia velha e disse que precisava ir ao velório em Barbacena. Foi à sauna, depois ao cinema. Nenhum drama de consciência ao fazer isso em plena terça. Voltou pra casa duas horas mais cedo que o costume. No horário de sempre se recusara a voltar. Antes, comprou rosas para a esposa. Abriu a porta e flagrou a mulher com o seu chefe, que calçava os seus chinelos e bebia o seu conhaque. Os dois ajoelhados no chão do quarto, levando chicotadas do vizinho do 206, travestido de mulher-gato.
Não fez ruído nenhum. Do mesmo jeito que entrou, saiu. Ia deixar tudo como estava. Caso contrário perderia a mulher, teria que arrumar outro emprego e sairia nos jornais como assassino de traveco. Voltou para a empresa. As flores deixou com a Laura, recepcionista. Com um cartãozinho discreto, confirmando o motel para depois das seis e meia. Como sempre.
Começou na cama mesmo. Absteve-se da interminável sessão de bocejos e espreguiçamentos e de um salto pôs-se de pé. Fez trinta flexões, bem mais que as cinco de costume. Inverteu a ordem dos remédios - primeiro o da pressão, depois o complexo B.
Escovou os dentes começando pelos do fundo e terminando pelos da frente, exatamente como nunca tinha feito. Não se barbeou. Vestiu um terno verde e uma gravata prateada. Sentou-se à mesa, na cadeira da outra ponta. Ao invés de colocar na xícara bastante leite e um pouquinho de café, pôs muito café e quase nada de leite. Se despediu da esposa com um beijo no rosto, e não na testa.
Quando saiu já ia fazendo o caminho de costume, mas a tempo pegou outro rumo.
Ligou o rádio do carro. Tirou da CBN e sintonizou num programa sertanejo. Parou no semáforo e dessa vez comprou as balinhas que o garoto ofereceu. Passou em frente à igreja e não fez o sinal da cruz. Estacionou o carro na vaga do chefe (ele nunca estava mesmo). Subiu pela escada, não ia se repetir tomando o elevador. Decidiu que não responderia nenhum e-mail, por isso nem abriu sua caixa de mensagens. Trocou o mouse pad, limpou o monitor com álcool, mudou o protetor de tela e as cores do windows.
Na hora do almoço, aproveitou para não almoçar. Foi ao cabeleireiro. Abriu a Veja no lugar da Caras. Folheou de trás pra frente. Pediu para o cabeleireiro repartir o cabelo do outro lado. Retornando ao trabalho, "matou" uma tia velha e disse que precisava ir ao velório em Barbacena. Foi à sauna, depois ao cinema. Nenhum drama de consciência ao fazer isso em plena terça. Voltou pra casa duas horas mais cedo que o costume. No horário de sempre se recusara a voltar. Antes, comprou rosas para a esposa. Abriu a porta e flagrou a mulher com o seu chefe, que calçava os seus chinelos e bebia o seu conhaque. Os dois ajoelhados no chão do quarto, levando chicotadas do vizinho do 206, travestido de mulher-gato.
Não fez ruído nenhum. Do mesmo jeito que entrou, saiu. Ia deixar tudo como estava. Caso contrário perderia a mulher, teria que arrumar outro emprego e sairia nos jornais como assassino de traveco. Voltou para a empresa. As flores deixou com a Laura, recepcionista. Com um cartãozinho discreto, confirmando o motel para depois das seis e meia. Como sempre.
AMANTE MANTIQUEIRA
Do meio da escada rolante, na grande cidade cinza, galopo mentalmente nesse azul esverdeado que é todo teu, Mantiqueira. Montanha acima, vou me encardindo com teu musgo, devasso tua vastidão, perdidamente me encontro em tuas veredas e cipoais. E já tão verde quanto és, me camuflo do mundo e me confundo contigo, no enlace fecundo entre o animal de mim e o vegetal de ti. Sigo extasiado com a pintura de teus crepúsculos, desvirginando lendas guardadas desde o Gênesis nas copas de tuas árvores. Trazidos por fresca aragem passam caboclos e curupiras, camafeus de sinhazinhas, rocas de negras velhas, ais de chibata e de gozo, a grande saga dos séculos que ao longo de tua extensão pudeste testemunhar.
Ouves agora esse eco? É toda a tua quietude aos berros dentro de mim. Mais um pouco e o sol a pino vai mudando teus matizes e o canto de teus pássaros. Abro as porteiras do tempo em teus nativos espaços, amasso o barro de tuas trilhas, sobrevôo esses mares de morros que começam não sei onde pra acabar em nunca mais. Tuas termas de extintos vulcões, o enxofre a exalar de tuas entranhas. Reconheço minhas veias nos veios de tuas rochas. Me revelas calmamente cada um dos teus segredos. As Pratas de tuas Águas, as Caldas de teus Poços, a tua tão Boa Vista. Me falas dos milhões de anos que levaste na feitura disso tudo. Da paciência que tiveste, das metamorfoses que sofreste, do quanto que esperaste para me ver assim, rendido aos teus encantos. Me contas histórias antiqüíssimas, gravadas em xistos, calcários e granitos, num dialeto ancestral só partilhado por nós dois. Me inicias em teus saberes e teus sabores, me mostras picadas abertas por bandeirantes atrás do ouro das Gerais. Me escancaras despudoradamente as jazidas de teus minérios. Teus urânios, que enriquecidos te empobrecem. Tuas fontes radioativas, tão indefesas e tão vítimas da cobiça extrativista. Me banhas maternalmente em tuas cascatas, me ensinas que é por causa delas que teu nome é "Serra que Chora", em tupi-guarani.
Mas o que me revelas é quase nada diante daquilo que escondes. O insondável que há por trás de tuas neblinas - uma interrogação que, mesmo fluida, é tão pesada como o ferro que produzes. Porque és, Mantiqueira, quinhentos quilômetros de mistério. Guardas em tuas nascentes o código genético da Terra, sentiste em teu manto silvestre o dedo do Criador. Ele, que te concebeu mulher, de encostas sinuosas e insinuantes para propositadamente seduzir os homens.
Ouves agora esse eco? É toda a tua quietude aos berros dentro de mim. Mais um pouco e o sol a pino vai mudando teus matizes e o canto de teus pássaros. Abro as porteiras do tempo em teus nativos espaços, amasso o barro de tuas trilhas, sobrevôo esses mares de morros que começam não sei onde pra acabar em nunca mais. Tuas termas de extintos vulcões, o enxofre a exalar de tuas entranhas. Reconheço minhas veias nos veios de tuas rochas. Me revelas calmamente cada um dos teus segredos. As Pratas de tuas Águas, as Caldas de teus Poços, a tua tão Boa Vista. Me falas dos milhões de anos que levaste na feitura disso tudo. Da paciência que tiveste, das metamorfoses que sofreste, do quanto que esperaste para me ver assim, rendido aos teus encantos. Me contas histórias antiqüíssimas, gravadas em xistos, calcários e granitos, num dialeto ancestral só partilhado por nós dois. Me inicias em teus saberes e teus sabores, me mostras picadas abertas por bandeirantes atrás do ouro das Gerais. Me escancaras despudoradamente as jazidas de teus minérios. Teus urânios, que enriquecidos te empobrecem. Tuas fontes radioativas, tão indefesas e tão vítimas da cobiça extrativista. Me banhas maternalmente em tuas cascatas, me ensinas que é por causa delas que teu nome é "Serra que Chora", em tupi-guarani.
Mas o que me revelas é quase nada diante daquilo que escondes. O insondável que há por trás de tuas neblinas - uma interrogação que, mesmo fluida, é tão pesada como o ferro que produzes. Porque és, Mantiqueira, quinhentos quilômetros de mistério. Guardas em tuas nascentes o código genético da Terra, sentiste em teu manto silvestre o dedo do Criador. Ele, que te concebeu mulher, de encostas sinuosas e insinuantes para propositadamente seduzir os homens.
Wednesday, October 05, 2005
EM QUE POSSO AJUDÁ-LO?
I
- O senhor vai me desculpar, mas sem o carimbo do Teixeira não tem jeito.
- E o Teixeira não está?
- Não.
- E o carimbo dele?
- O senhor me respeite. Olha o desacato ao servidor...
- Vai me dizer que o Teixeira leva o carimbo quando sai da repartição? Olha só, tem um carrossel lotado de carimbos aí do seu lado. Será que o do Teixeira não está aí, não?...
- Bom, enquanto isso vamos vendo os outros documentos. Trouxe o DIRC atualizado da Paresp?
- DIRC da Paresp... DIRC da Paresp... Tá na mão. E quitado antes do vencimento.
- Só que tem uma coisa... esse adendo da minuta ainda não foi averbado na Junta.
- Não entendi.
- O Benê do guichê 11 vai explicar direitinho pro senhor. Mas já vou lhe adiantando que tem que voltar até o 8º Cartório e reconhecer de novo a firma do antigo proprietário. Essa aqui não vale mais. Então, é melhor fazer o seguinte: antes de ir pro guichê 11 o senhor vai até o terceiro andar e fala com a Wilma. Saindo do elevador, primeira à esquerda, primeira à direita, de novo à direita e o senhor vai dar de cara com uma salinha verde, que tem um bebedouro quebrado.
- Sei, debaixo de um calendário da Seicho-No-Iê. Estive lá na semana passada.
- Isso. É só pegar a senha e aguardar ser chamado.
II
- Eu vou lhe dar um protocolo da requisição. O senhor leva até o Denorf e solicita a emissão do Nada Consta da Delegacia Fazendária. Não demora muito, não.
III
- Bons antecedentes, ok... Certidão Negativa de Débito, ok... habite-se, registro do inventário, 2 fotos 3x4. Mas eu preciso também do requerimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e os últimos cinco boletos do ISSQN, comprovando o recolhimento. É que antes da homologação do prontuário, o DPTS pede o formal de partilha em duas vias. Até julho do ano passado podia fazer por procuração, só que agora o cartório está exigindo a presença da pessoa.
- Mas ele mora em Muzambinho...
IV
- Aparentemente só estão faltando o número do PIS Pasep do inventariante e uma cópia frente e verso autenticada do ITBI pra poder dar baixa. Caso contrário não é possível correr com a papelada.
- Mas quando eu vim aqui da outra vez aquele senhor de óculos ali me disse que uma segunda via da...
- Não, não. De jeito maneira. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A petição tá certa, mas precisa constar uma ressalva prevendo o usufruto da viúva.
- E essa instrução normativa para unificação de cadastro?
- Isso aí pode levar embora porque não vai servir pra nada. O senhor me providencie um termo de responsabilidade, com assinatura de três testemunhas. É só disso que eu preciso, trazendo até segunda-feira pra mim tá bom. Agora, veja bem, isso aqui é a minha parte, entendeu? No guichê 14 vão informar ao senhor como dar entrada no pedido pra saber em qual jurisdição do CASP esse DERC deve ser encaminhado.
V
- Meu amigo, eu não estou autorizado a emitir o TCF sem a apresentação do canhoto do D.O.R. Além disso, olha só, tá faltando a rubrica do perito técnico. Outro dia mesmo apareceu um cidadão aqui com um caso parecido com o seu.
- Bom, resumindo...
- Só na Secretaria, das quinze e trinta às dezesseis e quarenta. E traga também um atestado de saúde.
- Ah, isso com certeza não precisa. Se eu não morri até agora correndo atrás disso tudo, é sinal que a minha saúde tá ótima.
Estava enganado, coitado. Cinco minutos depois, enquanto corria ofegante do guichê 7 para o 18, teve um mal súbito e morreu. O sub-escrevente adjunto adiantou-se e proclamou:
- Ninguém faz nada, ninguém toca no morto enquanto não sair o Alvará de Liberação do corpo. Mas já vou avisando que o Edmilson, que cuida disso, está de licença-prêmio e só volta daqui a seis dias.
- O senhor vai me desculpar, mas sem o carimbo do Teixeira não tem jeito.
- E o Teixeira não está?
- Não.
- E o carimbo dele?
- O senhor me respeite. Olha o desacato ao servidor...
- Vai me dizer que o Teixeira leva o carimbo quando sai da repartição? Olha só, tem um carrossel lotado de carimbos aí do seu lado. Será que o do Teixeira não está aí, não?...
- Bom, enquanto isso vamos vendo os outros documentos. Trouxe o DIRC atualizado da Paresp?
- DIRC da Paresp... DIRC da Paresp... Tá na mão. E quitado antes do vencimento.
- Só que tem uma coisa... esse adendo da minuta ainda não foi averbado na Junta.
- Não entendi.
- O Benê do guichê 11 vai explicar direitinho pro senhor. Mas já vou lhe adiantando que tem que voltar até o 8º Cartório e reconhecer de novo a firma do antigo proprietário. Essa aqui não vale mais. Então, é melhor fazer o seguinte: antes de ir pro guichê 11 o senhor vai até o terceiro andar e fala com a Wilma. Saindo do elevador, primeira à esquerda, primeira à direita, de novo à direita e o senhor vai dar de cara com uma salinha verde, que tem um bebedouro quebrado.
- Sei, debaixo de um calendário da Seicho-No-Iê. Estive lá na semana passada.
- Isso. É só pegar a senha e aguardar ser chamado.
II
- Eu vou lhe dar um protocolo da requisição. O senhor leva até o Denorf e solicita a emissão do Nada Consta da Delegacia Fazendária. Não demora muito, não.
III
- Bons antecedentes, ok... Certidão Negativa de Débito, ok... habite-se, registro do inventário, 2 fotos 3x4. Mas eu preciso também do requerimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e os últimos cinco boletos do ISSQN, comprovando o recolhimento. É que antes da homologação do prontuário, o DPTS pede o formal de partilha em duas vias. Até julho do ano passado podia fazer por procuração, só que agora o cartório está exigindo a presença da pessoa.
- Mas ele mora em Muzambinho...
IV
- Aparentemente só estão faltando o número do PIS Pasep do inventariante e uma cópia frente e verso autenticada do ITBI pra poder dar baixa. Caso contrário não é possível correr com a papelada.
- Mas quando eu vim aqui da outra vez aquele senhor de óculos ali me disse que uma segunda via da...
- Não, não. De jeito maneira. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A petição tá certa, mas precisa constar uma ressalva prevendo o usufruto da viúva.
- E essa instrução normativa para unificação de cadastro?
- Isso aí pode levar embora porque não vai servir pra nada. O senhor me providencie um termo de responsabilidade, com assinatura de três testemunhas. É só disso que eu preciso, trazendo até segunda-feira pra mim tá bom. Agora, veja bem, isso aqui é a minha parte, entendeu? No guichê 14 vão informar ao senhor como dar entrada no pedido pra saber em qual jurisdição do CASP esse DERC deve ser encaminhado.
V
- Meu amigo, eu não estou autorizado a emitir o TCF sem a apresentação do canhoto do D.O.R. Além disso, olha só, tá faltando a rubrica do perito técnico. Outro dia mesmo apareceu um cidadão aqui com um caso parecido com o seu.
- Bom, resumindo...
- Só na Secretaria, das quinze e trinta às dezesseis e quarenta. E traga também um atestado de saúde.
- Ah, isso com certeza não precisa. Se eu não morri até agora correndo atrás disso tudo, é sinal que a minha saúde tá ótima.
Estava enganado, coitado. Cinco minutos depois, enquanto corria ofegante do guichê 7 para o 18, teve um mal súbito e morreu. O sub-escrevente adjunto adiantou-se e proclamou:
- Ninguém faz nada, ninguém toca no morto enquanto não sair o Alvará de Liberação do corpo. Mas já vou avisando que o Edmilson, que cuida disso, está de licença-prêmio e só volta daqui a seis dias.
Saturday, September 24, 2005
FAZENDO JUSTIÇA A IGNÁCIO ESCORBETA
Existem vultos injustamente esquecidos pela história, não obstante sua farta contribuição ao progresso da humanidade e ao bem-estar social. Dessa malfadada classe faz parte Ignácio Escorbeta, inventor da serpentina carnavalesca e do prendedor de roupas.
A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19, a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró. Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas, observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.
Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto abrilhanta os festejos de momo.
Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas, outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa. Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu inventar algo mais prático. Mas isso pede um outra crônica.
A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19, a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró. Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas, observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.
Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto abrilhanta os festejos de momo.
Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas, outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa. Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.
Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu inventar algo mais prático. Mas isso pede um outra crônica.
ZAPPING
Hora de pensar, pensar. Hora de não pensar, ligar a televisão - essa fabulosa caixa hipnótica. Aperte o power do aparelho e acione o off do cérebro. Renda-se ao vício paralisante, entregue-se ao esvaziamento mental.
Mas a culpa não é toda da TV em si. Há todo um clima ao redor que induz ao não-pensamento: o cobertor e sua pelúcia acolhedora, a meia-luz do ambiente, a musculatura relaxada - tudo isso junto já é um pré-estado Alfa. Uma vez nesse estupor, é assistir ao desfilar de pastores em seus púlpitos, calouros se esgoelando, falsas loiras saracoteando seus predicados de silicone. Sem falar dos televendedores, a uma velocidade de oitocentas palavras por minuto, madrugada afora apregoando de títulos de clube a aparelhos ortodônticos.
Mas o ritual nem sempre foi assim, indolente e passivo. Tempo houve em que era preciso ginástica para gozar das delícias televisivas.
Quando a TV não pegava, os fantasmas apareciam ou os chuviscos aumentavam, deflagrava-se uma complexa operação que envolvia no mínimo duas pessoas. Uma plantada em frente à caixa, a outra virando o cano da antena, no quintal da casa.
- Melhorou?
- Não!
- E agora?
- Continua ruim.
- Assim tá melhor?
- Espera um pouco...volta pra onde estava antes.
- Assim?
- É.
Dois artefatos, hoje em desuso, orbitavam em torno dela: o conversor de UHF e o regulador de voltagem, também conhecido como transformador. Controle remoto não tinha. Nem precisava - eram só cinco as opções disponíveis. A então TV2 Cultura (canal 2), a Tupi (canal 4), a Globo (canal 5), a Record (canal 7) e a Bandeirantes (canal 13).
Com o advento do cabo e das miniparabólicas, a ordem é zapear. Então...
(zap)
Você pode perder até seis quilos em duas semanas. E não é só isso: fazendo agora seu pedido você ainda ganha este maravilhoso...
(zap)
- Mas me diga uma coisa, dona Antonieta. E agora, como é que está sua vida hoje?
- Ah, hoje o meu lar é abençoado. Como do bom e do melhor, tenho 2 padarias, 3 postos de gasolina...
(zap)
- Chegou a hora de você saber de toda a verdade.
- Onde é que você está querendo chegar? Do que você está falando?
- Maria Helena... Maria Helena... é sua filha!
(zap)
Só seis parcelinhas de setenta e quatro e cinqüenta, no cartão.
(zap)
Ohhhhh yes.... ohhhhh... hum, hummmm... oh yeeeeeeessss... ahhhh!!!!
(zap)
Foi sem querer querendo!
(zap)
Daqui a pouco a gente volta. Não sai daí.
1284 zaps depois...
Os olhos pesam, a cabeça pende molemente para o outro lado da almofada. A mão deixa cair o controle no chão. Aí você acorda, assustado com o barulho. Desliga a TV, apaga a luz, se ajeita sob as cobertas. Tarde demais: o sono se foi. Enquanto ele não volta, você liga a televisão.
Mas a culpa não é toda da TV em si. Há todo um clima ao redor que induz ao não-pensamento: o cobertor e sua pelúcia acolhedora, a meia-luz do ambiente, a musculatura relaxada - tudo isso junto já é um pré-estado Alfa. Uma vez nesse estupor, é assistir ao desfilar de pastores em seus púlpitos, calouros se esgoelando, falsas loiras saracoteando seus predicados de silicone. Sem falar dos televendedores, a uma velocidade de oitocentas palavras por minuto, madrugada afora apregoando de títulos de clube a aparelhos ortodônticos.
Mas o ritual nem sempre foi assim, indolente e passivo. Tempo houve em que era preciso ginástica para gozar das delícias televisivas.
Quando a TV não pegava, os fantasmas apareciam ou os chuviscos aumentavam, deflagrava-se uma complexa operação que envolvia no mínimo duas pessoas. Uma plantada em frente à caixa, a outra virando o cano da antena, no quintal da casa.
- Melhorou?
- Não!
- E agora?
- Continua ruim.
- Assim tá melhor?
- Espera um pouco...volta pra onde estava antes.
- Assim?
- É.
Dois artefatos, hoje em desuso, orbitavam em torno dela: o conversor de UHF e o regulador de voltagem, também conhecido como transformador. Controle remoto não tinha. Nem precisava - eram só cinco as opções disponíveis. A então TV2 Cultura (canal 2), a Tupi (canal 4), a Globo (canal 5), a Record (canal 7) e a Bandeirantes (canal 13).
Com o advento do cabo e das miniparabólicas, a ordem é zapear. Então...
(zap)
Você pode perder até seis quilos em duas semanas. E não é só isso: fazendo agora seu pedido você ainda ganha este maravilhoso...
(zap)
- Mas me diga uma coisa, dona Antonieta. E agora, como é que está sua vida hoje?
- Ah, hoje o meu lar é abençoado. Como do bom e do melhor, tenho 2 padarias, 3 postos de gasolina...
(zap)
- Chegou a hora de você saber de toda a verdade.
- Onde é que você está querendo chegar? Do que você está falando?
- Maria Helena... Maria Helena... é sua filha!
(zap)
Só seis parcelinhas de setenta e quatro e cinqüenta, no cartão.
(zap)
Ohhhhh yes.... ohhhhh... hum, hummmm... oh yeeeeeeessss... ahhhh!!!!
(zap)
Foi sem querer querendo!
(zap)
Daqui a pouco a gente volta. Não sai daí.
1284 zaps depois...
Os olhos pesam, a cabeça pende molemente para o outro lado da almofada. A mão deixa cair o controle no chão. Aí você acorda, assustado com o barulho. Desliga a TV, apaga a luz, se ajeita sob as cobertas. Tarde demais: o sono se foi. Enquanto ele não volta, você liga a televisão.
Saturday, September 17, 2005
BICICLETA ERGOMÉTRICA: GUIA PRÁTICO DE CONVIVÊNCIA PACÍFICA
Você jurou a si mesmo que começava na segunda. Olha pra ela: novinha, reluzente, a nota fiscal sobre o selim. Dizem que vendo tv enquanto pedala o sacrifício fica mais fácil. O problema é que, pra arrumar um lugar pra ela, você teve que tirar a tv do quarto.
Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno deve ser repugnante chegar perto). Calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não guia ninguém pra lugar algum. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: "Coragem, rapaz. Prova que você é determinado, perde comigo aquela torta de ontem".
Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira possível com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:
- Meia hora é uma eternidade quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a toda hora para o indicador de tempo de exercício.
- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento - o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor - o que será péssimo para quem folheá-lo depois de você.
- Evite pensar no esforço a ser feito - concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados e a região glútea fortalecida.
- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa.
- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade.
- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.
Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno deve ser repugnante chegar perto). Calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não guia ninguém pra lugar algum. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: "Coragem, rapaz. Prova que você é determinado, perde comigo aquela torta de ontem".
Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira possível com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:
- Meia hora é uma eternidade quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a toda hora para o indicador de tempo de exercício.
- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento - o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor - o que será péssimo para quem folheá-lo depois de você.
- Evite pensar no esforço a ser feito - concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados e a região glútea fortalecida.
- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa.
- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade.
- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.
Sunday, September 11, 2005
A HORA H
Homero na mesa 8. Helena na mesa 12.
Homero enfim está de volta. Helena não está mais à espera.
Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé.
Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora.
Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada.
Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde.
Homero olha para ela. Helena finge que não vê.
Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça.
Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem.
Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido.
Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem.
Homero é reticente: de Peixes. Helena é incisiva: de Áries.
Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga.
Homero chama outro whisky. Helena mexe o dry Martini.
Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou.
Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele.
Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias.
Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha.
Homero tem seu telefone. Helena não vai atender.
Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar.
Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis.
Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto.
Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater.
Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear.
Homero insinua. Helena deixa claro.
Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca.
Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata.
Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz.
Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido.
Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação.
Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista.
Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer.
Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra.
Homero recorda os seus seios. Helena anseia uma vingança.
Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém.
Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.
Homero enfim está de volta. Helena não está mais à espera.
Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé.
Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora.
Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada.
Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde.
Homero olha para ela. Helena finge que não vê.
Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça.
Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem.
Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido.
Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem.
Homero é reticente: de Peixes. Helena é incisiva: de Áries.
Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga.
Homero chama outro whisky. Helena mexe o dry Martini.
Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou.
Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele.
Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias.
Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha.
Homero tem seu telefone. Helena não vai atender.
Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar.
Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis.
Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto.
Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater.
Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear.
Homero insinua. Helena deixa claro.
Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca.
Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata.
Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz.
Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido.
Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação.
Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista.
Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer.
Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra.
Homero recorda os seus seios. Helena anseia uma vingança.
Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém.
Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.
NOTURNO EM DÓ
Ai meu Deus, o sono que carecia, nenhuma sombra de gente dando sinal de chegar. Virou-se para o outro lado. O toque fresco do lençol grosso de linho, o bafo dessa noite quase dia. A franja do cobertor, as cócegas no queixo, a pena de gastar a vida assim nesse sei lá.
- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roía tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.
- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?
Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roía tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.
- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?
Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
AD ETERNUM
Eis que de novo me deparo com a nada consoladora ideia de que o sistema solar é espantosamente semelhante a uma estrutura atômica, e que a diferença não passa de uma questão de proporção e de velocidade. E se a Terra for um dos elétrons de um dos milhões de átomos de uma ponta de lápis sobre a mesa de um escritório, numa outra e gigantesca Terra?
Largo Newtons, Galileus e Sócrates deitando postulados pelos cotovelos e me agarro ao manto de Abraão e ao cajado de Moisés, no pasto verde das verdades simples. Ovelha, deixo que me conduzam por dogmas que se bastam, convertido ao fato de que existem mesmo as moradas celestes, onde nem traça ou ferrugem, epidemias ou bandidos roubariam o sossego dos descendentes de Adão. Onde, indefinidamente vivos, habitaremos gratos. Cada família em sua casa de grossas paredes fincadas no éter. Mansões onde, após banquetes generosos, tem-se o sagrado direito à sobremesa predileta, que por também ser eterna se reconstituiria a cada mordida, para a glória das gulas.
Pais e mães tomando perpetuamente conta de seus rebentos, com muitas rugas a menos por saberem que suas crianças serão poupadas no juízo final, mesmo porque o juízo final não será tão final assim. A vida se espreguiçando infinito afora, o beijo mais sorvido se alongando até a exaustão, se exaustão houvesse no mundo lá de cima. Todos volitando com trechos de salmos impressos nas túnicas, Beethoven escorregando num tobogã clave de fá, nenhum passarinho preso, sinos aos montes dobrando e marcando a hora de lembrar que nunca é tarde.
Tempo e espaço se liquefazendo, Van Gogh de velocípede a ziguezaguear por latifúndios de girassóis. Cada um se lambuzando de sua Pasárgada privativa, desobedecendo zombeteiramente as recomendações médicas, sem noção de comedimento e sensatez, metendo os pés pelas mãos, fazendo tudo o que faltou ser feito quando envolto pela carne. Se convencer de que a Terra é plana, de que aconteceu o dilúvio, de que tudo foi criado em exatos 6 dias, sem nenhuma hora extra ou percalço que desanimasse o Maioral. Ter a confiança dos que se sabem amparados, e saltam sem se preocupar se o paraquedas vai abrir.
Largo Newtons, Galileus e Sócrates deitando postulados pelos cotovelos e me agarro ao manto de Abraão e ao cajado de Moisés, no pasto verde das verdades simples. Ovelha, deixo que me conduzam por dogmas que se bastam, convertido ao fato de que existem mesmo as moradas celestes, onde nem traça ou ferrugem, epidemias ou bandidos roubariam o sossego dos descendentes de Adão. Onde, indefinidamente vivos, habitaremos gratos. Cada família em sua casa de grossas paredes fincadas no éter. Mansões onde, após banquetes generosos, tem-se o sagrado direito à sobremesa predileta, que por também ser eterna se reconstituiria a cada mordida, para a glória das gulas.
Pais e mães tomando perpetuamente conta de seus rebentos, com muitas rugas a menos por saberem que suas crianças serão poupadas no juízo final, mesmo porque o juízo final não será tão final assim. A vida se espreguiçando infinito afora, o beijo mais sorvido se alongando até a exaustão, se exaustão houvesse no mundo lá de cima. Todos volitando com trechos de salmos impressos nas túnicas, Beethoven escorregando num tobogã clave de fá, nenhum passarinho preso, sinos aos montes dobrando e marcando a hora de lembrar que nunca é tarde.
Tempo e espaço se liquefazendo, Van Gogh de velocípede a ziguezaguear por latifúndios de girassóis. Cada um se lambuzando de sua Pasárgada privativa, desobedecendo zombeteiramente as recomendações médicas, sem noção de comedimento e sensatez, metendo os pés pelas mãos, fazendo tudo o que faltou ser feito quando envolto pela carne. Se convencer de que a Terra é plana, de que aconteceu o dilúvio, de que tudo foi criado em exatos 6 dias, sem nenhuma hora extra ou percalço que desanimasse o Maioral. Ter a confiança dos que se sabem amparados, e saltam sem se preocupar se o paraquedas vai abrir.
VAMOS TODOS CIRANDAR
Meu eu pequeno me chama para um passeio no tempo. Achava mesmo que vinha. Me deu a mão e saímos rumo ao ingênuo de nós.
É de manhã, tem escola. Entramos na sala de aula. Carteiras de dois lugares, com buracos para tinteiro. Alguns tacos soltando. As grandes cortinas, com o vento, pareciam velas abertas. A pasta com material tem guache, canetinhas hidrográficas Sylvapen, papel almaço, Desenhocop. Um cheiro forte de álcool vindo da sala do mimeógrafo. Cartilha Caminho Suave, rangido do giz na lousa. O sino: hora do recreio. Bala de leite Kids, lanche Mirabel, Merengue da Milktex. Alguns meninos brincando de pula-sela e lenço-atrás. Os mais velhos jogavam queimada.
Depois do colégio, voltamos pra casa. No quarto, os 18 volumes do Tesouro da Juventude. Revistas Recreio. Puff de vinil. Kikos marinhos. Dois bambis de pelúcia, empalhados e com olhos de vidro. Coleção Disquinho, cada um de uma cor, com histórias infantis, ao lado da Sonata portátil e dos livros com as Jóias dos Contos de Fada. Bolas de gude, verdes, azuis, rajadas. Telejogo. Botões de futebol com fotos dos jogadores. Bate-bate, que dava hematoma nas mãos e nos pulsos - diversão da mesma época do Vai-e-Vem, outra coqueluche entre os moleques.
Abro a porta do armário (com um adesivo "Brasil, ame-o ou deixe-o") e um mundo de coisas desaba em cima da gente. Kit "O Pequeno Químico", rádio galena, carteirinha do clube, robô a pilha, Mustang de fricção, cofrinho da caderneta de poupança Haspa. Uma bola de capotão número 2, meio murcha e com os gomos descorando, e outra Dente de Leite. Caleidoscópio com pontas de lápis de cor, confete que sobrou da matinê do ano passado, rolinhos de espoleta, molas que desciam escadas. Na parte das roupas, blusa cacharrel, camiseta Hang Ten, calça Gledson. Na sapateira, Kichute, Bamba, botinha com palmilha para pé chato. Ioiô de elástico e serragem. Caninhos de antena para as guerras de feijão cru. Xilofone da Hering. Miniaturas Matchbox, soldados e índios de forte apache. Estalinhos de salão. Embaixo da cama ficavam o Autorama do Emerson, os pés-de-pato e a prancha de isopor.
Seguimos pelo corredor. Ao final dele, numa mesinha art-nouveau, o telefone preto de baquelite. Um chumbo, com a marca Ericsson em letra manuscrita no disco. Os números das linhas só tinham quatro dígitos. Ao lado, um ventilador Bomclima com grades reguláveis. É quase meio dia e um aroma de bife acebolado se mistura ao da cera do assoalho.
A sala. Televisor Colorado RQ preto-e-branco, com seletor de canais manual e barulhento. Depois da Vila Sésamo vinha o Zorro, Flipper, Terra de Gigantes, Viagem ao fundo do mar. Na parte de baixo do vídeo ficavam passando, em caracteres, as cotações da bolsa de valores. Abrindo todos os programas de TV, o Certificado de Censura Federal.
Depois de cruzar a cozinha, chegamos ao quintal. Um alvo sem os dardos, cavalinho de pau, vasilhames de Coca-Cola Família, carrinho de rolemã, bambolë, Canguru da Estrela, Caloi Cross com carta de baralho na roda traseira, para imitar barulho de moto. Passamos horas ali, revirando cacarecos e lembranças.
A noite cai de repente, trazendo uma lua de cinema. Levo pra dentro o menino, cheio de cloro nos cabelos, os cotovelos esfolados e um brilho que só aos meninos é permitido ter nos olhos. Tira do short um pacotinho de gotas de pinho Alabarda e algumas figurinhas dos craques da seleção de 70. Pede que eu guarde pra ele. E o levanto até meu colo, afago sua cabeça e sinto sua pulsação. Nada ele diz, nem eu.
Voltamos os dois para o quarto. Joga-se exausto na cama, olha pro lado e se reconhece na foto sobre o criado-mudo. Me encara demoradamente e abre um sorriso largo, ignorando o que o tempo andava tramando pra ele.
Pedi pra que abrisse a boca: ainda tinha as amígdalas. Nenhuma obturação nos dentes. Nenhuma ruga na testa, nenhum assunto pendente pra atrapalhar o seu sono, nenhuma idéia do que gostaria de ser quando crescesse. Ainda faltava muito para a primeira namorada, o primeiro porre, a primeira noite fora de casa, a primeira história tola que se meteu a escrever. Ainda faltava quase tudo, e ele não queria perder nada.
- Agora vai dormir que está na hora. Amanhã você tem que acordar cedo.
- Amanhã é sábado, esqueceu?
- Tem razão, é mesmo. Então espero você às cinco pra gente ver "Os Waltons".
É de manhã, tem escola. Entramos na sala de aula. Carteiras de dois lugares, com buracos para tinteiro. Alguns tacos soltando. As grandes cortinas, com o vento, pareciam velas abertas. A pasta com material tem guache, canetinhas hidrográficas Sylvapen, papel almaço, Desenhocop. Um cheiro forte de álcool vindo da sala do mimeógrafo. Cartilha Caminho Suave, rangido do giz na lousa. O sino: hora do recreio. Bala de leite Kids, lanche Mirabel, Merengue da Milktex. Alguns meninos brincando de pula-sela e lenço-atrás. Os mais velhos jogavam queimada.
Depois do colégio, voltamos pra casa. No quarto, os 18 volumes do Tesouro da Juventude. Revistas Recreio. Puff de vinil. Kikos marinhos. Dois bambis de pelúcia, empalhados e com olhos de vidro. Coleção Disquinho, cada um de uma cor, com histórias infantis, ao lado da Sonata portátil e dos livros com as Jóias dos Contos de Fada. Bolas de gude, verdes, azuis, rajadas. Telejogo. Botões de futebol com fotos dos jogadores. Bate-bate, que dava hematoma nas mãos e nos pulsos - diversão da mesma época do Vai-e-Vem, outra coqueluche entre os moleques.
Abro a porta do armário (com um adesivo "Brasil, ame-o ou deixe-o") e um mundo de coisas desaba em cima da gente. Kit "O Pequeno Químico", rádio galena, carteirinha do clube, robô a pilha, Mustang de fricção, cofrinho da caderneta de poupança Haspa. Uma bola de capotão número 2, meio murcha e com os gomos descorando, e outra Dente de Leite. Caleidoscópio com pontas de lápis de cor, confete que sobrou da matinê do ano passado, rolinhos de espoleta, molas que desciam escadas. Na parte das roupas, blusa cacharrel, camiseta Hang Ten, calça Gledson. Na sapateira, Kichute, Bamba, botinha com palmilha para pé chato. Ioiô de elástico e serragem. Caninhos de antena para as guerras de feijão cru. Xilofone da Hering. Miniaturas Matchbox, soldados e índios de forte apache. Estalinhos de salão. Embaixo da cama ficavam o Autorama do Emerson, os pés-de-pato e a prancha de isopor.
Seguimos pelo corredor. Ao final dele, numa mesinha art-nouveau, o telefone preto de baquelite. Um chumbo, com a marca Ericsson em letra manuscrita no disco. Os números das linhas só tinham quatro dígitos. Ao lado, um ventilador Bomclima com grades reguláveis. É quase meio dia e um aroma de bife acebolado se mistura ao da cera do assoalho.
A sala. Televisor Colorado RQ preto-e-branco, com seletor de canais manual e barulhento. Depois da Vila Sésamo vinha o Zorro, Flipper, Terra de Gigantes, Viagem ao fundo do mar. Na parte de baixo do vídeo ficavam passando, em caracteres, as cotações da bolsa de valores. Abrindo todos os programas de TV, o Certificado de Censura Federal.
Depois de cruzar a cozinha, chegamos ao quintal. Um alvo sem os dardos, cavalinho de pau, vasilhames de Coca-Cola Família, carrinho de rolemã, bambolë, Canguru da Estrela, Caloi Cross com carta de baralho na roda traseira, para imitar barulho de moto. Passamos horas ali, revirando cacarecos e lembranças.
A noite cai de repente, trazendo uma lua de cinema. Levo pra dentro o menino, cheio de cloro nos cabelos, os cotovelos esfolados e um brilho que só aos meninos é permitido ter nos olhos. Tira do short um pacotinho de gotas de pinho Alabarda e algumas figurinhas dos craques da seleção de 70. Pede que eu guarde pra ele. E o levanto até meu colo, afago sua cabeça e sinto sua pulsação. Nada ele diz, nem eu.
Voltamos os dois para o quarto. Joga-se exausto na cama, olha pro lado e se reconhece na foto sobre o criado-mudo. Me encara demoradamente e abre um sorriso largo, ignorando o que o tempo andava tramando pra ele.
Pedi pra que abrisse a boca: ainda tinha as amígdalas. Nenhuma obturação nos dentes. Nenhuma ruga na testa, nenhum assunto pendente pra atrapalhar o seu sono, nenhuma idéia do que gostaria de ser quando crescesse. Ainda faltava muito para a primeira namorada, o primeiro porre, a primeira noite fora de casa, a primeira história tola que se meteu a escrever. Ainda faltava quase tudo, e ele não queria perder nada.
- Agora vai dormir que está na hora. Amanhã você tem que acordar cedo.
- Amanhã é sábado, esqueceu?
- Tem razão, é mesmo. Então espero você às cinco pra gente ver "Os Waltons".
Saturday, September 10, 2005
AULA DE RELAXAMENTO
VAMOS LÁ, PESSOAL. INSPIRANDO... EXPIRANDO... SENTINDO CADA MÚSCULO DO CORPO TOTALMENTE RELAXADO, MOLE COMO MACARRÃO COZIDO...
É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.
VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...
Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.
CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...
Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época. Cale-se, vai. Vê se presta atenção na aula, Denise.
A IDÉIA É APAZIGUAR O CÉREBRO, AFASTAR IDÉIAS FIXAS E OBSESSIVAS...
De novo aqueles montinhos pretos e malcheirosos na minha grama. O cachorro é dela, caramba, ela é que tem que dar um jeito nessa situação.
SINTA-SE LEVE, IMAGINE-SE PAIRANDO ACIMA DO CORPO...
Leve, é? Sei, sei. É dieta, caminhada 4 vezes por semana, e vai ver... Fora as pelancas. Agorinha, quando baixei a cabeça, senti a pele do rosto se desprendendo dos ossos, cedendo à lei da gravidade. Ai, meu Deus, comigo não. Não está acontecendo, livrai-me.
NESSE ESTÁGIO EM QUE ESTAMOS, AS ONDAS CEREBRAIS ENTRAM EM OUTRA FREQÜÊNCIA...
Terça que vem é aniversário do Jonas. Afilhado não é filho, vai uma lembrancinha de 1,99 mesmo. Melhor já comprar no caminho de volta.
LEMBREM-SE QUE 12 MINUTOS DESSE EXERCÍCIO EQUIVALEM A 4 HORAS DE SONO PROFUNDO...
Espera aí, tinha mais uma coisa pra fazer. Café e mussarela na padaria, a pilha do portão eletrônico, água oxigenada pra clarear esses pêlos pretos do antebraço... Malditos pêlos, devia ter nascido homem. Tudo muito mais prático. Que mais que tinha que fazer mesmo?
O STRESS, AS PREOCUPAÇÕES, A ANSIEDADE, NADA DISSO EXISTE AQUI. JUNTOS ESTAMOS TRANSCENDENDO O COTIDIANO ASFIXIANTE E MESQUINHO. ENTRANDO NUMA NOVA DIMENSÃO PLENA DE PAZ, TRANQÜILIDADE E HARMONIA...
Lembrei: o Lexotan! Ah, não... esqueci a receita lá em casa.
Julho, 2005
É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.
VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...
Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.
CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...
Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época. Cale-se, vai. Vê se presta atenção na aula, Denise.
A IDÉIA É APAZIGUAR O CÉREBRO, AFASTAR IDÉIAS FIXAS E OBSESSIVAS...
De novo aqueles montinhos pretos e malcheirosos na minha grama. O cachorro é dela, caramba, ela é que tem que dar um jeito nessa situação.
SINTA-SE LEVE, IMAGINE-SE PAIRANDO ACIMA DO CORPO...
Leve, é? Sei, sei. É dieta, caminhada 4 vezes por semana, e vai ver... Fora as pelancas. Agorinha, quando baixei a cabeça, senti a pele do rosto se desprendendo dos ossos, cedendo à lei da gravidade. Ai, meu Deus, comigo não. Não está acontecendo, livrai-me.
NESSE ESTÁGIO EM QUE ESTAMOS, AS ONDAS CEREBRAIS ENTRAM EM OUTRA FREQÜÊNCIA...
Terça que vem é aniversário do Jonas. Afilhado não é filho, vai uma lembrancinha de 1,99 mesmo. Melhor já comprar no caminho de volta.
LEMBREM-SE QUE 12 MINUTOS DESSE EXERCÍCIO EQUIVALEM A 4 HORAS DE SONO PROFUNDO...
Espera aí, tinha mais uma coisa pra fazer. Café e mussarela na padaria, a pilha do portão eletrônico, água oxigenada pra clarear esses pêlos pretos do antebraço... Malditos pêlos, devia ter nascido homem. Tudo muito mais prático. Que mais que tinha que fazer mesmo?
O STRESS, AS PREOCUPAÇÕES, A ANSIEDADE, NADA DISSO EXISTE AQUI. JUNTOS ESTAMOS TRANSCENDENDO O COTIDIANO ASFIXIANTE E MESQUINHO. ENTRANDO NUMA NOVA DIMENSÃO PLENA DE PAZ, TRANQÜILIDADE E HARMONIA...
Lembrei: o Lexotan! Ah, não... esqueci a receita lá em casa.
Julho, 2005
Wednesday, September 07, 2005
CONSULTÓRIO SENTIMENTAL
Duas médicas conversando na cantina do hospital.
- Promete que fica só entre a gente?
- Lógico. Prometo, em nome da ética médica.
- Então tá. É que... estou tendo um caso clínico.
- Jura? Alguém da área?
- Ahã. Olha só essa radiografia que a gente tirou no último fim de semana prolongado.
- Nossa, que pulmões. E a faringe, então... Esse pomo de adão, tão proeminente. Que sorte a sua hein, colega. Isso aqui é objeto de estudo pra um simpósio internacional. Merece abordagem multidisciplinar.
- Quando olhei aqueles globos oculares, sem nenhum grauzinho de miopia ou astigmatismo, quase tive uma síncope. Foi adrenalina na veia. Observe essa ressonância magnética. Fala a verdade: que omoplata! Dá pra ficar assintomática? Você sabe que quadros dessa natureza provocam desde espasmos involuntários até a perda momentânea da consciência.
- É, ele é muito parassimpático.
- Parassimpático? Aquilo é uma aula de anatomia. Desequilibra o nível de estrógeno de qualquer mulher.
- E aí, conta. Partiu pra um exame mais detalhado? Na sua residência médica ou na dele? Conta, conta.
- Fiquei anestesiada. Quando dei por mim, já estávamos na maca.
- Nossa, assim na primeira consulta?
- Pra você ver. Confesso que no começo foi difícil me manter estável. A pressão chegava a 25 por 13, o coração a 140 por minuto.
- E daí pra frente? Qual a posologia?
- No mínimo três vezes ao dia.
- E nada de repouso absoluto?
- Nadinha, menina. Uma febre que não passava. Depois os sintomas foram desaparecendo, e toda aquela convulsão amorosa evoluiu para uma forte letargia. Parecia uma espécie de maleita, com freqüentes episódios de apnéia.
- É, já vi relatos semelhantes. E aí, deixou de apresentar sinais vitais?
- Falência múltipla. Estado terminal, com pouquíssimas chances de reversão.
- Seja paciente. Tem retorno marcado?
- O pior é que não. Ele me usou, como se eu fosse um convênio, um SUS qualquer. Não vou me conformar em ser mais uma na história clínica dele.
- Não estressa, não. E se por acaso ele agendar um horário, faz um charme. Dá uma de difícil, deixa o bonitinho na sala de espera. Como eu fiz com aquele judoca tarja preta, que me causava dependência. Eu sei como são essas coisas. Precisando de um ombro amigo, estou aqui de plantão.
- Valeu, obrigada mesmo.
- Só me promete uma coisa.
- Fala.
- Se der enjôo, manda ele pro meu consultório. É sempre bom uma segunda opinião...
- Sua Hipócrates!
- Promete que fica só entre a gente?
- Lógico. Prometo, em nome da ética médica.
- Então tá. É que... estou tendo um caso clínico.
- Jura? Alguém da área?
- Ahã. Olha só essa radiografia que a gente tirou no último fim de semana prolongado.
- Nossa, que pulmões. E a faringe, então... Esse pomo de adão, tão proeminente. Que sorte a sua hein, colega. Isso aqui é objeto de estudo pra um simpósio internacional. Merece abordagem multidisciplinar.
- Quando olhei aqueles globos oculares, sem nenhum grauzinho de miopia ou astigmatismo, quase tive uma síncope. Foi adrenalina na veia. Observe essa ressonância magnética. Fala a verdade: que omoplata! Dá pra ficar assintomática? Você sabe que quadros dessa natureza provocam desde espasmos involuntários até a perda momentânea da consciência.
- É, ele é muito parassimpático.
- Parassimpático? Aquilo é uma aula de anatomia. Desequilibra o nível de estrógeno de qualquer mulher.
- E aí, conta. Partiu pra um exame mais detalhado? Na sua residência médica ou na dele? Conta, conta.
- Fiquei anestesiada. Quando dei por mim, já estávamos na maca.
- Nossa, assim na primeira consulta?
- Pra você ver. Confesso que no começo foi difícil me manter estável. A pressão chegava a 25 por 13, o coração a 140 por minuto.
- E daí pra frente? Qual a posologia?
- No mínimo três vezes ao dia.
- E nada de repouso absoluto?
- Nadinha, menina. Uma febre que não passava. Depois os sintomas foram desaparecendo, e toda aquela convulsão amorosa evoluiu para uma forte letargia. Parecia uma espécie de maleita, com freqüentes episódios de apnéia.
- É, já vi relatos semelhantes. E aí, deixou de apresentar sinais vitais?
- Falência múltipla. Estado terminal, com pouquíssimas chances de reversão.
- Seja paciente. Tem retorno marcado?
- O pior é que não. Ele me usou, como se eu fosse um convênio, um SUS qualquer. Não vou me conformar em ser mais uma na história clínica dele.
- Não estressa, não. E se por acaso ele agendar um horário, faz um charme. Dá uma de difícil, deixa o bonitinho na sala de espera. Como eu fiz com aquele judoca tarja preta, que me causava dependência. Eu sei como são essas coisas. Precisando de um ombro amigo, estou aqui de plantão.
- Valeu, obrigada mesmo.
- Só me promete uma coisa.
- Fala.
- Se der enjôo, manda ele pro meu consultório. É sempre bom uma segunda opinião...
- Sua Hipócrates!
AO MEU TATARANETO
Querido sei lá quem, sangue do meu sangue, obra de minha co-autoria que leguei inadvertidamente à posteridade,
Espero que esta o encontre com saúde, se é que um dia irá encontrá-lo, e isso contando que você venha de fato a existir. Estava olhando umas fotos e de repente me pareceu interessante a possibilidade de comunicação entre mim, que há muito já estou morto, e você, que ainda está por nascer. São retratos da sua bisavó, desde os 3 meses até os 16 anos, idade atual dela. Estão em porta-retratos de bronze, que enchem 2 prateleiras do meu escritório. Aliás, você não imagina o que essa veneranda senhora grisalha, de ares matriarcais e que seguramente implica com tudo aí na sua casa, vem aprontando agora que é novinha. Só quer saber de ICQ, MSN, chat e bate-papo. Almoça e janta internet, algo que está para o seu cotidiano assim como o telégrafo está para o meu.
Talvez essas fotografias a que me refiro estejam aí no futuro, descoradas e quebradiças nos cantos, pegando mofo dentro de uma caixa de sapatos - embora essa seja uma forma de guardar recordações típica do século 20. Já os porta-retratos, é duvidoso que tenham atravessado gerações. Algum ascendente seu, mal intencionado ou mal das pernas, na certa há de ter transformado todo esse bronze em uns bons cobres.
Tenho 41 anos e são precisamente 23 horas e 17 minutos do dia 22 de julho de 2005. Os galos ainda cantam de manhã, 99,9% das pessoas têm que trabalhar duro pra sobreviver e até o momento não se têm provas definitivas da existência de seres extraterrestres. Muitos dos grandes dilemas da raça humana continuam insondáveis, como a vida após a morte, a influência dos duendes na pressão atmosférica e o que fez Ronaldinho amarelar na final da Copa de 98. Ainda não descobriram as curas da Aids e do câncer. Mesmo passados quatro anos, as pessoas guardam bem vivas as lembranças do atentado que derrubou as torres gêmeas de Nova York, em setembro de 2001. Bento XVI é Papa há poucos meses e tem cara de poucos amigos. O Brasil ferve com os escândalos de corrupção envolvendo o partido do atual presidente da república e uma imensa corja de deputados.
Outro assunto muito em voga ultimamente é a clonagem. Em larga escala, contudo, só existem as de cartão de crédito e placas de carro. Gerar clones com certeza é corriqueiro aí. As cidades todas devem ter lojas ou centros de clonagem, algumas até abertas 24 horas e com serviço de leva-e-traz. Aposto que nas casas de classe média proliferam forninhos que cozinham, assam, fritam, douram e clonam alimentos. Fico imaginando que maravilha pras donas de casa. Bife, por exemplo. É fazer uma vez e clonar pro ano todo. E se a moda pega isso vale pra tudo: Scotch 12 anos e caviar, inclusive. Uau! Expressão antiga essa, né? Até pra esse seu provecto tataravô isso soa velho.
É inverno, faz frio onde estou e escuto Os Tribalistas - um disco que, espero, possa desafiar as décadas e chegar também aos seus ouvidos. Quem sabe exista uma máquina aí em dois mil e oitenta e tanto, que viajando à velocidade da luz possa voltar ao passado e trazer você aqui, de presente ao meu momento. De repente você pode até escolher este instante em que escrevo pra fazer isso. A propósito, que plataforma terá a escrita no seu tempo? Talvez já existam mixers de palavras e frases, eletrodomésticos que processem livros inteiros e em estilos diversos num passe de mágica. Mas não tenho esperança, não. Quando garoto, imaginava o ano 2000 com as pessoas movidas a foguetinhos auto-propulsores e curtindo férias em Júpiter. Passamos por ele e nada de mais aconteceu, com exceção de algumas toneladas extras de fogos em Copacabana. Até o bug do milênio foi um fiasco, tão frustrante quanto a passagem do Cometa Halley, em 1986. O século 21 chegou e as roupas continuaram de pano, os carros continuaram saindo de fábrica com os motores a explosão da época de Henry Ford, o homem continuou sendo o que sempre foi: um tubo processador de cocô.
Vou ter que parar por aqui porque a campainha está tocando. Algo que agora não vai dar tempo de te explicar o que é. Ou melhor, o que era.
Espero que esta o encontre com saúde, se é que um dia irá encontrá-lo, e isso contando que você venha de fato a existir. Estava olhando umas fotos e de repente me pareceu interessante a possibilidade de comunicação entre mim, que há muito já estou morto, e você, que ainda está por nascer. São retratos da sua bisavó, desde os 3 meses até os 16 anos, idade atual dela. Estão em porta-retratos de bronze, que enchem 2 prateleiras do meu escritório. Aliás, você não imagina o que essa veneranda senhora grisalha, de ares matriarcais e que seguramente implica com tudo aí na sua casa, vem aprontando agora que é novinha. Só quer saber de ICQ, MSN, chat e bate-papo. Almoça e janta internet, algo que está para o seu cotidiano assim como o telégrafo está para o meu.
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Tenho 41 anos e são precisamente 23 horas e 17 minutos do dia 22 de julho de 2005. Os galos ainda cantam de manhã, 99,9% das pessoas têm que trabalhar duro pra sobreviver e até o momento não se têm provas definitivas da existência de seres extraterrestres. Muitos dos grandes dilemas da raça humana continuam insondáveis, como a vida após a morte, a influência dos duendes na pressão atmosférica e o que fez Ronaldinho amarelar na final da Copa de 98. Ainda não descobriram as curas da Aids e do câncer. Mesmo passados quatro anos, as pessoas guardam bem vivas as lembranças do atentado que derrubou as torres gêmeas de Nova York, em setembro de 2001. Bento XVI é Papa há poucos meses e tem cara de poucos amigos. O Brasil ferve com os escândalos de corrupção envolvendo o partido do atual presidente da república e uma imensa corja de deputados.
Outro assunto muito em voga ultimamente é a clonagem. Em larga escala, contudo, só existem as de cartão de crédito e placas de carro. Gerar clones com certeza é corriqueiro aí. As cidades todas devem ter lojas ou centros de clonagem, algumas até abertas 24 horas e com serviço de leva-e-traz. Aposto que nas casas de classe média proliferam forninhos que cozinham, assam, fritam, douram e clonam alimentos. Fico imaginando que maravilha pras donas de casa. Bife, por exemplo. É fazer uma vez e clonar pro ano todo. E se a moda pega isso vale pra tudo: Scotch 12 anos e caviar, inclusive. Uau! Expressão antiga essa, né? Até pra esse seu provecto tataravô isso soa velho.
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CHEGOU NADA. ERA TUDO O QUE FALTAVA!
Você nunca viu nada igual a Nada. Nada é tudo o que você sempre sonhou para satisfazer suas múltiplas, específicas e metafísicas necessidades. Chega de fórmulas milagrosas e soluções instantâneas que prometem e não cumprem. Nada resolve mesmo. O resto, de nada adianta.
NADA É DE QUALIDADE
Da escolha das melhores matérias-primas ao produto final, todo o processo de produção de Nada passa pelo mais rigoroso controle de qualidade. Isso assegura resistência, durabilidade e altíssima performance em condições extremas de utilização, fatores importantíssimos num produto dessa natureza.
TAMBÉM DISPONÍVEL EM REFIL. MAIS ECONOMIA E PRATICIDADE PARA VOCÊ.
Não, você não precisa comprar um novo Nada quando ele chegar ao fim. Basta um refil e pronto: você tem toda a ação de Nada sem ter que adquirir outro aparelho.
OFERTA ESPECIAL DE LANÇAMENTO
Por um precinho de nada você leva seis kits e só paga cinco. Cada um dos kits contém 30 unidades, quantidade suficiente para um mês e meio de uso individual ininterrupto (tomando-se como base uma pessoa de 80k, de hábitos regulares, ossatura robusta e sem vícios desabonadores).
NADA IRÁ REVOLUCIONAR SEU ESTILO DE VIDA. FAÇA JÁ O SEU PEDIDO
Não deixe Nada para depois. Ligue agora para 0800 00 00 00 e junte-se aos milhares de consumidores que tiveram suas vidas transformadas por Nada. Se preferir, faça seu pedido pela internet através do site www.nadaonline.com.
ATENDEMOS TODO O BRASIL
Esteja onde estiver, a tecnologia e a inovação de Nada vão até você. Um bem estruturado departamento de distribuição e logística, em conjunto com nossos promotores de vendas, garantem Nadas sempre fresquinhos nas prateleiras e quiosques de degustação. Através do Nothing Delivery, despachamos Nada para todo o território nacional, sem custos de frete.
NADA AGRADA COMO PRESENTE
Com Nada nas mãos você tem certeza de agradar em cheio. Vai bem como lembrança de aniversário, presente de casamento, Crisma, Dia dos Pais ou mesmo de amigo secreto, nas festinhas de confraternização da firma.
AS NOVAS VERSÕES DE NADA
NADA KIDS
E para os baixinhos, nadinha? Claro, eles também têm vez. A gurizada vai se divertir a valer com Nadas de espuma, cores cítricas e cantos arredondados, de acordo com as normas de segurança e os padrões ABNT.
NADA LIGHT
Todo o sabor, a crocância e as propriedades nutritivas de Nada sem nada de calorias e colesterol.
TAMANHOS P, M, G, GG, XG*
Além das versões acima, também disponibilizamos Nada em tamanhos especiais, confeccionados sob medida. Consulte-nos! Nossa equipe está a postos para fazer os ajustes na hora, por uma pequena taxa adicional.
*O design, as dimensões e as especificações técnicas estão sujeitos a alterações sem prévio aviso.
RECOMENDADO PELA COMUNIDADE CIENTÍFICA INTERNACIONAL
Estudos clínicos realizados por equipes multidisciplinares nos cinco continentes demonstram que Nada tem ação cientificamente comprovada. Seus efeitos benéficos sobre a epiderme, as sinapses e como catalisador ortomolecular, já amplamente conhecidos pelos orientais há mais de 4000 anos, fazem de Nada um verdadeiro divisor de águas no contexto da terapêutica alopática tradicional.
INSTRUÇÕES DE USO
Retire Nada da embalagem. Rosqueie, no sentido horário, o exclusivo bico dosador localizado ao lado do suporte inferior esquerdo (entre a arruela de fixação e o bocal bi-volt). Agite um pouco antes de proceder à aplicação. Você também pode levar Nada em suas viagens de férias ou passeios de fim de semana. Basta conectá-lo ao acendedor de cigarros do carro. Funciona ainda com 9 pilhas médias, não inclusas.
Nada é item indispensável nos seus roteiros internacionais. Nesse caso, recomendamos solicitar à nossa central de telemarketing o plug conector de Skelfin com casador de impedância (opcional). Para informações mais detalhadas, vide manual do proprietário.
NADA GARANTE A SUA SATISFAÇÃO
Caso não corresponda às suas expectativas, Nada pode ser devolvido. Dúvidas de manuseio, lubrificação e ajuste do termostato poderão ser dirimidas junto à Rede de Serviços Autorizados. São mais de 1500 postos de Assistência Técnica espalhados pelo país. Um deles aí, pertinho de você.
ONDE ADQUIRIR NADA
Embora Nada seja encontrado em múltiplos pontos de venda, de feiras livres a hipermercados e lojas de conveniência, recomendamos a compra em casas especializadas, que dispõem de pessoal treinado na manipulação correta e ecológica do produto.
CARTÃO CLIENTE NADA FIEL. QUANTO MAIS NADA VOCÊ COMPRAR, MAIS NADA IRÁ GANHAR.
Suas compras de Nada valem Nadas extras. Nada mais justo: quem compra Nada, e ainda paga por isso, merece de alguma forma ser recompensado.
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BÁRBARA TARDIA
Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos - aflições, alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um dia. Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento e organização a tudo. Tentou ler. Via as palavras sem captar direito seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles. O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar genealogias.
Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.
Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.
Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.
Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês. Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva.
Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas.
As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados.
Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância. Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.
Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.
Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.
Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.
Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês. Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva.
Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas.
As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados.
Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância. Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.
FALTA CRÔNICA DE ASSUNTO
Desconheço cronista que não tenha feito da falta de assunto o assunto para uma crônica. No papel de aspirante a escrevinhador de algo que sirva, e para não fugir à regra, lanço mão do expediente. E elejo a crônica como o assunto dela mesma.
Ninguém sabe definir ao certo o que seja a crônica enquanto gênero literário. É meio terra de ninguém: não é história, não é poema, não é relato, não é dissertação, não é narração. Ao mesmo tempo, pode ser um pouco disso tudo. Pode ser até romance, já que o Gabriel García Márquez batizou um dos melhores de sua lavra com o título "Crônica de uma morte anunciada". Particularmente, nem a classificaria como literatura, com exceção das do Rubem Braga, as do Carlos Drummond e as do Stanislaw Ponte Preta, que alçaram o gênero à máxima dimensão. Literatura é coisa mais séria e pretensiosa, tem que ser de conto pra cima. Crônica é assunto do dia, sai hoje no jornal e amanhã embrulha peixe. Por mais sarcástica, bem humorada ou inteligente que seja, está fadada ao mais completo, inevitável e muitas vezes merecido esquecimento. Quando das boas, daquelas poucas com a virtude de levar o leitor à reflexão, seu efeito salutar sobre os neurônios é de no máximo dez minutos. Em que pese o inglório esforço do cronista, que chega à exaustão em seu burilamento - mais cortando palavras do que propriamente escrevendo. Quem lê alguma do Verissimo, por exemplo, tem a nítida impressão, pela leveza e fluidez do texto, de que ele escreveu tudo numa sentada. O que não deixa de ser verdade: uma sentada de horas e horas sem levantar o traseiro da cadeira.
Crônicas, como se sabe, também são algumas doenças. O Aurélio define-as como aquelas "de longa duração, por oposição às de manifestação aguda". Paradoxalmente, a de que falamos quase nunca é longa. E muitas crônicas são extremamente agudas, de uma ferocidade febril e palpitante. Se por um lado crônica é uma classificação de doença, o que não falta é doente por crônica. Aquele sujeito que abre o Estadão, a Folha, a Veja e vai direto ao Carlos Heitor Cony, ao João Ubaldo Ribeiro, ao Mário Prata. O mesmo Aurélio estabelece "croniqueiro" como sinônimo de cronista. Nada pessoal, mas o termo me parece pejorativo. E me lembrei, por semelhança vocabular, dos injustiçados "pianeiros" - heróis anônimos do início do século passado, que nos cinemas faziam fundo musical aos filmes mudos - assim chamados no intuito de segregá-los como casta inferior em relação aos pianistas de concerto.
Por incrível que pareça, tem crônica até na Bíblia. Pode acreditar. E olha que são dois livros: Crônicas I e Crônicas II, ambos de autor anônimo - embora estudiosos suponham ter sido o sacerdote Esdras o escriba das obras. Os livros das Crônicas são também chamados de Paralipômenos - palavra grega que significa Coisas Omitidas. O estilo é absolutamente factual, e abrange toda a história sagrada até o exílio babilônico. Grande parte da narrativa é descrição genealógica - fulano que gerou sicrano, que gerou beltrano. Começa por Adão e vai até a morte do rei Davi. O segundo livro tem início com Salomão e se encerra com o Edito de Ciro, Rei dos Persas. O que deve faltar é leitor assíduo de tudo isso, gente que troque o futebol, a novela, a conversa fiada na mesa de bar pelas venturas e desventuras de Josafat, Ezequias e Jeroboão. Você mesmo, será que já tinha ouvido falar dessa parte do Antigo Testamento? Por acaso já foi lá dar uma espiada? Só não espere o apuro poético do Cântico dos Cânticos, o consolo e a força dos Salmos, a sapiência dos Provérbios. De qualquer forma, são mais fáceis de entender que o Apocalipse, indecifrável enigma que desafia os teólogos. E por falar em Apocalipse, que anuncia o final dos tempos, o meu por hoje acabou.
Ninguém sabe definir ao certo o que seja a crônica enquanto gênero literário. É meio terra de ninguém: não é história, não é poema, não é relato, não é dissertação, não é narração. Ao mesmo tempo, pode ser um pouco disso tudo. Pode ser até romance, já que o Gabriel García Márquez batizou um dos melhores de sua lavra com o título "Crônica de uma morte anunciada". Particularmente, nem a classificaria como literatura, com exceção das do Rubem Braga, as do Carlos Drummond e as do Stanislaw Ponte Preta, que alçaram o gênero à máxima dimensão. Literatura é coisa mais séria e pretensiosa, tem que ser de conto pra cima. Crônica é assunto do dia, sai hoje no jornal e amanhã embrulha peixe. Por mais sarcástica, bem humorada ou inteligente que seja, está fadada ao mais completo, inevitável e muitas vezes merecido esquecimento. Quando das boas, daquelas poucas com a virtude de levar o leitor à reflexão, seu efeito salutar sobre os neurônios é de no máximo dez minutos. Em que pese o inglório esforço do cronista, que chega à exaustão em seu burilamento - mais cortando palavras do que propriamente escrevendo. Quem lê alguma do Verissimo, por exemplo, tem a nítida impressão, pela leveza e fluidez do texto, de que ele escreveu tudo numa sentada. O que não deixa de ser verdade: uma sentada de horas e horas sem levantar o traseiro da cadeira.
Crônicas, como se sabe, também são algumas doenças. O Aurélio define-as como aquelas "de longa duração, por oposição às de manifestação aguda". Paradoxalmente, a de que falamos quase nunca é longa. E muitas crônicas são extremamente agudas, de uma ferocidade febril e palpitante. Se por um lado crônica é uma classificação de doença, o que não falta é doente por crônica. Aquele sujeito que abre o Estadão, a Folha, a Veja e vai direto ao Carlos Heitor Cony, ao João Ubaldo Ribeiro, ao Mário Prata. O mesmo Aurélio estabelece "croniqueiro" como sinônimo de cronista. Nada pessoal, mas o termo me parece pejorativo. E me lembrei, por semelhança vocabular, dos injustiçados "pianeiros" - heróis anônimos do início do século passado, que nos cinemas faziam fundo musical aos filmes mudos - assim chamados no intuito de segregá-los como casta inferior em relação aos pianistas de concerto.
Por incrível que pareça, tem crônica até na Bíblia. Pode acreditar. E olha que são dois livros: Crônicas I e Crônicas II, ambos de autor anônimo - embora estudiosos suponham ter sido o sacerdote Esdras o escriba das obras. Os livros das Crônicas são também chamados de Paralipômenos - palavra grega que significa Coisas Omitidas. O estilo é absolutamente factual, e abrange toda a história sagrada até o exílio babilônico. Grande parte da narrativa é descrição genealógica - fulano que gerou sicrano, que gerou beltrano. Começa por Adão e vai até a morte do rei Davi. O segundo livro tem início com Salomão e se encerra com o Edito de Ciro, Rei dos Persas. O que deve faltar é leitor assíduo de tudo isso, gente que troque o futebol, a novela, a conversa fiada na mesa de bar pelas venturas e desventuras de Josafat, Ezequias e Jeroboão. Você mesmo, será que já tinha ouvido falar dessa parte do Antigo Testamento? Por acaso já foi lá dar uma espiada? Só não espere o apuro poético do Cântico dos Cânticos, o consolo e a força dos Salmos, a sapiência dos Provérbios. De qualquer forma, são mais fáceis de entender que o Apocalipse, indecifrável enigma que desafia os teólogos. E por falar em Apocalipse, que anuncia o final dos tempos, o meu por hoje acabou.
RAMIFICANDO
Deitado na rede, após o almoço, estava naquele limbo entre o sono e um vago estado de vigília. Acima dele, a copa densa da árvore não conseguia filtrar todo o mormaço do dia.
As ramificações, do tronco para os galhos maiores, dos galhos maiores para os menores, e destes para outros raminhos minúsculos, despertou nele um paralelo com a própria vida. Refletia em como uma decisão, num dado ponto do tempo, faz o destino ir pra um lado ou pra outro completamente diverso. Os galhos maiores seriam as escolhas cruciais, que determinam os rumos mais importantes. Os menores, as conseqüências que deles derivam. Um esbarrão em alguém no supermercado e pronto - uma série de acontecimentos aparentemente banais vão se encadeando. E aquela garota na gôndola de cosméticos acaba mãe dos seus filhos.
Espantou uma mosca, se ajeitou melhor na rede e se pôs a pensar no que poderia ter sido e não foi. Feliz ou infelizmente.
Possibilidade 1: ao invés de sair de casa pra cursar Economia, ele fica morando lá mesmo. Lá, naquele fim de mundo onde nunca ninguém merecia ter nascido. Amarga um emprego no banco, depois abre uma loja de ferragens - que se transforma em disk comida árabe, franquia dos Correios e distribuidora de água mineral. Vai levando como pode e toma umas duas ou três todo final de tarde. Gosta de carros antigos, joga futebol de botão sozinho e será candidato outra vez a vereador. Não nega que deve, muito e a muita gente. Mas diz que paga quando puder.
Possibilidade 2: seguindo uma inclinação de infância, ele vai para o seminário em 1978. A avó exulta de alegria: que benção um sacerdote na família! Excessos no genuflexório o obrigam a uma operação no menisco do joelho esquerdo, três anos depois. Recuperado, abandona a vocação religiosa. Presta um concurso na antiga Light, e passa em sexto lugar. Solteirão, mora em onze cidades diferentes. Aposentou-se o ano passado e hoje toca uma pousadinha em Guarapari.
Possibilidade 3: sua cega paixão pelo The Doors o leva, um dia, ao túmulo do Jim Morrison em Paris. No vôo de volta ao Brasil, senta-se ao lado de um enólogo da Real Companhia Velha, fabricante secular de vinho do Porto, em viagem ao Rio para visitar parentes. Bastam dez minutos para que se tornem amigos de infância. Trocam cartões e se despedem no aeroporto. O distraído lusitano deixa cair a carteira, bem recheada. Ele liga para o enólogo, dizendo que está com ela. A recompensa não tarda: um emprego em Portugal. "Aceitas, ó pá? Morarás numa linda quinta, serás meu braço direito e não terás despesa alguma". Ele topa. Conhece uma rapariga e, pouco tempo mais tarde, enche a quinta de miúdos (crianças, no português de Portugal). Todos os anos, nas férias, ele vai para o Brasil. Fátima, a esposa, fica. Para cuidar dos meninos e degustar o enólogo.
Possibilidade 4: Aquele galho (sem trocadilhos) dos tempos de colégio vira namoro e depois casamento. O que seria terrível: a Gracinha ficou gorda e (mais uma vez, sem trocadilhos) perdeu completamente a graça. Sem falar nos cinco meninos que ela teve. Tá certo que se casou com um crente, que não admitia anticoncepcional. Casada com ele, talvez tivesse um filho só, continuasse o balé no conservatório e mantivesse, ainda por uma boa década, toda aquela saúde que fez sua fama na cidade e adjacências. É, podia ser. Podia, só que não foi assim. Vamos pra próxima.
Possibilidade 5 (tão bem-arranjada quanto inverossímil): as dezenas 02 - 15 - 16 - 34 - 38 - 49 , a mesma fezinha que fazia há anos, finalmente sairiam numa Sena Acumulada. A bolada seria grande e todinha dele. Ganharia mundo e poderia muito bem estar agora numa tabacaria em Gênova. No lobby de um hotel em Bruxelas. Caminhando por Beirute e ouvindo Mozart no disc-man. Ou então, já desapegado do dinheiro, aprendendo meditação em Nova Dheli. Poderia estar em qualquer lugar. Menos ali, às quinze pra uma da tarde, olhando feito bobo para a copa de um flamboyant.
Possibilidade 6...
As ramificações, do tronco para os galhos maiores, dos galhos maiores para os menores, e destes para outros raminhos minúsculos, despertou nele um paralelo com a própria vida. Refletia em como uma decisão, num dado ponto do tempo, faz o destino ir pra um lado ou pra outro completamente diverso. Os galhos maiores seriam as escolhas cruciais, que determinam os rumos mais importantes. Os menores, as conseqüências que deles derivam. Um esbarrão em alguém no supermercado e pronto - uma série de acontecimentos aparentemente banais vão se encadeando. E aquela garota na gôndola de cosméticos acaba mãe dos seus filhos.
Espantou uma mosca, se ajeitou melhor na rede e se pôs a pensar no que poderia ter sido e não foi. Feliz ou infelizmente.
Possibilidade 1: ao invés de sair de casa pra cursar Economia, ele fica morando lá mesmo. Lá, naquele fim de mundo onde nunca ninguém merecia ter nascido. Amarga um emprego no banco, depois abre uma loja de ferragens - que se transforma em disk comida árabe, franquia dos Correios e distribuidora de água mineral. Vai levando como pode e toma umas duas ou três todo final de tarde. Gosta de carros antigos, joga futebol de botão sozinho e será candidato outra vez a vereador. Não nega que deve, muito e a muita gente. Mas diz que paga quando puder.
Possibilidade 2: seguindo uma inclinação de infância, ele vai para o seminário em 1978. A avó exulta de alegria: que benção um sacerdote na família! Excessos no genuflexório o obrigam a uma operação no menisco do joelho esquerdo, três anos depois. Recuperado, abandona a vocação religiosa. Presta um concurso na antiga Light, e passa em sexto lugar. Solteirão, mora em onze cidades diferentes. Aposentou-se o ano passado e hoje toca uma pousadinha em Guarapari.
Possibilidade 3: sua cega paixão pelo The Doors o leva, um dia, ao túmulo do Jim Morrison em Paris. No vôo de volta ao Brasil, senta-se ao lado de um enólogo da Real Companhia Velha, fabricante secular de vinho do Porto, em viagem ao Rio para visitar parentes. Bastam dez minutos para que se tornem amigos de infância. Trocam cartões e se despedem no aeroporto. O distraído lusitano deixa cair a carteira, bem recheada. Ele liga para o enólogo, dizendo que está com ela. A recompensa não tarda: um emprego em Portugal. "Aceitas, ó pá? Morarás numa linda quinta, serás meu braço direito e não terás despesa alguma". Ele topa. Conhece uma rapariga e, pouco tempo mais tarde, enche a quinta de miúdos (crianças, no português de Portugal). Todos os anos, nas férias, ele vai para o Brasil. Fátima, a esposa, fica. Para cuidar dos meninos e degustar o enólogo.
Possibilidade 4: Aquele galho (sem trocadilhos) dos tempos de colégio vira namoro e depois casamento. O que seria terrível: a Gracinha ficou gorda e (mais uma vez, sem trocadilhos) perdeu completamente a graça. Sem falar nos cinco meninos que ela teve. Tá certo que se casou com um crente, que não admitia anticoncepcional. Casada com ele, talvez tivesse um filho só, continuasse o balé no conservatório e mantivesse, ainda por uma boa década, toda aquela saúde que fez sua fama na cidade e adjacências. É, podia ser. Podia, só que não foi assim. Vamos pra próxima.
Possibilidade 5 (tão bem-arranjada quanto inverossímil): as dezenas 02 - 15 - 16 - 34 - 38 - 49 , a mesma fezinha que fazia há anos, finalmente sairiam numa Sena Acumulada. A bolada seria grande e todinha dele. Ganharia mundo e poderia muito bem estar agora numa tabacaria em Gênova. No lobby de um hotel em Bruxelas. Caminhando por Beirute e ouvindo Mozart no disc-man. Ou então, já desapegado do dinheiro, aprendendo meditação em Nova Dheli. Poderia estar em qualquer lugar. Menos ali, às quinze pra uma da tarde, olhando feito bobo para a copa de um flamboyant.
Possibilidade 6...
ABBEY ROAD
LADO 1
- Vou começar bem fácil, depois a gente vai esquentando.
- Manda.
- Faixa dois do Let it Be?
- Dig a Pony.
- Quantas músicas tem o Álbum Branco?
- Trinta.
- Qual o fotógrafo da capa do Rubber Soul?
- Robert Freeman.
- Quem era a Martha, da música Martha My dear?
- A cadela do Paul McCartney.
- Quem inspirou Something?
- Pattie Boyd.
- O que Tia Mimi disse para John Lennon, quando ele comprou a primeira guitarra?
- "Você nunca vai ganhar a vida com isso".
Não tinha jeito, ele sabia tudo. Era capaz de dizer nome completo e endereço dos avós da Barbara Bach, mulher do Ringo.
Gabava-se de conhecer e catalogar, num caderninho surrado com o selo da Apple na capa, todas as mensagens cifradas e alusões a drogas do Revolver e do Sargeant Peppers. As bem manjadas e as que ele, sozinho, jurava ter descoberto. Sabia também que Paul estava vivo, e bem vivo. Ele mesmo o tinha visto num show em 1990 no Maracanã. Ainda assim conhecia 72 pistas que indicavam o contrário.
Tal pai, tal filho. E o menino, de 8 anos, ia pelo mesmo caminho.
- Quanto é 64 dividido por 16?
- Four. Como os Beatles.
- A capital da Inglaterra?
- Londres, uma cidade que fica perto de Liverpool.
- Dê um exemplo de sujeito simples.
- George Harrison.
- E de sujeito composto?
- Lennon & McCartney.
Dos discos todos, o favorito era Abbey Road - o célebre álbum com os quatro na rua homônima, passando pela faixa de pedestres. Se além de tocar o seu Abbey Road falasse, teria muito o que contar. Idas e vindas, festinhas na garagem, quedas nas mãos de bebuns, mudanças de casa. No tempo da faculdade, foi com ele pra república. Fiel escudeiro, trilha sonora de bons momentos e maus bocados. Era com ele que espantava o sono nas vésperas de prova e embalava os sonhos nas vésperas dos encontros. Cheio de estalinhos, riscado no começo do "Come Together" e no fim do "Golden Slumbers", era sempre ele que encabeçava a pilha, com o papelão da capa já esfarelando. Uma marca de copo, em cima da cabeça do Ringo, formava uma espécie de auréola. Santo Ringo, que soube segurar a onda nas brigas e ameaças de separação. De tanto entrar e sair do prato da vitrola, o furo foi abrindo, laceando, ficando quase oval. Lá pelos anos 80, quando tinha aquele 3 em 1 da National, cansou de gravar suas músicas em fitas cassete para os amigos. Uma vez foi de empréstimo pra casa de uma paquera. Voltou com uma carta perfumada dentro. Almíscar. O perfume durou pouco, a paquera menos ainda. Mas o velho Abbey continuou lá, igual aos Beatles - forever. Com o tempo, foi virando relíquia. Era a primeira prensagem brasileira, edição rara. Passou a guardá-lo no fundo do maleiro e comprou uma outra cópia mais recente. Em vinil, é claro.
LADO 2
Londres, 2004.
- Não é essa a rua, pai. A gente deve ter errado o caminho.
- Como não? Olha o mapa, é aqui mesmo. Abbey Road, aqui estamos nós!
Não queria dar o braço a torcer, mas a dúvida do menino era sua também.
Viu que o lendário fusca branco, placa 28 IF, estacionado à esquerda na foto da capa, não estava mais lá. Ele pensou alto:
- E nem poderia estar...
- Falou alguma coisa, pai?
- Nada não, filho.
Notou que faixa de segurança era igual a todas as que ele já tinha visto. Que quase nada restava daquele cenário mítico. A maçaneta da porta do estúdio, que a Rita Lee lambeu com adoração devota, provavelmente já tinha sido várias vezes trocada. Com a capa do bolachão nas mãos, ele comparava a foto com aquilo que via agora. As árvores certamente deviam ser outras, o trânsito era mais intenso. O céu também não era azul como naquele agosto de 35 anos atrás. Tirou os sapatos, para sentir a textura do asfalto e alcançar o estado de graça que tanto ansiava. Estava lá, exatamente onde eles estiveram. Em frente ao estúdio onde gravaram quase toda a sua obra, e nada de atingir o nirvana. O coração não disparou, ele não suou frio, as pernas não tremeram. Percebeu que perto da sua casa existiam ruas mais parecidas com a Abbey Road do que a própria Abbey Road. Por alguns minutos ficou ali, parado, como que esperando uma resposta ao próprio desencanto. E deu-se conta que Abbey Road era uma rua que ele mesmo havia pavimentado, ligando os Beatles às suas vísceras.
Entregou a câmera para o filho e pediu que ele clicasse no momento em que atravessasse a rua. Esperaram que alguns carros passassem e fez o mesmo com o menino. Mas bem rápido, porque um bando de turistas barulhentos, trazidos por um guia de sobretudo marrom, já tomava conta de toda a faixa.
- Vou começar bem fácil, depois a gente vai esquentando.
- Manda.
- Faixa dois do Let it Be?
- Dig a Pony.
- Quantas músicas tem o Álbum Branco?
- Trinta.
- Qual o fotógrafo da capa do Rubber Soul?
- Robert Freeman.
- Quem era a Martha, da música Martha My dear?
- A cadela do Paul McCartney.
- Quem inspirou Something?
- Pattie Boyd.
- O que Tia Mimi disse para John Lennon, quando ele comprou a primeira guitarra?
- "Você nunca vai ganhar a vida com isso".
Não tinha jeito, ele sabia tudo. Era capaz de dizer nome completo e endereço dos avós da Barbara Bach, mulher do Ringo.
Gabava-se de conhecer e catalogar, num caderninho surrado com o selo da Apple na capa, todas as mensagens cifradas e alusões a drogas do Revolver e do Sargeant Peppers. As bem manjadas e as que ele, sozinho, jurava ter descoberto. Sabia também que Paul estava vivo, e bem vivo. Ele mesmo o tinha visto num show em 1990 no Maracanã. Ainda assim conhecia 72 pistas que indicavam o contrário.
Tal pai, tal filho. E o menino, de 8 anos, ia pelo mesmo caminho.
- Quanto é 64 dividido por 16?
- Four. Como os Beatles.
- A capital da Inglaterra?
- Londres, uma cidade que fica perto de Liverpool.
- Dê um exemplo de sujeito simples.
- George Harrison.
- E de sujeito composto?
- Lennon & McCartney.
Dos discos todos, o favorito era Abbey Road - o célebre álbum com os quatro na rua homônima, passando pela faixa de pedestres. Se além de tocar o seu Abbey Road falasse, teria muito o que contar. Idas e vindas, festinhas na garagem, quedas nas mãos de bebuns, mudanças de casa. No tempo da faculdade, foi com ele pra república. Fiel escudeiro, trilha sonora de bons momentos e maus bocados. Era com ele que espantava o sono nas vésperas de prova e embalava os sonhos nas vésperas dos encontros. Cheio de estalinhos, riscado no começo do "Come Together" e no fim do "Golden Slumbers", era sempre ele que encabeçava a pilha, com o papelão da capa já esfarelando. Uma marca de copo, em cima da cabeça do Ringo, formava uma espécie de auréola. Santo Ringo, que soube segurar a onda nas brigas e ameaças de separação. De tanto entrar e sair do prato da vitrola, o furo foi abrindo, laceando, ficando quase oval. Lá pelos anos 80, quando tinha aquele 3 em 1 da National, cansou de gravar suas músicas em fitas cassete para os amigos. Uma vez foi de empréstimo pra casa de uma paquera. Voltou com uma carta perfumada dentro. Almíscar. O perfume durou pouco, a paquera menos ainda. Mas o velho Abbey continuou lá, igual aos Beatles - forever. Com o tempo, foi virando relíquia. Era a primeira prensagem brasileira, edição rara. Passou a guardá-lo no fundo do maleiro e comprou uma outra cópia mais recente. Em vinil, é claro.
LADO 2
Londres, 2004.
- Não é essa a rua, pai. A gente deve ter errado o caminho.
- Como não? Olha o mapa, é aqui mesmo. Abbey Road, aqui estamos nós!
Não queria dar o braço a torcer, mas a dúvida do menino era sua também.
Viu que o lendário fusca branco, placa 28 IF, estacionado à esquerda na foto da capa, não estava mais lá. Ele pensou alto:
- E nem poderia estar...
- Falou alguma coisa, pai?
- Nada não, filho.
Notou que faixa de segurança era igual a todas as que ele já tinha visto. Que quase nada restava daquele cenário mítico. A maçaneta da porta do estúdio, que a Rita Lee lambeu com adoração devota, provavelmente já tinha sido várias vezes trocada. Com a capa do bolachão nas mãos, ele comparava a foto com aquilo que via agora. As árvores certamente deviam ser outras, o trânsito era mais intenso. O céu também não era azul como naquele agosto de 35 anos atrás. Tirou os sapatos, para sentir a textura do asfalto e alcançar o estado de graça que tanto ansiava. Estava lá, exatamente onde eles estiveram. Em frente ao estúdio onde gravaram quase toda a sua obra, e nada de atingir o nirvana. O coração não disparou, ele não suou frio, as pernas não tremeram. Percebeu que perto da sua casa existiam ruas mais parecidas com a Abbey Road do que a própria Abbey Road. Por alguns minutos ficou ali, parado, como que esperando uma resposta ao próprio desencanto. E deu-se conta que Abbey Road era uma rua que ele mesmo havia pavimentado, ligando os Beatles às suas vísceras.
Entregou a câmera para o filho e pediu que ele clicasse no momento em que atravessasse a rua. Esperaram que alguns carros passassem e fez o mesmo com o menino. Mas bem rápido, porque um bando de turistas barulhentos, trazidos por um guia de sobretudo marrom, já tomava conta de toda a faixa.
